Analecto

29 de abril de 2018

Sobre a privação de afeto.

Filed under: Notícias e política, Saúde e bem-estar — Tags:, , — Yure @ 15:22

Então, Holocaust21 postou sobre celibatários involuntários atacando Chris Hansen. Foi legal. Ele então mencionou a recente matança causada por um homem celibatário involuntário. Isso me fez digitar a mensagem abaixo na seção de comentários, mas percebi que estava escrevendo uma postagem inteira que ficaria melhor no meu blog. Eu pensei que seria mais adequado escrevê-la aqui.

Aqueles massacres foram tristes. Eu tive um problema semelhante, embora não relacionado a ser incel, porque eu não sou incel, já que eu não sou celibatário “involuntário”. Meu problema com as mulheres era o medo. Passei 20 anos com medo delas, até me recompor no ano passado. Eu fiz um post sobre isso, mas só em português.

É imperativo que você leia o post, antes de prosseguir. Basta que você clique aqui, mas vou avisando que é uma longa mensagem.

Agora, quando eu releio aquele post, vejo que fui criado em um ambiente misândrico, onde as mulheres se sentiam no controle e os homens eram cínicos em relação a isso. Eu havia internalizado esse ódio ao meu próprio sexo. O que me fez digitar essa coisa em 2014 foi minha baixa auto-estima. Eu finalmente concluí que lamentar não resolveria nada, que eu tinha que me aperfeiçoar e ser a melhor pessoa possível: fisicamente, mentalmente e socialmente. Quando percebi que precisava de auto-aperfeiçoamento, percebi que meu valor como homem aumentaria se eu investisse no que me diferenciava das mulheres. Então eu procurei uma lista de diferenças biológicas (configuração hormonal, fiação cerebral e outras coisas) entre os sexos e pensei em uma maneira de usar os aspectos positivos a meu favor e transformar os aspectos negativos em positivos também. Se eu não tivesse feito isso, eu provavelmente teria, talvez, me matado.

Então, de certa forma, eu entendo esses assassinos. Meu problema era semelhante ao deles, mas encontrei uma solução que me servia, que era o auto-aperfeiçoamento. Agora, não luto mais com esses sentimentos e pensamentos e recuperei a auto-estima. Mas meu problema não era o mesmo que o deles, porque meu desejo sexual sempre foi baixo. Sexo e romance nunca foram uma prioridade na minha vida.

Freud, em uma troca de cartas com Einstein, disse que é impossível eliminar nosso impulso inato à agressão, mas é possível domá-lo exercitando seu impulso oposto: o erotismo . A falta de afeição física também é apontada como uma raiz do comportamento violento por Prescott, em seu Prazer Corporal e As Origens da Violência . Uma sociedade que ataca manifestações de amor, e isso inclui amor erótico, está fadada a criar cidadãos violentos. Elliot Rodger, por exemplo, sua matança teria sido evitada se ele tivesse condições de se envolver com uma garota. Eu acho que a “crueldade” com que ele se deparou foi o mesmo tipo de “crueldade” que eu cresci acostumado. Eu não sei qual é a raiz disso, mas muitos apontam o feminismo moderno . Espinosa também concorda que, exercitando o amor, nosso ódio diminui.

Não apenas nossos meninos não experimentam o amor, eles experimentam um tipo muito específico de ódio chamado “negligência”. Alguém escreveu que as meninas têm superado os meninos na escola há décadas. Como é que ninguém está fazendo nada a respeito? O escritor pensa que é um “bônus”, “um pouco mais que” igualdade. Isso é algo para se preocupar! Se nossos meninos não estão indo bem na escola, eles têm um problema! Se você é pai ou mãe, deve se preocupar com isso. E o que dizer de seus sentimentos? Sonhos, idéias, preocupações e problemas? Ninguém se importa. Isso também é ódio.

Mesmo que eu não concorde com a atitude daqueles atiradores (e de qualquer outro atirador), sou forçado a concluir, se devemos crédito a Freud, Prescott, Spinoza e puro senso comum, que uma pessoa tão frustrada quanto eles aparecerá mais cedo ou mais tarde, porque todos os ingredientes para um atirador como esse ainda estão no lugar. Todas as condições permanecem lá: negligência às questões dos meninos, misandria (que eu experimentei muito), repressão sexual e desinformação. Outros virão, incels ou não.

Por último, mesmo que a causa disso seja o feminismo (e eu não estou dizendo que é, porque sei pouco sobre o feminismo), devemos lembrar que a maioria das mulheres não é feminista. Então, ser mulher e ser feminista são coisas diferentes. Se você acha que a causa é feminismo, não importa se você está certo ou errado sobre isso, é importante não descender à misoginia. Afinal de contas, o problema daqueles dois atiradores era o desejo insatisfeito por afeto heterossexual. Então, atacar as mulheres, ao invés de atacar o feminismo, é piorar as coisas. Olhe para o Japão: praticamente não há feminismo lá e homens e mulheres são felizes. Além disso, atacar o feminismo é uma postura política, o que é permitido. Atacar as mulheres, no entanto, apenas por serem mulheres, é discriminação, que é um crime. Eu digo isso porque muitos incels são anti-feministas e há um corpo crescente de meios de comunicação que estão retratando todas os anti-feministas como misóginos, o que eu acho injusto (eu tenho amigos que são anti-feministas e eles são gente decente, inclusive em seu trato com mulheres).

Espero não ter ofendido ninguém dizendo essas coisas. Estou apenas compartilhando minha experiência com o problema e meus pensamentos sobre isso. Se eu disse alguma coisa errada, por favor, me corrija.

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