Analecto

12 de fevereiro de 2017

Anotações sobre a metafísica dos costumes.

  1. Este livro é uma continuação da Crítica da Razão Prática.

  2. Os livros de filosofia são frequentemente acusados de serem complicados de propósito, só pra parecer que o autor é mais inteligente do que na verdade é. Então os livros do Kant devem ser complicados por acidente.

  3. Todos os autores de filosofia deveriam escrever de um jeito que os que não são filósofos possam entender. Se eles escrevem de forma muito complicada, o leigo pode pensar de dois jeitos: ou ele pensa que o autor é muito culto ou ele pensa que o autor não sabe o que está dizendo e quer parecer que sabe. De fato, é possível escrever um texto sem sentido e ser aclamado, se você usar jargão suficiente para parecer que entende de alguma coisa.

  4. Muitas vezes, o processo filosófico não pode ser popularizado, por requerer uma linguagem que está distante do vulgo. Mas os resultados podem. Se você não puder fazer o processo ficar simples o bastante pra qualquer um entender, tente pelo menos fazer isso com a conclusão do processo. Afinal, o leigo irá adotar um comportamento. O processo que ele não entende será validado pelos resultados práticos do comportamento, mas isso requer que ele entenda o que fazer. Foi o que Marx fez. O Manifesto foi escrito pra vulgo, mas o Capital foi escrito pra intelectuais. Um é o resultado, o outro é o processo.

  5. Popularizar um texto que não foi escrito por mim abre espaço para que eu possa torcer o significado original do texto. Essa a crítica que se faz comumente aos comentadores de filosofia.

  6. Se considerarmos a filosofia como um corpo de conhecimentos filosóficos, então existem várias filosofias, cada uma dando sua contribuição ao pensamento moderno. Mas se consideramos a filosofia como um conhecimento só, então há um processo que se aperfeiçoa e se purifica ao longo do tempo.

  7. Então, não podemos dizer que a filosofia anterior não tem importância: ela serviu como meio de aperfeiçoamento e purificação que possibilita o estado atual do pensamento filosófico.

  8. Uma obra de filosofia ou de ciência, então, nunca é totalmente sua: ela foi construída sobre uma bagagem cultural que você tem e que foi adquirida com o estudo de outros autores, seja através de professores ou de livros.

  9. “Quem ri por último, ri melhor” é mais velho do que eu pensava.

  10. Existem leis que não precisam ser promulgadas.

  11. É lícito universalizar a experiência. Mas é preciso estar pronto pra quando sua universalidade for desmentida.

  12. Uma lei desnecessária deve deixar de ser lei.

  13. A ética é experimental. O caminho pra felicidade individual passa pela experiência íntima do indivíduo. É difícil, se não impossível, fazer ciência sobre isso. Assim, os princípios da ética, como meio para obtenção da felicidade individual, ou são óbvios ou gratuitos, diz Kant, não havendo garantia de que todos os que encontraram a felicidade a encontraram do mesmo modo. O problema é que a felicidade pode ser expressa a priori. O parecer da filosofia helenística, por exemplo, era de que felicidade é não sofrer. Já para Aristóteles, felicidade é ficar perto do que se ama. Então, realmente, se levarmos o parecer aristotélico em consideração, só poderemos saber o que nos faz felizes pela experiência, tentativa e erro. Mas, se pudéssemos colocar a felicidade em termos a priori, não haveria problema em alcançar a felicidade por diferentes meios. Felicidade não é alegria, nem prazer. Se fosse tão somente isso, Kant teria razão.

  14. Para Kant, a lei manda sem levar em consideração que benefício o comandado poderia obter. Lá vamos nós de novo.

  15. Parte da razão de eu fazer poucas anotações sobre Kant é que eu simplesmente não vejo nada de construtivo nele. Só faço anotações sobre coisas que eu possa vir a usar, coisas que me dizem respeito ou que me são interessantes.

  16. “Concupiscência”, diz Kant, é o desejo que ainda não foi transformado em ato. Se eu quero algo, mas não me mexo pra obtê-lo, tenho somente concupiscência.

  17. “Livre arbítrio”, diz Kant, é a escolha feita com base na razão somente. Se a escolha é feita com base na paixão ou sensibilidade, é um “arbítrio animal”. Então, para Kant, livre arbítrio é um tipo de escolha, não a própria volição, como se queria antes.

  18. O arbítrio humano nem sempre é livre, mas nunca é animal. Isso quer dizer que o ser humano, mesmo que não escolha somente com a razão, nunca escolhe somente por instinto, paixão ou sensibilidade, diz Kant.

  19. “Lei moral” diz respeito ao uso da nossa liberdade. “Lei jurídica” diz respeito somente aos atos externos.

  20. O conceito de dever deriva do de obrigação, o qual, por sua vez, deriva seguramente do imperativo categórico. Eu sou obrigado, pelo sentimento moral, a agir de um jeito que beneficiaria todos, se todos adotassem esse comportamento.

  21. Obrigação é uma necessidade moral, que deve ser preenchida com um ato livre. Como pode ser livre se é uma obrigação? Simples: eu posso ser obrigado a uma coisa e ainda assim recusar. Sofrerei as consequências, mas o fato é que eu só vou ceder a uma obrigação se eu assim achar válido. Eu posso desobedecer ciente de que vou morrer por isso. Se eu não quiser, a necessidade moral não será preenchida. Então a obrigação é negada. Arrume outro a quem obrigar. A obrigação, para Kant, é sustentada no imperativo categórico (agir de um jeito que todos possam agir), então eu automaticamente nunca sou obrigado a agir contra o imperativo categórico. Só na cabeça dele mesmo.

  22. “Imperativo” é uma regra que dá caráter de necessidade a algo que antes não tinha esse caráter.

  23. “Dever” é algo que sou obrigado a fazer, ou seja, uma ação específica, particular, que visa preencher a necessidade moral enunciada pela obrigação, que por sua vez se sustenta no imperativo categórico. Eu tenho a impressão de que esse raciocínio desmoronará em menos de dez páginas.

  24. Se algo não é proibido, é automaticamente permitido.

  25. Se algo é permitido, é moralmente indiferente. Algo é moralmente bom somente quando é ordenado, diz Kant, e moralmente ruim somente quando é proibido.

  26. Uma “pessoa” é um sujeito responsável por suas ações, que é capaz de livre-arbítrio. Sendo o livre-arbítrio uma ação pautada somente na razão, crianças pequenas não seriam pessoas, no parecer de Kant.

  27. O contrário de “pessoa” é “coisa”.

  28. Uma ação que contradiz o dever é chamada “transgressão”.

  29. É culpado quem transgride sem saber que o faz. É criminoso quem transgride ciente de o fazer.

  30. Para Kant, é “justo” aquilo que está em conformidade com as leis externas. Porque ele não é funcionário público no Rio de Janeiro. Não vamos confundir as palavras com as coisas: o que Kant chama de justo não precisa ser realmente justo. Um pensamento como esse, eu temo, pode atuar a favor de leis opressivas, que seriam consideradas “justas” porque são leis.

  31. Para Kant, se é contra a lei, é injusto.

  32. A lei natural precede à positiva.

  33. É imoral a máxima (regra de conduta pessoal) que não leve em conta a universalidade. Eu devo agir como se todo o mundo fosse agir como eu, como se eu estivesse o tempo todo dando exemplo. Se todo o mundo agisse como eu, o mundo seria melhor ou pior? Se melhor, minha ação é moral. Se pior, minha ação é imoral. Quando estiver diante de escolha difícil, pense nisso. Quem sabe a escolha ficará mais fácil.

  34. Máximas procedem da escolha, mas leis partem de outra fonte. Logo, uma lei não precisa estar em conformidade com o imperativo categórico. Outra brecha pra opressão. Especialmente porque, na Crítica da Razão Prática, Kant diz que a lei tem preferência sobre a máxima.

  35. Um imperativo categórico é um comando. Mas é todo comando um imperativo categórico?

  36. Não é estranho que se punam os maus, mas não se recompensem os bons? A recompensa pra agir dentro da lei é somente não ser preso.

  37. A lei ética é a que deixa seu objetivo claro. Se uma lei não deixa claro pra quê ela serve, é uma lei jurídica.

  38. Honrar os compromissos é um dever, ao qual inclusive se pode ser forçado.

  39. Se cumpre seus deveres, não está fazendo mais que sua obrigação.

  40. Honrar os compromissos mesmo quando não há risco de punição por desconsiderá-los ainda é um ato de virtude.

  41. A doutrina do direito é a soma de todas as leis que podem se manifestar externamente. Exemplo: os princípios do direito positivo, como a lei natural.

  42. Uma ação é justa se não fere a liberdade de ninguém ao mesmo tempo que está de acordo com uma lei respeitada por todos.

  43. Um juiz não pode emitir uma decisão sem condições definidas. É preciso que haja dados sobre os quais ele possa pensar antes de emitir uma decisão. Não há processo sem documentos.

  44. É lícito fazer violência a quem não me fez nada?

  45. A lei não pode punir quem comete um crime a fim de se manter vivo. Isso porque não há pena que a lei possa emitir que seja maior que a morte. Entre morrer e ser preso, preferirei ser preso. É nisso que se assenta o direito de legítima defesa. Nesses casos, a pessoa, mesmo que não fique inculpe, não pode ser punida.

  46. As pessoas não são somente meio, mas também fim. Isso inclui você.

  47. Não cause prejuízo, diz Kant.

  48. Assegure sua propriedade sem tomar a do outro.

  49. O único direito inato é a liberdade. Todos os outros são adquiridos, diz Kant.

  50. Mentir é dizer falsidade de propósito.

  51. Para Kant, o ser humano tem relação de direitos e deveres com sua espécie apenas. Ele talvez achasse ridículo a ideia de “direitos dos animais”. Voltaire e Rousseau concordam que os animais são dignos de proteção, mesmo que não mantenham deveres com seres humanos. Kant também nega a relação de direitos e deveres entre um ser humano sujeito de direitos com um ser humano sujeito de deveres somente (escravos).

  52. “Meu” é algo cujo uso está ligado a mim de tal forma que seu uso por outros, sem meu consenso, me seria prejudicial, diz Kant.

  53. É possível possuir algo fisicamente (tendo o objeto) ou juridicamente (tendo direito ao objeto).

  54. Eu só posso dizer que algo é meu se ele permanece sendo meu (conforme nota 52) mesmo quando eu não estou em sua posse física. A bola é minha, mesmo quando eu não estou brincando com ela.

  55. É possível que eu chame de “meu” um serviço prestado por outros.

  56. O filho ou a mulher são “seus” somente se eles permanecerem “seus” também na sua ausência. Assim, mulher e filhos podem, diz Kant, ser pertences do marido ou do pai.

  57. Se alguém já ocupa uma terra, invadi-la é lesar o ocupante. Levando em consideração que Kant diz que não há relação de direitos e deveres para com escravos (e, na época, havia escravos negros), me pergunto o que ele pensa dos indígenas americanos.

  58. Um conhecimento empírico é sempre subjugado a espaço e tempo.

  59. Um objeto externo não é um objeto longe, mas um objeto distinto.

  60. É possível ser dono do que nunca se irá usar.

  61. Dizer que algo é meu implica dizer que ninguém pode usar aquele algo sem minha permissão.

  62. Você não pode ter o que já é de alguém, salvo no caso de a posse ser partilhada de comum acordo entre as partes.

  63. Mesmo que eu possua um ser humano como posse, eu não tenho direito de usá-lo como objeto, uma vez que todos os humanos que são meios precisam também ser fins.

  64. Quem adquire primeiro tem mais direito.

  65. A Terra é redonda, ainda bem; facilita os seres humanos a se encontrarem. Se a Terra fosse um plano infinito, as comunidades não se formariam.

  66. E no caso da terra desocupada e não pertence a ninguém? Se eu chego lá, é minha, mas até quais limites? Provavelmente só até onde eu puder usá-la. Isso seria mais justo. Mas Kant está com o senso comum nesse sentido: a terra é minha até onde eu puder protegê-la. Se ela não é de ninguém, então eu posso ocupá-la, mas, como no caso das guerras por território, eu não continuarei com ela se eu for fraco contra invasores.

  67. A posse definitiva só é possível graças às leis. No estado de natureza, uma posse minha pode ser subtraída a qualquer momento, não muito diferente de ser assaltado na rua.

  68. Não se deve tomar a terra que já pertence a seus habitantes.

  69. Uma terra na qual não se pode viver é de todos, diz Kant. Ela cita o exemplo do mar aberto. O problema é que muitas terras onde não se pode viver são de interesse. Um deserto inabitável pode conter petróleo. E o que dizer a Amazônia? Esse argumento não pode ser levado em consideração hoje, pois coloca em risco tanto recursos humanos quanto naturais. Não temos direito de invadir um deserto que pertence ao território de outro só porque não é possível viver nele. Por outro lado, se a Amazônia fosse de todos, talvez já estivesse extinta. Os tempos mudaram.

  70. Cada ser humano é responsável pela humanidade.

  71. “Alienação” é a transferência de propriedade. Quando eu dou a outro o que era meu.

  72. Um contrato me garante uma promessa, não necessariamente a coisa prometida. Com efeito, a outra parte pode violar o contrato. É errado, mas acontece.

  73. Para Kant, a posse de uma mulher, de filhos ou de criados é inalienável. Mas não pode uma mulher adquirir um marido? Kant implica que não, só o contrário.

  74. “União sexual”, diz Kant, é o uso recíproco dos corpos e das habilidades. Uma espécie de acordo no qual um se servirá intimamente do corpo alheio.

  75. Para Kant, o sexo que não pode potencialmente terminar em reprodução é antinatural. Assim, ele diz que não se deve nunca deixar de repudiar nem a bestialidade nem a homossexualidade. Interessante como ele não fala da diferença de idade.

  76. Se a união sexual é legal, é matrimônio. Se ela age sem influência da lei, é fornicação, diz Kant.

  77. O matrimônio, diz Kant, não pode ser anulado.

  78. Não é possível adquirir o membro do outro sem adquirir seu corpo inteiro.

  79. Os casados têm posse dos bens materiais uns dos outros, diz Kant. Muito bem, mais uma razão pra não casar.

  80. O pacto entre homem e concubinas não encerra direito, porque a mulher se aluga. Ela passa a funcionar como um servo.

  81. Um casamento “de verdade” deve ser feito entre pessoas da mesma classe social, para evitar que a diferença de status dê ocasião à desigualdade no matrimônio. Eu prefiro pensar que isso evita pistoleiras.

  82. O homem mandar sobre a mulher não é, para Kant, violação da igualdade matrimonial, porque é natural que o homem comande. Isso implica dizer que a mulher mandar sobre o homem é violação da igualdade matrimonial porque, para Kant, a mulher não tem essa qualidade natural. Mas ele faz a ressalva de que o homem só deve usar sua habilidade de comandar na medida em que isso for necessário para o bem-estar de todos na família.

  83. O simples romance, sem sexo, não pode nunca ser matrimônio, diz Kant. Se o matrimônio é pautado no sexo, um casal abstinente não está casado “de verdade”. Lembrando que ele é um alemão do século dezoito (se não me engano). Isso abre espaço para relações homoafetivas sem sexo, implicação que ele provavelmente não previu. Quero lembrar que, até agora, eu concordo pouco com este livro.

  84. O pai tem direitos sobre a criança, em especial o direito de educá-la e protegê-la.

  85. Para Kant, a criança é uma pessoa. Mas como pode, se a pessoa é um ser dotado de livre-arbítrio, o qual, por sua vez, implica a capacidade de escolha somente com base na razão?

  86. O filho não pediu pra nascer. Nós o trouxemos à vida sem seu consenso. Se essa vida for ruim, somos criminosos. É preciso que a criança tire proveito da vida. Seria cruel tê-la feito nascer só pra sofrer, ela que não pediu por isso.

  87. O filho deve ter dupla educação: pragmática (como sobreviver) e moral (como ser honesto). Se o filho sabe viver, mas não é honesto, não verá problema em se envolver com o ilícito. Se isso acontecer, a culpa é dos pais, diz Kant.

  88. Se o filho se emancipar, não deve nada aos pais, diz Kant, além de gratidão. Essa gratidão não precisa ser paga em dinheiro, honras ou de qualquer forma em particular. Depende do filho a demonstração dessa honra. Isso porque o filho, ao se emancipar, renuncia à proteção e educação dos pais. Então, a grande recompensa dos pais por educar o filho agora emancipado é não ter mais que cuidar dele.

  89. A maioridade só chega “de verdade” quando o filho é capaz de se sustentar sozinho. Quando ele não precisa mais dos pais, é verdadeiramente adulto.

  90. “Dinheiro” é qualquer coisa que só tem valor quando é dada. Com efeito, o valor do dinheiro só aparece quando o gastamos, isto é, quando damos dinheiro em troca de algo. Sem comércio (troca), o dinheiro é só papel. De que serve o dinheiro se não houver o que comprar? Sua função é ser dado em troca de mercadoria.

  91. O dinheiro só tem valor como meio. Se tivermos muito dinheiro, mas não o gastarmos, é o mesmo que estarmos pobres.

  92. Toda a força de trabalho pode ser trocada por dinheiro. Se bem que é possível trabalhar por comida, em situações extremas…

  93. Quanto mais trabalho, mais dinheiro é movido. Se há pouco trabalho, a economia sofre.

  94. Para que o dinheiro funcione, ele deve ser difícil de obter. Se dinheiro for mais fácil de obter do que mercadoria, o comércio talvez sofresse uma queda, diz Kant. Eu vejo de outro modo: ocorreria uma pesada inflação pra compensar.

  95. Um trabalho serve a outro trabalho, sendo esses trabalhos mediados pelo dinheiro.

  96. Se compra conhecimento. Ricos têm acesso a livros e professores de renome.

  97. Somente o dinheiro legal pode ser chamado de “moeda”.

  98. O autor fala por si. O editor fala pelo autor.

  99. Publicar um livro sem autorização põe em risco os lucros do editor legítimo. Portanto, se uma editora já está publicando um livro, outra não pode publicá-lo ao mesmo tempo. A que veio depois está roubando os lucros da primeira.

  100. É possível ter mérito depois da morte. Nesse caso, esse mérito é como as pessoas lembram de você depois que você morre.

  101. Se uma pessoa me empresta, mas não cobra e nem vem buscar, passa a ser meu. Mas por quanto tempo deve estar emprestado antes de eu poder considerar a coisa minha?

  102. É seu? Prove!

  103. Não se deve denegrir a imagem de alguém que está ausente e não pode defender-se, a menos que se esteja completamente certo do que se está falando.

  104. Caluniar uma pessoa morta deve ser julgado pelo público e não por um tribunal. A pena pra esse tipo de calúnia é a suspeita pública.

  105. Para Kant, um plágio feito contra um autor morto ainda é digno de punição com a diminuição da honra do plagiador. Interessante ele dizer isso: a acusação que mais se faz contra Kant na Estadual é que ele cita Agostinho, quando literalmente, sem lhe render crédito.

  106. Se eu pego algo emprestado e não posso mais devolver (foi roubado), que devo fazer? Pra Kant, antes de pedir emprestado você deve avisar ao dono que ele será responsável por sua perda caso algo aconteça com o objeto emprestado. Então, o irresponsável que, digamos, perdeu a coisa emprestada não teria que prestar contas ao emprestador. Estranho.

  107. O emprestador pega pelo dano do que recebeu o empréstimo. Novamente, na cabeça dele.

  108. O único jeito de o emprestador se livrar disso é acertando com o que receberá o empréstimo que este pagará caso a coisa emprestada se danifique ou desapareça. Então, para Kant, se o emprestador não diz algo como “se você perder, você paga”, então quem paga é o emprestador.

  109. Eu não posso adquirir algo de alguém se esse alguém não for dono do que ele vai me dar. Como vender uma casa que não é sua?

  110. É o mesmo processo de comprar algo roubado. Quem rouba não se torna o novo dono. Se eu compro algo roubado e depois se descobre que esse algo é roubado, a justiça não está errada em tirar esse algo de mim e devolvê-lo ao que fora assaltado no começo, mesmo que eu não soubesse que era roubado.

  111. Quem adquire mercadoria roubada sem saber não deveria ser punido. Mas deveria se informar sobre se a coisa adquirida já pertence a outro ou a mais alguém além do vendedor. Afinal, se pertencer, então seu pertence recém-adquirido pode ser justamente subtraído a qualquer momento.

  112. Eu deveria ser capaz de recuperar o que é meu mesmo que esteja longe.

  113. Estranho um povo jurar pelos mortos sem contudo acreditar em vida após a morte.

  114. Eu não posso ser obrigado a jurar.

  115. É possível usar a religião para torturar. Kant usa o exemplo dos juramentos. Mas há outra forma. “Você é cristão, não pode fazer isso!”, quando se quer usar a religião pra impedir alguém de fazer algo.

  116. O tribunal é a justiça de um país. Sabe qual é o legal da democracia? Ninguém decide nada sozinho. Isso evita abusos de poder. Imagine se o presidente decidisse tudo sozinho! Este país deixaria de existir como o conhecemos.

  117. Se eu tenho que viver junto dos outros, acabarei adotando o estilo de vida da maioria. Eu não posso ficar no estado de natureza em meio a um grande número de pessoas em estado civil. Ou eu entro pro estado civil ou abandono eles.

  118. Uma constituição representa a vontade do povo e o mantém unido. Aí tornam constitucional congelar os gastos com educação e saúde por vinte anos.

  119. Os três poderes que representam, ou melhor, deveriam representar a vontade geral: o soberano legislativo, os governantes executivos, os juízes do judiciário. Fazer leis, aprovar as leis, aplicar as leis. Faz tempo que se aponta o risco de o executivo fazer as vezes de legislativo e isso tem acontecido com o Brasil esses dias. Se o executivo fizer leis e aprová-las por votação feita no próprio executivo, a democracia é perturbada: é como uma pessoa que faz leis pra submeter todo o mundo usando seu próprio arbítrio como meio de aprovação. O executivo legislará o que quiser, porque pode aprovar o que quiser. É aí que mora o perigo. É daí que saem o defasamento do ensino médio e o corte de gastos públicos necessários. O ideal seria que só o legislativo fizesse as leis e o executivo tão somente as aprovasse ou vetasse por votação.

  120. O legislativo deve ser o próprio povo ou pessoas do povo escolhidas pelo povo. O executivo, por exemplo, não poderia nomear legisladores.

  121. Só é cidadão quem pode votar, diz Kant.

  122. Só pessoas independentes deveriam votar, diz Kant. Saem do balaio dos cidadãos, então, os adolescentes de dezesseis anos e qualquer pessoa com mais de dezoito que não trabalhe por seu próprio sustento.

  123. “Um governo que também legislasse teria que ser classificado como despótico […]”, parte II, seção I, parágrafo 49. O executivo brasileiro é despótico, então, desde antes do Fernando Henrique.

  124. O executivo não tem poder de julgamento. Quem julga sobre leis sancionadas é o judiciário.

  125. Pra o criminoso ser punido, é preciso que se assuma que ele fez aquilo de caso pensado ou que isso fique assim demonstrado. Se ele fez por acidente ou coerção sensível, então ele não é culpado e não deve ser condenado.

  126. Se o povo deixa de se interessar por religião, as posses clericais estão em risco. De que serve o terreno da igreja se não para conduzir a missa? E quanto as posses da Universal? Logo seriam vendidas e não se falaria mais nisso.

  127. A função da polícia é promover paz, comodidade e decência em espaços públicos, diz Kant.

  128. Se você não diz pra polícia o que você está fazendo quando esta lhe pergunta, você é automaticamente suspeito e passivo de prestar depoimento ao delegado ou juiz, sob pena de ser detido.

  129. A polícia não pode invadir minha casa, a menos que tenha ordem judicial pra isso.

  130. O dinheiro dos impostos deve sempre ir para serviços públicos (vou incluir aí o salário dos servidores, embora Kant não fale disso).

  131. O Estado pode forçar os ricos a arcar com as necessidades dos pobres.

  132. Assim nasce o imposto sobre propriedade e o imposto sobre atividade comercial. São formas de arrecadar mais dinheiro daqueles que são mais ricos, de forma que os pobres pagam menos imposto e os ricos, pagando mais impostos, acabam indiretamente ajudando os pobres, na medida em que o imposto é utilizado pra manter os programas sociais, por exemplo, e os serviços públicos. Nada vai adiantar arrecadar mais imposto se o governo for corrupto a ponto de roubar dinheiro da arrecadação.

  133. Kant é contra as loterias: muitos ficam pobres jogando.

  134. Igreja não é religião. “Igreja” é uma instituição cristã voltada para o culto público de Deus. Mas religião vem de dentro, do espírito, é uma coisa pessoal, não necessariamente associada à igreja, templos ou locais especiais (João 4:20-24). Kant deve ser protestante.

  135. Os humanos têm necessidade espiritual. Então o Estado não pode banir a religião sem causar revolta. Desde que uma religião não se posicione contra a paz pública, ela deve ser permitida.

  136. Se o povo não consegue decidir sobre determinada questão, o legislador não pode resolver a questão.

  137. Os impostos da Igreja devem ser saldados com o dízimo.

  138. O senhor assume a guarda dos filhos dos servos junto com esses servos, isto é, a responsabilidade de mantê-los e educá-los.

  139. A justiça à venda é injusta.

  140. Uma pessoa de posição maior deveria ser punida mais severamente. Suponhamos que ele tivesse que pagar uma multa por xingar alguém em público. Se ele fosse rico, não se preocuparia e pagaria a multa com prazer, porque tal multa não afetaria sua riqueza sensivelmente. Então, os mais ricos não deveriam pagar só com dinheiro, mas também sendo submetidos à humilhação pública, diz Kant.

  141. “Roubar de alguém é roubar de si mesmo.” Esse ditado quer dizer: “quando você rouba, se expõe a ser roubado também.” Afinal, a pessoa quererá se vingar, ou alguém a vingará. Aqui, no Ceará, passou uma reportagem de um homem que dirigia um caminhão de madrugada. Dois homens pararam na frente do caminhão e anunciaram o assalto. Eles esperavam que o condutor fosse parar o caminhão, mas ele pisou. À toda velocidade, o caminhão atropelou os dois. Então, se você pratica o crime com frequência, a tendência é que se vinguem de você na primeira oportunidade.

  142. Para Kant, o assassino deve receber pena de morte.

  143. Para Kant, não matar o assassino é participar de seu crime. Eu, particularmente, penso de outra forma. Um certo cidadão chinês foi condenado à morte. Vinte anos depois, se verificou que ele não tinha cometido o tal crime. Como fica agora? É por isso que sou contra a pena de morte: se o julgamento for falho, eu não posso trazer a pessoa de volta.

  144. Para Kant, é natural que o assassino queira morrer depois de ser descoberto, porque a honra vale mais que a vida para todos aqueles que não são patifes. Eu acho que a honra vale menos que a vida pra todos aqueles que são humanos.

  145. Todos os envolvidos num assassinato, incluindo mandante e cúmplice, devem ser executados, diz Kant. Embora eu seja contra a pena de morte, esse até que seria um válido jeito de esvaziar as cadeias.

  146. Para Kant, a mãe que mata o filho que ela gerou de um homem que não é seu marido não deve ser punida de morte, pois o filho nascido de um adultério nasce fora da lei e, portanto, sem o seu amparo. Esta é a linha mais cruel que eu já li num livro de filosofia até agora. Da mesma forma, se um soldado é desafiado para um duelo dentro do exército, recusá-lo seria um vexame para todo o exército, pois é esperado que um soldado não tenha medo da morte e guarde sua honra militar. Então, se dois soldados do mesmo exército brigam entre si e um mata o outro, Kant diz que o sobrevivente não deve ser punido de morte. Essas são as duas exceções à pena de morte por assassinato, na visão de Kant.

  147. Um soldado que recuse um duelo não merece ser soldado, diz Kant.

  148. Para Kant, ter clemência por um criminoso é injusto, mas especialmente injusto quando a autoridade maior é quem tem essa clemência.

  149. Somente o supremo governante pode abonar ou diminuir penas de particulares, diz Kant.

  150. Os cidadãos têm o direito de se mandar do país. Eles podem levar seus bens móveis, mas, claro, não podem levar os imóveis. Casa e terras poderiam ser vendidas antes da mudança.

  151. Nada de errado em um senhor de terras chamar estrangeiros pra morar com ele.

  152. O senhor de terras pode banir um indivíduo de seu território, isto é, deportá-lo.

  153. Quando o governo começou? Ninguém sabe, pois, quando não existia civilização, não se fazia relatos escritos sobre quando os selvagens se submeteram à lei pela primeira vez.

  154. Uma república genuína representa o povo. Esta nossa república não o faz, logo é ilegítima.

  155. A república ideal é aquela na qual o povo é soberano.

  156. Para Kant, se eu produzo algo, esse algo é meu.

  157. Por que os presidentes não lutam na guerra?

  158. Para entrar em guerra, é preciso renunciar à paz primeiro.

  159. Onde há armas, a lei emudece. Como ficam as leis quando ocorre uma guerra?

  160. Num tratado de paz costuma rolar anistia.

  161. Depois de vencer uma guerra, se pode pilhar os bens públicos, mas não os bens particulares, isto é, os bens de cada súdito do governo vencido.

  162. Um adversário que falta contra o imperativo categórico é um adversário injusto. Numa guerra contra ele, não se deve usar meios injustos, mas se pode usar os meios justos em toda a sua extensão.

  163. A finalidade do direito é a paz perpétua.

  164. Colonizaram a América sob o pretexto de civilizar as pessoas do local e de mandar para lá os criminosos do país colonizador, na espera de que esses criminosos se tornassem melhores em solo americano. Isso não justifica a violência dos meios utilizados para tais objetivos.

  165. Se não consegues provar a positiva, podes tentar provar a negativa.

  166. Se não consegues provar nem a positiva e nem a negativa, podes tentar demonstrar que a pergunta é sem sentido.

  167. Não interessa se a paz é possível ou não; é preciso agir como se fosse. Trabalhar pela paz, mesmo que esta seja impossível, não vai deixar nosso mundo pior. Isto é, dependendo do meio usado pra obter a paz…

  168. Exemplos ilustram sem provar.

  169. Se incorporam conceitos metafísicos mesmo nas afirmações que visam utilidade prática. A metafísica é necessária.

  170. Mesmo que trabalhem e recebam salário, os filhos que não deixaram a casa dos pais ainda lhes devem obediência.

  171. Para Kant, os estupradores e os abusadores de menores devem ser punidos com a castração, enquanto que os que têm relações sexuais com animais devem ser punidos com banimento. E se quem abusa da criança for uma mulher? Kant cala sobre isso. Donde decorre que, em sua cabeça, abuso de menores é penetração com órgão genital. Logo, se não há penetração, não há crime de pederastia. Se a pederastia for algo além da penetração, a punição não pode ser castração, mas algo que também possa afetar uma mulher infratora.

  172. Uma injustiça que subsiste por muito tempo não se torna, por isso, direito.

  173. É melhor ter pouco dinheiro e alguma liberdade do que viver num lugar luxuoso sem liberdade nenhuma.

  174. A igreja deve ser subordinado ao estado também.

  175. A metafísica engloba um conjunto de conceitos racionais puros, isto é, tidos por corretos pela lógica, sem a necessidade de provas empíricas.

  176. O filósofo prático é aquele que usa a razão visando uma melhor ação prática, agregando a uma reflexão prática o conhecimento que for necessário.

  177. Novamente, Kant nunca intencionou destruir a metafísica e frequentemente afirma sua necessidade.

  178. Será que eu posso fazer o que eu devo? Será que eu tenho forças pra fazer o que me requerem?

  179. Dever se opõe à inclinação. Se você sente um “dever” de fazer algo que lhe dá prazer, Kant dirá que esse “dever” não é “dever”, mas inclinação. Para Kant, todo o dever é forçado.

  180. Para Kant, ser constrangido pelas leis ou pelo dever é sinal de liberdade. Estranho de novo. Mas nesse caso, só se eu me constranjo às leis de boa vontade.

  181. Dever e natureza, para Kant, são conceitos que não se harmonizam.

  182. Dois objetivos que também são deveres: zelar pela felicidade dos outros e se aprimorar cada vez mais.

  183. Dever, em Kant, sempre incorpora relutância e sacrifício. Não existe dever prazeroso pra ele.

  184. Eu não posso aperfeiçoar outra pessoa. Aperfeiçoamento é pessoal. Tanto que há pessoas horríveis que tiveram ótima educação.

  185. Felicidade é estar satisfeito com sua condição.

  186. Se a felicidade for necessária para manter minha integridade moral, então ela deve ser perseguida, não como fim, mas como meio, pois, para Kant, o fim deveria ser a ação guiada pelo dever.

  187. O amor-próprio implica o desejo de ser amado. Se eu me amo, quererei que os outros me amem também, pois o ser humano que se sente amado é mais feliz.

  188. Benevolência (boa volição) não é o mesmo que beneficência (boa ação). Querer o bem não é fazê-lo. Da mesma forma, é possível fazer o bem de má vontade. Também é possível fazer os dois: fazer o bem por querer o bem (de boa vontade).

  189. Para Kant, a consciência é inata.

  190. Quando se diz que certa pessoa “não tem consciência”, se está querendo dizer que ela não presta atenção nas acusações que sua consciência faz. Ele prefere ignorar a autocensura e continuar fazendo o que sabe ser errado.

  191. Para Kant, é um absurdo ser ordenado a amar.

  192. Altruísmo não é amor, diz ele.

  193. Não existem “deveres de amor”, diz Kant. Se eu faço algo por amor, então não faço por constrangimento, logo não é um dever, no seu conceito seco e difícil de engolir.

  194. Faça bem à humanidade, mesmo que ela não mereça, porque você tem o dever de zelar por ela. Quem sabe assim, no futuro, ela seja digna de ser amada?

  195. Faça bem também a quem não ama.

  196. Praticando o bem mutuamente, o amor pode se seguir por consequência.

  197. Quando uma prova basta, não é necessário provar de outras maneiras. Se uma prova é boa o bastante, dispensará provas adicionais. Isso, eu penso, é arriscado.

  198. Kant discorda de Aristóteles, para quem a virtude é uma média entre dois vícios. Isso porque, diz Kant, Aristóteles leva em consideração somente o grau de execução de um ato, mas não sua intenção. Exemplo: o pródigo gasta demais não por não ter parcimônia o bastante, mas porque curte mesmo gastar muito, ao passo que o avarento não o é por levar a parcimônia longe demais, mas porque tem medo de gastar. Então, a virtude é um ato segundo uma intenção (máxima) correta, não necessariamente a moderação entre dois excessos, diz Kant.

  199. Ter virtude “além da medida” já é vício.

  200. A sabedoria, em sentido estrito, é prática. Então, o filósofo cuja filosofia não tem implicação prática pode muito bem não estar interessado em sabedoria. Pode ser que pense que esteja, porém…

  201. É possível ser mais virtuoso do que o suficiente.

  202. O método dialogal só funciona em pessoas que sabem de algo, mas não sabem que sabem. Então, é uma tentativa de trazer isso à consciência.

  203. Se eu chego à conclusão de que tenho uma responsabilidade inevitável, automaticamente estou me obrigando a ela. Então, se eu não arco com ela, estou quebrando um dever para comigo mesmo.

  204. Um dever para comigo mesmo é automaticamente um dever para com toda a humanidade, diz Kant.

  205. Devo me aperfeiçoar além do ponto em que a natureza me colocou ao nascer.

  206. Eu devo preservar minha vida.

  207. Não posso me matar. Isso é homicídio. No Brasil, se você tenta suicídio e falha, pode ser preso.

  208. Eu não posso, por interesse, me livrar de uma parte saudável do meu corpo.

  209. Para Kant, uma fantasia não deveria gerar desejo sexual, mas somente uma pessoa real. Ser levado pela fantasia a se sentir excitado, pra ele, é antinatural.

  210. Para Kant, masturbação é imoral, porque a pessoa troca uma pessoa real por uma fantasia, a fim de se satisfazer sozinho, em vez de perpetuar a espécie.

  211. Para Kant, o aspecto secreto da masturbação (ela é feita em particular) testifica quanto a sua maldade. Se até o suicídio tem um aspecto público, a masturbação, como algo que sempre ocorre às escondidas, deve ser algo tão ruim ou pior, pois ninguém queria falar disso. Novamente, Kant viveu no século dezoito. Hoje as coisas são vistas diferentemente.

  212. Kant admite que provar que a masturbação é errada é uma tarefa difícil, porque não faz mal a ninguém. Mas ele conclui que é errada porque o indivíduo se usa como meio de satisfação de um impulso animal de maneira egoísta. Para ele, o suicídio implica coragem e pode ser feito por uma razão nobre. A masturbação não requer coragem, é feita de si para si, o que leva Kant a dizer que se masturbar é pior do que se suicidar. Se alguém quiser saber minha opinião sobre isso, fique à vontade. Importante lembrar que isso só seria válido eticamente, mas não do ponto de vista do direito, uma vez que algo só pode ser crime se causar dano a outrem ou ao estado.

  213. É possível guardar algo em seu coração e falar algo completamente oposto ao que se sente. Se pode até ensaiar o que vai dizer.

  214. Se a minha mulher não quer sexo, posso pular a cerca?

  215. Usar drogas, pra Kant, ainda é melhor do que comer demais. Estranho três vezes.

  216. Drogas só devem ser usadas em situação medicinal. Usá-las por prazer é sempre abuso, implica Kant.

  217. Diz Kant que o ópio é permitido no Islã, mas não o álcool. Será que essa informação procede? Eu tenho que perguntar pro meu colega muçulmano.

  218. Um banquete é um convite formal ao excesso. Mas se há uma roda de amigos, vinho e parcimônia, não tem como dar errado.

  219. “Mentira” é inverdade intencional. Então, se Pinóquio diz “meu nariz crescerá agora”, ele nunca crescerá, porque Pinóquio nunca saberá com certeza se ele crescerá ou não, logo, se ele fala algo que não é verdade sem querer, o nariz não cresce, porque ele não mentiu.

  220. Não se deve fazer o bem através da mentira. Maquiavel dirá que tudo bem de vez em quando, na medida em que você puder se safar.

  221. O ser humano mente pra si mesmo, com frequência. Mas como ele faz isso? Como alguém se induz ao erro deliberadamente? Isso não é contraditório (se eu queria errar, então o erro é um acerto)?

  222. A pessoa mente pra si mesmo ao professar algo em que não acredita por causa de uma possibilidade de ganhar algo com isso. Exemplo: a aposta de Pascal. Se eu não acredito em Deus, mas ajo como se ele existisse, só pra ele não ficar furioso comigo caso exista, eu estou, no conceito de Kant, mentindo pra mim mesmo, ao agir segundo uma possibilidade que eu considero improvável. Assim, implica Kant, a aposta de Pascal é um engano.

  223. Outro exemplo é eu dizer que eu, como cristão, amo as leis de Deus, quando na verdade só tenho medo de punição. Isso também é, segundo Kant, mentir pra si mesmo. Assim, parece que Kant identifica engano e hipocrisia.

  224. Ainda é uma mentira se a pessoa a quem ela se destina não foi enganado por ela?

  225. “Avareza” é não gastar quando necessário.

  226. Não há meio-termo entre verdade e mentira. Se você diz a verdade pela metade, ainda disse a verdade, não mentiu, embora tenha omitido detalhes. Isso não é mentir, se tomamos mentira como dizer o oposto da verdade de propósito.

  227. Fato é que Aristóteles nunca graduou verdade como meio-termo entre duas mentiras. Virtudes intelectuais não se obtém por mediania.

  228. Ser mesquinho é ser pobre de propósito. Afinal, de que serve o dinheiro se você não gasta?

  229. Se achar acima da lei é arrogância, diz Kant. Se achar submisso à lei, mas ainda assim com valor pessoal, é humildade. Se achar submisso à lei, sem nenhum valor pessoal, é sangue de barata.

  230. Para Kant, não é lícito se humilhar pra obter benefício. Quem faz isso, ele diz, são os hipócritas e os bajuladores.

  231. Não é digno de um ser humano se curvar diante de outro ser humano, posto que são fundamentalmente iguais.

  232. Quem se faz de capacho ter que ser pisado, diz Kant.

  233. A consciência é um fórum interior.

  234. Para Kant, se pode deixar de dar atenção à consciência, mas não se pode deixar de ouvir sua voz.

  235. Para Kant, o tribunal da consciência não pode ser entre indivíduo e indivíduo, mas entre indivíduo e outro, sendo que esse outro precisa conhecer o que se passa na mente do indivíduo. Tal ser só pode ser Deus. Então, pra Kant, o tribunal da consciência só existe em religiosos.

  236. Para propósitos de consciência, a religião é apenas elevação dos nossos deveres ao estado de “comando divino”. Kant era religioso, mas ele está aqui admitindo que o aspecto moral da religião, de um ponto de vista filosófico, se resume a isso. O resto seria questão de fé e, como tal, impassível de tratamento racional.

  237. O primeiro comando de todos os deveres para consigo mesmo: conhece-te a ti mesmo. É preciso conhecer nossos desejos, nossas vontades, nossos deveres, a fim de saber nossa capacidade moral, tolerância à tentação, objetos que podem nos desviar do dever e construir estratégias para nos mantermos o mais morais possível apesar desses defeitos ou, talvez, neutralizá-los.

  238. Para alcançar o aspecto divino em um ser humano, é preciso descer aos infernos do coração.

  239. Para Kant, a oração é um desejo manifesto, mas não necessariamente implica a vontade ou os meios pra realizar o desejo. É por isso que muitos preferem pedir a Deus somente o que não podem obter com suas próprias forças. Afinal, Deus nos deu razão e arbítrio. Com isso ele quer dizer que podemos, no mais das coisas, nos virarmos sozinhos. Então pedir, várias vezes, a Deus, uma coisa que podemos obter sozinhos seria uma vã (inútil) repetição; ele não vai conceder algo só porque você usa “muitas palavras” pra pedir (Mateus 6:7). Isso não quer dizer que ele não intercede por nós, porém.

  240. Embora não haja relação de direitos e deveres entre seres humanos e seres não-humanos, o ser humano ainda tem, ao menos, deveres para com a natureza, devendo zelar pelas belezas naturais a fim de exercitar sua capacidade de amar e se abstendo da crueldade contra animais para preservar sua capacidade de sentir empatia. Isso não quer dizer que os animais teriam “direitos”, mas que o ser humano tem um “dever” para com eles, pois foi visto antes que não há relação de direitos e deveres (concomitantemente) entre um ser humano e um animal, conforme Kant.

  241. Para Kant, é lícito matar um animal se isso for feito sem sofrimento, bem como utilizá-los como meios para completar tarefas. Mas as tarefas feitas pelos animais devem ser tarefas que um ser humano também poderia ser capaz de completar, embora mais lentamente e com mais esforço, e ele deve participar na tarefa como o animal. O animal jamais deve ser forçado além de suas capacidades e não deve ser usado para fins de especulação (talvez se refira a experimentos) nem em qualquer situação onde eles não sejam necessários. Assim, usar um animal para completar uma tarefa só seria lícito condicionalmente, por exemplo, se o trabalho tiver que ser entregue rapidamente. No caso das experiências, parece que Kant, se entendermos “especulação” como experimento, acharia mais interessante o uso de cobaias humanas voluntárias. Afinal, se o esforço visa um aperfeiçoamento humano, a cobaia é meio e também fim.

  242. O animal deve ser recompensado por um trabalho bem feito.

  243. O dever para com o animal é um dever para consigo próprio, pois auxilia no aprimoramento de sua humanidade, o qual tem repercussão no próprio trato entre humanos.

  244. Para Kant, só é possível ter deveres para com Deus se Deus for provado antes. Enquanto sua existência não for provada, o dever religioso é um dever pessoal, diz Kant.

  245. Todo o mundo deveria ter uma religião, diz Kant, pois seu benefício moral é manifesto.

  246. O ser humano tem obrigação de desenvolver suas capacidades. Ele não deve permanecer parado, “enferrujando”. Precisa estudar, treinar, praticar, trabalhar ou qualquer coisa que o mantenha em movimento físico e mental, pra que ele não degenere, “atrofie”.

  247. Mesmo que se esteja satisfeito com as habilidades que já se tem, é sempre útil melhorá-las ainda mais.

  248. Organize suas habilidades segundo seu objetivo.

  249. Ciência é teórica, sabedoria é prática. Uma visa o entendimento e a outra visa a ação. Devem trabalhar juntas.

  250. A educação física é tão importante quanto o estudo das ciências. Pois o cientista, se não tiver corpo ou tiver um corpo que não é saudável, a ponto de não servir ao seu propósito, não pode colocar o conhecimento que tem em prática. O corpo é nosso meio de interação com o mundo, ele deve ser bem cuidado.

  251. Escolha como profissão aquilo em que você seria mais útil. Então, se você curte humanidades, não deveria, nem sob pressão, escolher ciências exatas, porque isso o tornaria um mau estudante e, consequentemente, um mau profissional. Siga o rumo que você gosta, porque você sempre faz melhor aquilo que você faz com prazer.

  252. A prioridade de aprimoramento depende do que eu vou fazer. Então, dependendo do que for fazer, meu aprimoramento físico será mais importante que o mental, ou o contrário.

  253. Como nunca alcançaremos a perfeição, então sempre há como melhorar. Não se pode dizer “é impossível ser melhor do que isso”.

  254. Há dois tipos de deveres que mantemos com os outros: os que implicam obrigação mútua e os que não implicam.

  255. Amor e respeito não são a mesma coisa. É possível amar alguém que não merece respeito. Da mesma forma, é possível respeitar alguém que você não ama. Se bem que quem ama sem respeitar provavelmente está cego de paixão.

  256. “Filantropia” é amor a todos os seres humanos. É um ato desinteressado de doar-se.

  257. “Misantropia” é o oposto, é o ódio a todos os seres humanos.

  258. “Egoísmo” é um meio-termo: amor só a si mesmo e indiferença em relação aos outros.

  259. “Timidez” é um outro meio-termo: amor aos outros, mas sem meios de expressão.

  260. Tenho que fazer aos outros o que eu quero que me seja feito. Se eu quero o auxílio deles, eu tenho que auxiliá-los quando precisarem. Importante levar em consideração que esse princípio é contraprodutivo se você não souber do que o outro precisa. Se uma pessoa quer paz, você não vai tocar música alta pra ela, só porque você gosta de música alta. Se ela quer paz, você deve dá-la silêncio. É dar o que ela precisa, o que requer conhecimento de sua situação. Com efeito, todos queremos a felicidade, então, se eu quero que me ajudem com minha busca por felicidade, eu tenho que ajudá-los na busca deles por felicidade. Logo, esse princípio de Mateus 7:12 é mais produtivo com sentimentos gerais (paz, tranquilidade, fartura, saúde, entre outros) do que com atos particulares (gostos pessoais).

  261. Kant diz que não há necessidade de mandar que alguém ame a si mesmo, porque isso acontece a todos indistintamente. Ele não está levando em consideração os doentes que têm baixa autoestima. Hoje, há uma pressão para que amemos a nós mesmos, justamente porque a depressão, que mina a autoestima, é um problema de saúde pública. Não haveria essa pressão se todos realmente se amassem.

  262. Para Kant, não é possível, ao menos não literalmente, amar ao próximo como a mim mesmo, porque o amor-próprio não pode ser posto em gradações. É importante ressaltar que o preceito cristão de amor mútuo não precisa de gradações pra funcionar (Lucas 10:25-37). Ele conclui que esse princípio é metafórico e, na verdade, ordena a benevolência (mas creio ele tenha querido dizer “beneficência”) mútua, isto é, fazer o bem aos outros porque eu quero que o bem me seja feito, o que não contradiz o Santo Evangelho Segundo São Lucas.

  263. O princípio do amor pode, segundo Kant, ser dividido em três deveres: beneficência, gratidão e solidariedade.

  264. É preciso cuidar do próprio corpo. Nada em excesso, nada em carência.

  265. Quando você se sente bem com o bem-estar dos outros, você é benevolente. Quando você trabalha pelo bem-estar dos outros, você é beneficente. Novamente, é possível fazer o bem à força (beneficência sem benevolência) e é possível apreciar o bem sem praticá-lo (benevolência sem beneficência).

  266. Transformar a beneficência em objetivo é algo raro. Para Kant, é mais natural que cada um queira cuidar só de si mesmo. Com isso ele conclui que a prática da beneficência não é óbvia, só aparecendo em pessoas que usam a razão a um nível maior que o comum. Só que não é bem o que acontece: pessoas sem instrução e que não têm costume de ser racionais tanto quanto Kant ou outros filósofos são beneficentes por sentimento. Elas partilham do sofrimento do outro. Pra quê coisa mais irresponsável do que acolher uma família inteira em casa a ponto de se causar prejuízo com a triplicação do valor da conta de luz, só porque o pai da família acolhida abandonou a esposa e o filho e deixou de pagar as contas, forçando a família acolhida a deixar a casa deles? Pois foi exatamente o que minha irmã fez. E ela sustentou essa família por meses na casa dela, com salário de auxiliar de serviços gerais e tendo só o ensino médio. Beneficência irrefletida. Não é preciso razão pra ser beneficente.

  267. Trabalhar pela felicidade dos necessitados é dever de todos.

  268. Se o outro está precisando, conceder-lhe um benefício não deve ser feito visando algo em troca.

  269. O limite da beneficência é o próprio prejuízo. Não se deve praticá-la a ponto de causar dano a si mesmo. De um ponto de vista cristão, se eu ajudo o outro a ponto de eu mesmo ficar em necessidade, eu estou amando o próximo mais do que a mim mesmo, o que também viola o preceito de amar ao próximo como a mim mesmo.

  270. Eu não posso ser beneficente ao outro impondo a ele meus próprios padrões de felicidade. Nesse caso, se eu quiser ajudar alguém que busca sua felicidade por meios que eu considero infrutíferos ou contraprodutivos, eu não devo fazê-lo sacrificar sua liberdade de escolher os meios que ele desejar e adotar os meus. Nesse caso, o melhor que eu poderia fazer seria não ajudá-lo. Isso acontece com frequência. É o caso da pessoa que pede ajuda em determinada situação, mas minha ajuda não serve porque é incompatível com o que ela quer.

  271. Uma pessoa é rica quando tem mais ou melhores meios do que necessita para alcançar seus objetivos.

  272. Só é possível beneficiar alguém segundo seus conceitos de felicidade, não segundo os conceitos do que faz a beneficência. A única exceção são os dependentes (crianças, por exemplo, que devem se conformar ao conceito de felicidade dos pais).

  273. O governo pode ser injusto a ponto de tornar seus cidadãos pobres deliberadamente a fim de torná-los necessitados de sua beneficência.

  274. Se eu causo um prejuízo a alguém e depois o reparo, isso não é beneficência.

  275. Reconhecimento é um tipo de gratidão. Se você não tem reconhecimento é porque você não fez por onde merecê-lo.

  276. Os antigos merecem respeito, mas isso não quer dizer que os novos sejam piores.

  277. É mais fácil fazer o bem se o mal incomoda.

  278. Os vícios que trabalham contra os deveres de amor: inveja, ingratidão, malícia.

  279. A inveja que não se manifesta externamente é chamada “ciúme”.

  280. A inveja é o mal-estar ao ver os outros se dando bem. Ela nasce da avaliação pobre do próprio bem-estar. Ela é um mal que acomete os que condicionam seu bem-estar ao dos outros.

  281. Malícia é se contentar com o mal-estar dos outros. Ela é qualificada quando se causa mal aos outros por prazer, mesmo sem ganhar nenhum benefício material por isso.

  282. Se algo ocorre a algum ser humano, é de nosso interesse.

  283. Um tipo de malícia é o desejo de vingança.

  284. É justo se vingar?

  285. Não, na medida em que vingança é uma aplicação da minha própria visão do que é justo. Mas se algo é justo, tem que ser pra todos. Por isso que só se pode punir uma ofensa pelas leis aceitas pela maioria, não pelas minhas próprias “leis”.

  286. No final das contas, justiça perfeita é só a de Deus.

  287. Nenhuma punição deve ser feita de cabeça quente; a raiva nos leva a punir em excesso, ou seja, a cometer abuso.

  288. Um crime que tornaria a natureza humana detestável é inumano. Ainda assim, a ocorrência de tais crimes é um fato humano…

  289. O ser humano está entre o anjo e o animal. Mas isso não o torna um híbrido dos dois. Ele é uma terceira espécie.

  290. Tudo tem valor, mesmo que negativo. Julgar algo como sem valor é desprezar.

  291. Um ser humano deve se tratar como humano e aos outros humanos como humanos que são.

  292. É imoral tratar um ser humano como se fosse menos que isso.

  293. Honra é respeito alheio. Se te respeitam, você é honrado.

  294. Não se deve desprezar um ser humano por causa de uma de suas falhas. Isso não necessariamente o torna uma má pessoa.

  295. Um “escândalo” é uma ofensa à honra acompanhada de mau exemplo.

  296. “Soberba” é querer que os outros se humilhem a nós.

  297. A soberba é contraprodutiva: quanto mais se exige respeito, menos os outros o respeitam. O respeito deve ser merecido antes de ser reivindicado.

  298. “Detratação”, para Kant, é tornar público um defeito particular, causando escândalo, isto é, fofoca. É como quando alguém, só pra te humilhar, revela seus segredos. Não é uma acusação falsa, isso seria um ultraje (espalhar uma mentira com implicação jurídica, como acusar alguém de um crime que não cometeu).

  299. Não precisa fofocar pra estar errado, basta querer saber da vida alheia.

  300. “Escárnio” ou “zombaria” é transformar as falhas de alguém em objeto de riso. É diferente do “gracejo”, que é transformar as qualidades em objeto de riso. O escárnio é ofensivo, mas o gracejo pode ser levado na esportiva.

  301. “Amizade” é união de duas ou mais pessoas por amor e respeito mútuos.

  302. O problema é que a amizade perfeita requer o amor e respeito entre os amigos seja igual, diz Kant. Assim, Kant conclui que não existe amizade perfeita pois não há como garantir o nível de amor e respeito é igual em todos os amigos de um círculo.

  303. Muito me parece que a definição de amizade, pra Kant, é gratuita. Amizade não funciona exatamente do jeito que ele descreve. O amor e o respeito mútuos não precisam ser iguais, desde que existam em todos os amigos de um círculo.

  304. Kant inclui o respeito mútuo porque os amigos respeitam limites entre si. O fato de alguém ser meu amigo não me dá nenhuma garantia que eu possa tratá-lo do jeito que eu quiser. Lembro do meu ensino médio, quando eu tinha catorze anos, um dos meus amigos resolveu que seria legal me irritar por diversão, mesmo sabendo que eu estava deprimido na época. Ele chamou outro amigo pra se aproveitar de mim também. Enquanto eu estava sentado na cadeira, eles alternadamente me davam tapas na nuca. Eventualmente, eu perdi a calma, me levantei e encurralei um deles. Com uma caneta, investi contra ele e lhe rasguei a farda à altura da barriga. Ele ficou estarrecido, porque pensou que eu não ia reagir tão mal. Eu me sentei e eles me pediram desculpas depois. Será que uma pessoa que “brinca” dessa forma com outra merece ser chamada de “amigo” dela? Não, porque não houve respeito de um dos lados. A falta de respeito entre amigos arruína a amizade.

  305. É um ato de amor um amigo dizer, com tato, onde você está errado. Amigos avisam uns aos outros os seus erros, mas devem fazê-lo sem ofender. Se um amigo não aponta suas falhas, ele trabalha pra sua perdição. Mas se ele diz onde você está errado, ele se preocupa com você e quer que você melhore pra que seu defeito não se torne causa de nenhum problema.

  306. O amigo de verdade continua lá pra você mesmo quando você passa necessidade. Ele não te abandona quando você precisa de ajuda. Pelo contrário, ele quer ajudar você.

  307. É de lascar quando uma pessoa briga com a outra só pra depois ter o prazer de se reconciliar com ela.

  308. Há uma necessidade de revelar nossos segredos, porque queremos ser aceitos. Um verdadeiro amigo os escuta, não os revela e não pensa menos de você por causa daquilo.

  309. Amigos bons são raros.

  310. Para Kant, é um dever do ser humano não se isolar. Ele deve ter algum convívio com alguém e usar suas habilidades para lhe ser útil.

  311. A virtude deveria ser moda!

  312. Virtude não é inata.

  313. Existem duas formas, para Kant, de ensinar ciência: palestra (aula expositiva) e por questionamento (construindo o raciocínio por meio de perguntas lançadas à plateia).

  314. No modo de ensino por perguntas, há uma divisão: é possível perguntar à razão do aluno ou é possível perguntar à memória dele. Se perguntamos à razão, a aula torna-se diálogo. Para que uma aula dialogada entre razões funcione, é importante que o aluno também pergunte ao professor.

  315. O professor tem que dar bom exemplo porque crianças aprendem também imitando.

  316. Não diga pra alguém seguir o exemplo de outro. Se você o fizer, essa pessoa terá inveja do exemplo que deveria seguir e não quererá segui-lo. Se o exemplo é bom, a pessoa o seguirá se tiver bom senso.

  317. Um coração “suficientemente bom” quer ao menos dividir sua felicidade com outros.

  318. Se o aluno não sabe a resposta, sugira uma.

  319. Para Kant, a educação moral não deve ser feita mostrando os benefícios de ser bom. Mas tão somente porque “é nosso dever”. Ora, mas e se o aluno perguntar: “Por que é meu dever?” Você não pode responder a essa pergunta sem explicar as razões sociais e pessoais da observância ou não do dever. Isso é justamente mostrar qual é a vantagem de agir dessa forma. Responder de outra forma é não responder.

  320. “Por que fazer tal coisa é vergonhoso?” Como Kant responderia isso? Porque ele diz que se deve ensinar mostrando a vergonha do vício e não sua nocividade. Mas uma criança não tem vergonha de nada por padrão. Ela aprende a ter vergonha e frequentemente aprende sozinha. Logo, uma aula com esse itinerário sugerido por Kant é inútil: não será capaz de ensinar uma criança a ter vergonha, ao passo que ela a desenvolverá sozinha sem auxílio de uma aula assim.

  321. Kant só sugere esse método porque ele teme que o pragmatismo torne a criança amoral. Mas não é bem assim. Se eu sei que algo faz bem a mim e aos outros, eu quererei fazê-lo, ao passo que negá-lo poderia até me trazer culpa, se eu lembrar de que estou prejudicando alguém. Não vejo o risco que Kant aponta, exceto em casos particulares e somente se a educação for defeituosa, como no caso da criança que pensa que não é errado roubar, mas ser pego roubando. É possível explicar que não se deve roubar sem recorrer a uma ideia pura de dever, somente mostrando as consequências do emprego pessoal e coletivo do roubo.

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