Analecto

28 de fevereiro de 2019

O que aprendi lendo “Children’s Disclosures of Sexual Abuse in a Population-Based Sample”.

Filed under: Notícias e política, Saúde e bem-estar — Tags:, , , , — Yure @ 18:47

Children’s Disclosures of Sexual Abuse in a Population-Based Sample” foi escrito por Hanna-Mari Lahtinen, Aarno Laitila, Julia Korkman e Noora Ellonen. Abaixo, o que aprendi lendo esse texto.

  1. A maioria dos estudos sobre abuso sexual infantil são retrospectivos (adultos são entrevistados sobre suas experiências na infância) ou são focados em crianças que denunciaram o ocorrido (amostra forense).
  2. Como esses métodos não são tão bons, os autores deste estudo usaram dados coletados de crianças da população geral.
  3. Eles obtiveram dados de 11.364 crianças e adolescentes entre o sexto e o nono ano do ensino fundamental finlandês.
  4. Dentre esses, apenas 2,4% tiveram contato sexual com sujeito ao menos cinco anos mais velho.
  5. Dentre esses 2,4%, 80% conta o ocorrido a outros, mas a maioria conta pra um amigo, não pra um adulto (48%).
  6. Apenas 26% contaram o ocorrido a um adulto.
  7. 12% contaram às autoridades.
  8. 41% dos que não contaram a experiência a adultos não o fez por não achar que o incidente fosse sério o bastante pra merecer intervenção.
  9. Apenas 14% não denunciaram por medo.
  10. A evidência primária em processos de sexo com menor é o depoimento do menor.
  11. Não há consenso sobre o que conta como abuso sexual infantil e o que não conta.
  12. É mais difícil a criança revelar que algo sexual lhe aconteceu se ela não confiar nos pais.
  13. Algumas temem serem culpadas pelo que aconteceu.
  14. Meninos falam menos com adultos sobre suas experiências sexuais, de forma que uma amostra com vários meninos como sujeitos terá porcentagens menores de denúncia.
  15. Medo e dor aumentam as chances de denúncia: claro que a criança contará aos adultos se algo grave lhe acontecer.
  16. Se a experiência não tiver sido abusiva, é provável que a criança ou adolescente tenha tido a experiência com um amigo.
  17. A denúncia ocorre com mais frequência entre aqueles que se sentem vítimas.
  18. Como adultos podem reinterpretar suas experiências sexuais infantis de forma diferente de como eles interpretavam quando eram crianças, entrevistar crianças nos dá uma imagem mais fidedigna do que aconteceu.
  19. A idade dos participantes varia entre dez e dezessete anos (55% do sexto ano, 45% do nono ano).
  20. Abuso emocional: tratamento de silêncio, insulto, jogar ou chutar coisas, ameaçar com violência.
  21. Abuso físico: empurrão, puxão de cabelo, dar tapas, dar socos, atacar com objeto, chutar, dar palmadas, espancar, ameaçar com faca ou arma de fogo, atacar com faca ou arma de fogo (sim, tem pai que faz isso com o filho), outras formas de violência.
  22. A definição de “abuso sexual” encontrada no estudo é a mesma definição usada pelo Código Penal finlandês, então o texto também chama de “abuso” as experiências inofensivas e voluntárias, desde que a diferença etária seja de, pelo menos, cinco anos entre os participantes.
  23. Apesar disso, o estudo sondou a impressão que a criança teve em relação ao ato, isto é, deu às crianças a chance de dizerem se elas consideraram o incidente como abuso ou não, a despeito do que diz a lei.
  24. O estudo também sondou a qualidade do ato, isto é, se a criança considerou o incidente como positivo, negativo ou insignificante.
  25. Dentre as 11.364 crianças entrevistadas, 256 tiveram experiências sexuais com pessoa ao menos cinco anos mais velha.
  26. 45% só tiveram uma experiência, 20% tiveram entre duas e dez experiências e 13% tiveram mais de dez experiências.
  27. Maior parte dos sujeitos que teve tais experiências foram meninas do nono ano.
  28. A média de idade do sujeito foi catorze anos e a média de idade do parceiro foi vinte e três anos.
  29. 64% dos atos libidinosos foram entre o menor e alguém de, pelo menos, vinte anos.
  30. A diferença média de idade foi nove anos.
  31. 119 das crianças que tiveram experiências sexuais com parceiro cinco anos mais velho também sofriam abuso emocional proporcionado pela mãe, mas apenas 97 pelo pai.
  32. A mãe abusa fisicamente dos filhos mais vezes do que o pai.
  33. Apenas 16% (35 sujeitos) das crianças e adolescentes consideraram a experiência sexual como abuso, 51% consideraram a experiência como sendo não-abusiva e 33% se mostraram indecisos.
  34. Maior parte dos atos libidinosos foram contatos não-penetrativos.
  35. A experiência foi positiva para 71% dos meninos, mas para apenas 26% das meninas.
  36. 46% das meninas avaliou a experiência como negativa, contra 9% dos meninos.
  37. Somando meninos e meninas, 34% dos sujeitos avalia a experiência como positiva, 27% como insignificante e 40% como negativa, ou seja, experiências sexuais negativas com pessoa pelo menos cinco anos mais velha são um fenômeno minoritário.
  38. Força, intimidação e chantagem só foram empregadas 20% das vezes.
  39. 35% das experiências foram com estranhos, 14% com amigo, 16% com conhecido, 8% com parceiro romântico, 6% com familiar.
  40. 80% das crianças e adolescentes contaram a experiência a alguém: 48% a um amigo ou aos pais, 11% a irmãos, 6% a outros, 5% ao professor, 7% à polícia, 2% ao enfermeiro da escola, 3% ao conselheiro da escola e 4% ao serviço social.
  41. Somando tudo, apenas 26% contaram a adultos.
  42. 41% não contou a experiência por não achar que fosse algo digno de nota, 14% por medo, 14% por achar que ninguém quereria saber, 14% por não ver nenhum benefício em contar a alguém, 10% por vergonha.
  43. 8% não denunciaram por outras razões, incluindo “eu gostei do que aconteceu”.
  44. A criança que se sente abusada ou indecisa sobre como se sentir em relação à experiência é a que mais provavelmente revelará o ocorrido a um adulto.
  45. Se a experiência for negativa, a criança provavelmente revelará o ocorrido.
  46. Contar o ocorrido a outros também é mais frequente entre crianças pequenas (menores de sete anos).
  47. A criança que sofre abuso emocional ou físico em casa tende mais a guardar segredo (talvez por medo da reação dos pais).
  48. A denúncia é mais frequente quando o parceiro tem 30 anos ou mais.
  49. Outros fatores que estimulam a denúncia são o uso de força, violência ou chantagem.
  50. Embora uma minoria dessas crianças e adolescentes tenha contado a experiência a quaisquer adultos, a maioria total (80%) conta pra alguém, mesmo que para amigos.
  51. A definição de “abuso” é diferente entre adultos e crianças, a criança não considera abuso um monte de coisas que nós, adultos, achamos inaceitáveis.
  52. Para a criança, a diferença de idade sozinha não torna “abuso” um contato sexual.
  53. Já no caso dos adolescentes, ser chamado de “gostoso” pode ser visto como elogio, não como “assédio”.
  54. Assim, maior parte dos casos do chamado “abuso sexual infantil” pode ser composta de atos de pouca seriedade.
  55. Abuso sexual infantil está acontecendo menos vezes hoje do que antigamente.
  56. Crianças com necessidades especiais sofrem abuso mais frequentemente.
  57. Um terço das tentativas de sexo com menor são abortadas se a criança disser “eu vou contar pra alguém”.
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