Analecto

30 de novembro de 2021

Política do desentendimento.

Filed under: Notícias e política — Tags:, — Yure @ 17:34

O conceito de “política” varia muito na história da filosofia, assim como variam as concepções sobre qual seria o objetivo da mesma. O que é a política e pra quê ela serve? Hoje, nós gostamos de dizer que a política é como a ética, mas a ética lida com o comportamento individual visando a felicidade ou a justiça, enquanto a política lida com o comportamento do grupo, visando o bem de todos ou, pelo menos, da maioria. Mas nem sempre se pensou assim e não há garantia de que pensaremos assim nas próximas décadas.

Para ilustrar como nossas concepções de política mudam, lembremos de alguns filósofos clássicos. Aristóteles afirma que a política tem como objetivo a partilha harmoniosa da cidade. Para Aristóteles, o ser humano, embora seja o único animal racional, não é o único dos animais políticos (nesta categoria estão inclusas as formigas e as abelhas, pois elas também são seres “sociais”). Política seria a reflexão sobre como atingir esse objetivo, que pode ser sintetizado no termo “convivência”. Já para Hobbes, a política nada tem a ver com essa história de partilha harmoniosa. É que Hobbes pensa de forma diametralmente oposta a Aristóteles: para Hobbes, o ser humano não é social por natureza e só pode se tornar gente depois de entrar na sociedade, onde abre mão de sua liberdade e não pode fazer mal aos outros, não por dever, mas por medo do que o estado poderia lhe fazer. Pesado, não é? Bom, ele também defendia que o governo ideal seria o absoluto, onde só haveria uma autoridade (incluindo aqui a fusão entre igreja e estado) que estivesse acima da lei e à qual todos deveriam obedecer em nome da paz. Será que vale a pena viver num regime repressivo só pra se ter paz? Com certeza deve haver valores maiores que a paz por aí… eu acho.

para Foucault, podemos chamar de política todas as relações de poder. Mas coisas como a organização do estado, leis e qualquer coisa que não seja a relação concreta, em ato, é chamada “polícia” por Foucault. É com base em Foucault que Rancière propõe seu próprio conceito de política… como desentendimento.

O que Rancière chama de “política”.

O filósofo contemporâneo Rancière propõe o conceito de “política do desentendimento”. Segundo Rancière, só se deve chamar de política o diálogo feito entre sujeitos diferentes, desde que falem a mesma língua. Para que tal diálogo seja possível, é preciso que cada parte veja a outra como “igual”, ao menos em termos de humanidade. Se você não vê o outro como igual em termos de humanidade, não se faz política, mas alguma outra coisa, que pode ser manipulação, exploração ou guerra, seja explícita ou velada.

Por exemplo: eu quero demolir um conjunto de casas ali pra construir uma estrada. Eu posso resolver isso com um diálogo com os moradores daquela casa e tentar relevar suas razões ou posso simplesmente solicitar que a polícia desocupe aquelas casas à força. No primeiro caso, se faz política, porque estou entrando em diálago com pessoas humanamente iguais a mim. No segundo caso, justamente por eu tratar essas pessoas como diferentes, talvez inferiores, eu não faço política, mas opressão.

Mas então, por que se chama “política do desentendimento”, se a essência da política é o diálogo? É que, como a política só pode ser feita por pessoas em estado de igualdade e isso não é frequente entre grupos com demandas diferentes, acaba que cada segmento social se fecha em si mesmo, falando sua própria língua. Quando dois segmentos dividem o mesmo lugar, ocorre conflito. É daí que vem o desentendimento. O diálogo, quando acontece, não é pacífico, pois diferentes segmentos sociais, além de não se entenderem, têm demandas distintas. A menos que cada lado seja capaz de abrir concessões ao outro, não haverá acordo. Por essa razão, fazer política é difícil. Considerar o outro como igual não é suficiente pra que a discussão termine num acordo satisfatório a ambos. Somos diferentes, temos demandas diferentes, falamos línguas diferentes, não apenas em sentido literal, mas também metafórico. Essas diferenças não podem ser negadas pra que haja um acordo de verdade. É preciso que os diferentes, mesmo quando minoria, não se calem ou finjam que são parte do outro lado. Cada lado tem que lutar por seus interesses, o que implica afirmar a diferença, em vez de abrir concessões sem receber nada em troca. Em suma: é preciso negociar. Isso é política, segundo Rancière. Tudo o mais é estranho ao conceito de política, pertencendo ao campo da “polícia”.

Recomendações.

É de suma importância compreender que Rancière não considera a política um fenômeno negativo só porque o estado padrão da humanidade é o desentendimento. Aliás, esse “desentendimento” implica diversidade de opiniões. Logo, eliminar totalmente o desentendimento implicaria a supressão da diferença, o que é indesejável. Então, se a diversidade implica certo desentendimento, é preciso aceitar que ele acontece e mitigá-lo. Se essa mitigação ocorre através do tratamento dos outros como iguais, mesmo que apenas em nossa humanidade, seríamos uma sociedade mais desenvolvida se fôssemos capazes de nos educar para ouvir o outro, mesmo que não lhes abramos concessões quando estas se mostrariam absurdas. Isso tornaria mais fáceis e mais rápidas as negociações.

Isso também ajudaria a nos entendermos uns aos outros. Com o costume de ver o outro sobretudo como um ser humano igual a mim, o desconforto de lidar com a diferença diminui. É preciso formar esse hábito e a educação é o caminho pra isso.

Older Posts »

%d blogueiros gostam disto: