Analecto

31 de março de 2015

Eu tive um estudo bíblico…

Filed under: Livros — Tags:, , , — Yure @ 19:49

Pesquisa revela que brasileiros acreditam em Deus e também em Darwin | Imbituba Gospel.

Eu não sei se já falei, mas, mais para fazer minha feliz, estou estudando a bíblia com as testemunhas de Jeová. Tenho o hábito de ler a bíblia de tempos em tempos para fixar algumas coisas e resolvi confrontá-los com algumas anotações que fiz sobre o Gênesis, o livro que explica o mito criativo.

Em primeiro lugar, para as testemunhas de Jeová, os dias criativos não eram dias de vinte e quatro horas, o que é plausível. A partir do quinto dia, Deus resolveu fazer os animais. Só que o ser humano apareceu apenas no sexto dia, lembrando que não são dias literais. Eu imaginei que seria tempo o bastante para que as criaturas evoluíssem, adaptando-se ao ambiente e se reproduzindo, de forma que apenas os melhores sobrevivessem, repassando suas características às criaturas vindouras. Seleção natural.

Resolvi falar disso pro meu professor bíblico e ele me confirmou. Isso significa que as testemunhas de Jeová não são, exatamente, contra a evolução em geral ou a seleção natural, mas ele me disse que, segundo o relato que começa em Gênesis 1:20, que as criaturas não vieram todas de uma espécie primordial. Ou seja, de peixes não poderiam vir aves, por exemplo. Animais aquáticos geram animais aquáticos, aves geram aves, “segundo sua espécie”, o que talvez não aponte para o nosso significado atual de “espécie”. Então, lendo o artigo acima, eu me perguntei até que ponto as testemunhas condenam a evolução ou a seleção natural ou se essa não é uma opinião partilhada por todos. Certamente, contudo, são contra a ideia de que o ser humano tenha evoluído. Ainda não perguntei o parecer dele sobre os dinossauros, quero ouvir o que ele vai dizer…

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Anotações sobre “A República”.

Filed under: Livros, Passatempos — Tags:, , , , , — Yure @ 13:43

“A República” foi escrita por Platão. Abaixo, algumas afirmações feitas nesse texto. Elas podem ou não refletir minha opinião sobre o assunto. Perguntas sobre minha opinião pessoal podem ser feitas nos comentários.

  1. A velhice mata os desejos da juventude, que escravizam os de pouca idade.
  2. É a sensatez que torna a velhice tolerável.
  3. Quem consegue dinheiro por conta própria, estima o dinheiro que obteve.
  4. O insensato muito apegado aos bens materiais, ao chegar perto da morte, se desespera com o futuro de seus bens e de sua alma.
  5. Justiça não é simplesmente falar a verdade e dar a alguém o que lhe é devido…
  6. Será que justiça é fazer bem aos amigos e mal aos inimigos?
  7. Se for, justiça não tem utilidade em tempos de paz.
  8. Nem sempre sabemos quem são nossos verdadeiros amigos.
  9. justiça implica fazer bem também aos inimigos.
  10. Justiça não é conveniência do mais forte.
  11. Os mais fortes podem promulgar leis injustas.
  12. Além disso, os governantes às vezes não sabem o que é bom para a nação.
  13. Se o governante é chefe da justiça, a justiça então volta-se ao mais fraco e não a ele, o mais forte.
  14. O injusto é ignorante e, por ser ignorante, é mau.
  15. Justiça gera organização e harmonia.
  16. Além disso, quem iria querer colaborar com uma pessoa injusta seja no que for?
  17. Se os deuses são justos, ai dos injustos.
  18. A alma sem a virtude da justiça não é capaz de governar bem, nem sua própria vida nem as dos outros.
  19. Se quisermos justificar as vantagens da justiça, basta que vejamos seus efeitos em larga escala.
  20. Um ser humano não é capaz de viver sozinho.
  21. As diferenças entre nós nos condicionam à determinadas tarefas.
  22. Nenhuma cidade se formaria se ninguém dependesse de ninguém.
  23. Quanto maior e melhor for a cidade, mais aliados ela terá.
  24. Depois de resolvidas as questões de sobrevivência, a cidade volta-se às coisas ditas “elevadas”, como as artes e a riqueza.
  25. De fato, um estilo de vida abastado leva a exageros e exageros levam ao estrago do corpo.
  26. Numa cidade em que o desejo pelo fútil torna-se grande, os bens de sua terra tornam-se insuficientes.
  27. O ideal seria que cada pessoa tivesse uma profissão apenas, que executasse com perfeição.
  28. Ser filósofo é querer aprender.
  29. Existem literaturas boas e literaturas ruins, as ruins sendo as que não reflectem a realidade, sendo mentirosas.
  30. Os poetas trágicos, Homero e toda a trupe de poetas épicos eram uns épicos mentirosos, que levaram as pessoas a ter concepções erradas mesmo sobre os deuses.
  31. Os poetas trágicos também incitavam um medo mórbido dos deuses, traumatizando os que tinham pouca idade para ouvir seu trabalho.
  32. Os poetas e Homero, ao falarem de lutas entre os deuses, muitas vezes por motivos tolos, faziam parecer que a violência entre irmãos era sancionada pela lei divina.
  33. Supondo que essas histórias tivessem um significado profundo, nem assim deveriam ser contadas, porque não é todo mundo que faz uma separação decente entre real e alegórico.
  34. Uma criança que aprende algo errado quando tinha pouca idade, muito dificilmente esquecerá o que aprendeu…
  35. Não se deve culpar os deuses pelo que acontece de ruim.
  36. A “verdadeira mentira” é aquela que se aproveita da ignorância do ouvinte.
  37. Para evitar que as pessoas cresçam com medo da morte, é necessário uma censura adicional aos poetas: os poetas não podem falar nada de ruim do pós-vida.
  38. A poesia apela às emoções, que suspendem a razão.
  39. Não dá pra ir pra guerra temendo a morte.
  40. Não preciso chorar a morte daqueles cuja minha existência não depende.
  41. Homens célebres não deveriam rir e deuses não deveriam ser retratados rindo nos poemas.
  42. A mentira não deve ser praticada por pessoas comuns, mas apenas por chefes de estado e somente se os seus benefícios para a cidade superarem os malefícios.
  43. A imagem dos heróis e dos deuses, como figuras de autoridade, não deve ser manchada pelos poetas.
  44. É terrível para a educação de quem ouve o poema que diz que deuses cometem atos ruins e continuam sendo deuses, porque isso justifica o comportamento ruim da pessoa que ouve.
  45. Não se deve estimular a juventude a imitar o que é ruim, para que não subestimem o conteúdo do mal.
  46. Técnicas musicais que favorecem a tristeza devem ser banidas de uma cidade que se propõe perfeita.
  47. As harmonias “efeminadas” devem também ser eliminadas por lembrarem preguiça e desocupação.
  48. Instrumentos capazes de muitas harmonias são desencorajados por Platão, por serem capazes de produzir harmonias proibidas.
  49. Os outros artistas precisam também se adequar a essas restrições.
  50. A música tem valor educativo.
  51. O amor verdadeiro deve ser separado da luxúria.
  52. Aqueles de boa alma procuram aperfeiçoar também o corpo.
  53. Os guerreiros precisam de dieta própria.
  54. Variedade culinária deixa o guerreiro mal acostumado e doente.
  55. Se há uma grande demanda por médicos é porque tem muita gente doente.
  56. É vergonhoso precisar de um médico para tratar condições que causamos a nós mesmos.
  57. O juiz tem que conhecer a injustiça sem praticá-la.
  58. A ginástica tem como função manter o corpo, de forma que ele não precise de médicos, salvo em casos de força maior.
  59. A ginástica sozinha torna bruto o praticante e a música sozinha amolece.
  60. Os guerreiros precisam manter-se firmes no que acreditam.
  61. Os guardiões da cidade não devem ter ouro, prata, terras e nada que não seja de primeira necessidade, para que os guardiões não tenham também que administrar bens, dividindo sua atenção.
  62. A felicidade coletiva é prioridade sobre a felicidade pessoal.
  63. Ninguém dever ter tantos bens e recursos a ponto de desviar a pessoa de seu papel na cidade.
  64. Recursos demais fazem a pessoa trabalhar menos.
  65. Riqueza e pobreza devem ser evitados, procurando o justo meio.
  66. Casamento não deveria existir.
  67. As quatro virtudes cardeais: sabedoria, coragem, temperança, justiça.
  68. Enquanto que a sabedoria é uma virtude que melhor cabe aos governantes e a coragem aos governados, a temperança precisa existir nos dois.
  69. Existem quatro grandes classes na república platônica: comerciante, artífice, guerreiro, governante.
  70. Justiça é a conformação de cada pessoa à classe que lhe compete.
  71. As ciências se separam porque têm características próprias, o que só acontece quando a razão se volta para objetos novos.
  72. A alma platônica divide-se em três partes: racional, irascível (emocional), vegetativa (biológica).
  73. A pessoa é justa quando cada parte da alma desempenha sua função na hierarquia.
  74. Mulheres devem receber a mesma educação que os homens.
  75. Não deveriam existir trabalhos de homens e trabalhos de mulheres, mas que cada um deveria desempenhar a função para qual fosse mais apto.
  76. A lei pode ser antinatural.
  77. Família nuclear deve ser abolida.
  78. O estado deve intervir em relacionamentos sexuais, a fim de maximizar as chances de uma boa prole.
  79. Os jovens com mais habilidade e de ofício mais alto deveriam ter maior direito de procriação.
  80. Os filhos são criados pelo Estado.
  81. Quando as mães derem leite, devem amamentar crianças aleatórias, que são mantidas sob a guarda estatal em um bairro à parte, de forma que não reconheçam seu filho.
  82. As mulheres que devem ter filhos precisam ter entre vinte e quarenta anos. Os homens que procriam devem ter entre trinta e cinquenta e cinco.
  83. A procriação tem que ser autorizada.
  84. Como todos são uma grande família, todos chamam “pai”, “filho”, “mãe”, “avô” quem tem idade o bastante para ser chamado assim, dependendo do gênero.
  85. Os filhos acompanham os pais na guerra.
  86. É necessário que as crianças que acompanham os pais na guerra para observar aprendam, em primeiro lugar, a fugir.
  87. Soldados que são levados cativos não devem ser recuperados.
  88. A ciência discorre sobre as coisas como são e a opinião discorre sobre as coisas como parecem ser, estando assim a meio caminho entre ciência e ignorância.
  89. O filósofo é aquele que procura o conhecimento estável, não o variável.
  90. Quem ama a sabedoria é virtuoso.
  91. O filósofo não tem medo de morrer.
  92. Mas alguém poderia afirmar que nenhum filósofo se mostrou nem equilibrado e nem útil ao Estado, mas isso porque a maioria é ignorante.
  93. E, se o filósofo não era equilibrado, é porque os filósofos tinham uma natureza filosófica que foi pervertida pela má educação.
  94. A filosofia, como tudo o que é grandioso, é perigoso.
  95. A cidade deve se subjugar à filosofia.
  96. Mesmo após a adoção de aristocratas filósofos, a constituição perfeita pode levar tempo para aparecer.
  97. Leis pensadas e bem argumentadas são desejáveis.
  98. Os governantes, antes de assumirem, têm que mostrar seu amor pela pátria e pela sabedoria.
  99. O governante deve gostar de estudar.
  100. Filósofos não devem descuidar nem do corpo nem da alma.
  101. Se algo não é bom, não iríamos querê-lo.
  102. Bom e prazeroso nem sempre coincidem.
  103. Se você é capaz de falar do que os outros pensam, você deveria ser capaz de falar do que você pensa.
  104. A ciência e a verdade são filhas do bem.
  105. Escala da clareza, de baixo para cima: suposição, fé, entendimento, inteligência.
  106. As aparências enganam, então não se deve julgar algo por elas.
  107. Fazer ciência pode confundir a pessoa, a ponto de ela achar que seria melhor não ter começado.
  108. O sábio tem pena dos ignorantes.
  109. O sábio pode se comportar pateticamente na vida pública.
  110. Apesar disso, o sábio não deve se isolar dos outros.
  111. Educação é voltar a alma do aluno na direção do ser, e não na do parecer.
  112. O filósofo deve se ocupar do bem-estar coletivo, não só com o seu.
  113. O filósofo deve usar as aparências como recurso pedagógico.
  114. Todos devem saber matemática, mesmo soldados.
  115. O filósofo que quer atingir a verdade precisa do cálculo.
  116. Matemática deve ser conteúdo obrigatório.
  117. A geometria muda completamente o modo de pensar.
  118. A astronomia também tem utilidade pública.
  119. Não se deve fomentar o estudo imperfeito.
  120. O cálculo, a geometria, a astronomia e a dialética afastam o indivíduo da opinião e o conduzem à verdade.
  121. A dialética depende do conhecimento de ciências exatas.
  122. Ciências exatas são universalmente válidas.
  123. A má reputação da filosofia deriva daqueles que se ocupam dela sem estarem à altura do ofício.
  124. Quem aprende dialética cedo, pode tornar-se rebelde, porque pode descobrir que muitas coisas em que acreditava não estavam corretas.
  125. A dialética só pode ser ensinada a quem tem mente estável.
  126. As mulheres podem governar.
  127. Todo governo humano tem fim.
  128. Oligarquia é o governo exercido apenas pelos ricos.
  129. Riqueza e virtude, em geral, vão em direções opostas.
  130. Um dos problemas da oligarquia é justamente o de que quem é rico, normalmente, tem pouca aptidão para o governo.
  131. Pobres e ricos conspiram uns contra os outros.
  132. Os oligarcas vendem seus bens públicos, empobrecem o estado e atraem má fama.
  133. Um estado com muitos pobres é um estado com muitos crimes, tanto cometidos por pobres (delitos para sustentar a vida) como por ricos (desvio de dinheiro público).
  134. Uma pessoa ignorante prefere dinheiro em vez de dignidade.
  135. A revolta popular transforma uma oligarquia numa democracia.
  136. A eleição dos mais qualificados pode transformar uma democracia numa aristocracia.
  137. Democracias têm a liberdade em alta conta.
  138. O tirano procura assegurar que o povo necessite dele.
  139. O tirano precisa de guerras.
  140. Isso atrai sobre ele a ira do povo.
  141. O tirano precisa matar quem se lhe opõe.
  142. Para controlar seu próprio povo, o tirano recorre a governos vizinhos…
  143. O tirano apodera-se dos bens públicos para pagar seu próprio exército.
  144. Existem desejos ferozes e irracionais que todos nós abrigamos.
  145. São os que, por vezes, se manifestam nos sonhos.
  146. O tirano é indefeso sem servos.
  147. Tem gente que pensa que aquilo que não dá lucro é inútil.
  148. Sob a orientação do filósofo, o ambicioso e o interesseiro podem até desfrutar melhor daquilo que mais gostam (fama e dinheiro).
  149. Ímpeto e concupiscência devem ser moderados, mas não suprimidos.
  150. Dinheiro e poder não compensam a decadência da alma.
  151. Um belo, mas falso discurso destrói a inteligência de quem ouve.
  152. O artífice faz um objeto material com base num modelo mentalmente concebido.
  153. Quem parece saber tudo de tudo, mente.
  154. Ficção é mentira e deve ser tratada como tal, isto é, não deve ser levada a sério.
  155. A imitação é uma brincadeira; quem crê na ficção é bobo.
  156. A razão deve moderar o sofrimento.
  157. A emoção permite o desespero.
  158. Emoções tolhem a razão.
  159. Sofrer demais não é masculino.
  160. Quanto mais você ri, mais difícil será prender o riso da próxima vez.
  161. O corpo só pode morrer de doença, dano físico ou velhice.

26 de março de 2015

Eu me mordo por causa disso.

Foi intenção do copiloto destruir o avião, diz procurador francês – Internacional – BOL Notícias.

Por quê? Eu detesto ficar sem saber o porquê das coisas, talvez seja por isto que estou cursando filosofia, e esse cara provocou a queda fatal de altitude que matou cento e cinquenta pessoas esses dias. Para quem não sabe, porque mesmo eu não sabia até antes de ontem, um avião bateu nos alpes perto da França, após ter, em alguns minutos, perdido 10.000 metros de altitude. Mas agora vem a parte que me toca.

O copiloto ficou na cabine sozinho e impediu o piloto de entrar, enquanto ele baixava a altitude do avião de propósito. Aí aconteceu o que aconteceu. O avião bateu nas montanhas e ninguém sobreviveu. Será que não bastava se suicidar? Tinha que matar também todos os tripulantes e passageiros? O que o motivou a fazer o que fez?

Eu tenho alguns amigos muito instáveis, como meu coleguinha Ogima, e noto como algumas pessoas fazem coisas absurdas por motivos que, para a maioria das pessoas, é pequeno. Mas, como eu disse, eles são instáveis. Ogima, por exemplo, tem transtorno de personalidade obsessiva-compulsiva. Talvez o copiloto estivesse sofrendo com algo diariamente e não podia aguentar mais. Talvez ele não tivesse coragem de tirar sua própria vida por meios convencionais, por causa da dor ou da espera, ao passo que morrer por queda de avião, especialmente à 700km/h, é instantâneo. Talvez, só talvez, ele tivesse se sentido tentado demais para deixar passar a oportunidade. Uma pena que ele não pode tirar somente a própria vida e teve de levar com ele cento e cinquenta pessoas que muito provavelmente nada tinham a ver com seus problemas. Me pergunto que tipo de coisa se passava na cabeça dele para não levar as outras vidas no avião em devida consideração no seu julgamento, a ponto de achar que o benefício de se matar sobrepujava o malefício de matar todos os outros com ele. Que tipo de problema ele tinha?

Meu irmão disse que era chifre. Eu tenho minhas dúvidas, apesar de muitas coisas horríveis serem motivadas por decepção amorosa.

12 de março de 2015

Capitalismo hipertenso.

Filed under: Notícias e política, Saúde e bem-estar — Tags:, , , — Yure @ 18:37

Nossa! Muito interessante (não estou sendo sarcástico). XD

Fico maravilhado que não perca a fé estudando uma área do conhecimento maravilhosa como essa. Conheço altos “cristões” que faram cursar filosofia na universidade e voltaram com aquela camiseta estupida do Tchê Guevara.

via User control panel — Fur Affinity [dot] net.

Conheci um cristão no Fur Affinity, pequeno Luckypuppy. Estávamos falando de nossas crenças, já que cristãos amam discutir isso, e ele é protestante. Ele conheceu o Fur Affinity pelo meu diário, depois de ter visto minhas entradas sobre infantilismo. Ele achou interessante e resolveu usar o Fur Affinity, vejam só, como um meio de aprender mais sobre os infantilistas. Eu não posso mais me considerar tão cristão como eu costumava ser, depois daquela aula de ética que mudou minha vida e me fez questionar tudo o que eu acreditava até então. Prova de que a filosofia continua interessante mesmo quando o professor é chato que dói.

Aí, quando eu falei que cursava filosofia, ele me disse as palavras acima e eu dei uma resposta pra ele, comentando o comportamento do pessoal da minha universidade. Esse é um problema apontado também pelo meu tio poeta. Na universidade, muita gente é comunista hipócrita.

Uma das coisas que aprendi sobre o comunismo na universidade é que o comunismo só é possível numa sociedade onde há abundância de bens e recursos. Ou seja, o mundo inteiro precisa virar comunista mais ou menos ao mesmo tempo, porque nenhum país é capaz de se sustentar por contra própria. Supondo que haja um grupo de países que são comunistas, mas que precisam importar alguns recursos de países capitalistas. Como eles poderíam fazer isso se não com dinheiro? Ora, mas não existe dinheiro numa sociedade comunista. Então, a importação de recursos acaba sendo hipócrita, porque os comunistas acabariam tendo que ter uma reserva de dinheiro, uma economia, portanto algum tipo de trabalho, sendo que não existe salário justo, o que implica exploração…

Mas como é que todos os países se tornariam comunistas ao mesmo tempo? O jeito é uma grande, gigantesca revolução. Só que ninguém quer essa revolução. Os operários oprimidos de hoje em dia não querem o fim da exploração. Eles querem a oportunidade de se tornar opressores. E, mais que isso, todos eles absorveram as ideologias e valores que justificam o capitalismo e não veem como as coisas poderiam ser diferentes… Eles querem o luxo, eles querem excesso, ostentação. E se só um país se tornasse comunista e não todos, sendo que um país comunista precisaria ser autossuficiente? Simples: a riqueza, antes nas mãos de poucos, passaria a estar nas mãos de ninguém. Essa condição foi descrita pelo meu professor de filosofia da arte como o ato de “deixar todo o mundo pobre”. Sendo um risco presente, os operários não querem arriscar.

E aí vem os alunos da minha universidade. Eles se dizem comunistas, pregam o comunismo e são, às vezes até às últimas consequências, capitalistas. Meu professor de filosofia social e política, tão atacado e perseguido na ditadura militar (foi inclusive torturado), vem dar aula numa Hylux. Preciso dizer que ele se diz adepto de Lênin? Fora que ele mora em bairro nobre e deve ter um bocado de luxo em um flat. O último aluno que jogou isso na cara dele quase o matou de ataque cardíaco. Quando os professores são assim, imagine os alunos! É difícil ver um que não tenha um celular do momento e não use Windows no PC.

O que estou dizendo é que, se eles são comunistas dentro de um sistema capitalista, não deveriam concordar com o sistema oposto além da medida do necessário, isto é, não deveriam perseguir o luxo. Deveríam procurar alternativas de baixo custo ou mesmo gratuitas para sua subsistência. Minha família é capitalista e é mais comunista que eles, porque nós damos pouco valor ao dinheiro e ao luxo (exceto pelo meu irmão, que consome muito mais do que lhe é devido). Eu não tenho celular, não uso Windows, não tenho carro, não compro livros (porque existem muitas traduções gratuitas de livros clássicos online), só adquiro roupas novas quando as atuais não cabem, não frequento academia (pratico exercício em casa), sempre como a mesma comida, lavo o cabelo com sabonete, não tenho plano de saúde ou dentário e nunca fiz nenhuma decisão visando “sucesso” ou lucro. Só quero ser professor, trabalhar com o que gosto, para sobreviver e continuar estudando. Quero estudar a vida inteira.

Isso significa que nós aqui movimentamos pouco dinheiro. Nossa família é um fracasso total em matéria de consumo. Mas, como precisamos consumir para sobreviver dentro do sistema capitalista, seria interessante que nós não consumíssemos mais que o necessário e que repudiássemos o luxo, porque isso movimenta dinheiro e a movimentação de dinheiro é como que a batida cardíaca do capital. Se eu discordo desse sistema, eu deveria, pelo menos, movimentar o mínimo de dinheiro possível…

Isso não é uma questão política, mas moral. Só estou apontando a hipocrisia dos meus colegas. É como quando eles dizem que a sustentabilidade é um conceito impossível, mas não reconhecem que a natureza ainda assim precisa de socorro e, por isso, acabam produzindo mais lixo e de forma mais desorganizada que o capitalista ao lado deles. Ou eles são tão canalhas quanto ou são piores. Isso também não é uma defesa ao capitalismo, porque este ainda é um sistema decadente que inflinge dano tanto a favorecidos quanto a desfavorecidos.

Para não ser como o doutor em filosofia que veio aqui em casa e me deu uma aula de como o capitalismo oprime a educação sem se preocupar em achar uma solução, eu creio que a solução para este problema é uma revolução interna. Tem um gordinho gostoso na universidade (o qual eu finalmente consegui abraçar ontem) que partilha dos meus gostos filosóficos. Ele também não gosta muito de discutir política, preferindo questões existenciais, uma filosofia mais pessoal. E acho que ele concordaria comigo se eu dissesse que a revolução começa dentro. A não ser que as pessoas passem a consumir menos, o que requeriria um aperfeiçoamento moral, a tendência é de que o capitalismo torne-se cada vez mais forte e a fome de lucro de um alimente a fome de lucro do outro. As pessoas veem os outros se dando bem e querem ser como eles, não importa como. E isso gera todo o tipo de problema para as pessoas (insatisfação profissional, por exemplo, porque você decide escolher um trabalho que pague bem e que nada tem a ver com seus interesses) e para a sociedade (um capitalismo cada vez mais agressivo e hipertenso, alavancado pela circulação inconsequente de capital cuja fonte se encontra em nossos interesses fúteis).

Sei que este foi um texto pueril e ingênuo, mas poxa vida! Criei um conceito: capitalismo hipertenso. Uma salva de tiros para Deleuze.

4 de março de 2015

É, foi um dia terrível…

Filed under: Saúde e bem-estar — Tags:, , , — Yure @ 22:21

Vergonha – Wikipédia, a enciclopédia livre.

Acordei doente. A fumaça da capital, combinada com o tempo frio e seco, acabaram com minha garganta. Tive febre e meu nariz escorre até agora. Ao menos fiz meu cadastro biométrico eleitoral.

Mas, como se não bastasse estar doente, eu tinha uma apresentação para fazer hoje. Então, apesar de estar febril e com dor de cabeça, fui. A apresentação do grupo anterior foi irritante: eles tentaram fazer uma peça, na qual eles sentavam ao redor de umas mesas e fingiam estar num bar falando sobre coisas filosóficas enquanto tomavam vinho. Mas, como eu detesto gente alegre, logo me senti incomodado com o grau de descontração deles, porque eles eram muito barulhentos e a sala era fechada, favorecendo o eco. Pessoalmente, eu não entendi o tema tratado por eles (o conceito de experiência como descrito pelo senhor Bondía). O pior é que eu fui o único a não gostar. Claro que uma “aula” daquela forma casa bem com a atitude dos outros alunos, que são baderneiros e “contemporâneos”.

Então, eu tive de apresentar o mesmo tema. Certo… Comecei minha apresentação criticando a equipe anterior e propondo esclarecer o que eles não conseguiram, dizendo que eu não tinha entendido nada. Uma das moças que apresentou na equipe anterior disse:

Parabéns.

Como se eu tivesse conseguido algo muito difícil. E, de fato, eu fui o único a dizer que não entendi a apresentação deles. Aquilo foi um insulto, mas resolvi esquecer.

A princípio, faríamos também uma peça, mas, como dois membros da equipe não chegaram a tempo e um faltou, a peça não daria certo. Então, tivemos de fazer as coisas à moda dos romanos. Enquanto eu fazia minha exposição sobre o texto, eu me certificava de estar deixando tudo bem claro, ao mesmo tempo que eu deixava tempo para os outros dois integrantes que chegaram na hora falarem. Ou seja, foi uma aula tradicional. Óbvio que ninguém gostou, apesar de que, julgando pelas cabeças que moviam positivamente conforme eu falava, todos estavam entendendo.

No meio da minha exposição, os dois atrasados chegaram. Logo os encaixei na rotina e eles começaram a falar. Daí, o altão cento e sessenta e seis assumiu. Embora ele estivesse na mesma equipe que eu, ele desceu o cacete na minha apresentação, fazendo a dele no processo. Eu só achei que o método tradicional deixaria as coisas claras… mas ele rapidamente juntou argumentos que mostram como ele é pobre, blá, blá, e emendou com um discurso comunista que muito agrada todos os hipócritas que tenho como colegas, pois eles se dizem comunistas e ainda assim aderem cem por cento ao capitalismo.

Aos poucos, conforme os outros falavam, eu vi que minha apresentação estava servindo de bode expiatório. Como eu estava doente e já tinha mesmo planos de sair cedo, resolvi sair dali, justificando que eu não me sentia bem. À porta, o professor disse:

Coitado.

Odeio este mundo.

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