Analecto

9 de dezembro de 2017

A razão de meninas “arrasarem” meninos (e o que fazer a respeito).

Filed under: Notícias e política, Saúde e bem-estar — Tags:, , , — Yure @ 18:57

Eu tenho um colega adolescente que vem sofrendo por causa de uma menina que lhe está fazendo chantagem emocional. Eles romperam e meu colega está tentando voltar a ser amigo dela, mas só recebe respostas gélidas. Eu sugeri que talvez fosse melhor desse jeito, especialmente porque ela causou o rompimento, ela se mantém afastada, ela não parece estar sofrendo nada com a situação. No entanto, ele continua sofrendo por causa disso, porque sente falta dela. Eu perguntei se talvez ela não estaria exercendo algum tipo de vingança por uma falta passada, até porque ela não cede perdão diante do sofrimento dele, como se estivesse gostando. Mesmo que ele aceite minhas palavras, continua sofrendo com a falta, o que é compreensível. Então, ele me fez uma pergunta interessante: “por que meninas arrasam meninos?”

Essa pergunta é interessante porque ela é extremamente geral. Não é “por que ela me arrasa”, “por que meninas me arrasam” ou “por que ela arrasa meninos”. A pergunta dele reflete a percepção de um comportamento que ele vê como geral no trato entre gêneros. Eu mesmo já me perguntei isso, quando tinha a idade dele, e só encontrei as respostas neste ano, após vinte anos de convivência com esse problema.

Pelo menos na minha experiência, esse é um problema de autoestima. Ser homem faz parte do meu autoconceito. Eu gosto, sim, de ser homem, então meu problema não se manifesta no trato com outros homens. Mas eu sinto que ser homem representa uma desvantagem no trato com mulheres. Então, o meu problema se manifesta no trato com elas. Esse problema vem da percepção das vantagens interpessoais que elas têm e do desenvolvimento de suas capacidades, que ocorrem em maior velocidade. Meninas, eu percebo, têm melhor autoestima, são mais desenroladas e coisa e tal. Logo, eu, como menino, sou infeior a elas. Era assim que eu pensava. Eu me sentia inferior por ser homem e não via solução pra esse problema até abril deste ano. A solução é tão óbvia, que a única razão de eu não a ter percebido antes é porque meu estado anterior era doentio. Eu me sentia deprimido por causa disso. Lembro de dias em que eu não queria sair de casa, por exemplo, porque até a voz feminina me fazia sentir miséria.

Melhor e pior não é questão de gênero, mas de mérito pessoal. Resolver o meu problema requeriria que eu aumentasse meu valor como pessoa. Eu tinha que me tornar o melhor possível. Mas a solução que eu encontrei pode não funcionar bem com o meu colega, porque bastou, pra mim, aumentar meu valor individual, mas ele talvez queira aumentar seu valor como homem.

Ignoro como esse problema começou em nossa sociedade. Alguns estudiosos falam de uma “crise do menino”, por exemplo, um conceito segundo o qual os meninos da nossa sociedade estão se desenvolvendo de maneira pobre, indiretamente pela atenção excessiva prestada à menina e pela falta de bons exemplos masculinos. A sociedade negligencia o menino, por exemplo, educacionalmente: meninos estão aprendendo a ler mais lentamente do que meninas e ninguém está subindo com um programa de leitura voltado a eles. Em termos de educação, meninas estão recebendo bastante suporte, às vezes até de forma injusta: há professores que dão uma nota maior à menina mesmo que suas respostas na prova sejam as mesmas dadas pelo menino que também fez a prova. A ideia é bela: igualdade entre os gêneros. Mas como você pode igualar os gêneros pensando sempre somente em um?

Isso é agravado pelo fato de o casamento estar deixando de ser uma opção apetecível. Os homens estão se divorciando, causando um aumento no número de mães solteiras. Alguém escreveu que a masculinidade só pode ser ensinada por um homem. Por quê? Por causa da identificação: é mais fácil aprender de alguém que você vê como semelhante. É mais difícil pra um menino aprender de uma mulher porque não se identifica tanto com ela do que com homens, mas os homens não estão mais em casa. Em adição, os homens estão se casando menos e não estão mais querendo filhos como antigamente. Alguns estudiosos veem nisso uma resposta ao avanço das políticas voltadas à mulher em detrimento do homem, bem como à diferença de aplicação das leis que deveriam promover a igualdade. Por exemplo: se eu apanhar da minha mulher e denunciá-la, o delegado rirá da minha cara. Basta lembrar o que ocorre na Índia. Além disso, com o aumento das denúncias de assédio sexual e a demonização de atos, mesmo os mais inofensivos, como um pedido de namoro, uma carícia não íntima, um abraço ou um convite (que pode inclusive ser recusado), qualquer relacionamento sério passa a incluir uma quantidade desumana de risco. Muitas dessas denúncias são falsas e há mulheres dizendo que a destruição de homens inocentes junto com os culpados é um “preço a pagar” pela eliminação do patriarcalismo. Assim, o menino não apenas fica sem saber o que fazer com sua identidade masculina como fica sem saber o que fazer com sua sexualidade. É natural que qualquer menino, sentindo esses problemas, se sinta inferior. Isso fica ainda pior quando a mídia tende a mostrar homens como idiotas, incapazes ou pessoas sem importância. Isso é especialmente ruim quando ocorre num desenho pra crianças. Alguém pode argumentar que esse era o tratamento que as mulheres receberam por séculos, mas eu sempre pensei que o feminismo pregava a igualdade entre os sexos, não a inversão do pólo de opressão.

Como dito antes, a questão de ser inferior ou superior é uma questão de mérito pessoal, não de gênero. Mas, se o que você quer é aumentar seu valor como homem, você precisa entender o que é um homem. O homem só se justifica como gênero pelas diferenças que tem em relação à mulher. Se homens e mulheres fossem iguais, sexo não seria um elemento importante no autoconceito de ninguém. Então, antes de saber o que fazer com sua identidade masculina, você deve saber no que o homem difere da mulher. Diferenças sociais e até mentais são sempre muito controversas e variam segundo educação e cultura. As diferenças que você deve reparar são as biológicas. Além das diferenças óbvias, existem diferenças em níveis cerebrais e hormonais. Se você não tem um bom exemplo masculino de quem você possa aprender essas diferenças, sua melhor aposta é aprender da Internet. Essas diferenças justificam a existência do homem como gênero.

Em segundo lugar, claro que algumas dessas diferenças podem ser vistas como desvantagens. Por exemplo, a testosterona é um esteróide anabolizante produzido no homem em quantidade oito vezes maior em relação à mulher. Isso torna o homem mais forte fisicamente, mas, dizem, o torna mais propenso à agressão. Mas agressão é uma falha moral. Aristóteles, na sua Ética a Nicômaco, afirma que desvangens morais, isto é, vícios são virtudes não moderadas. Então, se você moderar a agressão, você obterá a assertividade, que é uma vantagem moral. Quando alguém aponta que o homem é mais propenso a determinado comportamento considerado inadequado, a moderação dessa tendência, se devemos crédito a Aristóteles, permite a utilização construtiva mesmo das diferenças comumente tidas por negativas. Se o que justifica a existência do homem como gênero são as diferenças entre homem e mulher, então a revitalização do valor masculino requer a utilização dessas diferenças para o autoaperfeiçoamento masculino e para o bem de todos, não somente dos homens. Se o feminismo queria igualdade entre os gêneros, deveria ter pensado nos dois sexos. Se pensou, por que o movimento se chama “feminismo” e não algo mais abrangente? Homens não devem cometer o mesmo erro e sua luta contra uma situação que lhes é hostil não pode se tornar uma desculpa para praticar vingança. Justiça não é vingança, opressão não é igualdade.

Claro que essas diferenças não servem pra dizer que todos os homens são iguais. Cada caso é um caso. Estudos revelam que o homem tende a um melhor processamento matemático e um processamento linguístico menos profundo, mas esse não é meu caso. Comigo é o contrário. Mas isso não me desqualifica como homem, uma vez que tenho outras diferenças que contam. Aliás, essa diferença inclusive aumenta meu valor como pessoa. Então, homens não serão todos iguais no terreno mental ou mesmo hormonal. Uma tendência não é regra, especialmente levando em conta o ambiente (por isso insisto em diferenças biológicas, não de atitude ou de papel social, porque atitude e papel social são coisas altamente voláteis, com a biologia sendo o que há de mais estável neste caso).

Por último, o problema continuará a afetar meninos e homens enquanto não houver engajamento sociopolítico suficiente para contrabalancear o fenômeno do falso feminismo. O homem precisa participar da sociedade, seja politicamente, artisticamente ou de qualquer outra forma. Pense no que você faz de bom, nos seus talentos (meu colega, por exemplo, é autodidata em programação), e invista neles também para se aperfeiçoar e enriquecer moralmente outros homens ou mesmo todas as pessoas que seu trabalho puder alcançar, não importando o gênero. Mostre no que você é bom e será apreciado. A princípio, te verão como exceção. Mas se outros tomarem a mesma posição, a exceção se tornará regra.

Acredito, agora que vejo as coisas mais claramente, que essa é a conclusão sensata à qual qualquer homem pode chegar. Mas uma pessoa que estava na situação em que eu estava não é capaz de completa sensatez. Por isso estou escrevendo isto: ajudar quem passa pelo que meu amigo passa e pelo que eu passava.

Em suma, os meninos devem:

  1. Aprender sobre as diferenças biológicas entre homens e mulheres, notar quais diferenças ele percebe em si mesmo e investir nelas.
  2. Verificar quais dessas diferenças são inconvenientes e procurar meios construtivos de lidar com elas.
  3. Utilizar essas diferenças para o aperfeiçoamento de si mesmo e dos outros, pelo descobrimento e melhoria de seus próprios talentos.

Então, respondendo a pergunta do meu colega, meninas arrasam meninos porque a autoestima deles está baixa. Se você estivesse mais seguro de si, não se sentiria dependente de alguém que não lhe ama e que provavelmente se diverte com seu sofrimento. Espero que isto responda a pergunta do meu colega e a de outros meninos que veem as coisas da mesma forma.

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