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29 de janeiro de 2018

Anotações sobre “Childhood Sexual Experiences: Problems and Issues in Studying Long-Range Effects”.

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Childhood Sexual Experiences: Problems and Issues in Studying Long-Range Effects” foi escrito por Allie C. Kilpatrick. Abaixo, algumas anotações que eu fiz sobre esse texto. Elas não são citações, mas paráfrases.

  1. Problemas metodológicos tornam inúteis os resultados de muitos estudos sobre relações sexuais na infância.
  2. Alguns desses problemas são: definições ambíguas, viés de amostragem e medição incorreta.
  3. A autora verificou trinta e quatro estudos sobre o efeito de relações sexuais na infância e conclui que apenas dez apresentam definições claras, medição correta e amostras generalizáveis.
  4. Esses dez estudos considerados confiáveis pela autora concordam que relacionamentos sexuais na infância não seguem padrões de resultado, isto é, esses contatos nem sempre causam dano ao menor, mas nem sempre lhe são benéficos.
  5. O problema das definições: não existem definições que sejam consistentemente usadas por todos os pesquisadores, de forma que “abuso” não é a mesma coisa num trabalho escrito por Bruce Rind e num trabalho escrito por David Finkelhor.
  6. Além disso, a mesma palavra pode ser usada para descrever coisas diferentes em um mesmo trabalho.
  7. “Incesto” num trabalho escrito pela Kilpatrick (coito entre consanguíneos) não significa a mesma coisa que “incesto” num trabalho escrito por Meiselman (contato sexual com pessoas da mesma família, mesmo que não consanguíneos, como contato superficial, não-penetrativo, entre irmãos adotivos).
  8. Assim, o termo incesto pode ser usado para diferentes comportamentos com diferentes parceiros, dependendo do pesquisador.
  9. Dependendo do estudo, desejo de cometer incesto já conta como incesto.
  10. Dependendo do estudo, um ato não-penetrativo ou até mesmo sedução já conta como incesto.
  11. Se você conclui que incesto causa estresse pós-traumático, mas também diz que desejo incestuoso já conta como incesto, então você está dizendo que desejar um familiar causa estresse pós-traumático naquele familiar.
  12. É uma generalização errada.
  13. Outras palavras problemáticas são “criança” e “adulto”.
  14. O quão jovem é uma “criança“?
  15. Alguns estudos usam esses termos sem defini-los, de forma que criança pode ser qualquer pessoa que não tenha dezoito anos ainda.
  16. O leitor não sabe de que idade o pesquisador está falando, o que pode levar o leitor à conclusões erradas.
  17. Eu não posso falar de “efeitos de contato sexual em crianças” sem especificar o que é contato sexual e o que é uma criança.
  18. Se eu digo que contato sexual prejudica crianças e chamo de criança qualquer pessoa com menos de dezoito, estou dizendo que contato sexual prejudica jovens de até dezessete anos.
  19. O que seria outra generalização incorreta.
  20. Todos os contatos sexuais entre adulto e menor são chamados de “abuso” por um monte de pesquisadores.
  21. O uso do termo “vítima” frequentemente tem raízes sociais, não se referindo aos efeitos sentidos pela suposta vítima (se ela curtiu, foi bem tratada e se beneficiou emocionalmente do contato, a ponto de querer fazer de novo, ainda é uma “vítima”).
  22. O mesmo vale pro termo “molestado” (que originalmente significa “negativamente perturbado”), que também é utilizado sem consideração de efeito.
  23. Embora haja pesquisadores que só usam termos negativos para crianças ou adolescentes que sofreram com esses atos, nem sempre há uma linha bem desenhada entre o que é prejudicial e o que não é.
  24. Dano pode ser medido objetivamente, mas violação de normas sociais nem sempre resulta em dano.
  25. Se misturarmos moral e objetividade, paramos de fazer ciência.
  26. Ciência é uma tentativa de entender o mundo como ele é, enquanto que a moral é um conjunto de normas sob as quais escolhemos viver.
  27. Misturar os dois pode levar o pesquisador a meramente sancionar os padrões sociais, o que não é ciência.
  28. As definições da ciência não podem ter fundamentação moral.
  29. Uma mesma palavra pode ter diferentes significados dependendo do contexto (legal, moral e psicossocial), mas alguns autores não diferenciam o contexto, como se a palavra significasse a mesma coisa sempre.
  30. Afinal, abuso é “dano” (objetivo) ou “violação de norma moral” (subjetivo)?
  31. Assumir que violação de norma social causa dano nem sempre é correto (homossexualidade já foi violação de norma social).
  32. Quem é a vítima: a criança ou a moral?
  33. Você não pode presumir violência.
  34. Problema de amostragem: falta de grupos de controle, generalização com poucos casos, uso de amostras clínicas, combinação de faixas etárias, combinação de grupos socio-econômicos.
  35. Dos trinta e quatro estudos analisados, só dez tinham grupos de controle.
  36. Sem grupo de controle, é impossível inferir causalidade e isolar variáveis terceiras.
  37. Dos trinta e quatro estudos, sete usaram menos de dez amostras (quinze usaram menos de cinquenta amostras, apenas três usaram mais de quinhentas amostras).
  38. Setenta por cento dos estudos analisados usaram amostras clínicas ou forenses, que não podem ser generalizadas.
  39. Adolescentes e crianças respondem diferentemente a contato sexual.
  40. Os grupos etários precisam ser separados nessas pesquisas: a percepção de um ato sexual é diferente dependendo da idade do envolvido.
  41. A pessoa de baixa renda que se relacionou na infância tem problemas na idade adulta, mas será que isso se deve ao contato sexual ou à pobreza?
  42. O problema das medidas: quando um adulto pode ser considerado “prejudicado”?
  43. Alguns pesquisadores usam o sucesso profissional como escala (um adulto desempregado e que não constituiu família foi “prejudicado” pelo abuso sofrido).
  44. Outros dizem que o adulto foi “prejudicado” por desenvolver “desordem de caráter”, mas sem explicar o que é essa desordem ou como caracterizá-la.
  45. Outro problema de medição é não especificar quanto tempo se passou entre o contato sexual e a entrevista com o pesquisador: pode ter sido ano passado ou décadas atrás.
  46. Não especificar quanto tempo se passou pode levar o pesquisador ou o leitor a classificar um dano a curto prazo como sendo de longo prazo.
  47. Outro problema é o uso de termos como “consequência” e “efeito”, que implicam relação de causalidade.
  48. É melhor você ser capaz de provar essa causalidade.
  49. Há casos em que a reação ao ato causa tanto dano ou até mais dano que o contato sexual, então é preciso saber qual foi o dano especificamente causado pelo contato e quanto dano foi causado pela reação do ambiente (reação dos pais, prisão do adulto, tratamento forçado, exame médico, interrogatório, vergonha e outras coisas que podem levar à ansiedade secundária).
  50. Dos trinta e quatro estudos conduzidos, dezenove concluem que experiências sexuais na infância levam à consequências geralmente negativas.
  51. O estudo de Sloane e Karpinsky tem problemas de amostragem (somente cinco casos estudados, todos de incesto, todos da população clínica de baixa renda) que prejudicam sua conclusão.
  52. Apenas um punhado de pesquisadores usou a definição de incesto encontrada no dicionário.
  53. Se você escolhe os casos que vai estudar e os generaliza, seu estudo é inválido: você não pode generalizar casos escolhidos a dedo (o correto seria usar amostras aleatórias na população geral, especialmente se puder fazer isso em grande quantidade, a menos que você abdique de pretensões de generalização).
  54. Nem sempre é possível provar que o dano foi diretamente causado pelo contato sexual.
  55. Um estudo é especialmente ruim se não inclui a opinião do menor.
  56. Um estudo que conclui que “só é possível conjecturar sobre” alguma coisa efetivamente não disse nada.
  57. O uso de amostras clínicas é problemático, porque é como você ir pra um hospital saber a porcentagem de pacientes doentes: óbvio que você obterá um número perto de 100%.
  58. Mas você não pode generalizar e concluir que 100% da população mundial está doente.
  59. Além do mais, pessoas que não sofreram com o contato sexual não buscam ajuda médica, o que significa que estudos conduzidos na população clínica automaticamente se fecham para casos positivos (viés de amostragem).
  60. O estudo de Gross usou apenas quatro amostras e nenhum grupo de controle.
  61. Levando em consideração somente os estudos sérios sobre consequências negativas, podemos concluir que:
    1. Experiências incestuosas na infância, em famílias de baixa renda, nas quais o adulto foi preso, estão associadas a efeitos negativos.
    2. Experiências incestuosas predispõem a pessoa a certos tipos de problema.
    3. Pelo menos na população forense (isto é, das crianças cujos casos acabaram em polícia), crianças de famílias de baixa renda tendem a apresentar problemas quando são vítimas de crimes sexuais.
    4. Parece que problemas são mais comuns em pessoas nas quais o relacionamento durou mais tempo, nas quais os sentimentos negativos (dor e vergonha, por exemplo) predominaram sobre os positivos (prazer e aventura), nas quais a frequência do ato era maior (diariamente, por exemplo) e nas quais o ato durava mais tempo por sessão.
  62. Mas isso implica dizer que um ato não-incestuoso, sem intervenção social e no qual os sentimentos positivos predominam não causa desajuste na idade adulta (além de que essa conclusão cala sobre outros grupos socio-econômicos).
  63. Dos trinta e quatro estudos revisados, catorze têm conclusão neutra.
  64. Algumas conclusões parecem puxadas do vácuo.
  65. Erros de pesquisa não são exclusividade de estudos que afirmam que as consequências de experiências sexuais infantis são negativas; há erros de pesquisa também em estudos que dizem que essas experiências não fazem diferença.
  66. Alguns estudos não têm evidência conclusiva.
  67. Mesmo estudos sem grupo de controle e que utilizam amostras clínicas podem concluir que experiências sexuais na infância não fazem diferença pro menor.
  68. O estudo de Landis, feito na população universitária (que tem maior generalização) de renda média-alta, com grupo de controle, concluiu que a maioria dos quinhentos indivíduos que tiveram relações sexuais na infância ou adolescência não tiveram dano permanente e estavam perfeitamente normais.
  69. Alguns estudos concluem ausência de dano psicológico sem perguntar pro paciente como está seu psicológico.
  70. Gagnon, em seu estudo com trezentas e trinta e três mulheres, concluiu que apenas cinco por cento delas tinha desajuste psicológico, mas seus achados não podem ser generalizados à pessoas de baixa renda.
  71. Alguns locais toleram o incesto, por questões culturais.
  72. Uma pessoa pode experimentar incesto diferentemente dependendo de sua orientação sexual.
  73. Um outro estudo da própria Kilpatrick concluiu que somente experiências forçadas ou negativas têm impacto negativo na vida adulta.
  74. Parece que estudos com grupo de controle e definições claras tendem mais a concluir que resultados neutros existem.
  75. Levando em consideração somente os estudos sérios sobre consequências neutras, podemos concluir que:
    1. Estudantes universitários de classe média que tiveram relacionamentos sexuais infantis com adultos têm poucos efeitos permanentes.
    2. Um número pequeno de mulheres de classe média teve dano severo por se relacionar com adultos na infância.
    3. Experiências sexuais infantis entre irmãos têm pouco impacto no ajuste sexual futuro em menores de classe média.
    4. Um número pequeno de mulheres e um número ainda menor de homens (todos de classe média) que tiveram contato sexual antes da puberdade tiveram problemas sexuais na vida adulta.
    5. Mulheres que tiveram contato sexual na infância não diferem de mulheres que não tiveram esse contato, mas apenas na medida em que o ato não foi forçado e nem prejudicial.
  76. Com isso, não podemos concluir que experiências sexuais infantis resultarão sempre em dano, mas também não podemos concluir que elas resultam sempre em saúde mental normal.
  77. Kilpatrick encontrou apenas um estudo sobre efeitos benéficos de experiências sexuais precoces, mas ele não tinha grupo de controle e tinha problemas de amostragem.
  78. Os dez estudos que passaram no “teste Kilpatrick” mostram que o fato de uma pessoa que teve experiências sexuais na infância, mesmo que com adultos, crescer desajustada não está somente relacionado com a presença de erotismo, mas também com variáveis terceiras.
  79. Eliminadas essas variáveis (dor, força, vergonha e outros), elimina-se o dano.
  80. Não há causalidade necessária entre experiência sexual precoce e trauma.
  81. Um estudo ideal sobre experiências sexuais infantis deve ter:
    1. Controle de variáveis demográficas (renda, faixa etária, sexo, etnia).
    2. Separação entre efeito do contato e efeito da reação social (terapia forçada, encarceramento do adulto, reação dos pais, exame médico forense e outras coisas pelas quais a criança tenha que passar ou as quais ela tenha que presenciar e que podem até causar mais dano que o contato em si).
    3. Separação entre efeito do contato e efeito da dinâmica familiar.
    4. Grupo de controle.
    5. Uso de amostras da população geral, em vez de amostras clínicas ou forenses.
    6. Processo sofisticado de análise.
    7. Controle estatístico.
  82. Deve haver separação entre “crime sexual” (quando o ato quebra a lei, mas foi inofensivo) e “abuso sexual” (quando o ato causa dano ou é forçado).
  83. Se for falar de incesto, defina incesto.
  84. Quem foi o parceiro, qual ato aconteceu e qual era a idade do menor?
  85. Defina “adulto normal” antes de definir “adulto anormal”.
  86. Você deve levar em consideração em que condições o ato aconteceu e qual foi a reação do menor ao ato.
  87. Como o menor julga a intervenção jurídica (se ela ocorrer)?
  88. É importante levar em consideração, além das variáveis sexuais, como as variáveis sociais ao redor do ato interagem entre si.
  89. Se você vai estudar efeitos a longo prazo de qualquer comportamento supostamente prejudicial, faça direito; esse tipo de pesquisa não é jogo e nem piada.
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