Analecto

29 de março de 2016

Anotações sobre o discurso sobre o método.

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  1. Se divergimos em alguma questão, isso é porque não consideramos as mesmas coisas. Afinal, o bom senso é igual em todo o mundo…
  2. Ter boas faculdades mentais não basta. É necessário aplicá-las corretamente. Então, de nada vale o bom senso se não nos direcionamos às questões de fato pelos métodos corretos.
  3. Andar no caminho certo, mesmo que devagar, nos faz chegar à meta. Melhor ir lentamente pelo caminho certo do que rapidamente pelo caminho errado.
  4. O juízo favorável de um amigo é suspeito. Afinal, o amigo não quererá nos ofender, então esconde ou diminui as críticas.
  5. Descartes está para exibir que método funciona com ele. Isso quer dizer que o método não tem pretensões universais e o aplicará quem desejar.
  6. Receber o título de “erudito” não te torna erudito.
  7. Descartes menciona que alguns alunos de sua escola estavam “destinados” a ocupar o lugar de mestres. Não posso evitar suspeitar de peixada.
  8. Todos os livros são valorosos e todas as ciências devem ser estudadas. Os bons livros e as boas ciências nos são construtivos, ao passo que os maus livros e as ciências falsas nos dão exemplos do que não fazer e como não agir. Então, os bons autores nos fazem crescer e podemos crescer também passando por cima dos maus autores, uma vez que descobrir a verdade não é tão diferente de eliminar uma mentira.
  9. Descartes coloca a leitura e a viagem no mesmo patamar.
  10. Passar muito tempo em um só lugar favorece a prática de julgar outras culturas como ruins na medida em que são diferentes da sua.
  11. Ler muitos livros, porém, pode ser tão ruim quando viajar muito. O conhecimento profundo do passado e do mundo afora nos leva a esquecer o presente e a nossa pátria, ou seja, pode nos alienar do aqui e do agora. É o que vem acontecendo comigo. Só agora comecei a prestar atenção nas reações populares à manipulação de informação promovida pela mídia.
  12. A leitura de ficção, se feita por um espírito fraco, faz o indivíduo perder contato com o real e querer repetir, com variado grau de fidelidade, os feitos dos personagens. É como o pessoal que faz um ritual de sacrifício e, na delegacia, culpam Vampiro: a Máscara. A culpa não é do material, mas do cara que tem problemas em separar realidade e ficção. Outros exemplos incluem o culto à Gadget e outros religiões centradas em desenhos animados.
  13. A poesia é um dom artístico. É por isso que nem todos os intelectuais produzem poemas. Na verdade, os poetas muitas vezes não são intelectuais. Isso significa que não é possível adquirir o dom da poesia pelo estudo, sendo necessário que a tendência se manifeste antes.
  14. A verdade pode convencer sem artifícios retóricos. Esses artifícios ajudam, mas não são sempre necessários.
  15. Cada um tem afinidade para algum tipo de conhecimento. Embora Descartes se entreteve com poesia, sua praia mesmo era matemática, porque ele gostava de segurança e de clareza.
  16. Nem todas as coisas que se apresentam como virtude são realmente virtude.
  17. A multidão de opiniões filosóficas levou Descartes a duvidar de tudo o que era provável. Nesse sentido, ele se aproxima de Bacon.
  18. Não se pode fazer ciência exata sobre bases fracas. Se uma ciência parte de conceitos filosóficos, que são duvidosos para Descartes, então ela não é exata.
  19. Se você não é pobre, não precisa perverter seus princípios por dinheiro. E Descartes preferia que sua prática científica não fosse um ofício. Então, se ele não era pobre, preferia praticar ciência de outra forma, não a condicionando ao trabalho. Se o que ele descobrisse o desse glória ou riqueza, que fosse, mas ele não iria praticar ciência visando o lucro como objetivo final e sim a verdade sobre algo que realmente o inquietava. Isso porque, quando você faz filosofia ou ciência visando o lucro, você não está interessado na verdade, mas no pagamento. Poderá muito bem mentir pra agradar, se isso lhe der dinheiro.
  20. Descartes abandonou a escola quando tinha idade o bastante, porque já havia aprendido o que convinha. Dali em diante, ele seria original.
  21. Primeiro, na infância e na adolescência, ele estudou os livros. Na idade adulta, estudou o mundo (pelas viagens e pelas conversas). Perto da velhice, estudou a si mesmo.
  22. Invenções feitas por mais de uma pessoa e que são compostas de mais de uma peça são menos perfeitas quanto mais inventores e quanto mais peças têm.
  23. É melhor meditar em quais leis serão promulgadas antes que os maus atos comecem a aparecer. Leis feitas depois que o mau ato é efetivado, isto é, leis que tornam algo criminoso depois que já se tem o hábito de praticar tal coisa, são menos perfeitas. Não se deveria fazer leis ao sabor do presente, mas preparar um código logo de início. Claro que isso nem sempre funciona. Na China, não há leis contra a violência sexual de um homem sobre outro, só contra o estupro (homem sobre mulher) ou contra o abuso de menores, simplesmente porque nunca um homem chegou na delegacia pra dizer que foi coitado por outro.
  24. Se houver um só legislador, todas as leis operam para o mesmo fim, que é estabelecido pelo legislador. Isso facilita a tarefa de lembrar as leis, pois, conhecendo com que princípio elas foram concebidas, não será necessário lembrar de todas em particular. As leis serão harmônicas entre si.
  25. Existem pessoas que se acham muito originais e sábias, julgando poder se pronunciar sobre o que não conhecem, e existem pessoas que são muitas tímidas pra ser originais, simplesmente repetindo o que já foi dito pelos que têm autoridade.
  26. É mais fácil estar no segundo grupo se você não vê as discordâncias entre os pensadores como algo digno de ser levado em consideração. Ou se você escolhe um “mestre” e não se arreda dele.
  27. O caráter muda dependendo da educação, do lugar em que se está e da fase da vida. Se mudamos de mestre, de lugar ou se ficamos mais velhos, mudamos nossos modos. Então, os que são diferentes de nós não são, por isso, piores.
  28. Melhor andar devagar do que levar uma queda.
  29. Não troque o certo pelo duvidoso. Se algo é duvidoso, não o use como se fosse certeza.
  30. O problema deve ser dividido em tantas partes quanto forem possíveis, de forma que cada um seja resolvida em particular.
  31. Primeiro o mais simples, depois o mais complexo.
  32. O trabalho deve ser revisado quantas vezes for necessário, até se ter certeza de que nada foi omitido.
  33. Uma ciência pode corrigir a outra.
  34. Moral provisória. Primeiro, seguir as leis que me foram ensinadas, seja pelo Estado ou pela religião. Se eu não tiver certeza de estar infringindo alguma lei, a decisão mais distante do excesso pode ser a mais segura. Devo aceitar o conselho dos mais sensatos, mas não o conselho que é dito, e sim o conselho que é mostrado pelos atos deles. Claro eu não devo aceitar o mau conselho, que é manifestado pelo excesso. Se uma pessoa julgada sensata incorre num excesso, nem por isso farei como ele.
  35. Depois de decidido o objetivo e o método, ir até o final.
  36. Melhor mudar a si próprio do que o mundo. Isso não significa ser um conformado, mas que, depois de ter tentado tudo para obter determinado objetivo, assumir que é impossível obtê-lo, pelo menos pra você, e se adaptar a isso. Não quer dizer que não se deva tentar, repetidas vezes se for preciso, mas ser maduro o bastante para soltar o gatilho quando a munição acaba.
  37. A vontade só quer aquilo que achamos que é possível. Se pode sonhar com o impossível e imaginar como seria legal se isto ou aquilo acontecesse, mas ninguém em sã consciência vai atrás do que sabe que não pode obter. Então, se tomamos algo por impossível, não iremos querê-lo mais e deixaremos de deplorar sua falta.
  38. Só estamos em pleno controle de nossos pensamentos e de nada mais. Faz parte da vida. Eu incluiria também sob nosso controle os nossos atos.
  39. Devemos nos dar ao crescimento de nossa própria razão.
  40. Não há necessidade de se contentar com a opinião dos outros. Devemos procurar também respostas próprias, quando não existem respostas ou quando as existentes não satisfazem.
  41. Descartes era bastante humilde, não se corrompendo com a fama que ele estava fazendo e confessando que seu pensamento não tinha nada de especial, exceto, talvez, que ele era sincero quanto às coisas de que duvidava e por quê.
  42. Referência às Meditações. Descartes diz que suas meditações metafísicas são diferentes demais de tudo o mais que havia e talvez não seriam bem recebidas.
  43. Eu posso duvidar de quase tudo, porque eu não posso duvidar de que estou pensando. Mas é necessário existir para poder pensar. Então, toda vez que eu penso, estou me assegurando de que eu existo. Eu. Isso não garante a existência dos outros. Esse assunto pertence às Meditações.
  44. O pensamento nos mostra que nossa alma é pensante e que o pensamento é a essência da existência humana individual. De fato, se eu não pensar, não poderei perceber minha própria existência, de forma que não a percebe que não pensa, mesmo que exista. O indivíduo que não pensa é reduzido a estado de objeto, não sendo humano, no dizer de Descartes.
  45. É lícito tomar por correto aquilo que é concebido claramente e distintamente.
  46. Se admitimos que a escala de graus de perfeição opera de forma invertida, então admitimos que todas as coisas vieram do nada. Com efeito, segundo os graus de perfeição, a existência vem de um princípio perfeito, que cria princípios menos perfeitos. Mas, se admitimos que ela opera de maneira contrária, então estamos admitindo que o princípio da existência é sumamente imperfeito. Ora, mas sumamente imperfeito é o nada, que não tem perfeição alguma, inclusive a existência. Por isso, Descartes conclui que um ser humano não pode conceber, por conta própria, um ser mais perfeito que ele próprio e, se o faz, é porque um ser mais perfeito que nós nos induz a buscá-lo, colocando em nós uma intuição inata que nos leva a inferi-lo.
  47. As formas perfeitas (triângulo ideal, círculo ideal, quadrado ideal…) não existem na natureza. Se a geometria os estuda, é porque é clara o bastante para receber crédito científico. Além do mais, examinando ideais, é possível obter axioma que servem para situações naturais, embora tenham que ser aplicados de maneira limitada.
  48. Tem um resumo das Meditações neste livro.
  49. Verdades matemáticas tem valor atual. Mesmo que elas se reportem à informações abstratas, não se pode negar o valor delas. Aliás, existem coisas que não são perceptíveis sensualmente; não é porque não posso ver, ouvir ou sentir algo que tal algo não exista.
  50. Se todo o conhecimento que tenho no entendimento passou alguma vez pelos sentidos, como é que eu posso conceber Deus ou a alma, coisas que nunca passaram pelos sentidos da maioria das pessoas?
  51. O conhecimento sensorial de nada serviria se não fosse o entendimento para interpretá-lo.
  52. Descartes diz que se alguém nega a existência de Deus, tudo o mais que ele conhece perde qualquer tipo de estabilidade e tudo se torna duvidoso para ele. Nesse sentido, ele antecipa Nietzsche, para quem a cisão entre humano e divindade leva à relativização de coisas que tínhamos como certas, como a moral. Ambos admitem que a ausência de Deus é ausência de absoluto e demolição do conceito de verdade.
  53. Alguns sonhos são tão nítidos quanto a realidade.
  54. Enquanto Deus é causa da verdade e das perfeições, a falsidade e as imperfeições são manifestações do nada, são ausências de seus opostos.
  55. Se Deus criasse outro mundo, diz Descartes, seria como o nosso, pois, sendo perfeito, sempre toma as melhores decisões todas as vezes. Então, o mundo novo operaria segundo a perfeita física já existente no nosso, por exemplo. Ele acabaria se estruturando como o nosso mundo em vários ou todos os aspectos. Isso aproxima Descartes de Leibniz e toda a trupe dos otimistas metafísicos, para os quais vivemos no melhor dos mundos possíveis.
  56. Descartes escreveu uma teoria da propagação da luz entre o foco celeste e nós, mas parece que ele não publicou esse trabalho (ao menos na época da escrita do Discurso), talvez porque discordava da visão cósmica religiosa da época.
  57. “Mundo”, em Descartes, é o que hoje chamamos de “universo”, um conceito mais amplo que o de “planeta”.
  58. Talvez Descartes não publicou esse trabalho mítico porque ele poderia fazer alguém pensar que ele esta a descrever uma criação alternativa. No Discurso, ele diz que não era isso e que Deus poderia ter feito o mundo como ele deveria ser logo de início, para evitar que alguém pensasse que ele era um herege.
  59. Para a teologia da época, a força que mantém o universo em boas condições e que o conserva é da mesma natureza da força que o criou.
  60. Uma frase de dezessete linhas é um desaforo.
  61. Alguns processos corporais são análogos aos das máquinas e funcionam automaticamente por sua disposição e energia implícita.
  62. A circulação é causa do calor do corpo.
  63. Se vários objetos tendem ao mesmo lugar, os mais velozes e mais fortes chegam primeiro, afastando os outros, caso não haja espaço o bastante.
  64. Descartes faz muita propaganda do livro que não publicou.
  65. O conceito de corpo humano como máquina perfeita tem origem aqui.
  66. O problema da inteligência artificial é o uso da linguagem. Você pode programar uma máquina ou artefato digital para conversar, mas sua conversa não será espontânea, e sim premeditada pelo programador dentro dos liames de sua própria linguagem e capacidade espiritual. Portanto, se você consegue fazer um programa capaz de usar a linguagem para se passar por ser humano e não ser notado, você criou um programa capaz de usar a linguagem para se passar por ser humano e não ser notado, e não um ser inteligente. Talvez possamos criar corpos melhores que nós, mas não espíritos. Então os graus de perfeição ainda são válidos em certo sentido.
  67. A máquina imita operações humanas com mais perfeição que nós, mas só pode fazer um número limitado de funções, em comparação conosco.
  68. Para Descartes, os animais não usam linguagem. Mas hoje sabemos que usam.
  69. Descartes diz: animais não pensam. Hoje sabemos que não é assim.
  70. Um animal adestrado, diz Descartes, é tão perfeito quanto uma criança retardada.
  71. Se o animal tem razão bastante para falar, mas não tem órgãos para falar conosco, o que os impede de pelo menos nos entenderem?
  72. O corpo humano e a alma humana estão misturados, embora sejam de natureza diferente. De outra forma, a alma não sentiria as afecções corpóreas.
  73. A alma humana, diz Descartes, é imortal e de tipo diferente das almas dos outros animais. Isso polemiza com a migração anímica de Platão, que diz que as almas reencarnam em seres superiores ou inferiores conforme às obras feitas em vida.
  74. Descartes abre a sexta parte com a razão pela qual ele não publicou seu livro que prometia explicar quase que o mundo inteiro: Galileu (que não é mencionado por nome) havia acabado de ser condenado pela Inquisição por afirmar coisas que a não foram bem recebidas pelo clericato, entre elas que a Terra gira em torno do Sol e que as estrelas fixas não eram assim tão fixas. Então, se Galileu havia sido condenado pela Inquisição à prisão domiciliar perpétua, porque, sendo ele velho, a pena de morte foi amenizada ao nível de cárcere privado, imagine o que fariam com Descartes se encontrassem no livro dele alguma coisa que desagradasse à Igreja ou o Estado, considerando que Descartes era mais jovem.
  75. O que sabemos de medicina é nada comparado ao que falta saber. Afinal, nós ainda envelhecemos, há doenças sem cura e sem tratamento, mas é inegável que aos poucos chegamos a algum lugar.
  76. Mesmo que você descubra pouco, é bom divulgar o que você sabe. Isso pode dar uma pista aos pesquisadores mais profundos e com mais recursos, o que te tornaria participante do mérito deles, se tais pesquisadores puderam chegar até onde chegaram porque você ajudou. Isso quer dizer que nenhum conhecimento deve ser escondido. Por menor que seja, deve ser divulgado.
  77. Não se deve procurar o conhecimento raro sem antes conhecer o incomum. Nem se deve procurar o conhecimento incomum sem antes conhecer o comum.
  78. Descartes não publicou seu mítico livro, mas expõe no Discurso vários dados que estavam contidos nesse trabalho oculto. Ele não é completamente incoerente com o que pensa, afinal, devemos publicar nosso conhecimento. Mas ele ocultou aquilo que poderia causar polêmica com os clérigos; estes podem não causar tanto dano quanto o guerreiro, mas certamente causam mais que o mago.
  79. O tratado mítico não era ponto de chegada, mas uma espécie de “relatório”. Descartes esperava que sua publicação levasse outros pensadores a comunicar-lhe o que tais pensadores haviam conseguido fazer com os dados escritos no livro, de forma a levar a física adiante.
  80. O tratado mítico não ia, segundo Descartes, ficar sem publicação. Ele iria ser revisado, para que Descartes tivesse certeza de que ele não ofenderia ninguém e estivesse totalmente correto. Além disso, ele deveria ser publicado postumamente, pra ter certeza.
  81. É dever do ser humano ser útil aos outros. Não valer nada é justamente ser inútil. De que vale nossa vida se outros não se beneficiarão do que fizemos depois que morrermos?
  82. Devemos crescer aos poucos. Com poucos recursos, fazemos poucas e pequenas obras. Se essas obras são notadas, temos a oportunidade de obter mais recursos, que nos permitirão mais obras e melhores obras.
  83. Para fazer esse tratado mítico, Descartes venceu cinco ou seis dificuldades e só faltavam superar três para que ele estivesse perfeito.
  84. O livro seria incontestável, por se basear em coisas claras e evidentes para elaborar seus raciocínios, os quais Descartes dizia serem perfeitamente demonstráveis.
  85. O livro era um pedido de ajuda: Descartes queria convidar outros cientistas para pesquisar a natureza com ele. Porém, Descartes admite que poucos seriam de ajuda a ele, porque ninguém conseguia criticar seu modo de pensar com tanto rigor ou equilíbrio do que ele próprio.
  86. O bom advogado nem sempre vira um bom juiz.
  87. Devemos acreditar que Descartes disse alguma coisa somente ao ler seus livros. Descartes não iria gostar se você acreditasse no alguém disse que ele disse.
  88. Os seguidores de Aristóteles não se atrevem a superá-lo. Galileu partilha dessa ideia, porque sua principal briga era com os aristotélicos, que acreditavam que Aristóteles era insuperável e alguém poderia, no máximo, explicar melhor o que ele disse. Por isso Galileu enfrentou tanta resistência, porque seu pensamento sobre a física era diferente do de Aristóteles e, por causa disso, era tido como automaticamente errado, mesmo quando Galileu provava que Aristóteles era quem estava errado. O mesmo acontece na faculdade de filosofia, com cada mestre e cada doutor não indo muito além do “seu filósofo”.
  89. Descartes compara os aristotélicos a cegos que desafiam alguém de boa visão a lutar no escuro. Não podendo entender alguma coisa da natureza (o cara de boa visão), forçam essa coisa a se submeter à lógica (escuridão). Bacon diz a mesma coisa, com outras palavras, quando ele diz que o principal acidente de Aristóteles foi submeter toda a natureza a sua lógica.
  90. Se você tem pressa em ser chamado de “sábio”, procurará algo que parece verdade, não o que é verdade, porque a verdade é mais difícil de encontrar e demora mais pra ser encontrada.
  91. Se você começa a aprender as coisas mais fáceis e vai ascendendo gradualmente às difíceis, você poderá dizer, com toda a propriedade, que chegou ao seu limite quando se deparar com algo tão difícil que você não possa conhecer. Por esse método, você aprende mais em menos tempo, superando em conhecimento aqueles arrogantes que pretendem conhecer o que é difícil sem antes conhecer o fácil.
  92. Apesar de muito humilde, algumas afirmações cartesianas parecem orgulhosas. Mas apenas parecem.
  93. Se quer algo bem feito, faça você mesmo. Se não puder se juntar com quem pode ajudar (o que quer dizer, alguém pago para fazer algum serviço sob suas ordens ou alguém que te financie), não se junte com ninguém. Quando Descartes pede ajuda a outros, ele está dizendo que outros devem fazer seus próprios experimentos, por conta própria, por interesse próprio, de forma que Descartes possa usar seus resultados quando estiverem prontos, da mesma forma que os outros cientistas usaram seus resultados. Ele não está falando de ajuda direta, mas através de uso liberal dos resultados de pesquisas independentes.
  94. Não devo procurar ajuda se eu não mereço ajuda. Não devo também esperar que meu trabalho seja um sucesso mundial. Minha única obrigação é publicar o trabalho. Ele receberá a atenção que merecer, cedo ou tarde.
  95. Não há necessidade de ficar anônimo, mas muito reconhecimento e fama fazem as pessoas te perturbarem por mais. Por isso se diz que o homem célebre não tem vida privada.
  96. Ter reputação é inevitável, então vamos nos esforçar para nossa reputação ser boa.
  97. Deixe que o leitor julgue se seu escrito é bom ou não.
  98. Algumas pessoas podem se apropriar do seu pensamento e construir sobre ele algo completamente errado. O escritor deve minimizar o risco de ser culpado pelos erros do leitor.
  99. Escreva em seu próprio idioma. Escrever em língua simples permite que qualquer um entenda e seu trabalho terá um público maior. Não é porque você é sábio que você escreverá em latim.
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24 de março de 2016

Anotações sobre as meditações metafísicas.

Filed under: Livros, Passatempos — Tags:, , , , , — Yure @ 08:04
  1. Aprendemos, ao longo de nossas vidas, muitas coisas erradas. Então, tudo aquilo que construímos sobre fundamentos falsos é digno de se colocar em dúvida. É interessante recomeçar pelo menos uma vez na vida, reconstruir a partir dos fundamentos, para verificar se não nos saímos melhor com novos fundamentos em lugar daquilo que percebemos como duvidoso ou errado.
  2. Esse esforço não pode ser feito imediatamente, mas somente em idade propícia, na solidão (aposentado). Esse é um processo altamente destrutivo e não deveria ser tentado se outras pessoas dependem de você para existir.
  3. Neste livro, Descartes pretende rejeitar qualquer coisa que não se manifeste como sendo clara e evidente. Se algo é duvidoso, mesmo que seja noventa e nove por cento seguro, será rejeitado. Ele pretende encontrar uma coisa, qualquer coisa, de que seja impossível duvidar, para usar como fundamento sobre o qual construir sua ciência.
  4. Não é necessário derrubar cada conhecimento de cada vez. Basta derrubar seus princípios, que são em menor número do que os raciocínios construídos sobre tais princípios. Se eu elimino, por exemplo, a noção de que A é igual a A e diferente de B, elimino, por extensão, qualquer saber que parte desse pressuposto.
  5. Os sentidos são a primeira coisa que ele elimina como sendo “duvidoso”. Os sentidos enganam. Ora, mas os sentidos são seguros! Sim, mas Descartes quer algo de que não se pode duvidar. Se é possível duvidar dos sentidos, então os sentidos não são o fundamento que Descartes está procurando.
  6. A dúvida cartesiana é uma decisão. Não é a dúvida normal que se apresenta espontaneamente. Descartes escolheu duvidar para levar adiante seu objetivo. E essa dúvida não é natural e nem é normal.
  7. A dúvida será o método dele neste livro.
  8. Os sentidos são seguros para a vida cotidiana, mas não é isso que queremos.
  9. Descartes dormia pelado.
  10. Como é que eu vou saber… que eu não estou sonhando agora? É possível duvidar da realidade em que vivo, se pensarmos dessa forma, isto é, não há como dizer quando estamos acordados e quando estamos sonhando, posto que não percebemos que vivemos um sonho até o ponto em que acordamos.
  11. Como é possível duvidar da realidade objetiva, Descartes também a rejeita. Radical.
  12. Mas só podemos sonhar com coisas que vemos quando estamos acordados. Então, mesmo que o sonho componha uma realidade completamente diferente da realidade objetiva, ele compõe essa realidade fantástica utilizando elementos encontrados no estado de vigília.
  13. Uma ciência é tanto mais duvidosa quanto mais sensível e prática ela é. A medicina, a física e a astronomia fundam-se nas observações sensoriais. Mas Descartes acaba de apontar que os sentidos enganam. Então, mesmo que a medicina, a física e a astronomia tenham a aritmética e a geometria como ajudantes, elas não são completamente seguras na medida em que dependem da interpretação de dados sensoriais.
  14. Descartes levanta a hipótese de um deus enganador. Sendo todo-poderoso, ele poderia muito bem influir no espírito humano para errar até nas contas matemáticas. Então nem a contagem e a geometria são seguras. Vale lembrar que alguns estudiosos apontam evidências de que Descartes era usuário regular da maconha.
  15. Deus é bom. Ele não pode ativamente influir no intelecto humano para que ele se engane. Mas nós nos enganamos de qualquer jeito. Se Deus é bom, por que ele não nos deu entendimento perfeito? Óbvio que essa é uma pergunta retórica, feita com intenção metodológica: Descartes está rejeitando tudo que se apresenta como duvidoso pra ele, no que diz respeito a esse raciocínio. Ele não está afirmando que Deus é mau ou que ele não existe, mas está supondo, para esse argumento, uma das duas coisas.
  16. Para alguns, é melhor dizer que Deus não existe do que dizer que a verdade não existe.
  17. Apelo aos graus de perfeição. Deus é sumamente perfeito, então ele cria outros seres menos perfeitos que ele; não haveria sentido em Deus criar outro Deus. Então, existe uma escala de perfeição que subjuga a criação (“ordem cósmica”). Descartes não tem certeza de qual é seu lugar na ordem cósmica, então, caso ele seja o mais imperfeito dos seres, pode muito bem se enganar sempre que tenta acertar.
  18. O argumento de Descartes refere-se somente à ciência. Ele quer uma ciência segura.
  19. Depois de algumas páginas, ele conclui que tudo é duvidoso. Então parece que nada passou no teste de sua dúvida metódica.
  20. Claro que todas as coisas negadas, embora não sejam 100% aceitáveis por todos, são seguras e muito prováveis. Elas não devem ser negadas na vida cotidiana, mas elas tornam todas as ciências duvidosas e Descartes acha isso inaceitável.
  21. A dúvida metódica levou Descartes a rejeitar tudo que temos por certo e confiável. Por algumas páginas, ele tornou-se cético, afirmando não haver verdade alguma de qualquer natureza.
  22. Pensar dessa forma não é apenas trabalhoso, mas torna a vida impossível de ser vivida.
  23. As Meditações são como um diário pessoal de trabalho. Descartes se expressa de maneira pessoal.
  24. A busca por algo de seguro é comparada à alavanca: se eu tiver uma alavanca suficientemente longa e um ponto de apoio suficientemente seguro, posso levantar qualquer coisa.
  25. Será que esses pensamentos não foram colocados em mim por Deus? Como não posso responder com certeza, Descartes conclui que deve-se supor que não.
  26. Eu sou alguma coisa? Eu existo? Como vou saber? Vou supor que não.
  27. Talvez eu não tenha corpo, mas será que não é possível existir sem corpo?
  28. Não posso duvidar de uma coisa: que estou duvidando. Ora, mas pra duvidar é necessário pensar. Ora, mas só é possível pensar e também se enganar se eu existir. Então, a garantia de que pelo menos eu existo é o fato de que eu estou pensando, algo que não seria possível se eu não existisse. A expressão usada é “sou, eu existo”, mas ficou popular como “penso, logo existo.” Agostinho chegou a uma conclusão parecida por outros métodos. Meu professor de história da filosofia gostava de dizer que “Descartes roubou de Agostinho”, mas, talvez porque minha leitura de Agostinho é limitada, eu não vejo as coisas exatamente assim.
  29. Chegar à conclusão de que eu existo não assegura que eu existo de uma maneira particular. Isso quer dizer que o fato de eu existir não garante que eu tenha corpo, por exemplo.
  30. O corpo é uma ferramenta à serviço da alma.
  31. Alma é substância pensante. Consciência.
  32. Será que se eu parar de pensar, deixarei de existir? Se for assim, posso dizer que é interessante a experiência do nada (porque tem momentos em que não estou pensando).
  33. Sou um troço pensante.
  34. O próprio pensamento é a única coisa que passa pela dúvida metódica.
  35. Estado físico não é essência, mas acidental.
  36. Somente o pensamento puro pode me dizer a natureza das coisas. Esse não é o papel da imaginação.
  37. Se eu brinco com um objeto e também com meu corpo, mas percebo meu corpo com mais nitidez do que objeto com que brinco, o conhecimento do meu corpo é mais seguro.
  38. Aquilo que na ciência é mais fácil é difícil para o senso comum.
  39. Em que condições eu posso reconhecer o valor objetivo de uma ideia? Até que ponto algo que eu penso realmente existe?
  40. Se existe um deus que se preocupa em enganar as pessoas, é um divino desocupado. Será que não poderia gastar seu poder em fazer outra coisa?
  41. Devemos procurar saber se há razões para acreditar em Deus. Se houver, devemos nos certificar que ele não emprega sua indústria em nos enganar. Se você apela aos graus de perfeição, ele não engana. Mas sigamos Descartes aonde ele vai.
  42. É possível desejar o que não existe.
  43. A ideia que eu tenho não necessariamente corresponde à coisa a qual deveria corresponder.
  44. Algumas ideias que eu tenho parecem ter nascido comigo. Quem as colocou lá?
  45. Para Descartes, nem todas as ideias são formadas em nosso espírito por interação com coisas externas. Por exemplo: fazemos uma ideia de Deus sem nunca tê-lo visto. Essa doutrina é chamada “inatismo”, a qual diz que existem certos conteúdos mentais que nascem conosco e não são aprendidos pela interação com o exterior.
  46. Mas existem ideias de procedência externa, como as afecções: perto de um fogo, sentirei calor.
  47. Instinto não é fonte segura de conhecimento.
  48. O instinto é amoral. O instinto é agnóstico.
  49. Depois que o exterior deixa uma impressão, o pensamento relacionado à impressão pode surgir sem o objeto que a causou. Como no sonho: sonhamos com o que não está lá.
  50. Sem uma ideia clara e evidente, não há critério de julgamento entre falso e verdadeiro. É necessário algo de verdadeiro para julgar.
  51. O sentido mostra o Sol, o instinto supõe que o Sol é do tamanho que parece, mas a razão diz que o Sol é maior que a Terra.
  52. Os sentidos traem com grande traição. Os sentidos levaram Heráclito a supor que o Sol tem um pé de diâmetro no máximo. Não é raro que a razão nos leve a dados distintos dos imediatamente sensíveis. É como se os sentidos fossem um texto e a razão fosse sua hermenêutica.
  53. Se eu vejo nitidamente certas coisas sensíveis, o Criador delas deve ser sumamente nítido. Novamente, um apelo aos graus de perfeição. Existia um debate na faculdade de filosofia sobre esta meditação, com alguns argumentando que Descartes colocou um argumento fraquinho nas Meditações só para não ser pego pela Inquisição. Na verdade, levando às últimas consequências outros argumentos neste e em outros livros, alguns especulam que Descartes era secretamente ateu.
  54. Apelo aos graus de ser, à causa eficiente: todo efeito tem uma causa e eu sou um efeito. Até o ponto, todas as verdades descobertas gravitam em torno do “penso, logo existo”. Supomos, em algum ponto, que eu sou a única coisa que existe. Mas de onde eu vim? Certamente não sou eterno. Algo me fez. Isso só funciona dentro do argumento, porque, fora dele, eu posso dizer “meu pai e minha mãe me fizeram”. Aí tem que chamar São Tomás de Aquino: Deus, sendo eterno, é “ser” na plena acepção da palavra, o máximo grau de ser.
  55. Nada garante que a criatura é igual ao criador.
  56. O nada não pode criar, com isso todos concordamos. Mas Descartes também diz que um ser mais perfeito não pode derivar existência de algo menos perfeito. Dependendo de como você encara a teoria da evolução, isso pode soar errado. Na minha modesta opinião, levando em consideração que perfeito quer dizer acabado, me parece plausível que as criaturas, ao evoluir, estão caminhando ainda para a perfeição. Então, de um ponto de vista particular, existem espécies que ainda não estão “acabadas” e ainda precisam de tempo para amadurecer. Pode ser que isso seja intenção divina e, se o for, então a criação é perfeita em sentido amplo: convinha que os animais não parassem de evoluir, então uma criatura que sempre evolui, se essa era a intenção do criador dela, está acabada em certo sentido.
  57. A criatura é semelhante ao criador em alguma coisa, mesmo que em menor grau.
  58. Aquilo que a coisa parece ser para mim… é o que ela realmente é?
  59. Se Deus existe, então não estou sozinho no mundo. Lembrando que Descartes está partindo do “penso, logo existo” para mostrar todas essas coisas, então ele assumiu, em algum ponto, que ele era a única coisa que existia. Agora ele já pode afirmar que não é assim. Ele não é o único ser existente.
  60. Algo é imperfeito se não sai como planejado (se o real e objetivo não corresponde ao que eu imaginei inicialmente).
  61. Será que o frio é ausência de calor ou o contrário? Se estar errado for tomar não-ser por ser e vice-versa, então é muito fácil se enganar no caminho sensível.
  62. Descartes se pergunta: mas e se Deus for só uma invenção da minha cabeça, oriunda da necessidade de me completar e da minha própria imperfeição?
  63. Será que eu posso pensar numa mentira completa? Existem ideias falsas por natureza?
  64. Também eu posso criar. Mas, sendo imperfeito, nem tudo o que concebo na minha mente vem à realidade objetiva.
  65. A ideia de Deus é complexa demais pra ser concebida pelo espírito humano.
  66. A existência de Deus só passa pela nossa cabeça porque Deus se dá a inferir na mente humana. Ele “colocou” em nós a ideia de que há um ser divino, onipotente, eterno e tudo o mais.
  67. O finito vem do infinito. A criatura vem do Criador.
  68. Supondo que Deus não exista, ele ainda existe em minha mente. Ora, mas ele não pode existir na minha mente sem que ele tenha posto sua ideia lá. Portanto, ele existe. Esse é o argumento cartesiano. E ele é circular, inesgotável.
  69. Ao contrário do que se pensava, infinito não é negação do finito como frio é negação do calor, mas o contrário. Se algo é limitado, é porque não tem ser em grau supremo, o que implica parcela de não-ser (potência). Ora, mas se o infinito é ser supremo e o finito é ser com mescla de não-ser, então o limitado é o não-ser do ilimitado. Complicado.
  70. É possível apreender o infinito em sua forma, mas jamais em seu conteúdo.
  71. Importante ressaltar que algumas características divinas apontadas por Descartes não são bíblicas. O Deus, para Descartes, é muito mais um princípio metafísico que faz o raciocínio começar e o mantém em andamento do que um ser, por exemplo, misericordioso, justo… Ou talvez seja, já que, se lhe faltasse essas características, não seria perfeito, certo?
  72. “Mas será que eu próprio não sou esse Deus?”, pergunta Descartes. Ele responde que não, porque, se ele fosse Deus, ele não teria dúvida de nada. Ele nem teria se perguntado tal coisa em primeiro lugar.
  73. Tivemos começo. Não somos eternos. Estamos sujeitos ao tempo.
  74. Nossos pais fizeram nosso corpo, mas o espírito vem de Deus. Erasmo concordaria.
  75. É diferente criar e produzir. Os pais produzem o filho, mas não criaram o ser humano.
  76. Deus não é enganador, porque só engana quem tem carência de algo. Se Deus já tem tudo e de nada precisa, não irá enganar. Se enganasse, seria imperfeito. Ele se aproxima da Bíblia Sagrada dessa forma. Inquisição repelida!
  77. As Meditações são um diário de pensamento de Descartes. Cada meditação é feita e um dia, dedicando um bom tempo à reflexão, eu imagino.
  78. Descartes até agora viu que, partindo do “penso, logo existo” (cogito), é mais fácil conhecer pela mente somente do que pelos sentidos. Tudo o que ele descobriu até agora sobre si próprio e sobre Deus é muito mais seguro do que qualquer coisa que ele aprendeu sensualmente.
  79. Se Deus é perfeito, por que não me fez de um jeito que eu não possa me enganar? Bom, sendo Deus perfeito em todos os sentidos, é natural que as coisas que ele produz sejam menos perfeitas que ele. Não é nenhum atentado à perfeição divina dizer que ele não pode fazer um ser mais perfeito que ele próprio, isso é impossível. Espinoza dirá algo semelhante, ao dizer que Deus não pode aprender nada, uma vez que já sabe tudo o que há para saber. Descartes em particular e nós em geral fomos feitos dentro de uma certa posição na escala de seres, isto é, na ordem cósmica. Tomás, citando o Livro do Salmos, dirá que o ser humano está um pouco abaixo do anjo e acima do animal. Isso explica porque somos passíveis de erros e de engano: fomos feitos inferiores deliberadamente. Por quê? Porque convinha à ordem cósmica que fosse assim. Deus sabe o que faz, não se preocupe.
  80. Sendo eu finito, não posso receber poder divino em grau infinito. O engano é uma condição de carência de certeza, o que só poderia ocorrer numa criatura de entendimento limitado.
  81. Eu cometo erros por não saber aquilo que é necessário saber para determinada tarefa.
  82. Se Deus é perfeito, sempre quererá o melhor e mais vantajoso. Como pode ser vantajoso que eu erre?
  83. O engano é carência de certeza, mas não é carência cognitiva total; alguns erros acontecem porque tomamos algo presente como certo. Ora, mas se há algo presente, não há carência total.
  84. Se Deus é perfeito e infinito, uma mente finita nunca poderá entender algumas ou várias ou todas de suas decisões. De acordo com as Regras, não deveríamos nos empenhar em buscar aquilo que sabemos ser impossível achar, ou seja, não podemos tentar conhecer algo sobre o que nunca haverá certeza (ou, pelo menos, que eu acho que não tenho condições de chegar à certeza no ponto, eu, no ponto).
  85. Seria estranho, para Descartes, dizer que os dentes caninos foram concebidos para furar pedaços de carne. Se Deus é dono de todas as coisas, sendo também infinito, sendo suas razões incompreensíveis pela fraca mente humana, não se pode afirmar com certeza para quê cada coisa na natureza foi concebida.
  86. É útil que eu seja desta forma para a criação inteira, que é “muito boa” (conforme diz o Primeiro Livro de Moisés, chamado Génesis, no verso trinta e um do primeiro capítulo). As obras divinas devem ser consideradas como parte de um todo e não como sendo criaturas isoladas umas das outras. Cada elemento da natureza, inclusive nós, está interligado com os outros, então é errado pensar que a natureza é imperfeita por causa de elementos que, tomados separadamente, se revelam imperfeitos.
  87. Que vantagem poderia haver para a natureza que o ser humano fosse mais inteligente do que já é? Inteligente como é, a natureza já sofre o bastante. Ciência não iguala progresso moral, que é de ordem diferente.
  88. O entendimento tem limites mais rígidos que a vontade. Quando a temos vontade de fazer algo que não entendemos ou não podemos entender, erramos.
  89. Existe diferença entre liberdade de escolha e liberdade de ato. Podemos escolher o que queremos, mas nem sempre como obter o que queremos. Após escolher o que fazer, alcançar o objetivo requer limitar a própria liberdade aos liames do método.
  90. Não se deve se posicionar sobre o que não se entende.
  91. Um defeito só é defeito em certo sentido.
  92. Para minimizar ou mesmo eliminar o engano, as verdades claras e distintas devem ser separadas das que não são claras ou não são distintas. Sobre o incerto, só se pode especular e abandonar qualquer pretensão de certeza.
  93. A insistência cartesiana em mostrar que Deus existe e delinear suas características não parece, para mim, ser uma apologia desesperada para evitar a Inquisição. Mais parece uma preocupação legítima. Afinal, se você não passar pela prova da existência de Deus e pela sua definição, tudo a partir da quarta meditação seria impossível e Descartes só poderia provar unicamente que ele existe e nada além disso. Se dar a todo esse esforço meditativo, que quase faz a pessoa levitar dois centímetros acima do chão, só pra evitar um julgamento da Inquisição me parece ridículo. Afinal, se fosse pra evitar a Inquisição, ele podia ter parado na terceira meditação, pois já teria dado testemunho de sua fé. Se ele continuou é porque houve interesse. Não estou dizendo que o medo da Inquisição não tem seu papel na escrita desse trabalho, mas que não é a única razão. Ele estava juntando o útil (repelir a Inquisição) ao agradável (sanar dúvidas legítimas).
  94. Argumento ontológico.
  95. É possível atribuir existência a algo que não existe. Eu não posso imaginar uma montanha sem vale. Mas e se não existir montanha em lugar nenhum? Só um exemplo.
  96. Diferente de Anselmo, Descartes antes demonstra que deve existir um ser sumamente perfeito antes de concluir que Deus existe porque é perfeito. Afinal, se não fosse possível mostrar que a perfeição em sumo grau existe, não seria tampouco possível demonstrar que Deus existe pelo argumento ontológico. Numa situação assim, eu poderia argumentar que não existe nada de sumamente perfeito em lugar algum.
  97. Kant diz: a existência é uma perfeição exclusiva das coisas objetivas. Se eu concebo em meu espírito uma coisa perfeita, qualquer que ela seja, ela não necessariamente existirá, porque a existência só entra no conceito de qualquer coisa se constatamos que tal coisa existe. Então, eu não posso, mentalmente, atribuir existência à coisa alguma e, consequentemente, perfeição. Kant não necessariamente discorda de Descartes, mas certamente discorda de Anselmo.
  98. Se Deus é perfeito, é eterno.
  99. A geometria aplica seus preceitos às coisas materiais. Isso não quer dizer que as coisas materiais existem, mas que são bem prováveis.
  100. Algo é “possível” se eu a tenho provas de que ela é possível ou se eu não tenho provas de que ela é impossível (nem tampouco provas de que é certa).
  101. Descartes aponta que temos sensações porque há objetos que nos inspiram sensações e porque temos órgãos que interagem com tais objetos.
  102. O corpo afeta o espírito, que sou eu mesmo. Isso não seria possível se o corpo não existisse. Mas não parece haver qualquer relação entre a sensação de estômago vazio e desejo de comer, embora sejam coletivamente chamados “fome”. Descartes ignora a relação existente entre desejo e estado corporal.
  103. Não temos controle sobre que objetos nos suscitaram preferência.
  104. A dor é uma sensação íntima, mas não é segura: pessoas que tiveram membros amputados ainda têm sensações de dor nos membros que não estão mais lá.
  105. É possível sentir coisas que não estão lá, como quando sonhamos.
  106. Descartes não descarta (trocadilho) a possibilidade de que as ideias sensíveis sejam produzidas dentro do próprio espírito.
  107. Eu sou uma coisa que pensa. O corpo não sou eu, mas, se o corpo existe, estou dentro dele.
  108. Se fosse possível separar a alma do corpo, talvez a alma permanecesse, diz Descartes.
  109. O corpo seria inútil sem o espírito.
  110. O fato de termos sensações a despeito de nossa vontade, uma vez que nosso espírito, sendo nós próprios, é totalmente sujeito à nossa vontade, as sensações vêm de fontes externas a nós.
  111. A causa das sensações ou é um corpo ou Deus.
  112. Não é Deus, porque Deus não iria querer se passar por objeto, visto que não é enganador.
  113. O que é incerto ainda pode ser conhecido com certeza, porque o espírito pode corrigir o sentido.
  114. Se a natureza nos ensina algo por meio dos sentidos, então parece que é seguro admitir que existe algo corpóreo fora de nós, feito por Deus. Sendo Deus perfeito…
  115. Alma e corpo não estão totalmente separados. Alma e corpo estão juntos, como Deus quis que estivessem, nosso corpo e nossa razão (se o termo “alma” for indesejado). De fato, somos uma substância pensante dentro de um corpo, mas inseparável dele. Essa separação causaria corrupção, da mesma forma que a corrupção causaria separação. Por isso, coisas que afetam o corpo afetam também o espírito. Se a alma simplesmente estivesse no corpo sem interagir com ele, não sentiria o que ocorre com o corpo.
  116. A natureza é uma só, sempre a mesma. Se nossos sentidos não a percebem como deviam, isso é problema nosso.
  117. O ensinamento da natureza é concernente a como se manter vivo. Não coincide com o entendimento. Isso porque não é imediatamente fundamentado, precisando ser complementado pela razão.
  118. A boa interação entre corpo e natureza requer que ambos estejam em bom estado. Um ser humano doente pode receber mal aquilo que a natureza lhe dá, porque ela o dá tendo em vista um ser humano saudável, o qual não está presente. Da mesma forma, o ser humano busca aquilo de bom que a natureza o dá, mas alguém pode disfarçar algo ruim sob boa aparência.
  119. Na medicina da época de Descartes, os nervos eram vistos como cordas. Em vez de propagar eletricidade, nervos mandavam vibrações do local onde, por exemplo, um estímulo doloroso foi captado para o cérebro, o qual receberia as vibrações em uma parte destinada a receber e interpretar o estímulo como “dor”. Então, o corpo seria uma simples máquina, totalmente explicável por mecanismos análogos (doutrina do mecanicismo). Os sentimentos e as emoções estão no cérebro. Descartes, porém, diz que o corpo humano e a forma como ele se mescla com a alma são complexos demais para ser explicados de modo tão simples. Afinal, máquinas não ficam doentes. Se ocorre um mal-funcionamento da máquina, houve problema em sua confecção ou manutenção. Ora, mas quem projetou o corpo foi Deus. Então, assumir que o corpo humano é somente uma máquina pode se revelar um atentado ao projeto divino.
  120. Os sentidos existem e os sentidos são seguros em relação à biologia, à conservação da vida. Os sentidos enganam na concepção científica, mas isso faz parte da vida. Não é como se não pudéssemos corrigir a informação sensorial através do reto juízo. Aliás, os sentidos não se enganam em nos mostrar as coisas como elas parecem ser, então o engano pode ser de interpretação dessa informação.
  121. A diferença entre sonho e realidade é a memória: a memória não é capaz de juntar os sonhos entre si como o faz com os acontecimentos da vida acordada.
  122. A metafísica tem sua função. Descobrimos algo de que não é possível duvidar e descobrimos que podemos evitar o engano na medida do possível.

17 de março de 2016

Anotações sobre as regras para a condução da inteligência.

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  1. A finalidade dos estudos é preparar o estudante para o julgamento. Assim, nossos estudos devem nos permitir melhorar nosso senso crítico a fim de que possamos fazer bons julgamentos sobre o que quer que seja. Em outras palavras, se estuda pra criar juízo.
  2. É mais fácil ser “o mestre” em alguma coisa se você faz só aquela coisa ou um número limitado de coisas (é pra isso que serve o mestrado). Quem estuda muitos assuntos não é lá muito bom em nenhum deles. Porém, estudando somente um assunto, o indivíduo será fera nesse assunto.
  3. Os períodos cartesianos são imensos. Às vezes parece que ele nunca vai terminar uma frase que começou. Na verdade, nas Meditações Metafísicas, eu vi uma frase que consome um parágrafo inteiro de cerca de dez linhas. Kant faz pior, porque além de fazer frases de dez linhas ele não encerra o parágrafo, deixando o parágrafo rolar com outra frase de umas sete linhas.
  4. Embora seja mais fácil ser “o mestre” através da especialização, ninguém precisa ser obrigado a se especializar. Se alguém pensa que pode ter conhecimento decente de coisas diversas e acha que pode melhor empregar suas perícias dessa forma, ele deve procurar tal conhecimento.
  5. Deveria haver uma ciência da sabedoria, a qual perpassa todas as ciências, mas parece haver interesse somente em estudar suas manifestações particulares.
  6. Convém manter as ciências juntas por algum tipo de elo. A biologia deve falar com a física e com a química, por exemplo, para que tenhamos uma visão orgânica do mundo. O ideal seria que as ciências fossem de tal modo conexas que fosse possível aprender todas. Mas, como todo ideal, só podemos tê-lo como ideia reguladora.
  7. O estudo se mostra mais frutífero se você tem como objetivo o refinamento do julgamento pessoal. É o que venho fazendo desde que comecei essas anotações.
  8. Não se deve estudar algo cuja a verdade indubitável parece fora de nosso alcance. Não se dê ao estudo impossível.
  9. Isso é feito para evitar que tomemos por certo algo que é errado, empobrecendo nosso espírito em vez de enriquecê-lo.
  10. Descartes tinha algum tipo de problema mental, porque tem que ser doente pra rejeitar tudo o que é “provável” a fim de ficar somente com o que não se pode duvidar. De quantas coisas no mundo não se pode duvidar?
  11. Descartes diz que muitas são essas coisas. É só que, como elas são óbvias, deixamos passar despercebidas. Temos muitos conhecimentos seguros, é assim que sobrevivemos. Ainda assim, rejeitar o provável me parece exagero.
  12. É possível que um estudioso de um assunto, reconhecendo estar errado, se convencer de que suas afirmações falsas são verdadeiras.
  13. Se existem opiniões contrárias sobre um mesmo assunto, é porque não há conhecimento seguro sobre esse assunto.
  14. Conhecimento seguro é aritmética e geometria. Formular um conhecimento seguro e universal requer matemática.
  15. O conhecimento que não segue esse método não é completamente condenável, mas serve apenas para o fim que foi concebido.
  16. O debate sobre o provável é coisa de criança, de quem está se iniciando no pensamento. O conhecimento seguro é mais maduro.
  17. É próprio do adulto decidir seus próprios métodos de estudo. Não precisamos aceitar a herança do mestre se ela nos parece falha. Porém, esse é um julgamento que só pode ser feito na maioridade: a criança não deve escolher seus métodos e está filiada ao método do mestre.
  18. Estudar o provável só aumenta o número de dúvidas. Essa rejeição do provável me parece um entrave científico: se rejeitamos o provável como uma empreita desesperada, ele nunca se tornará certo e permanecerá provável. Porém, invocando as palavras ditas anteriormente de que não devemos nos dar ao estudo impossível, me parece que sua rejeição do provável só é válida se entendemos que não temos condições de elevar a questão ao nível de certeza. Quem puder, faça.
  19. Se chegamos a uma conclusão falsa, isso se deve não ao processo dedutivo (que nunca erra em sua aplicação, se o indivíduo for atencioso), mas ao axiomas obtidos pela experiência, que pode ser mal-executada ou interpretada erradamente.
  20. Por isso que Descartes conclui que se deve passar pela matemática para chegar à certeza: a matemática lida com situações abstratas, que independem da experiência. De fato, a matemática pode ter relação com a experiência, mas não necessariamente.
  21. A aritmética e a geometria são modelos de ciência, diz Descartes.
  22. O estudo do passado nos permite usufruir do que os outros já pensaram, a fim de avançarmos mais facilmente em nossas próprias pesquisas.
  23. O problema é que o estudo do passado pode acabar nos fazendo herdar o acidente cometido pelos outros, quando somos convencidos por raciocínios errados. Por isso que eu leio obras filosóficas com olhar crítico, sem a intenção de aceitar tudo o que está escrito como verdade.
  24. Criticar a opinião do outro não basta; se tem também que convencer os que estão neutros para que a doutrina oposta morra por falta de adeptos.
  25. Não é possível ser filósofo ou cientista pela mera memorização. Se o conhecimento matemático que temos não se presta à prática, não somos matemáticos. Se o conhecimento filosófico que temos não se presta à prática (no caso do texto, o refinamento do julgamento), não somos filósofos. E de fato, nenhum filósofo célebre ficou somente na teoria: todos tentaram levar suas teorias às últimas consequências práticas, mesmo que isso significasse somente adotar um estilo de vida ou esclarecer a mente dos outros ou ainda aperfeiçoamento pessoal. Os de maior sucesso são os mais práticos, a ponto de quase nunca serem vistos como filósofos, dado o estereótipo de disciplina teórica que esta tem. Falo de Freud e Marx, por exemplo, que, de tão práticos, são vistos mais como cientistas (um médico e um cientista político) do que filósofos. Toda a filosofia que se preze tem que ter um desdobramento prático.
  26. A intuição (identificação do óbvio) é meio válido de conhecimento. A dedução é a derivação de uma terceira verdade a partir de outras duas verdades, como no silogismo. Mas a intuição é de um vez, não processual.
  27. A intuição é espontânea. A dedução pode ser feita a qualquer ponto.
  28. Procurar a verdade requer não apenas que saibamos o que procuramos, mas que pensemos o caminho até lá.
  29. Encontrar algo por acaso é menos digno de glória do que achar algo por perícia.
  30. Descartes diz: melhor não procurar a verdade do que proculá-la sem método.
  31. Se é melhor ir pra escola, como é que às vezes quem vai pra escola não consegue resolver problemas que um iletrado consegue? Isso porque o método escolar pode acabar prejudicando nossas habilidades naturais. Além do mais, quando se procura algo com o método errado, a chance de se doutrinar no acidente é maior. Se você passa a vida aprendendo algo de forma errada, aceitar o que é certo torna-se mais difícil. Se você aprende algo certo, mas por métodos demasiadamente complexos, aqueles que são mais ingênuos podem inferir verdades mais rapidamente. Isso me lembra do que meu professor de antropologia disse do Lula: “ele era tão bom que se ele tivesse estudado teria se prejudicado.”
  32. Usar métodos muito difíceis para o estudo de determinado objeto nos leva a desperdiçar tempo e energia. O método não deve ser mais complexo do que precisa ser.
  33. Como é que eu vou chegar ao conhecimento de tudo se eu tenho que rejeitar o provável, cara? A menos que seja como eu pensei antes, a saber, se eu acho que posso elevar o provável ao grau de certeza.
  34. É interessante como Descartes faz com a aritmética e com a geometria aquilo que faço com os Evangelhos e com o Apocalipse: aprendendo o mais simples que, convenientemente, é o mais certo, eu posso julgar outros saberes como válidos ou não.
  35. Descartes aponta que os “criadores da filosofia” não admitiam como discípulos pessoas que não soubessem matemática. Deve estar se referindo a Platão e Aristóteles. Não vejo como isso posaria problema para Sócrates, se é que ele existiu.
  36. A disciplina que chamamos “matemática” é o estudo propriamente de um método. As ciências matemáticas são aplicações do método. Qualquer estudante é capaz de dizer o que é matemática e o que não é.
  37. A matemática é mais simples que suas aplicações e pode ser usado da forma como o usuário quiser, a qualquer objeto.
  38. O método deve ser estudado profundamente antes de ser aplicado. Por isso só se aprendem as disciplinas de física, química e biologia no ensino médio, enquanto que matemática é aprendida desde o jardim de infância.
  39. Tudo o que é aprendido deve ser anotado e colocado em um todo orgânico. Não deixe seus conhecimentos separados uns dos outros. Faça relações entre as coisas que você sabe.
  40. Não se deve pular do fácil ao difícil. A subida é gradual.
  41. Para conhecer algumas coisas é necessário ter conhecido outras mais simples antes. Convém organizar os objetos de estudo em escala de simplicidade e estudá-los em ordem ascendente, do mais simples ao mais complicado.
  42. Raramente recorremos ao conhecimento complexo; quanto mais simples a informação, mais recorremos a ela. Então, estudar em ordem de simplicidade é também útil em termos práticos.
  43. Os conhecimentos simples servem como referência na identificação dos mais complexos.
  44. Um mesmo objeto pode se mostrar simples ou complexo dependendo da forma como é estudado. Determinado objeto é estudado com mais dificuldade segundo um referencial químico do que por um referencial biológico, por exemplo, porque o biólogo está interessado nos processos vitais de um animal, enquanto que o químico se interessa por sua constituição material.
  45. Descartes diz: estudar primeiro a causa, depois o efeito. Mas pense comigo: se o efeito é a manifestação da causa, como é que eu vou conhecer a causa sem ela se manifestar? Na minha modesta opinião, não se pode conhecer uma causa antes do efeito, uma vez que é o estudo profundo do efeito que revela sua causa.
  46. É possível conhecer por comparação (semelhança e diferença entre o que já conhecemos e o objeto apreendido).
  47. Depois de um longo caminho de pensamento, chegamos a uma conclusão tão distante da pergunta inicial que muitas vezes esquecemos os detalhes do processo. Isso é perigoso.
  48. Os racionalistas e os empiristas não são distantes e nem completamente opostos. Esses dois usam termos parecidos, afirmam coisas parecidas e ambos parecem usar tanto dedução como indução. O fato é que um coloca peso maior na dedução e o outro coloca um peso maior na indução. Essa dicotomia didática entre racionalismo e empirismo não precisa existir, como se as duas escolas fossem inconciliáveis.
  49. Se algo não foi entendido, não se deve prosseguir antes de entendê-lo. Eu quebro essa regra muitas vezes e deliberadamente quando estudo filosofia.
  50. Os sentidos fornecem informações e a imaginação inventa informações. O entendimento processa informações. Disso Descartes conclui que só o entendimento pode errar, por má interpretação do que os sentidos ou a imaginação mostram.
  51. Insistir em conhecer aquilo que é evidentemente incognoscível é loucura, diz Descartes.
  52. Uma questão fundamental: o que o ser humano pode conhecer?
  53. Antes de fabricar o nosso objeto final, convém fabricar os materiais para fazê-lo. Isso é alegórico.
  54. O que é o conhecimento? Todos os que amam a sabedoria se fazem essa pergunta pelo menos uma vez na vida.
  55. É preciso, diz Descartes, estudar as coisas simples a ponto de elas nos parecerem óbvias.
  56. Não convém recorrer à demonstrações complexas logo que o problema se apresenta.
  57. Para se exercitar, repetir os experimentos feitos por outros. Percorrer os caminhos dos célebres. Isso permite saber o que os outros fizeram e como melhorar.
  58. Um raciocínio sofístico dito a quem usa bem a lógica só engana o próprio sofista, que acha que está enganando alguém.
  59. Descartes diz que o dialético só consegue concluir com silogismo aquilo que ele na verdade já sabia.
  60. A dialética vulgar tem valor ainda assim, porque ajuda a explicar algo pra quem ainda não sabe.
  61. Para resolver uma questão, é necessário ver o que a torna difícil e diferente de outras questões que já resolvemos. Já não resolvemos problema parecido? O que torna este problema diferente?
  62. Quando encontramos um problema, devemos usar tudo o que for necessário para resolvê-lo, sem se escorar em um só método ou numa solução “universal”.
  63. Para conhecer alguma coisa, usamos quatro meios: entendimento, imaginação, sentidos e memória. Temos que usá-los todos na resolução de um problema, mas não a ponto de exaustão (porque Descartes fala contra o esforço desnecessário em outras regras, então “dar tudo de si” é usar os quatro meios, mas não a níveis extremos).
  64. Usar um ou dois ou três desses meios nos leva ao risco de deixar algo passar.
  65. O que podemos conhecer: o que se apresenta espontaneamente, o que se apresenta por meio de outro objeto, as deduções que se faz dessas dois tipos de informação.
  66. “Fantasia” parece ter sentido similar ao de “instinto”.
  67. Sentido: aplicar-se a imaginação ao órgão. Memória: puxar uma imagem mental previamente arquivada. Imaginação: formar ideias novas a partir de conteúdo preexistente na mente. Entendimento: processamento.
  68. Examinar de uma vez vários objetos não provê entendimento sobre cada um em particular. Examinar conjuntos é examinar o que une os elementos do conjunto. Ter acesso ao particular requer exame de um exemplar individual.
  69. Novamente: se não achamos que podemos chegar a um veredito sobre a questão, não devemos avançar nela.
  70. Figura é o limite de um corpo. As figuras são nomeadas segundo a aparência dos limites.
  71. Existem coisas que podem ser conhecidas sem auxílio dos sentidos, como os sentimentos. Não precisamos ver a amizade ou ouvir o amor para conhecê-los, mas apenas senti-los. Mas ter um sentimento, sentir o amor ou a amizade, não é algo que se faz com os sentidos. Então, “sentir amor” é uma expressão equivocada. Melhor seria “ter amor”. Na verdade, talvez até a palavra “sentimento” seja equivocada, mas vamos usá-la por uma questão de comodidade.
  72. Também existem coisas que só podem ser conhecidas pelos sentidos, porque só existem nos corpos: figura e movimento, por exemplo. O espírito não está sujeito a essas coisas. Isso mostra que o racionalista não era nenhum cego voluntário; os racionalistas viam valor nos sentidos e muito valor. Essa dicotomia entre racionalismo e empirismo como coisas inconciliáveis não tem razão de existir e os professores que ensinam as coisas dessa forma estão mentindo.
  73. O conhecimento de alguma coisa revela também seu contrário. Se conheço a luz, conheço por extensão sua ausência: o escuro. Se conheço o som, sei o que é o silêncio: ausência de som. Não me faça falar do bem e do mal.
  74. Se eu digo “não existe verdade” está claro que eu assumo pelo menos uma verdade, que é a que eu anunciei, excluindo-a das outras. Da mesma forma, se Sócrates “duvida de tudo”, ele ainda tem certeza de que duvida. Ele não pode duvidar de que está duvidando.
  75. Descartes diz: se eu existo, Deus também existe. Isso porque só Deus cria. Então, a existência de criaturas supõe Criador.
  76. Não é porque Deus existe que qualquer coisa exista. Nem todas as potências se atualizam.
  77. Toda a afirmação carrega muito de implícito: “triângulo” implica área, figura, três, ângulo…
  78. O sábio faz melhores interpretações daquilo posto pelos sentidos, pela imaginação e pela memória, podendo fazer uso construtivo dessas informações.
  79. O engano é má interpretação dos dados fornecidos pela memória, pela imaginação e pelos sentidos. Estes apenas trazem informações. Quem as processa é o entendimento.
  80. A dedução é o único meio de conhecimento. Mas isso não quer dizer um esforço completamente racional, já que os sentidos são fonte de informação. A dedução é feita entre os meios de obter informação, já expostos.
  81. Existe diferença entre estar sentado e estar de pé. Mas colocar a diferença em palavras nem sempre é fácil.
  82. Para Descartes, todas as coisas são de igual dificuldade de apreensão, pois todas são compostas de elementos “conhecíveis por si”. Eu tenho minhas dúvidas.
  83. Acreditar cegamente no que diz uma autoridade é sinal de baixa auto-estima.
  84. Método analítico: se entendemos alguma coisa, devemos extirpá-la de qualquer conceito desnecessário, reduzindo-a ao nível mais simples possível, para depois dividi-la em suas mínimas partes. Isso torna o estudo do objeto mais fácil.
  85. As controvérsias filosóficas muitas vezes nascem no emprego do vocabulário.
  86. Eu tenho que saber o que é que estou procurando, delineando as características daquilo que eu quero atingir. De outra forma, como eu saberia que achei uma solução “boa” para o problema?
  87. Nem tudo o que ouvimos desde a infância é verdade.
  88. Como explicar cores ao cego de nascença? Mas quem conhece o vermelho, o amarelo e o violeta pode conhecer todas as outras cores por dedução.
  89. Por causa disso, só podemos conhecer algo exterior se vier dos sentidos. Essa é uma das razões pelas quais eu acredito que o poder explicativo da ciência um dia vai se exaurir, porque nossos sentidos são tanto limitados em número como em qualidade.
  90. Não é difícil que o sábio chegue à conclusões que o leigo pode apontar com toda a certeza e propriedade como erradas. É que o sábio, às vezes, perde contato com a realidade e afirma óbvias mentiras.
  91. Se concebemos os números como tendo existência autônoma, podemos chegar a lhos atribuir características mágicas. Da mesma forma, não podemos conceber extensão, altura, largura, linha, superfície como conceitos separados das coisas. A matemática está nas coisas, não fora delas, só fazendo sentido enquanto tem relação com as coisas.
  92. A investigação deve seguir prioridades. Aquilo que requer atenção imediata da mente deve ser tratado em detalhes, mas aquilo que pode esperar pode ser tratado por alto ou brevemente até que torne-se prioridade.
  93. Escreva seu progresso, para que você possa recorrer ao papel caso esqueça alguma coisa. Deixe sua mente se preocupar com o presente apenas, enquanto o papel guarda o passado.
  94. As anotações devem ser concisas, curtas, claras, para que também não se tenha que gastar muito tempo lendo para chegar à informação desejada.
  95. Use abreviações se achar interessante. Em vez de dizer “o quadrado do número desconhecido deve ser dobrado”, diga “2X²”.
  96. Existem dados conhecidos e dados desconhecidos. Se houver relações entre esses dados, é possível conhecer o desconhecido conhecendo que relações tem com o conhecido.
  97. Se algo puder ser resolvido com as quatro operações, não é necessário complicar mais as coisas.
  98. “A multiplicidade de regras […] provém da incompetência de um Mestre […].” Válido também em jogos de interpretação.
  99. Para Descartes, a divisão é preferível à multiplicação como meio de resolução de problemas.
  100. Se possível, coloque todos os dados disponíveis em forma de expressão numérica.

11 de março de 2016

Anotações sobre o novum organum.

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  1. A natureza nunca é um assunto que se acaba. Ela sempre pode ser objeto de estudo.
  2. Se você acha que não existe verdade absoluta sobre algo, ninguém pode lhe culpar: a multidão de respostas “certas” nos leva a um ceticismo. Porém, o Ensaio diz que isso não impede alguém de ficar com a afirmativa mais provável.
  3. Não raro, o único jeito de saber se algo pode ou não ser conhecido é tentando conhecê-lo. Então, se você acha que a metafísica é uma grande loucura, ela ainda é uma tentativa sincera de conhecer algo que você acha que não pode ser conhecido. Mas será que você se deu ao devido trabalho de conhecer essas coisas? Se pensar que é impossível a ponto de não tentar, você está errado.
  4. Não é possível ser original sem conhecer o passado. Desconhecendo os pensadores antigos, tanto se pode incorrer no ridículo de se achar original por ter pensado algo que alguém já pensou quanto se pode incorrer no ridículo de cometer um acidente que já foi cometido pela tradição (por vezes até já resolvido).
  5. O método de cultivo da ciência pode ser diferente do método para fazer descobertas.
  6. A mão e o intelecto precisam de ação coordenada.
  7. Saber é poder.
  8. O ser humano pode manipular a natureza brincando com seus elementos, mas ele é incapaz de adicionar algo novo a ela.
  9. O que é impossível até o ponto continuará sendo impossível, a menos que se tente de um jeito que ainda ninguém tentou.
  10. Muita ciência atual é combinatória: juntam-se duas ou mais descobertas anteriores.
  11. É necessário reconhecer que a mente humana é limitada, que ela precisa de auxílio.
  12. A natureza é demais para nosso raciocínio e nosso intelecto. Nunca saberemos tudo.
  13. Antes de avançar cientificamente, é necessário que nossa lógica avance.
  14. Os conceitos que usamos precisam ser devidamente definidos.
  15. O conhecimento imediato precisa ser devidamente filtrado e corrigido, em vez de tomado imediatamente como axioma.
  16. O debate dialético é conceitual. Não substitui a demonstração empírica.
  17. O debate dialético só convém fora das ciências naturais e exatas. Ele é próprio das humanidades.
  18. Para Bacon, o avanço científico só pode ser significativo se ocorrer uma mudança nos fundamentos da ciência, naquilo é atualmente tido por certo. Thomas chamará isso de “mudança de paradigma”, em sua Estrutura das Revoluções Científicas.
  19. É um tanto improdutivo comparar métodos sem discorrer qual é o que melhor funciona pra compreender as coisas. De que adianta conhecer e comparar os métodos se você dirá que são todos igualmente válidos no fim das contas? Um tem que ser melhor, mesmo que particularmente. O método certo pra situação certa.
  20. O conhecimento do novo se dá pela comparação com o velho, diz Bacon.
  21. O método de Bacon parte do particular. Verificando a regularidade dos fenômenos, é possível chegar a compreendê-los por uma regra geral. A regra é tanto mais segura quanto mais fenômenos particulares forem observados. Isso não é novidade; Aristóteles já fazia isso. Hoje, esse método é prática padrão na ciência: não é possível fazer ciência sem indução. É possível também incorporar dedução, quando se quer partir da regra geral para a realidade, a fim de prever fenômenos, mas a indução entra em algum ponto.
  22. É possível conhecer as coisas. Mas o quanto conhecemos delas depende da validade dos nossos métodos.
  23. Os preconceitos da mente humana podem, segundo Bacon, ser eliminados pela observação da natureza e dos casos particulares. Se ele tiver uma noção errada da realidade, uma demonstração de que as coisas não são como ele pensa pode conduzi-lo à razão. Se ele acha que todos os cisnes são brancos, mostre pra ele cem cisnes negros. Não é possível que ele continue pensando do jeito que pensava.
  24. Os ídolos da tribo são referentes à espécie humana. É o preconceito de tomar algo que é particular a você como regra geral. Isso porque nossos sentidos não captam a realidade como ela é realmente. O nosso mundo é o que percebemos dele e precisamos ter a maturidade de saber que os fenômenos que captamos são todos aparentes.
  25. Os ídolos da caverna são referentes à cultura recebida. É o preconceito de interpretar algo segundo a educação que tivemos. Exemplo: se fui educado numa família tradicional católica severa, então terei uma ideia totalmente diferente do ateu acerca dos homossexuais.
  26. Os ídolos do fórum são referentes ao discurso. As próprias definições das palavras, o arranjo delas, a mentira deliberada se mostram como graves entraves à mente. No exemplo dos cisnes brancos, se eu mostrasse cem cisnes negros ao indivíduo que tem para si que cisne é sempre ave branca, o ouvinte provavelmente pensaria que os cem cisnes negros não são cisnes (pois a definição de “cisne” inclui branco).
  27. Os ídolos do teatro são referentes ao próprio conhecimento. Quando algum filósofo ou cientista produz algo grande e aceito por todos, discordar dele torna-se difícil, mesmo quando ele está errado. Aristóteles foi talvez a mais célebre causa desse tipo de ídolo: por anos, acreditou-se que Aristóteles sabia tudo o que havia para saber e, por séculos, sua doutrina ficou intocada em um pedestal dourado. Aí, veio Galileu.
  28. Coisas parecidas não são idênticas.
  29. A mente humana tem fome de perfeições. Hoje nem tanto, mas antigamente muito incomodava argumentar que os planetas movem-se em rota elíptica e não “perfeitamente” circular. A mente gosta de círculos, números redondos, além dos números dos números 3, 4 e 7, de triângulos equiláteros, quadrados perfeitos, de um tipo de “elegância”. Mas a perfeição desejada pela mente, que tanto a conforta, não existe na natureza.
  30. Se o acidente agrada, tudo é feito para perpetuar o acidente.
  31. Quando algo grande acontece subitamente, começamos a fazer suposições. Sem o devido treinamento, esquecemos todos os métodos e perdemos a linha que separa ciência e imaginação.
  32. A causa final de algo é subjetiva, não natural.
  33. O intelecto humano tem pressa: quer saber as causas do que é universal sem conhecer as causas do que é secundário.
  34. Em geral, confundimos verdade com preferência pessoal.
  35. A pesquisa é afetada pelos sentimentos do pesquisador.
  36. Os sentidos enganam. Os instrumentos para ampliar o alcance dos sentidos não garantem certeza.
  37. É preciso entender os fenômenos (matéria e movimento). As ideias (coisas em si) não podem ser conhecidas. Se você pensava que Kant ou David tinham inventado isso, bom, não foi, mas Bacon. A diferença talvez seja que Kant diz que a coisa em si, embora existente, não pode ser conhecida, enquanto que Bacon diz que ela não pode ser conhecida porque é uma “fantasia”.
  38. É uma tentação comum submeter a ciência aos assuntos que lhe são caros. Assim, Aristóteles submete toda a sua filosofia natural à lógica.
  39. Existem aqueles que são melhores em perceber semelhanças e aqueles que são melhores em perceber diferenças.
  40. Não se pode se preocupar demais com os elementos da natureza a ponto de negligenciar a estrutura que os une.
  41. Ao conhecer algo, é preciso alternar os momentos de análise dos elementos e análise da estrutura.
  42. Bacon parece querer que a experiência científica seja “pura”, mas isso é aparente. Na verdade, podemos purificá-la até certo ponto.
  43. A crença comum é de que o intelecto domina as palavras. Mas o uso constante das palavras subjuga o raciocínio à linguagem.
  44. Exemplo: às vezes nomeamos e definimos o que não existe e aí uma noção vazia de sentido entra no raciocínio. Outro: às vezes nos apressamos ao definir algo e o fazemos erradamente.
  45. Para Bacon, o primeiro motor não existe.
  46. Uma mesma palavra pode ser tomada em diversos sentidos. Essa ambiguidade afeta o raciocínio.
  47. Existem três tipos de filosofias erradas, diz Bacon: a sofística (puramente discursiva e conceitual, mas não empírica), a empírica (que pretende interpretar o universo partindo de um número limitado de exemplos) e a supersticiosa (que mistura filosofia e fé).
  48. A filosofia aristotélica, diz Bacon, é do gênero sofístico: subjugando o mundo à lógica, Aristóteles reduziu a natureza à palavras, ao nível conceitual, interpretando-a dentro desses conceitos e entendendo-a comparando conceitos. Isso é incompleto e torna-se errado quando a coisa contradiz o conceito.
  49. A filosofia aristotélica faz experiências condicionadas pela lógica, interpretando resultados segundo a lógica axiomática. A escolástica nem isso faz: ela não experimenta nada.
  50. A alquimia pretende extrair regras gerais de pouquíssimos exemplos. Até um leigo discordaria dos resultados com muita razão.
  51. Os pitagóricos e os platônicos são exemplos dos supersticiosos. Bacon também fala de algumas pessoas que tentaram, a partir do primeiro capítulo do Génesis, construir uma filosofia natural e bíblica. Mas isso não apenas causa absurdos filosóficos como também heresias. Então, misturar fé e filosofia é, diz Bacon, ruim tanto para a filosofia quanto para a fé.
  52. A filosofia natural gosta de imaginar que existem elementos que concorrem entre si na composição da matéria e também que existem seres ideais latentes na natureza, dos quais vêm os seres particulares. Bacon diz que essas coisas não existem.
  53. Em polêmica com Tomás, Bacon diz que os movimentos violentos também são naturais.
  54. Bacon é pragmático: mesmo que algo seja verdade, será que serve pra melhorar nossa vida?
  55. Quando você diz para si próprio que não existe verdade, seu interesse pelo conhecimento torna-se débil. Se não há verdade sobre nada, mas apenas provável, eu não preciso de conhecimento preciso sobre nada e eu posso tomar qualquer interpretação de mundo que me agrade, já que não existe certo ou errado, mas apenas provável. Mesmo que as chances não sejam iguais, há chance de eu estar certo, tal como há chance dos outros estarem errados. Que importa o estudo da natureza, ou do que quer que seja, então? Se não há esperança de conclusão, não há necessidade de esforço nessa direção.
  56. Não poder conhecer tudo não é desculpa para não estudar. O fato de nossa mente ser limitada não nos escusa de procurar auxílios para superar seus limites.
  57. Bacon quer que nossa mente se livre de todos os ídolos, dos preconceitos, antes de se dar à pesquisa científica. Hoje, isso é tido por ingênuo.
  58. Não vamos tirar conclusões precipitadas sobre os resultados da pesquisa.
  59. Para Bacon, a ciência de sua época era pouco rigorosa. Os cientistas eram como crianças brincando.
  60. No primeiro dia, Deus fez a luz. Antes de começar o experimento, vamos nos certificar de prepará-lo pra dar certo, escolhendo os axiomas corretos de antemão. Devemos usar os axiomas que “trazem luz”, ou seja, que nos permitem entender melhor o processo e os resultados. Não devemos simplesmente escolher o axioma que parece mais “frutífero”.
  61. Diz Bacon que Platão e Aristóteles eram tão sofistas como os sofistas. Não me surpreende que alguém pense dessa forma, mas me surpreende que alguém o diga explicitamente.
  62. Para Bacon, os pré-socráticos são superiores aos filósofos gregos posteriores, porque não eram dados à discussão. Se pré-socráticos tivessem se voltado para argumentações com seus contemporâneos, não teriam se voltado para a experiência e para a investigação da verdade com tanto afinco. No caso de Platão e Aristóteles, havia um aspecto de disputa em suas filosofias. Os socráticos não estavam completamente voltados para a verdade, mas também voltados em combater os sofistas, alimentando um debate, segundo Bacon, sem sentido.
  63. Se deve fazer ciência sem se preocupar com o que os outros vão pensar dos resultados. Não se deve almejar discípulos.
  64. A filosofia não pode ser só palavra, tem que também ser ação.
  65. Os gregos não tinham um bom conhecimento histórico ou geográfico. A mitologia grega trabalhava para que o grego ficasse confinado em um espaço e em um tempo específicos.
  66. Se os gregos tivessem viajado mais, talvez sua ciência fosse ainda mais grandiosa.
  67. O efeito é conhecido antes da causa.
  68. Descobrir por acaso não é algo digno de glória.
  69. Bacon era pragmático antes da escola pragmática: um sistema filosófico ou científico deve ser avaliado pelos seus resultados. Se produzem algo bom, são válidos. Se não produzem nada, são inúteis. Se produzem apenas contenda e discussão vazia, são perniciosos.
  70. Para Bacon, não se deve ter a pretensão de elevar seu próprio entendimento ao nível universal: seu eu não consigo entender alguma coisa, não necessariamente ela é incognoscível.
  71. Se a filosofia fosse rigorosa, não haveria tantas escolas filosóficas pensando de forma tão diferente. O rigor metodológico aproxima os pesquisadores e harmoniza as conclusões. Então, constantes dissenções são sintoma de falta de rigor metodológico: se cada um tem seu método, claro que cada um chegará a uma conclusão diferente.
  72. O pensamento aristotélico foi tão bem feito que as filosofias anteriores perderam muita popularidade ou desapareceram. E mais: não se encontrou nenhum sistema filosófico melhor que o dele por séculos.
  73. Mas Bacon discorda: as filosofias anteriores a Aristóteles não desapareceram e os que dizem que não existiu coisa melhor que Aristóteles por séculos são justamente os doutrinados em Aristóteles!
  74. Consenso não significa verdade.
  75. Quando o povo te aplaude, pergunte se também não tem alguma reclamação.
  76. Quando uma ciência se desgarra da filosofia, pode ser utilizada para fins imediatos, porém não pode mais crescer (porque depende da filosofia a crítica aos métodos).
  77. O tempo da filosofia natural foi curtíssimo. Quando veio Sócrates, não se falou mais no assunto por um bom tempo. Até Bacon, maior parte do tempo da evolução filosófica foi consumido em filosofia moral e teologia.
  78. A filosofia natural era tida como caminho e não como ponto de chegada. Ninguém se dedicava a ela de todo coração.
  79. Estudar a natureza é sempre algo fecundo em resultados, enquanto que estudar algo fora dela é fecundo em discrepâncias.
  80. O objetivo da ciência é facilitar a vida das pessoas. O pouco progresso científico dos tempos de Bacon é consequência de muitos fazerem ciência por outras razões, visando nada além de lucro e fama.
  81. É necessário ter em vista o objetivo da prática científica. Fazê-lo “por fazer” causa resultados monstruosos.
  82. O método mais comum de fazer ciência, na época de Bacon, era consultar a opinião dos outros e adicionar a sua à reflexão coletiva. Parece monografia.
  83. O método tem que ser decidido antes de tudo.
  84. É vaidade achar que experiência empírica diminui a majestade da mente.
  85. A Antiguidade não é madura nem realmente “antiga”. Se ela é um estado anterior da humanidade, ela é a infância. Se ela é infantil, persistir nos seus métodos e resultados de pesquisa é ser imaturo.
  86. Muitas coisas que eram topo de linha na época de Bacon, como a panificação e os relógios, são baseadas em axiomas simples obtidos pela filosofia natural. Se a ciência tivesse progredido na busca do conhecimento da natureza como Bacon queria que fosse, com o mesmo interesse que se tinha antes de Sócrates, imagine quantas coisas impressionantes teríamos hoje!
  87. Numa biblioteca, muitos autores dizem as mesmas coisas. Se o gênero humano fosse mais original, os livros talvez seriam mais variados. É interessante como esse é o processo acadêmico até hoje. Antes do doutorado, você é mesmo estimulado a apenas explicar melhor o que já foi dito por alguém. Toda a sua produção, dos artigos científicos à monografia e à dissertação de mestrado, é repetido.
  88. O alquimista, quando falha em um experimento, se culpa de não ter entendido o que seu mestre quis dizer. Não passa pela cabeça dele que seus livros podem estar errados.
  89. Um modesto herói real é melhor que um grande herói de ficção.
  90. Se uma ciência julga a si mesma, provavelmente nunca será condenada. O julgamento de um estudo precisa vir de fora.
  91. É uma vã glória pensar que já se sabe tudo o que há para saber. Isso estanca o progresso científico.
  92. O mesmo fenômeno pode se manifestar em diferentes objetos. Estudar um fenômeno em apenas um objeto é muito restrito.
  93. Não tem nada de grandioso em arranjar a invenção de alguém.
  94. A ciência deve prescindir da religião. Isso não significa que o pesquisador não possa ser religioso, mas que os métodos não devem se misturar. A religião não deveria censurar resultados ou pesquisas.
  95. Levar a filosofia para dentro da religião é torná-la dogmática, diz Bacon. Particularmente, não creio que seja errado usar a filosofia para melhor explicar a fé e também não vejo nada de errado em avaliar a filosofia segundo a fé. Mas o problema que Bacon tem com isso é que os escolásticos, fazendo justamente isso, repeliram e exterminaram as filosofias que não eram apoiadas pela fé atual. Bacon não é contra a religião, mas é contra a mistura entre a religião, que é imutável, e o conhecimento secular, que precisa mudar para progredir. A fé já é perfeita, o conhecimento secular precisa progredir. Levá-lo a um âmbito imutável é negar seu progresso.
  96. Dizer que penetrar nos mistérios da natureza é como invadir o território divino é como tentar agradar Deus pela mentira. Porque a natureza foi dada a nós.
  97. As Escrituras revelam a vontade divina. O estudo da natureza revela os meios que Deus usa para realizar sua vontade. Para Bacon, o estudo da natureza apenas aumentaria a fé do crente.
  98. O estudo universitário acaba sendo disciplinador demais. O estudante é condicionado a pensar de um só modo.
  99. Tentar ser original no meio acadêmico é difícil, porque você terá pouco apoio. Parece minha faculdade.
  100. É difícil uma invenção nova ser recompensada pelo Estado ou pela população.
  101. Se pensamos que algo é impossível, não tentaremos em primeiro lugar, mesmo que estejamos errado e seja possível na verdade.
  102. Se encontramos erros no nosso antigo proceder, isso é fonte de esperança de um melhor proceder: identificar os erros é o primeiro passo para consertá-los.
  103. Os empiristas são como formigas: acumulam recursos para usá-los. Os racionalistas são como aranhas: extraem de si o que precisam. O meio-termo é a abelha: recolhe recursos de fora, mas não os usa sem antes digeri-los.
  104. A melhor ciência é feita combinando experiência e razão. Não apenas uma das duas.
  105. Até Bacon, a filosofia natural não era pura, mas sempre teve mistura de algum outro saber.
  106. Para Bacon, nenhum objeto ou fenômeno foi corretamente estudado pela filosofia natural.
  107. A história natural é a descrição dos fatos. A filosofia natural é sua recontextualização e reflexão.
  108. Aliada à pesquisa deve estar a escrita: os resultados da meditação e o que está guardado na memória devem ser anotados.
  109. O percurso científico antes de Bacon era: saltar dos particulares à causa primeira e da causa primeira para as causas intermediárias. Mas Bacon diz que é mais seguro ascender nas causas intermediárias, a partir dos casos particulares, até chegar à causa primeira.
  110. As causas primeiras são especulativas. Trabalhar sobre as causas intermediárias é mais seguro. Isso parece estar por trás da ciência atual, que não admite nenhum efeito sem causa. Óbvio: se ela chamasse algo de “causa primeira”, a pesquisa acabaria e ela se privaria de uma possibilidade de progresso.
  111. A indução de Bacon é diferente da Aristóteles, o qual salta do particular para o geral e depois fundamenta o intermediário com base no geral. Bacon quer ascensão regular e gradual.
  112. Quanto mais casos particulares observados, melhor será a lei que se fizer sobre determinado fenômeno. Não se pode pretender fazer uma lei com um ou dois exemplos.
  113. As invenções requereram habilidades de animal para a constituição de seus alicerces (intuição, por exemplo). O ser humano tem habilidades mais elevadas que essas e que está deixando de usar.
  114. O impossível ontem pode ser possível hoje.
  115. Em geral, procedemos ao futuro com uma bagagem de experiência passada. Mas as grandes invenções nada parecem com o que se tinha antes delas. Por isso são feitas por acaso. Fazer grandes invenções sem recorrer ao acaso requer desprendimento dos conceitos das invenções anteriores.
  116. Se gasta muito dinheiro, tempo e pesquisa na concepção de invenções inúteis.
  117. Se gasta muito tempo pensando e pouco tempo fazendo.
  118. Ao trabalhar em grupo, mesmo que todos queiram o mesmo objetivo, cada um deve ter um papel próprio no alcance desse objetivo.
  119. Não tentar é pior que falhar. Não tentando, se arrisca perder o benefício de conseguir. Falhando, se perde apenas esforço.
  120. A estratégia do livro é atacar e mostrar que os meios de fazer ciência atualmente são falsos, para só depois mostrar o que pode ser instaurado de novo. Afinal, instaurar a novidade logo de cara é mais difícil, porque já há um método como aceito.
  121. Um dos objetivos de Bacon: dominar a natureza e dar a ela uso útil aos humanos. Todos sabemos no que deu essa obsessão.
  122. Ter em vista o ponto de chegada nos permite corrigir o caminho.
  123. É estranho que estudamos as coisas que são insólitas e que raramente ocorrem, mas deixemos de lado o estudo das coisas que ocorrem cotidianamente. Na época de Bacon, se davam por garantidos os fenômenos comuns (rotação dos corpos celestes, causas do calor e do frio e coisas que tais).
  124. Parece que só se estuda com afinco e dedicação aquilo que é raro. As coisas comuns são estudadas superficialmente.
  125. A ciência deve pesquisar também o que é nojento e nada nobre, tipo fezes e cadáveres. Também há conhecimento no estudo dessas coisas.
  126. Os experimentos que não visam frutos, mas apenas esclarecer certas coisas obscuras, também são válidos, porque os experimentos que visam objetivos concretos dependem de axiomas claros.
  127. Tal como o rei que não lida com pequenas causas dos súditos não pode estar apto para resolver as grandes causas, aquele que não estuda primeiro os assuntos simples não tem como entender os complexos.
  128. Bacon estava fazendo o que todo aluno do primeiro semestre da faculdade de filosofia gostaria de fazer: instaurar algo novo sem recorrer à autoridade dos antigos.
  129. É presunçoso dizer que a metafísica é uma ciência das coisas divinas. A única coisa divina que o ser humano pode conhecer, diz Bacon, é a natureza, que é obra divina. Tentar elevar-se além da natureza é transformar sua sabedoria em loucura.
  130. A filosofia que Bacon almeja é de código aberto: não se deve apresentar somente o produto, mas também o processo.
  131. O que Bacon está dizendo vale para todas as ciências e para a filosofia. Ele não está se dirigindo a um ramo específico do saber.
  132. Enquanto que as conquistas civis e legais afetam comunidades por todo um período histórico, as conquistas tecnológicas afetam o mundo inteiro para sempre.
  133. Deus oculta certas coisas para que nós as achemos, diz Bacon, baseando-se no dizer de Salomão.
  134. O homem civilizado pode ser tido por um deus para os povos menos civilizados.
  135. Essa “civilidade” está atada ao nível tecnológico. O que para nós é mecânica, é magia para povos mais bárbaros.
  136. A tecnologia exerce mais influência sobre o andar da história humana do que qualquer outra coisa neste mundo.
  137. Qualquer tecnologia pode ter seu propósito pervertido. Mas isso não torna maléfica a tecnologia; maléficos são os que a pervertem. Amo o exemplo da Internet: serviço de boa natureza, mas frequentemente usado por pessoas de má índole.
  138. O verdadeiro saber é o conhecimento das causas.
  139. A causa final é perniciosa para a ciência, mas não para os atos civis. Se queremos fazer uma ciência “imparcial”, temos que assumir que as coisas na natureza não foram feitas para nenhum fim particular e que esse fim é dado por nós.
  140. Para Bacon, a essência, ou forma, é inatingível. Kant dirá o mesmo. Apesar de que a forma aristotélica é somente o que a coisa é, uma definição. Não é que a essência das coisas mude, mas nossas definições podem mudar, caso nosso atual conceito não se adapte bem à forma. Ou talvez Bacon esteja dizendo que definição, se não necessariamente coincide com a forma, não deve nunca ser tomada como sendo algo eterno. Imagino que também definições fechadas estancam o progresso científico.
  141. A pesquisa das causas materiais e das eficientes são superficiais, diz Bacon.
  142. Quem conhece a causa de alguma coisa somente enquanto afeta certos corpos, não conhece perfeitamente a causa sobre a qual discorre. Ele tem poder limitado sobre o fenômeno.
  143. “Forma”, segundo Bacon, deve ser redefinido como “lei que rege um fenômeno”. Ele não usa o termo “forma” como Aristóteles usa.
  144. Quem conhece as formas (leis) dos fenômenos pode ser original em relação àquele fenômeno. Conhecendo como ele funciona, posso manipulá-lo como eu desejar.
  145. Para Bacon, produzir ouro em laboratório apenas requer que você dê a determinado corpo as características do ouro. Se você for capaz de tingir algo de amarelo, afetar permanentemente seu ponto de fusão e de condensação e coisas que tais, seria possível produzir ouro por vias não naturais. Isso me soa muito ingênuo.
  146. Bacon não compra o átomo de Demócrito. Ele quer partículas “verdadeiras”, não especulativas.
  147. Aristóteles pensava que a filosofia da natureza se tornaria precária se incorporasse a matemática como método, mas Bacon é totalmente a favor do uso da matemática na investigação da natureza. Foi o que Newton fez, transformando a filosofia da natureza na física moderna. Antes, a matemática era aplicada apenas a certas áreas do estudo da natureza (como a astronomia).
  148. Para Bacon, a metafísica é a investigação das formas (princípios e leis dos fenômenos). Já a física é o estudo do fenômeno como ele aparece. Então, a física é o estudo daquilo que está ocorrendo, enquanto que a metafísica procura saber em que condições ele ocorre.
  149. A metafísica incorpora a magia (que não é ocultismo, pois Bacon dará um novo uso à palavra magia, que deixará de estar ligada ao sobrenatural), tal como a física incorpora a mecânica. Parece vir daqui a clássica definição de filosofia como “estudo do porquê” e da ciência como “estudo do como”.
  150. A ciência é uma via de mão dupla: dos experimentos feitos ao axioma, do axioma aos novos experimentos.
  151. O primeiro sentido (do experimento ao axioma) requer experiência sensorial, memória e raciocínio, este último para determinar o axioma dos múltiplos experimentos particulares.
  152. Antes de decidir sobre a natureza do calor, por exemplo, devemos anotar em que situações o calor ocorre. Devemos anotar tantas situações quanto acharmos necessário, imagino que para ver o que há de comum nelas.
  153. É necessário verificar se situações opostas cessam o fenômeno. Se pensamos que o dia é situação propícia ao calor, devemos pensar se, por um acaso, ele não ocorre à noite.
  154. Existem fenômenos que só podem ocorrer em ambiente controlado.
  155. Os dados científicos da época eram muito limitados mesmo, conforme se vê nas tábuas.
  156. Depois de verificar em que situações o fenômeno ocorre e em que situações opostas ele não ocorre, devemos ver que situações aumentam ou diminuem o fenômeno.
  157. Embora fale muito contra Aristóteles, se vê que a ciência de Bacon retém muitos elementos aristotélicos. Ele não rejeita tudo que Aristóteles disse (nem poderia, porque isso é imprudente). Exemplo, se o Sol está na perpendicular, é mais quente. Ora, mas se o Sol se encontra sob Câncer, mesmo perpendicular, não aquece tanto assim (diz Bacon). Isso equivale dizer que causas concorrentes afetam o efeito. Isso é Aristóteles, perpetuado em Tomás de Aquino. É ingênuo pensar que um filósofo que critica outro completamente abandona esse outro, especialmente se o reconhece como tendo razão. E Bacon jamais pensaria que Aristóteles estaria errado nesse ponto.
  158. Bacon admite que a história natural de sua época era muito pobre. Então duvidar dela era muito lícito.
  159. O que diz uma autoridade científica só vale se um experimento provar que é daquela forma.
  160. Enquanto a forma do fogo, em Aristóteles, é sua definição, Bacon define a forma do fogo como seu comportamento.
  161. A pesquisa científica, depois da preparação preliminar sobre a forma do fenômeno, segue um itinerário de teste dessa forma.
  162. Instância migrante: submissa à contingência.
  163. A prática de fazer castelos de bolha de sabão é mais velha do que eu pensava.
  164. Aquilo que imprime intenso afeto é mais fácil de ser lembrado.
  165. Existem semelhanças entre certos corpos inanimados e os órgãos dos sentidos.
  166. Para Bacon, a ciência é mais produtiva se prestar mais atenção nas semelhanças que há entre as coisas, em vez das diferenças. Porém, ele ressalta que devem ser semelhanças reais, apontando como exemplo de semelhanças imaginárias as que foram inventadas pelos magos (o termo utilizado para essas semelhanças mágicas era “simpatia”).
  167. As exceções têm o poder de nos tirar do hábito cotidiano de interpretar tudo da mesma forma.
  168. Se a natureza não opera segundo causas finais, é errado chamar qualquer fenômeno de “desviante”. Mas Bacon, que diz que as causas finais são coisa da nossa cabeça, admite que a natureza às vezes se desvia de seu curso. Como pode algo ter um curso e ainda mais se desviar desse curso sem assumir causa final?
  169. Este livro é uma decepção.
  170. Bacon sustenta que é mais fácil a variação de exemplares de espécies já existentes do que o aparecimento de espécies totalmente novas. Se ele tivesse insistido nesse ponto, talvez tivesse chegado a uma teoria de seleção natural.
  171. Parece que a contradição que apontei acima é aparente: Bacon diz que é possível que o ser humano repare um desvio da natureza pela arte (técnica), o que implica que o funcionamento normal da natureza é, de fato, estipulado por nós e que a próprio natureza não reconhece sua operação como normal ou anormal.
  172. Não devemos pensar que não podemos fazer melhor que aqueles que são autoridade no assunto. Se pensarmos assim, apenas repetimos um procedimento consagrado, sem tentar superar suas limitações.
  173. Uvas próximas do fogo amadurecem mais rápido. O artifício humano pode apressar processos naturais.
  174. Aristóteles afirmava que a proximidade do calor era causa de geração dos seres vivos, mas que o distanciamento do calor causa corrupção. Bacon diz, porém, que a proximidade e o distanciamento do calor podem ser causa de geração ou de corrupção dependendo do ser vivo sobre o qual o calor incide.
  175. Embora o método de Bacon pareça bom, ele ainda não havia sido usado em escala larga o bastante para desmentir os axiomas falsos da ciência que se tinha até então.
  176. Para Bacon, a saída do espírito corrompe as coisas. Se o espírito se desliga completamente da pessoa, ela morre. Porém, o espírito não pode estar plenamente em um corpo, porque isso o derreteria.
  177. A ciência da época de Bacon era tão mística que chega a soar grande loucura. Porém, me pergunto se a ciência moderna não será loucura no futuro.
  178. Nada vem do nada nem vai ao nada.
  179. O experimento não pode ter tanta intensidade a ponto de danificar o objeto de estudo.
  180. O experimento não pode ser feito de tal forma que substâncias ou fenômenos imprevistos afetem o objeto.
  181. Não é possível ver sem luz, diz Bacon.
  182. Não somos a medida das coisas, diz Bacon, mas o universo. Usar o universo como medida requer a prática da filosofia.
  183. Fenômenos de igual natureza se consomem. O calor mais forte consome o mais fraco, o som mais alto abafa o mais baixo, o fedor mais intenso torna o mais brando imperceptível.
  184. O conhecimento começa nos sentidos.
  185. As cirurgias de catarata naquele tempo eram tensas.
  186. Os fenômenos ocorrem no tempo e no espaço, percorrendo instantes. A propagação do som é gradual, objetos muito rápidos não são vistos.
  187. Estar impregnado de um fenômeno oposto lhe dá resistência a determinado fenômeno. Em invernos rigorosos, as crianças da época de Bacon brincavam de lavar as mãos no fogo e o faziam sem se queimarem.
  188. O céu que vemos é aparente. A luz da estrela que se extinguiu ainda viaja e só sabemos que ela não está mais lá depois que sua luz cessa de viajar. Muitas estrelas que vemos na verdade não existem. Bacon tinha suas dúvidas quanto a isso.
  189. Na verdade, Bacon nega isso.
  190. A luz se move mais rápido que o do som.
  191. Para Galileu, o fluxo e o refluxo do mar se origina do giro da Terra. Quando você faz um movimento giratório com seu braço num tanque, a água no tanque move de acordo. Eu tenho minhas dúvidas, contudo.
  192. Bacon não tinha certeza sobre o giro da Terra.
  193. Agitação conserva: o rio não se corrompe facilmente por causa do movimento da correnteza, o ar se conserva puro se permanecer circulando…
  194. Bacon menciona medicamentos que, por semelhança substancial, provocam a expulsão de humores excessivos do doente. Homeopatia?
  195. Os sons se propagam mesmo depois de cessada a fonte do som.
  196. Deste livro só se aproveita a primeira metade, a menos que você seja historiador da ciência.
  197. Para Bacon, repouso também é movimento, em certo sentido.
  198. Bacon diz que existem corpos que tendem naturalmente ao movimento e outros que naturalmente tendem ao repouso, polemizando com Aristóteles, o qual diz que todo corpo tende ao repouso (exceto o Primeiro Motor) e precisa herdar seu movimento de um corpo já em movimento. Por isso o Primeiro Motor sustenta o universo, uma vez que, cessado seu movimento, cessa-se o movimento do universo inteiro.
  199. Toda matéria tem seu limite.
  200. A violência está em poder humano. Isto é, o ser humano pode manipular um fenômeno para longe de suas condições naturais.
  201. O propósito no livro é falar de lógica (método) e não de filosofia (conteúdo). Se ele tivesse dito isso no começo, eu não teria perdido tanto tempo com este troço.
  202. Maioridade mental como estado de independência espiritual não começa em Kant.

6 de março de 2016

Paulo.

Filed under: Livros, Organizações, Saúde e bem-estar — Tags:, , , — Yure @ 18:27

Como vocês já sabem, este diário é bem pessoal. Desde o início, a religião foi um tema tão presente aqui quanto, por exemplo, parafilias, filosofia e arte. Isso porque, no começo, eu tinha muito medo da morte e aquilo que me aproximou da religião em primeiro lugar foi o medo da morte. Eu sempre fui uma pessoa compreensiva e pensei que ganhar a vida eterna sem mudar muito de minha atitude era uma proposta tentadora.
Eu pensei em me tornar testemunha de Jeová, até eu ler o livro Jovens Perguntam: Respostas Práticas, que tocava um assunto muito sério de maneira muito leviana. Quando eu conduzi uma pesquisa nesse assunto por conta própria, percebi que eu estava muito melhor sozinho.
Pensei que talvez eu fosse mais feliz lendo a Bíblia por conta própria e praticando o que eu aprendi, já que a igreja que mais atraía no dia em que pensei essas coisas havia me decepcionado grandemente. Mas não foi fácil e, após duas tentativas, desisti.
No segundo semestre do curso de filosofia, eu aprendi, durante a aula de ética, que a Bíblia era, na verdade, uma seleção feita em âmbito intelectual por convocação de um tal Constantino. Embora eu não acreditasse que livros que continham ensinamentos legítimos tinham ficado de fora da Bíblia, eu pensei que livros ilegítimos poderiam ter se esgueirado na seleção. Isso, alimentado por dúvidas sobre como a religião do amor poderia se mostrar tão intolerante dependendo do referencial doutrinário, me levou a escolher quais livros eu iria seguir (afinal, se um grupo medievo pôde, também eu poderia). Partindo do pressuposto que ser cristão é seguir Cristo, eu pensei que os Evangelhos seriam o bastante. E, de fato, Cristo é a maior autoridade do cristianismo. E, por anos, eu vivi tendo somente os Evangelhos como regra de vida e vivi muito bem. Como consequência, eu rejeitei sumariamente todas as epístolas de Paulo, que também ensinavam coisas que Cristo não havia ensinado. Na época, eu não sabia que o Apocalipse também tinha ensinamentos diretos de Cristo, mas isso não fez muita diferença.
Certa noite, resolvi atender a uma reunião das testemunhas de Jeová e o líder religioso (não sei se é lícito chamá-lo de “pastor”, porque as testemunhas usam outro termo, “ancião”, se não me engano) mencionou que a Bíblia inteira tinha muita sabedoria. Eu estava fazendo anotações de obras filosóficas na época, como faço ainda hoje, e pensei que talvez fosse uma boa ideia fazer o mesmo com a Bíblia, mesmo que eu não fosse aceitar tudo como regra de salvação.
Dividi a Bíblia em dez partes e me propus a ler um capítulo de cada parte por dia, para conciliar velocidade de leitura com energia e força de vontade (lê-la cronologicamente pode ser exaustivo, sendo melhor que o primeiro contato seja feito numa ordem oportuna).
As anotações não estavam sendo feitas, porque pensei que eu falaria menos besteira se eu lesse ela totalmente antes de fazê-las, que seria feito numa segunda leitura, em ordem cronológica. Paralelamente, Echo, o morcego, estava passando por uns problemas com a mãe dele, que estava sendo insensível, já fazia um mês mais ou menos: a avó dele havia acabado de falecer e a mãe dele não entendia seu sofrimento. Além do mais, ela não achava saudável que ele tivesse amigos como eu e o colocou na terapia, na qual ele começou tratamento para consertar sua urofilia, algo que ele não achava errado, mas que sua mãe e seu terapeuta concordavam que era. Sabendo desses problemas, eu fiz uma oração por ele, a qual foi (surpreendentemente, admito) atendida na manhã seguinte. A mãe havia mudado seu parecer, o deixou voltar a se relacionar comigo e meus amigos e o havia tirado da terapia. Eu fiquei estupefato. Minha oração havia sido atendida subitamente e de forma melhor do que eu havia pensado. E não havia sido a primeira vez, mas a segunda.
Parei meus planos e comecei as anotações imediatamente, reiniciando minha leitura da Bíblia, como forma de agradecimento (porque eu acredito que as obras têm maior peso que a fé).
A leitura e o fichamento foram concluídos em um mês e meio, a partir da Almeida de 1819 (com auxílio da Almeida Recebida, da versão dos Capuchinhos e da Bíblia Livre, todas obtidas no repositório do Crosswire, acessível pelo Sword com a interface Xiphos, obtenível no repositório do Linux Mint), porque foi a primeira em português em volume único, de forma que eu pudesse, nas leituras subsequentes, perceber a evolução das traduções. E, de fato, a Bíblia inteira tem muita sabedoria. Nessa leitura, desenvolvi um apreço por dois conceitos hoje em crise: inerrância bíblica e cânon bíblico.
Como cristão, o Novo Testamento tem um peso gigante pra mim. E as epístolas de Paulo me intrigaram, não de forma positiva. Muitos ensinamentos de Paulo, tal como alguns aspectos de sua atitude, parecem ir contra os ensinamentos de Jesus. Eu pensei que talvez fosse uma falha de entendimento de minha parte e pensei que Paulo, sempre que introduzia algum preceito que Jesus não havia introduzido, estava somente dando conselho, tal como Salomão faz com os Provérbios, de forma que seguiria o conselho quem quisesse. Então, Paulo não seria necessário à salvação, visto que Jesus seria o único caminho. Mas aí Paulo diz que os homossexuais, por exemplo, não herdarão o Reino. Aí que surge o problema: se Paulo nunca viu Jesus, passou pouco tempo com os apóstolos, supostamente herda sua doutrina desses apóstolos e prega que o cristão está desobrigado da Lei de Moisés, com que autoridade ele diz essas coisas?

Antes que se pense que esse é um problema pequeno, é importante mostrar por que ele é enorme: essa pergunta ataca a autoridade de Paulo e, consequentemente, os dois conceitos que eu havia acabado de adotar, a saber, a inerrância (a Bíblia não se contradiz) e o cânon (todos os sessenta e seis tomos de que a Bíblia é composta são divinamente inspirados).
Existem outras contradições, quer sejam aparentes ou não, que levam à práticas hediondas na igreja, não apenas da perseguição aos homossexuais, mas também como a prática da dissociação entre as testemunhas de Jeová. Paulo diz que não devemos nos associar com pecadores, mas Jesus o fazia com frequência durante seu ministério. Se levarmos esse raciocínio até suas últimas consequências, Paulo estaria repreendendo o comportamento de Jesus, o qual disse que deveríamos imitá-lo. Depois da leitura completa, fiquei tão perplexo que resolvi pesquisar se mais alguém pensa como eu. Pra minha surpresa, um punhado de estudiosos, tanto do passado como da atualidade, pensam da mesma forma. Para citar apenas um exemplo do nosso país e da atualidade, para que o interessado tenha um ponto de partida, Fábio toca o assunto vez por outra em suas lições de hermenêutica. Mas é claro que não é o primeiro e nem é o único.
Esse é um assunto que requer mais pesquisa da minha parte, porque é algo muito sério. Não estou dizendo que Paulo é completamente inútil ou pernicioso e acho que encarar o que ele diz como conselho e não como regra de salvação é razoável. Não obstante, não me parece que Paulo tem qualquer autoridade para fechar as portas da salvação para qualquer indivíduo, porque esse é direito divino. Paulo repreendeu Pedro, o que mostra que nenhum ser humano, mesmo que seja apóstolo, é irrepreensível. Então, há a possibilidade de Paulo ter errado. Porém, eu não posso confirmar absolutamente nada por enquanto.
Isso me dá algo pra estudar durante as férias da universidade. A defesa da minha monografia é amanhã, espero que dê certo.

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