Analecto

22 de maio de 2014

Maio, segunda parte.

Achei que nunca fosse acontecer, mas enjoei de tanto ler e reler a Antologia Ilustrada de Filosofia. Arrumei o Textos Básicos de Filosofia pra me distrair agora, enquanto eu espero algo emocionante acontecer na universidade. Alguém me disse que o professor de metafísica mandou todos os alunos refazerem o trabalho sobre a Ciência Nova, mas com outros parâmetros. Agora estaria mais claro o que ele quer e acredito que poderei trazer para você um texto menos confuso. Mas, quando cheguei lá, ele disse que eu não precisava ter refeito, porque já tirei sete. Enviei um e-mail para um dos professores de filosofia que entrevistei, para ver se consigo mais algumas respostas.

Foi difícil me concentrar nas últimas aulas. Tem outro gorducho que atraiu minha atenção e vez por outra meu olhar perdia-se sobre ele. É uma sensação horrorosa: minha cabeça fica leve, meu coração dispara e sinto um negócio inexplicável no peito. Mas é difícil parar de olhar. Tive de me forçar a voltar minha atenção ao professor três vezes, com considerável sucesso, até eu ter de olhá-lo de novo. Sou péssimo em resistir à tentações. Não posso dizer que estou amando ele, mas posso dizer que há um certo grau de luxúria por ele em mim (duplo sentido). É uma ideia reprovável, contudo, e estou ficando melhor em me conter, só acho que estou para criar algum tipo de recalque. Minha professora de psicologia poderia até dar uma ajuda ou luz. Não que eu lute contra mim mesmo para mudar quem eu sou, só acho que agir conforme certos comportamentos não é possível agora; ele é heterossexual em primeiro lugar, depois eu tenho que estudar, depois ele vive em outra cidade. A maioria das pessoas me aconselharia “seguir o coração”, mas eu prefiro pensar com o cérebro mesmo e uma relação desse tipo é impossível agora, a menos, claro, que eu queira me ferrar.

Você sabe que estou desesperado por crédito extra quando você lê que atendi a um evento sobre Hegel. Me inscrevi na Semana Hegeliana e passei três tardes inteiras na universidade, além da manhã. Isso acabou com meu tempo online e nem pude dar patadas! Uma pena, porque tenho trabalho acadêmico pra fazer. Já tenho que escrever uma dissertação sobre Parmênides. Para juntar útil e agradável, Hegel é um único filósofo que eu não gosto. Talvez porque meus últimos professores de Hegel eram todos medíocres, eu nunca fui capaz de abstrair algo de bom da filosofia dele. Atender ao evento também foi um ato de dar “outra chance” ao hegelianismo, porque todo o mundo diz que Hegel foi um filósofo muitíssimo importante e influente. Talvez, se eu entendê-lo melhor, eu possa me enriquecer mais, além de que, dada sua influência, não posso repeli-lo para sempre. Mas o evento não foi sobre Hegel. Falou-se de Marx, Weil, Fukuyama, Marcuse, Feuerbach e até Vico! Mas Hegel que é bom…

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17 de maio de 2014

Explicação da ideia da obra Ciência Nova, de Gianbattista Vico.

Introdução.

A obra Ciência Nova, de Gianbattista Vico, traz consigo uma imagem bastante críptica que é explicada no decorrer do texto. Na imagem vê-se vários objetos ao chão, uma estátua, uma mulher sobre a qual incide e reflecte um raio de luz vindo de Deus. A mulher (que é a metafísica) está sobre um globo, que parece estar mal apoiado. Essa imagem carrega consigo a ideia principal da obra, a qual tentarei explicar em minhas palavras, com base na interpretação provida pelo próprio texto.

Explicação.

No livro, Vico propõe uma ciência nova, que é a sua concepção de metafísica. A metafísica, tradicionalmente, é aquele saber filosófico menos experimental, mais abstrato, que tenta compreender o mundo usando a razão mais que os sentidos. Seria uma tentativa de se aproximar do conhecimento menos material. Porém, a metafísica é concebida como uma atividade racional, filosófica, que não pode ser praticada por todos. Aristóteles mesmo apresentou a metafísica como um saber das sociedades desenvolvidas, porque a metafísica, tendo como objetivo nos afastar da ignorância, não teria utilidade prática imediata. Só se poderia praticá-la se as necessidades básicas de uma pessoa, como abrigo e alimento, estivessem satisfeitas.

Mas Vico propõe, em sua nova concepção de metafísica, que todo povo tem sua metafísica, no sentido de aproximação do imaterial. Os povos se relacionam com o imaterial através da religião (sua metafísica então sendo a aproximação entre indivíduo e Providência), dos mitos, do vaticínio, da poesia antiga. A metafísica proposta por Vico seria um resgate filológico desses artefatos históricos e culturais, contextualizados numa história ideal. O que esta ciência quer é lançar luz sobre esses aspectos obscuros de nossa história, lançar luz sobre a metafísica oculta nesses tempos, enquanto relação entre pessoa e Providência.

A metafísica tradicional contrasta com a de Vico em vários aspectos. Notavelmente, a metafísica de Vico tem uma base mais concreta e filológica, abdicando de elaborar conceitos como “essência” ou “princípio”, “unidade” ou “multiplicidade”, limitando-se a extrair das nações gentis os conceitos metafísicos ocultos daquela época. Assim, ela muito mais tem a ver com filologia.

Esses conceitos estão descritos naquilo que Vico chama de “sabedoria poética”. É a sabedoria incutida na população gentil pelos poetas teólogos, que teciam sua metafísica pré-filosófica através de seu trabalho, como fazia Homero. Essa metafísica guiava os outros indivíduos e os aproximava da providência, mas também era carregada de valor pedagógico. Por isso podia ser chamada de sabedoria, visto que a poesia guiava também o indivíduo em sua interação com o mundo físico.

A metafísica nova de Vico então não é algo abstrato, mas um resgate filológico de como essas nações gentis se relacionavam com o que era extraordinário.

12 de maio de 2014

Instalando o LMMS 1.0 sob Linux Mint Debian Edition 64-bit Cinnamon Edition.

Oh, raios de nome longo esse. Atualmente, a versão do LMMS disponível no repositório do Linux Mint é a 0.4.10, que é atrasada. Quem já tentou instalar um programa de Ubuntu no Linux Mint provavelmente encontrou problemas de variada gravidade. Eu, por exemplo, tentei instalar o Xdiagnose no meu Linux Mint e acabei com o sistema de um jeito que não achei que fosse possível. Então, você deve procurar programas de Debian caso você queira instalar um programa indisponível no repositório. O LMMS 1.0 está disponível para Debian Sid, o que pode deixar muitos com um pé atrás, mas eu instalei com sucesso aqui e posso garantir que é seguro.

Mas caso você não acredite em mim, talvez queira avaliar se vale a pena ou não substituir sua instalação atual do LMMS pela mais recente. Não mudou muita coisa, mas posso notar duas grandes mudanças, uma ótima e outra péssima, para que você veja se deve atualizar ou não:

  1. A interface está horrorosa. Feia que dói, falando sério. Está confusa, mortiça.
  2. Dois sintetizadores novos foram adicionados, um modulador de frequência (emulador de OPL2, permitindo sons próximos ao do Sega Mega Drive) e um gerador de efeito sonoro (Sfxr).

Se você acha que ter dois novos sintetizadores compensa ter uma interface feia, vá em frente. Se você acha que a interface feia não é compensada pelos sintetizadores novos, não vá em frente. Se você tentar instalar o LMMS 1.0 no seu Linux Mint, você obterá o seguinte erro: a dependência não é contentável (lmms-common >= 1.0). Isso significa que você precisa preencher uma dependência antes e essa dependência é justamente o pacote lmms-common mais recente. Mas, se você tentar instalá-lo, receberá outro erro: quebra a dependência do pacote lmms (lmms-common = 0.4.10). E agora?

  1. Execute no Terminal o comando sudo apt-get remove –purge lmms lmms-common. Isso irá remover do seu sistema o LMMS e o lmms-common atual, tal como os arquivos de configuração.
  2. Baixe o lmms-common.
  3. Instale o lmms-common usando Gdebi. Se houver uma dependência não resolvida, pare imediatamente e reinstale a versão do repositório (0.4.10). Nesse caso, é melhor esperar até a versão mais recente aparecer no repositório oficial, porque atualizar outros pacotes quebrará várias dependências.
  4. Baixe o LMMS.
  5. Instale o LMMS. Novamente, pare se houver alguma dependência não resolvida.

LMMS está pronto. Eu preferi ficar com o LMMS 0.4.10 depois que vi o quanto a interface é nojenta, mas cada um com seu cada qual. Caso você tenha encontrado dependências não resolvidas ou caso você queira se desfazer da versão 1.0, execute os comandos abaixo no Terminal:

  1. sudo apt-get remove –purge lmms lmms-common
  2. sudo apt-get install lmms

Isso desinstalará a versão 1.0 e instalará a versão disponível no repositório oficial.

10 de maio de 2014

Maio, primeira parte.

Consegui instalar o LMMS 1.0, mas pouca coisa mudou e a interface está uma droga. Então voltei para a versão anterior. Achei que não poderia instalá-lo neste sistema sem destrui-lo. Aliás, o que destrói o sistema nem é tanto o programa, mas suas dependências; achei que ele dependesse de software muito novo e eu poderia quebrar meu sistema ao instalar essas versões novas se meu sistema não for maduro o suficiente para recebê-las (especialmente quando se fala de libc). O método de instalação é bem simples: desinstale o LMMS atual, desinstale o pacote lmms-common, baixe o pacote lmms-common disponível no repositório do Debian Sid, instale-o e depois baixe e instale o LMMS disponível em Debian Sid. Se você estiver usando Linux Mint Debian, você provavelmente preenche as dependências. Ah, sim, a versão 1.0 está disponível no repositório do Ubuntu. Acho que me precipitei ao dizer que não estava.

Fora isso, meus trabalhos até que vão bem. Meu plano de trabalho do Aristóteles me rendeu um oito e minha interpretação da ideia da obra Ciência Nova me rendeu um sete. O professor disse que falta argumentação e que a parte inerente aos detalhes histórico-culturais está confusa. É embaraçoso admitir que acho história um saco. Complicado eu dizer isso, eu que estou no nono semestre de filosofia, que não gosto de história. Já meu trabalho de metodologia foi entregue incompleto e só agora notei que está; por alguma razão obscura, eu achei que o texto introdutório dos Parâmetros Curriculares do Ensino Médio (mais especificamente, o texto introdutório do capítulo de filosofia) terminava em determinada página quando ele, na verdade, seguia bem mais longe. Uma verdadeira gafe. Sem falar que meu outro trabalho de metodologia está errado também: usei o livro errado como base. Acho que terei de arcar com as consequências.

7 de maio de 2014

A obra Ciência Nova.

Introdução.

A obra Ciência Nova, de Gianbattista Vico, traz consigo uma imagem bastante críptica que é explicada no decorrer do texto. Na imagem vê-se vários objetos ao chão, uma estátua, uma mulher sobre a qual incide e reflecte um raio de luz vindo de Deus. A mulher está sobre um globo, que parece estar mal apoiado. Essa imagem carrega consigo a ideia principal da obra, a qual tentarei explicar em minhas palavras, com base na interpretação provida pelo próprio texto.

Explicação da imagem.

Essa mulher é a metafísica, aquele saber das coisas menos sensíveis. Deus, na imagem, é representado pelo triângulo com um olho no centro. A metafísica, ao receber a luz divina, o olha fixamente, como que o contemplando, o que simboliza a metafísica como contemplação do divino. A mulher está acima do globo porque tenta encontrar Deus sem recorrer às coisas da ordem natural, que oferecem apenas parte da base necessária à contemplação do divino. Esse tipo de interpretação já foi feito pelos filósofos anteriores e é por isso que o globo está mal apoiado. O globo precisa de uma outra base para se sustentar: a civilização. Erram os filósofos que tentaram compreender Deus a partir das coisas naturais apenas.

Há uma faixa sobre o globo, na qual se vêem os símbolos dos signos Leão e Virgem. A ciência proposta por Vico refere aos heróis de cada nação, simbolizados por Leão, e aos primórdios dessas nações, simbolizados por Virgem, quando as pessoas acreditavam conviver com os deuses. O raio que incide sobre o peito da metafísica e é refletido simboliza a pureza de coração que o metafísico deve ter, isto é, humildade. Foi por ausência de humildade que o Estoicismo transformou a Providência em destino e que o Epicurismo transformou a Providência em acaso. O raio então refletido banha a estátua de Homero. Isso indica que Deus se aproximou dos poetas da Antiguidade por meio da metafísica, mas que metafísica? Vico sugere que os antigos talvez dispusessem de uma metafísica pré-filosófica.

O altar sobre o qual está o globo inseguro simboliza o fato de que toda sociedade tem sua religião e que dela se origina em termos civis. Sobre o altar também está um instrumento antigo de adivinhação, que também fazia parte da comunicação entre pessoa primitiva e o mundo divino contemplado pela metafísica. Ao lado do instrumento, está também um recipiente de água e uma chama acesa, simbolizando o sacrifício, típico das sociedades que ainda pensavam poder achegar-se aos deuses com favores ou expiações. Entre fogo e água está um archote, simbolizando o matrimônio, uma das “coisas humanas” faladas na obra, tal como o sepultamento. Essas são coisas importantes para a ciência de Vico, porque o matrimônio dá origem à família, que é a célula da sociedade, e o sepultamento dá origem à demarcação territorial.

De acordo com Vico, os primeiros heróis das nações eram aqueles que faziam os primeiros campos arados. Esses seriam os “Hércules” de cada povo. Assim, o arado encostado ao altar simboliza a superioridade desses heróis sobre as pessoas comuns de seu povo. À direita do altar, tem-se um timão, que simboliza a navegação. O seu posicionamento ao altar indica que foram os antepassados os autores das primeiras viagens. Esses antepassados eram ímpios, pessoas que, não unidas pelo matrimônio ou sepultamento, não tinham família nem terra.

O arado está posto contra o timão, com a ponta voltada para ele, como que ameaçador. Isso simboliza a renegação desses povos que, para Vico, seriam menos humanos por não terem aderido àquelas coisas humanas que ele menciona (matrimônio e sepultamento).

Há uma tábua perto do altar e do arado, mas relativamente longe do timão, na qual estão escritos dois alfabetos, simbolizando assim que os idiomas surgiram após as nações. Naturalmente, um idioma surge em local fixo em que o mesmo conjunto de indivíduos se relaciona. O idioma não surgiria naquele que viaja sozinho sem nunca pertencer a um lugar.

Vê-se na imagem também uma espada que indica que o herói detinha uma força especial sobre o povo comum, mas esta era uma força de ordem religiosa. Por exemplo, antes de um duelo fazia-se um apelo a Deus para que ele escolhesse aquele que estava certo por meio da batalha. Assim, se duas pessoas precisassem resolver suas diferenças pela luta, o vencedor seria apontado como aquele que tinha razão e o vencido era considerado aquele que estava errado. E o vencedor agradecia a Deus pela batalha. No tempo dos heróis, diferenças entre duas pessoas não eram resolvidas com leis, por exemplo.

Tem-se na imagem também uma balança, que indica a chegada do governo humano civil. Ela está posicionada próxima da espada, indicando que tal governo veio depois do governo heróico. Segundo o texto, inclusive, depois do advento do governo humano civil, mesmo os heróis foram postos em par de igualdade com os outros indivíduos.

Ideia da obra.

A Nova Ciência proposta por Vico é uma reinterpretação da metafísica como estudo das coisas divinas e humanas nas nações gentis, à luz da Providência, estabelecendo um sistema do direito natural que progride nas três idades da civilização descritas pelos egípcios: idade dos deuses, dos heróis e dos homens. Para isso, deve-se levar em consideração os três “idiomas” falados ao longo dessa história, que eram o idioma das famílias (mudo, hieroglífico), idioma heróico (metafórico, simbólico) e idioma humano (convencional, epistolar). Mesmo nosso idioma retém características dos três.

Em cada um desses momentos históricos, se destaca um modo diferente de jurisprudência: a teologia mística (dos poetas teólogos, que interpretavam as mensagens dos oráculos e transcreviam sua sabedoria nas fábulas), a jurisprudência heróica (o herói detinha a justiça e submetia os outros) e a equidade natural (de que todos os cidadãos são iguais e livres).

O que esta ciência quer é lançar luz sobre esses aspectos obscuros de nossa história, lançar luz sobre a metafísica oculta nesses tempos.

5 de maio de 2014

Plano de trabalho para a apresentação sobre a Metafísica de Aristóteles.

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Contexto histórico.

A Macedônia estava em alta na época. A hegemonia deles estendia-se pela Grécia sem maiores problemas. Apesar disso, Aristóteles foi para Atenas, por razões culturais. Atenas ainda era um grande centro cultural e político, atraindo aqueles com desejo de aprender mais sobre qualquer assunto que fosse. Naquela época, a cultura grega estava sendo espalhada pelos territórios conquistados, o que daria início ao Período Helenístico.

Na época, o intelectual poderia se dirigir a uma de duas correntes opostas de pensamento: a retórica de Isócrates e a Academia de Platão. A retórica era muitíssimo popular, considerando que Atenas era um centro político e a retórica era (e ainda é) uma excelente ferramenta de manipulação da opinião pública.

[…] Isócrates pretendia ser a retórica a melhor preparação para a vida política, bastando que se aprendesse a “emitir opiniões prováveis a respeito de coisas úteis” […]1

Muito interessou a Aristóteles o rigor técnico das argumentações de Platão. Assim, Aristóteles frequentou a Academia por duas décadas, aprendendo o sistema filosófico platônico.

Contexto cultural.

Como dito, as duas formas de discurso às quais Aristóteles podia dirigir-se eram a sofística e a filosofia platônica.

A sofística era uma forma de pensamento caracterizada pelo relativismo, a ideia de que não existe verdade e que a opinião, isto é, a conclusão que se tira ao examinar certa coisa sob um determinado ponto de vista, era aquilo que de mais próximo se teria de uma possível “verdade”. Sendo que, para a sofística, só o que havia era opinião, que por sua vez é um conteúdo mental dobrável, poder-se-ia vencer qualquer discussão ao converter a opinião oposta. Assim, os sofistas também eram retóricos e manipuladores da política, levando vantagem sobre seus conterrâneos no ambiente democrático grego. Mas deve-se ressaltar que os sofistas não eram meros “mentirosos”, pois eles se comprometiam em selecionar as opiniões mais úteis para um dado contexto e ensinavam em suas aulas particulares a arte de escolher a opinião mais econômica.

Já no platonismo, tem-se a crença numa verdade universal, imutável e imperecível, amparada pela forte influência órfica que agia sobre Platão. A opinião é particular e não teria valor num mundo governado por uma realidade oculta aos sentidos, mas alcançável pela razão. Platão, com um esforço metódico aterrorizante, pretendia chegar a essa realidade absoluta e, com ela, dar uma explicação concisa sobre o mundo sensível, uma explicação imune às opiniões e imune à refutação. Aristóteles foi mais atraído por esta proposta, vendo na sofística um superficialismo incômodo.

Influências.

Desnecessário dizer que Aristóteles foi um ávido discípulo de Platão, mas é necessário dizer que dedicou algumas páginas de seus escritos aos filósofos que o precederam, notavelmente os naturalistas e os sofistas. Mas Aristóteles foi mais influenciado por Platão e pelo pensamento naturalista, mais voltado à realidade concreta.

Ele divergiu de Platão em muitos aspectos, ao tomar como ponto de partida de sua metafísica o mundo sensível, para só então explicar o mundo sensível com conceitos metafísicos como ato, potência, essência ou acidente.

A obra e sua estrutura.

Estrutura.

A Metafísica é dividida em quatorze livros, dos quais apenas os três primeiros serão levados em consideração. O primeiro livro trata das causas e de como os filósofos anteriores a Aristóteles trataram destas. O segundo completa o primeiro, mas pode ser seguramente ignorado. Já o terceiro, delimita a área de ação dessa ciência que Aristóteles propõe.

Obra.

Livro I.

Aristóteles começa o texto dizendo que a visão é o sentido mais importante para o aprendizado, mas que é a memória que torna o aprendizado possível em primeiro lugar, tornando superiores aqueles animais que a possuem. Enquanto a visão permite ao ser dotado de memória aprender sozinho comparando as diferenças entre objetos, a audição permite que o indivíduo aprenda de outros indivíduos, logo sendo assim a audição necessária à pedagogia.

A empiria, que advém do uso pesado dos sentidos na observação do mundo, é uma consequência desse aprendizado. A empiria seria a aplicação daquilo que se aprende a casos particulares. Por exemplo, ao conviver com determinada pessoa, sabe-se quais remédios funcionam melhor para suas doenças. Porém, ao se extrair da soma de casos particulares uma regra, tem-se arte (técnica). A arte, ressalva Aristóteles, nem sempre é mais útil que a empiria particular, mas permite que o artista ensine o ofício. No caso anterior dos remédios e das doenças, o artista está em melhor posição do que o empírico de ensinar Medicina.

A abstração de uma regra da soma de casos empíricos só é possível após o refinamento das informações provenientes dos sentidos. Por exemplo: os sentidos nos dizem que o gelo é frio, mas não nos dizem por que ele é frio. Logo, o artista é dotado também de um conhecimento teórico daquela arte que ele pratica, o que lhe dá uma vantagem sobre o empírico, o qual apenas tem conhecimento prático.

Observa-se que o conhecimento teórico, por ser mais geral e abranger um número maior de casos, carrega uma superioridade que não se observa no conhecimento meramente prático. Por ser o artista detentor do conhecimento teórico e pode passá-lo aos outros, o empírico lhe deve servidão.

Dessa pequena reflexão, Aristóteles propõe uma ciência que deva ser mais teórica e universal quanto possível, mas deixa claro que essa seria uma ciência que não visa um fim prático e que tem como único objetivo nos afastar da ignorância. Dedicar-se à tal ciência não é possível sem antes se ter suprido as necessidades básicas de sobrevivência.

E isto é confirmado pelos fatos, já que foi depois de atendidas quase todas as necessidades da vida e asseguradas as coisas que contribuem para o conforto e a recreação, que se começou a procurar esse conhecimento.2

Aristóteles também diz que, apesar de esta ser a ciência mais desnecessária, não há ciência melhor que esta.

As outras ciências, em verdade, são mais necessárias do que esta, porém nenhuma é melhor.3

O estagirita então prossegue, entrando no assunto das causas. Para ele, existem quatro causas atribuíveis aos objetos de estudo: a causa formal (o que a coisa é), a causa material (de que essa coisa é feita), a causa eficiente (quem ou o quê lhe deu origem) e a causa final (para que serve). Então, ele põe-se a examinar como os filósofos que o precederam tratavam do assunto.

Os filósofos ditos naturalistas erraram ao considerar apenas as causas materiais em suas reflexões. Nessa filosofia primitiva, se procurava uma razão para as coisas em um elemento simples, como Tales havia feito com a água ou Anaxímenes com o ar. As escolas mais evoluídas perceberam que, se tudo fosse água ou ar, como queriam Tales e Anaxímenes, respectivamente, não haveria mudanças no estado da matéria. Seria necessário algo externo a transformar água ou ar em diferentes tipos de substância. Assim, outras escolas pensaram o universo como “duplo”, constituído de substrato e movimento, enquanto outras pensaram o universo como “uno” e vivo, racional. Mas em todos os casos, o erro era o mesmo: as quatro causas não eram todas relevadas.

Platão, ao afirmar que as coisas mundanas se originam de “Formas”, ele não deixa claro como isso acontece. Na verdade, Platão recorre ao mito do Demiurgo para explicar a origem do Mundo Sensível a partir do Mundo das Formas. Nesse sistema, a teoria é falha por não relevar outras causas que não a formal (essência) e a material (componente). Certamente um avanço em relação às teorias anteriores, mas, ainda assim, imperfeito. Platão parece ter notado, na concepção de sua teoria, que, ao considerar apenas a causa material, suprime-se a origem do movimento e os entes incorpóreos. Mas, mesmo em Platão, a origem do movimento é dúbia. Além disso, Aristóteles aponta incoerências na Teoria das Formas:

Por outro lado, além do que já ficou dito, se as unidades são diversas os Platônicos deveriam ter falado como os que sustentam a existência de quatro ou de dois elementos; pois cada um desses filósofos dá o nome de elemento não àquilo que é comum, como, por exemplo, o corpo, mas ao fogo e à terra, quer haja, que não haja algo de comum entre eles (isto é, o corpo). Mas o fato é que o Platão fala como se o Um fosse homogêneo, a exemplo do fogo e da água; e, a ser assim, os números não serão substâncias. Evidentemente, se existe o “Um-em-si” e esse é um primeiro princípio, a palavra “um” está sendo usada em mais de um sentido; de outra forma, a teoria é impossível.4

Também se poderia supor que a substância subjacente apontada por eles como matéria é excessivamente matemática, e antes um predicado e diferenciação da substância, isto é, da matéria propriamente dita; em outras palavras, o grande e o pequeno são como o denso e o tênue de que falam os Fisiólogos, chamando-lhes diferenciações primárias do substrato; pois eles são uma espécie de excesso e carência. E no que tange o movimento, se o grande e o pequeno são movimento, evidentemente as Formas se moverão; mas, se não são movimento, de onde proveio este? Todo o estudo da natureza fica assim aniquilado.5

Livro II.

O segundo livro tem caráter meramente complementar. Nele, Aristóteles ressalva que os filósofos que lhe são anteriores têm, sim, seu valor, adicionando suas contribuições para que outros possam construir sobre seus resultados. Ele completa seu discurso sobre as causas dizendo que as causas não podem ascender infinitamente e que, se assim o fosse, nem mesmo a ideia de Bem resistiria.

Livro III.

Aristóteles tenta identificar qual ciência deveria ocupar-se das causas por ele enunciadas. Logo de início, ele desconsidera a matemática; esta não está comprometida com juízos de valor, apenas quantitativos. As ciências naturais parecem, cada uma, ter uma razão para ser essa ciência, mas todas elas se preocupam com um número limitado de causas e não com todas as quatro. Aristóteles também quer saber se uma ciência deve ocupar-se das causas e outra da substância, se uma mesma ciência deve ocupar-se de ambas as coisas ou se várias a devem.

Ele acaba por concluir que não há, no momento, uma ciência tal como a que ele propõe, especialmente porque as ciências particulares parecem usar axiomas duvidosos, cabendo ao filósofo a análise da validade desses ditos axiomas. Outra dificuldade apontada por Aristóteles contra a possibilidade de ser mais de uma ciência a tratar das substâncias é que, se houvesse de ter uma ciência para cada substância, a administração seria difícil demais, além de que os resultados seriam menos sólidos. A análise das substâncias em geral compete a uma só ciência. Porém, a essência das coisas não pode ser demonstrada, embora atributos possam. Mas seria muito complicado dar a uma ciência já existente a tarefa de pesquisar todos os atributos da matéria.

O único jeito de haver uma ciência tão abrangente e capaz de lidar com diferentes tipos de coisas e mesmo diferentes exemplares dessas coisas seria se ela considerasse aquilo que há de universal e compartilhado por todos esses entes, aquele princípio que Aristóteles viria a chamar de essência.

Após a reflexão contida no terceiro livro, Aristóteles conclui que a Metafísica, ou melhor, a filosofia primeira, deve ocupar-se, sim, das primeiras causas e dos princípios.

Conceitos fundamentais.

O vocabulário aristotélico é bastante complexo, mas influente, com termos que foram retomados várias vezes pelos seus contemporâneos, na íntegra ou com modificações. Segue uma pequena explicação do que significam os termos mais proeminentes da filosofia aristotélica6 que foram levados em consideração nos três primeiros livros da Metafísica.

Substância e essência são termos bem parecidos. De acordo com Nicola7, a substância é aquilo que é dotado de uma essência e um punhado de acidentes. Essência é a causa formal, ou seja, aquilo que define algo como aquilo que esse algo é. O que é o céu? Ao responder essa pergunta, obtém-se a essência conceitual do céu.

Acidente é aquilo que coexiste com uma essência numa substância, mas que não interfere com dita essência. É aquilo que pode ser excluído na definição da essência, características cuja remoção ou adição não desqualificam algo como sendo aquilo que esse algo é. Por exemplo: nublado é um acidente que coexiste com a essência céu, porque, quer esteja nublado ou não, o céu não deixa de ser céu. Em outras palavras, são características contingentes.

Causas são aqueles quatro conceitos que Aristóteles discutiu no primeiro livro: eficiente (quem fez o objeto de estudo), material (com o que foi feito), formal (o que é) e final (para quê foi feito). A ciência pré-socrática era, para Aristóteles, incompleta, porque não levava em consideração as outras causas que não as de ordem material. Tal como a filosofia platônica, que era considerada, por Aristóteles, uma filosofia incompleta, pois só levava em consideração as causas formal e material.

Referências bibliográficas.

ARISTÓTELES. Metafísica. Tradução de Leonel Vallandro. Rio Grande do Sul: Editora Globo, 1969.

HOFFMANN, Camilla e BACELLAR, Marcella Vasconcellos. Platão e Aristóteles:Vida e Obra. Disponível em: <http://www.idealdicas.com/platao-e-aristoteles-vida-e-obra/>. Acessado em: 05/04/14.

NICOLA, Ubaldo. Antologia Ilustrada de Filosofia:das Origens à Idade Moderna.Tradução de Maria Mergherita de Luca. São Paulo: Globo, 2005.

1HOFFMANN, Camilla e BACELLAR, Marcella Vasconcellos. Platão e Aristóteles: Vida e Obra.

2ARISTÓTELES. Página 40.

3Idem. Página 41.

4Idem. Página 60.

5Idem. Página 61.

6Os termos considerados foram escolhidos dentre os apresentados em Pequeno Vocabulário Aristotélico (em NICOLA, página 98).

7Página 98.

3 de maio de 2014

Que tipo de professor eu quero ser?

A professora de Ensino nos fez esta pergunta na última aula e pediu-nos que pensássemos a respeito. Isto não vale nota, mas ela disse que deveríamos fazer de qualquer jeito porque é uma pergunta que poucos alunos de licenciatura fazem a si próprios e acabam por se decepcionar com o ensino porque viram que não conseguiriam ser bons professores após assumirem o cargo. Logo, fazer esta pergunta a mim mesmo é um bom jeito de saber se eu devo ou não seguir carreira como professor.

Eu queria ser aquele professor capaz de ensinar bem, de forma que meus alunos possam entender, mas não necessariamente aquele professor que consegue manter a atenção deles. Isso nem sempre é fácil, pois por vezes parece que se ensina melhor na medida em que menos se preocupa em manter a atenção do interlocutor. Isso porque aquele que quer realmente aprender prestará atenção sozinho, ao passo que, se você se preocupar em manter a atenção de todos, aqueles que realmente querem aprender não aprenderão tanto quanto poderiam. É muito complexo conciliar atenção do interlocutor e nível de conteúdo, especialmente numa sala com quarenta alunos, cada um com sua própria tolerância. É como conciliar igualdade e liberdade. Quando se quer igualdade num governo, você por vezes precisa limitar a liberdade de alguns de fazer aquilo que os livres acham ser o certo, mas que está em desacordo com a política governamental de igualdade. Quando se quer liberdade num governo, é natural que as pessoas explorem suas diferenças e aquilo que elas fazem de melhor para se desenvolver como quiserem, causando uma desarmonia de habilidades e perda da igualdade. Um governo pode, sim, ter os dois, mas não em condições ideais; um dos dois precisa ser priorizado.

Assim, eu posso ser os dois, como professor, um professor que dá um conteúdo profundo obrigatoriamente, mas que apenas “tenta” manter a atenção de todos. Darei um esforço sincero nessa área, mas não pretendo permitir que minhas tentativas de prender a atenção do aluno prejudiquem o conteúdo. Foi como fui lecionado pela minha única professora de filosofia no Ensino Médio… e que me fez amar filosofia à primeira vista.

2 de maio de 2014

Sobre o LMMS.

A versão 1.0 finalmente foi lançada, mas estou com um gosto muito amargo na minha boca. E não foi aquela lasanha desgraçada nem os biscoitos do Além que acabei de comer. O LMMS teve seu nome mudado, agora as siglas não significam nada. E, para comemorar isso, a versão mais recente do programa que foi um dia chamado “Linux Multimedia Studio” não está disponível para nenhum GNU/Linux estável. Eu só o vi disponível para Debian Sid, mas temo pela integridade do meu sistema se eu instalá-la, considerando a fama do Sid (aprendi que as versões do Debian são nomeadas segundo personagens de Toy Story e Sid era o moleque que quebrava todos os brinquedos). Fui ao arquivo de pacotes pessoais do DNS para ver se a versão 1.0 havia sido compilada para Ubuntu, mas parece que não. Nem para Ubuntu, o sistema no qual o programa nasceu.
Mas sabe o que é mais revoltante? A tão sonhada versão 1.0 está disponível para Windows! Como? Eu já venho notando, há algum tempo, que a equipe de desenvolvedores vem priorizando a versão do Windows, sem pagar o devido respeito à base de usuários do GNU/Linux. Na verdade, o programa parece funcionar melhor sob Windows, o que é um avesso. No Debian, a única versão disponível em Jessie é 0.4.10, quando em Ubuntu as coisas pararam em 0.4.14, segundo o que diz no arquivo do senhor DNS. Só temos uma versão 1.0 em Sid porque algum cara bonzinho se deu ao trabalho de compilar o código fonte no sistema dele e submeter os resultados, mas nem sempre um pacote em Sid desce ao Jessie na velocidade esperada.

1 de maio de 2014

Abril, terceira parte.

Quase não estou tendo aula. Feriados por cima de feriados me impedem de ir pra sala de aula, naturalmente, mas pelo menos ainda tenho dever de casa. Terminei o trabalho de metafísica e o de ensino. No de ensino, tive que entrevistar dois professores de filosofia de escolas diferentes. As questões e respostas dos professores foram colocadas aqui também, mas é claro que manterei o nome deles em segredo.

Já filosofia da ciência tem sido deprimente. O professor está revisando conosco lógica proposicional, um assunto que não manjo muito bem. E ter várias meninas se dando muito melhor nisso do que eu acentua minha sensação de inferioridade perante o sexo oposto. É, tenho medo de mulheres, mas disso vocês já sabem. Além do mais, lógica proposicional não me soa nem um pouco… satisfatória. Sinto que nunca usarei aquilo na vida além de que muitas regras são tão enxutas que nem parece que estou numa faculdade de filosofia. Esse diabo só podia ter vindo mesmo dos positivistas. Na filosofia, nada é óbvio. A filosofia é justamente a recusa do óbvio. Extirpar os discursos de todos os “talvez”, “possivelmente”, “provavelmente” e coisas do gênero, reduzindo-o à regras matematicamente simples, me parece, no mínimo, suspeito. Além do mais, esse treco foi inventado pelo Círculo de Viena, aquele punhado de desgraçados que queria acabar com a metafísica.

Não entendo muito bem esse ódio que o povo tem da coitada da metafísica. Eu não sou lá muito fã disso também, mas eu achei surpreendente o fato de quase toda a sala só ter começado a prestar atenção ao saber que a lógica proposicional é a “maior arma” contra a metafísica, que, por sinal, parece que nunca levou um tiro dessa arma. A metafísica é ardilosa, ela esquiva de bala. A lógica proposicional pode até mesmo ser usada a favor da metafísica, nada impede isso, ao meu ver. Mas o próprio professor disse que não só a lógica proposicional não cai na prova como não é necessária ao entendimento da disciplina. A ideia é usar a linguagem lógica para deixar o raciocínio dos filósofos mais fácil. Só que eu me dou muito melhor com palavras de verdade do que com aqueles… símbolos estranhos. O professor não parece se dar conta de que está deixando a disciplina mais difícil, além de estar perdendo tempo precioso nos ensinando um outro idioma, quando o nosso idioma é bom o bastante para entender e interpretar a doutrina desses filósofos que estudaremos.

Uma garota resolveu ser minha “discípula” e está colada em mim agora. Ela quer que eu a ensine o significado dos termos técnicos da filosofia de Gianbattista Vico e acho que terei de fazer uma pesquisa só para ela. No final das contas, acabará sendo para todos, já que seria legal colocar aqui um “vocabulário do Vico”. Mas, cá entre nós, ela me assusta…

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