Analecto

29 de março de 2016

Anotações sobre o discurso sobre o método.

Filed under: Livros, Passatempos — Tags:, — Yure @ 17:20
  1. Se divergimos em alguma questão, isso é porque não consideramos as mesmas coisas. Afinal, o bom senso é igual em todo o mundo…
  2. Ter boas faculdades mentais não basta. É necessário aplicá-las corretamente. Então, de nada vale o bom senso se não nos direcionamos às questões de fato pelos métodos corretos.
  3. Andar no caminho certo, mesmo que devagar, nos faz chegar à meta. Melhor ir lentamente pelo caminho certo do que rapidamente pelo caminho errado.
  4. O juízo favorável de um amigo é suspeito. Afinal, o amigo não quererá nos ofender, então esconde ou diminui as críticas.
  5. Descartes está para exibir que método funciona com ele. Isso quer dizer que o método não tem pretensões universais e o aplicará quem desejar.
  6. Receber o título de “erudito” não te torna erudito.
  7. Descartes menciona que alguns alunos de sua escola estavam “destinados” a ocupar o lugar de mestres. Não posso evitar suspeitar de peixada.
  8. Todos os livros são valorosos e todas as ciências devem ser estudadas. Os bons livros e as boas ciências nos são construtivos, ao passo que os maus livros e as ciências falsas nos dão exemplos do que não fazer e como não agir. Então, os bons autores nos fazem crescer e podemos crescer também passando por cima dos maus autores, uma vez que descobrir a verdade não é tão diferente de eliminar uma mentira.
  9. Descartes coloca a leitura e a viagem no mesmo patamar.
  10. Passar muito tempo em um só lugar favorece a prática de julgar outras culturas como ruins na medida em que são diferentes da sua.
  11. Ler muitos livros, porém, pode ser tão ruim quando viajar muito. O conhecimento profundo do passado e do mundo afora nos leva a esquecer o presente e a nossa pátria, ou seja, pode nos alienar do aqui e do agora. É o que vem acontecendo comigo. Só agora comecei a prestar atenção nas reações populares à manipulação de informação promovida pela mídia.
  12. A leitura de ficção, se feita por um espírito fraco, faz o indivíduo perder contato com o real e querer repetir, com variado grau de fidelidade, os feitos dos personagens. É como o pessoal que faz um ritual de sacrifício e, na delegacia, culpam Vampiro: a Máscara. A culpa não é do material, mas do cara que tem problemas em separar realidade e ficção. Outros exemplos incluem o culto à Gadget e outros religiões centradas em desenhos animados.
  13. A poesia é um dom artístico. É por isso que nem todos os intelectuais produzem poemas. Na verdade, os poetas muitas vezes não são intelectuais. Isso significa que não é possível adquirir o dom da poesia pelo estudo, sendo necessário que a tendência se manifeste antes.
  14. A verdade pode convencer sem artifícios retóricos. Esses artifícios ajudam, mas não são sempre necessários.
  15. Cada um tem afinidade para algum tipo de conhecimento. Embora Descartes se entreteve com poesia, sua praia mesmo era matemática, porque ele gostava de segurança e de clareza.
  16. Nem todas as coisas que se apresentam como virtude são realmente virtude.
  17. A multidão de opiniões filosóficas levou Descartes a duvidar de tudo o que era provável. Nesse sentido, ele se aproxima de Bacon.
  18. Não se pode fazer ciência exata sobre bases fracas. Se uma ciência parte de conceitos filosóficos, que são duvidosos para Descartes, então ela não é exata.
  19. Se você não é pobre, não precisa perverter seus princípios por dinheiro. E Descartes preferia que sua prática científica não fosse um ofício. Então, se ele não era pobre, preferia praticar ciência de outra forma, não a condicionando ao trabalho. Se o que ele descobrisse o desse glória ou riqueza, que fosse, mas ele não iria praticar ciência visando o lucro como objetivo final e sim a verdade sobre algo que realmente o inquietava. Isso porque, quando você faz filosofia ou ciência visando o lucro, você não está interessado na verdade, mas no pagamento. Poderá muito bem mentir pra agradar, se isso lhe der dinheiro.
  20. Descartes abandonou a escola quando tinha idade o bastante, porque já havia aprendido o que convinha. Dali em diante, ele seria original.
  21. Primeiro, na infância e na adolescência, ele estudou os livros. Na idade adulta, estudou o mundo (pelas viagens e pelas conversas). Perto da velhice, estudou a si mesmo.
  22. Invenções feitas por mais de uma pessoa e que são compostas de mais de uma peça são menos perfeitas quanto mais inventores e quanto mais peças têm.
  23. É melhor meditar em quais leis serão promulgadas antes que os maus atos comecem a aparecer. Leis feitas depois que o mau ato é efetivado, isto é, leis que tornam algo criminoso depois que já se tem o hábito de praticar tal coisa, são menos perfeitas. Não se deveria fazer leis ao sabor do presente, mas preparar um código logo de início. Claro que isso nem sempre funciona. Na China, não há leis contra a violência sexual de um homem sobre outro, só contra o estupro (homem sobre mulher) ou contra o abuso de menores, simplesmente porque nunca um homem chegou na delegacia pra dizer que foi coitado por outro.
  24. Se houver um só legislador, todas as leis operam para o mesmo fim, que é estabelecido pelo legislador. Isso facilita a tarefa de lembrar as leis, pois, conhecendo com que princípio elas foram concebidas, não será necessário lembrar de todas em particular. As leis serão harmônicas entre si.
  25. Existem pessoas que se acham muito originais e sábias, julgando poder se pronunciar sobre o que não conhecem, e existem pessoas que são muitas tímidas pra ser originais, simplesmente repetindo o que já foi dito pelos que têm autoridade.
  26. É mais fácil estar no segundo grupo se você não vê as discordâncias entre os pensadores como algo digno de ser levado em consideração. Ou se você escolhe um “mestre” e não se arreda dele.
  27. O caráter muda dependendo da educação, do lugar em que se está e da fase da vida. Se mudamos de mestre, de lugar ou se ficamos mais velhos, mudamos nossos modos. Então, os que são diferentes de nós não são, por isso, piores.
  28. Melhor andar devagar do que levar uma queda.
  29. Não troque o certo pelo duvidoso. Se algo é duvidoso, não o use como se fosse certeza.
  30. O problema deve ser dividido em tantas partes quanto forem possíveis, de forma que cada um seja resolvida em particular.
  31. Primeiro o mais simples, depois o mais complexo.
  32. O trabalho deve ser revisado quantas vezes for necessário, até se ter certeza de que nada foi omitido.
  33. Uma ciência pode corrigir a outra.
  34. Moral provisória. Primeiro, seguir as leis que me foram ensinadas, seja pelo Estado ou pela religião. Se eu não tiver certeza de estar infringindo alguma lei, a decisão mais distante do excesso pode ser a mais segura. Devo aceitar o conselho dos mais sensatos, mas não o conselho que é dito, e sim o conselho que é mostrado pelos atos deles. Claro eu não devo aceitar o mau conselho, que é manifestado pelo excesso. Se uma pessoa julgada sensata incorre num excesso, nem por isso farei como ele.
  35. Depois de decidido o objetivo e o método, ir até o final.
  36. Melhor mudar a si próprio do que o mundo. Isso não significa ser um conformado, mas que, depois de ter tentado tudo para obter determinado objetivo, assumir que é impossível obtê-lo, pelo menos pra você, e se adaptar a isso. Não quer dizer que não se deva tentar, repetidas vezes se for preciso, mas ser maduro o bastante para soltar o gatilho quando a munição acaba.
  37. A vontade só quer aquilo que achamos que é possível. Se pode sonhar com o impossível e imaginar como seria legal se isto ou aquilo acontecesse, mas ninguém em sã consciência vai atrás do que sabe que não pode obter. Então, se tomamos algo por impossível, não iremos querê-lo mais e deixaremos de deplorar sua falta.
  38. Só estamos em pleno controle de nossos pensamentos e de nada mais. Faz parte da vida. Eu incluiria também sob nosso controle os nossos atos.
  39. Devemos nos dar ao crescimento de nossa própria razão.
  40. Não há necessidade de se contentar com a opinião dos outros. Devemos procurar também respostas próprias, quando não existem respostas ou quando as existentes não satisfazem.
  41. Descartes era bastante humilde, não se corrompendo com a fama que ele estava fazendo e confessando que seu pensamento não tinha nada de especial, exceto, talvez, que ele era sincero quanto às coisas de que duvidava e por quê.
  42. Referência às Meditações. Descartes diz que suas meditações metafísicas são diferentes demais de tudo o mais que havia e talvez não seriam bem recebidas.
  43. Eu posso duvidar de quase tudo, porque eu não posso duvidar de que estou pensando. Mas é necessário existir para poder pensar. Então, toda vez que eu penso, estou me assegurando de que eu existo. Eu. Isso não garante a existência dos outros. Esse assunto pertence às Meditações.
  44. O pensamento nos mostra que nossa alma é pensante e que o pensamento é a essência da existência humana individual. De fato, se eu não pensar, não poderei perceber minha própria existência, de forma que não a percebe que não pensa, mesmo que exista. O indivíduo que não pensa é reduzido a estado de objeto, não sendo humano, no dizer de Descartes.
  45. É lícito tomar por correto aquilo que é concebido claramente e distintamente.
  46. Se admitimos que a escala de graus de perfeição opera de forma invertida, então admitimos que todas as coisas vieram do nada. Com efeito, segundo os graus de perfeição, a existência vem de um princípio perfeito, que cria princípios menos perfeitos. Mas, se admitimos que ela opera de maneira contrária, então estamos admitindo que o princípio da existência é sumamente imperfeito. Ora, mas sumamente imperfeito é o nada, que não tem perfeição alguma, inclusive a existência. Por isso, Descartes conclui que um ser humano não pode conceber, por conta própria, um ser mais perfeito que ele próprio e, se o faz, é porque um ser mais perfeito que nós nos induz a buscá-lo, colocando em nós uma intuição inata que nos leva a inferi-lo.
  47. As formas perfeitas (triângulo ideal, círculo ideal, quadrado ideal…) não existem na natureza. Se a geometria os estuda, é porque é clara o bastante para receber crédito científico. Além do mais, examinando ideais, é possível obter axioma que servem para situações naturais, embora tenham que ser aplicados de maneira limitada.
  48. Tem um resumo das Meditações neste livro.
  49. Verdades matemáticas tem valor atual. Mesmo que elas se reportem à informações abstratas, não se pode negar o valor delas. Aliás, existem coisas que não são perceptíveis sensualmente; não é porque não posso ver, ouvir ou sentir algo que tal algo não exista.
  50. Se todo o conhecimento que tenho no entendimento passou alguma vez pelos sentidos, como é que eu posso conceber Deus ou a alma, coisas que nunca passaram pelos sentidos da maioria das pessoas?
  51. O conhecimento sensorial de nada serviria se não fosse o entendimento para interpretá-lo.
  52. Descartes diz que se alguém nega a existência de Deus, tudo o mais que ele conhece perde qualquer tipo de estabilidade e tudo se torna duvidoso para ele. Nesse sentido, ele antecipa Nietzsche, para quem a cisão entre humano e divindade leva à relativização de coisas que tínhamos como certas, como a moral. Ambos admitem que a ausência de Deus é ausência de absoluto e demolição do conceito de verdade.
  53. Alguns sonhos são tão nítidos quanto a realidade.
  54. Enquanto Deus é causa da verdade e das perfeições, a falsidade e as imperfeições são manifestações do nada, são ausências de seus opostos.
  55. Se Deus criasse outro mundo, diz Descartes, seria como o nosso, pois, sendo perfeito, sempre toma as melhores decisões todas as vezes. Então, o mundo novo operaria segundo a perfeita física já existente no nosso, por exemplo. Ele acabaria se estruturando como o nosso mundo em vários ou todos os aspectos. Isso aproxima Descartes de Leibniz e toda a trupe dos otimistas metafísicos, para os quais vivemos no melhor dos mundos possíveis.
  56. Descartes escreveu uma teoria da propagação da luz entre o foco celeste e nós, mas parece que ele não publicou esse trabalho (ao menos na época da escrita do Discurso), talvez porque discordava da visão cósmica religiosa da época.
  57. “Mundo”, em Descartes, é o que hoje chamamos de “universo”, um conceito mais amplo que o de “planeta”.
  58. Talvez Descartes não publicou esse trabalho mítico porque ele poderia fazer alguém pensar que ele esta a descrever uma criação alternativa. No Discurso, ele diz que não era isso e que Deus poderia ter feito o mundo como ele deveria ser logo de início, para evitar que alguém pensasse que ele era um herege.
  59. Para a teologia da época, a força que mantém o universo em boas condições e que o conserva é da mesma natureza da força que o criou.
  60. Uma frase de dezessete linhas é um desaforo.
  61. Alguns processos corporais são análogos aos das máquinas e funcionam automaticamente por sua disposição e energia implícita.
  62. A circulação é causa do calor do corpo.
  63. Se vários objetos tendem ao mesmo lugar, os mais velozes e mais fortes chegam primeiro, afastando os outros, caso não haja espaço o bastante.
  64. Descartes faz muita propaganda do livro que não publicou.
  65. O conceito de corpo humano como máquina perfeita tem origem aqui.
  66. O problema da inteligência artificial é o uso da linguagem. Você pode programar uma máquina ou artefato digital para conversar, mas sua conversa não será espontânea, e sim premeditada pelo programador dentro dos liames de sua própria linguagem e capacidade espiritual. Portanto, se você consegue fazer um programa capaz de usar a linguagem para se passar por ser humano e não ser notado, você criou um programa capaz de usar a linguagem para se passar por ser humano e não ser notado, e não um ser inteligente. Talvez possamos criar corpos melhores que nós, mas não espíritos. Então os graus de perfeição ainda são válidos em certo sentido.
  67. A máquina imita operações humanas com mais perfeição que nós, mas só pode fazer um número limitado de funções, em comparação conosco.
  68. Para Descartes, os animais não usam linguagem. Mas hoje sabemos que usam.
  69. Descartes diz: animais não pensam. Hoje sabemos que não é assim.
  70. Um animal adestrado, diz Descartes, é tão perfeito quanto uma criança retardada.
  71. Se o animal tem razão bastante para falar, mas não tem órgãos para falar conosco, o que os impede de pelo menos nos entenderem?
  72. O corpo humano e a alma humana estão misturados, embora sejam de natureza diferente. De outra forma, a alma não sentiria as afecções corpóreas.
  73. A alma humana, diz Descartes, é imortal e de tipo diferente das almas dos outros animais. Isso polemiza com a migração anímica de Platão, que diz que as almas reencarnam em seres superiores ou inferiores conforme às obras feitas em vida.
  74. Descartes abre a sexta parte com a razão pela qual ele não publicou seu livro que prometia explicar quase que o mundo inteiro: Galileu (que não é mencionado por nome) havia acabado de ser condenado pela Inquisição por afirmar coisas que a não foram bem recebidas pelo clericato, entre elas que a Terra gira em torno do Sol e que as estrelas fixas não eram assim tão fixas. Então, se Galileu havia sido condenado pela Inquisição à prisão domiciliar perpétua, porque, sendo ele velho, a pena de morte foi amenizada ao nível de cárcere privado, imagine o que fariam com Descartes se encontrassem no livro dele alguma coisa que desagradasse à Igreja ou o Estado, considerando que Descartes era mais jovem.
  75. O que sabemos de medicina é nada comparado ao que falta saber. Afinal, nós ainda envelhecemos, há doenças sem cura e sem tratamento, mas é inegável que aos poucos chegamos a algum lugar.
  76. Mesmo que você descubra pouco, é bom divulgar o que você sabe. Isso pode dar uma pista aos pesquisadores mais profundos e com mais recursos, o que te tornaria participante do mérito deles, se tais pesquisadores puderam chegar até onde chegaram porque você ajudou. Isso quer dizer que nenhum conhecimento deve ser escondido. Por menor que seja, deve ser divulgado.
  77. Não se deve procurar o conhecimento raro sem antes conhecer o incomum. Nem se deve procurar o conhecimento incomum sem antes conhecer o comum.
  78. Descartes não publicou seu mítico livro, mas expõe no Discurso vários dados que estavam contidos nesse trabalho oculto. Ele não é completamente incoerente com o que pensa, afinal, devemos publicar nosso conhecimento. Mas ele ocultou aquilo que poderia causar polêmica com os clérigos; estes podem não causar tanto dano quanto o guerreiro, mas certamente causam mais que o mago.
  79. O tratado mítico não era ponto de chegada, mas uma espécie de “relatório”. Descartes esperava que sua publicação levasse outros pensadores a comunicar-lhe o que tais pensadores haviam conseguido fazer com os dados escritos no livro, de forma a levar a física adiante.
  80. O tratado mítico não ia, segundo Descartes, ficar sem publicação. Ele iria ser revisado, para que Descartes tivesse certeza de que ele não ofenderia ninguém e estivesse totalmente correto. Além disso, ele deveria ser publicado postumamente, pra ter certeza.
  81. É dever do ser humano ser útil aos outros. Não valer nada é justamente ser inútil. De que vale nossa vida se outros não se beneficiarão do que fizemos depois que morrermos?
  82. Devemos crescer aos poucos. Com poucos recursos, fazemos poucas e pequenas obras. Se essas obras são notadas, temos a oportunidade de obter mais recursos, que nos permitirão mais obras e melhores obras.
  83. Para fazer esse tratado mítico, Descartes venceu cinco ou seis dificuldades e só faltavam superar três para que ele estivesse perfeito.
  84. O livro seria incontestável, por se basear em coisas claras e evidentes para elaborar seus raciocínios, os quais Descartes dizia serem perfeitamente demonstráveis.
  85. O livro era um pedido de ajuda: Descartes queria convidar outros cientistas para pesquisar a natureza com ele. Porém, Descartes admite que poucos seriam de ajuda a ele, porque ninguém conseguia criticar seu modo de pensar com tanto rigor ou equilíbrio do que ele próprio.
  86. O bom advogado nem sempre vira um bom juiz.
  87. Devemos acreditar que Descartes disse alguma coisa somente ao ler seus livros. Descartes não iria gostar se você acreditasse no alguém disse que ele disse.
  88. Os seguidores de Aristóteles não se atrevem a superá-lo. Galileu partilha dessa ideia, porque sua principal briga era com os aristotélicos, que acreditavam que Aristóteles era insuperável e alguém poderia, no máximo, explicar melhor o que ele disse. Por isso Galileu enfrentou tanta resistência, porque seu pensamento sobre a física era diferente do de Aristóteles e, por causa disso, era tido como automaticamente errado, mesmo quando Galileu provava que Aristóteles era quem estava errado. O mesmo acontece na faculdade de filosofia, com cada mestre e cada doutor não indo muito além do “seu filósofo”.
  89. Descartes compara os aristotélicos a cegos que desafiam alguém de boa visão a lutar no escuro. Não podendo entender alguma coisa da natureza (o cara de boa visão), forçam essa coisa a se submeter à lógica (escuridão). Bacon diz a mesma coisa, com outras palavras, quando ele diz que o principal acidente de Aristóteles foi submeter toda a natureza a sua lógica.
  90. Se você tem pressa em ser chamado de “sábio”, procurará algo que parece verdade, não o que é verdade, porque a verdade é mais difícil de encontrar e demora mais pra ser encontrada.
  91. Se você começa a aprender as coisas mais fáceis e vai ascendendo gradualmente às difíceis, você poderá dizer, com toda a propriedade, que chegou ao seu limite quando se deparar com algo tão difícil que você não possa conhecer. Por esse método, você aprende mais em menos tempo, superando em conhecimento aqueles arrogantes que pretendem conhecer o que é difícil sem antes conhecer o fácil.
  92. Apesar de muito humilde, algumas afirmações cartesianas parecem orgulhosas. Mas apenas parecem.
  93. Se quer algo bem feito, faça você mesmo. Se não puder se juntar com quem pode ajudar (o que quer dizer, alguém pago para fazer algum serviço sob suas ordens ou alguém que te financie), não se junte com ninguém. Quando Descartes pede ajuda a outros, ele está dizendo que outros devem fazer seus próprios experimentos, por conta própria, por interesse próprio, de forma que Descartes possa usar seus resultados quando estiverem prontos, da mesma forma que os outros cientistas usaram seus resultados. Ele não está falando de ajuda direta, mas através de uso liberal dos resultados de pesquisas independentes.
  94. Não devo procurar ajuda se eu não mereço ajuda. Não devo também esperar que meu trabalho seja um sucesso mundial. Minha única obrigação é publicar o trabalho. Ele receberá a atenção que merecer, cedo ou tarde.
  95. Não há necessidade de ficar anônimo, mas muito reconhecimento e fama fazem as pessoas te perturbarem por mais. Por isso se diz que o homem célebre não tem vida privada.
  96. Ter reputação é inevitável, então vamos nos esforçar para nossa reputação ser boa.
  97. Deixe que o leitor julgue se seu escrito é bom ou não.
  98. Algumas pessoas podem se apropriar do seu pensamento e construir sobre ele algo completamente errado. O escritor deve minimizar o risco de ser culpado pelos erros do leitor.
  99. Escreva em seu próprio idioma. Escrever em língua simples permite que qualquer um entenda e seu trabalho terá um público maior. Não é porque você é sábio que você escreverá em latim.
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