Analecto

6 de março de 2016

Paulo.

Filed under: Livros, Organizações, Saúde e bem-estar — Tags:, , , — Yure @ 18:27

Como vocês já sabem, este diário é bem pessoal. Desde o início, a religião foi um tema tão presente aqui quanto, por exemplo, parafilias, filosofia e arte. Isso porque, no começo, eu tinha muito medo da morte e aquilo que me aproximou da religião em primeiro lugar foi o medo da morte. Eu sempre fui uma pessoa compreensiva e pensei que ganhar a vida eterna sem mudar muito de minha atitude era uma proposta tentadora.
Eu pensei em me tornar testemunha de Jeová, até eu ler o livro Jovens Perguntam: Respostas Práticas, que tocava um assunto muito sério de maneira muito leviana. Quando eu conduzi uma pesquisa nesse assunto por conta própria, percebi que eu estava muito melhor sozinho.
Pensei que talvez eu fosse mais feliz lendo a Bíblia por conta própria e praticando o que eu aprendi, já que a igreja que mais atraía no dia em que pensei essas coisas havia me decepcionado grandemente. Mas não foi fácil e, após duas tentativas, desisti.
No segundo semestre do curso de filosofia, eu aprendi, durante a aula de ética, que a Bíblia era, na verdade, uma seleção feita em âmbito intelectual por convocação de um tal Constantino. Embora eu não acreditasse que livros que continham ensinamentos legítimos tinham ficado de fora da Bíblia, eu pensei que livros ilegítimos poderiam ter se esgueirado na seleção. Isso, alimentado por dúvidas sobre como a religião do amor poderia se mostrar tão intolerante dependendo do referencial doutrinário, me levou a escolher quais livros eu iria seguir (afinal, se um grupo medievo pôde, também eu poderia). Partindo do pressuposto que ser cristão é seguir Cristo, eu pensei que os Evangelhos seriam o bastante. E, de fato, Cristo é a maior autoridade do cristianismo. E, por anos, eu vivi tendo somente os Evangelhos como regra de vida e vivi muito bem. Como consequência, eu rejeitei sumariamente todas as epístolas de Paulo, que também ensinavam coisas que Cristo não havia ensinado. Na época, eu não sabia que o Apocalipse também tinha ensinamentos diretos de Cristo, mas isso não fez muita diferença.
Certa noite, resolvi atender a uma reunião das testemunhas de Jeová e o líder religioso (não sei se é lícito chamá-lo de “pastor”, porque as testemunhas usam outro termo, “ancião”, se não me engano) mencionou que a Bíblia inteira tinha muita sabedoria. Eu estava fazendo anotações de obras filosóficas na época, como faço ainda hoje, e pensei que talvez fosse uma boa ideia fazer o mesmo com a Bíblia, mesmo que eu não fosse aceitar tudo como regra de salvação.
Dividi a Bíblia em dez partes e me propus a ler um capítulo de cada parte por dia, para conciliar velocidade de leitura com energia e força de vontade (lê-la cronologicamente pode ser exaustivo, sendo melhor que o primeiro contato seja feito numa ordem oportuna).
As anotações não estavam sendo feitas, porque pensei que eu falaria menos besteira se eu lesse ela totalmente antes de fazê-las, que seria feito numa segunda leitura, em ordem cronológica. Paralelamente, Echo, o morcego, estava passando por uns problemas com a mãe dele, que estava sendo insensível, já fazia um mês mais ou menos: a avó dele havia acabado de falecer e a mãe dele não entendia seu sofrimento. Além do mais, ela não achava saudável que ele tivesse amigos como eu e o colocou na terapia, na qual ele começou tratamento para consertar sua urofilia, algo que ele não achava errado, mas que sua mãe e seu terapeuta concordavam que era. Sabendo desses problemas, eu fiz uma oração por ele, a qual foi (surpreendentemente, admito) atendida na manhã seguinte. A mãe havia mudado seu parecer, o deixou voltar a se relacionar comigo e meus amigos e o havia tirado da terapia. Eu fiquei estupefato. Minha oração havia sido atendida subitamente e de forma melhor do que eu havia pensado. E não havia sido a primeira vez, mas a segunda.
Parei meus planos e comecei as anotações imediatamente, reiniciando minha leitura da Bíblia, como forma de agradecimento (porque eu acredito que as obras têm maior peso que a fé).
A leitura e o fichamento foram concluídos em um mês e meio, a partir da Almeida de 1819 (com auxílio da Almeida Recebida, da versão dos Capuchinhos e da Bíblia Livre, todas obtidas no repositório do Crosswire, acessível pelo Sword com a interface Xiphos, obtenível no repositório do Linux Mint), porque foi a primeira em português em volume único, de forma que eu pudesse, nas leituras subsequentes, perceber a evolução das traduções. E, de fato, a Bíblia inteira tem muita sabedoria. Nessa leitura, desenvolvi um apreço por dois conceitos hoje em crise: inerrância bíblica e cânon bíblico.
Como cristão, o Novo Testamento tem um peso gigante pra mim. E as epístolas de Paulo me intrigaram, não de forma positiva. Muitos ensinamentos de Paulo, tal como alguns aspectos de sua atitude, parecem ir contra os ensinamentos de Jesus. Eu pensei que talvez fosse uma falha de entendimento de minha parte e pensei que Paulo, sempre que introduzia algum preceito que Jesus não havia introduzido, estava somente dando conselho, tal como Salomão faz com os Provérbios, de forma que seguiria o conselho quem quisesse. Então, Paulo não seria necessário à salvação, visto que Jesus seria o único caminho. Mas aí Paulo diz que os homossexuais, por exemplo, não herdarão o Reino. Aí que surge o problema: se Paulo nunca viu Jesus, passou pouco tempo com os apóstolos, supostamente herda sua doutrina desses apóstolos e prega que o cristão está desobrigado da Lei de Moisés, com que autoridade ele diz essas coisas?

Antes que se pense que esse é um problema pequeno, é importante mostrar por que ele é enorme: essa pergunta ataca a autoridade de Paulo e, consequentemente, os dois conceitos que eu havia acabado de adotar, a saber, a inerrância (a Bíblia não se contradiz) e o cânon (todos os sessenta e seis tomos de que a Bíblia é composta são divinamente inspirados).
Existem outras contradições, quer sejam aparentes ou não, que levam à práticas hediondas na igreja, não apenas da perseguição aos homossexuais, mas também como a prática da dissociação entre as testemunhas de Jeová. Paulo diz que não devemos nos associar com pecadores, mas Jesus o fazia com frequência durante seu ministério. Se levarmos esse raciocínio até suas últimas consequências, Paulo estaria repreendendo o comportamento de Jesus, o qual disse que deveríamos imitá-lo. Depois da leitura completa, fiquei tão perplexo que resolvi pesquisar se mais alguém pensa como eu. Pra minha surpresa, um punhado de estudiosos, tanto do passado como da atualidade, pensam da mesma forma. Para citar apenas um exemplo do nosso país e da atualidade, para que o interessado tenha um ponto de partida, Fábio toca o assunto vez por outra em suas lições de hermenêutica. Mas é claro que não é o primeiro e nem é o único.
Esse é um assunto que requer mais pesquisa da minha parte, porque é algo muito sério. Não estou dizendo que Paulo é completamente inútil ou pernicioso e acho que encarar o que ele diz como conselho e não como regra de salvação é razoável. Não obstante, não me parece que Paulo tem qualquer autoridade para fechar as portas da salvação para qualquer indivíduo, porque esse é direito divino. Paulo repreendeu Pedro, o que mostra que nenhum ser humano, mesmo que seja apóstolo, é irrepreensível. Então, há a possibilidade de Paulo ter errado. Porém, eu não posso confirmar absolutamente nada por enquanto.
Isso me dá algo pra estudar durante as férias da universidade. A defesa da minha monografia é amanhã, espero que dê certo.

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1 Comentário »

  1. […] se Deus não fizesse diferença em minha vida, eu nunca poderia afirmar sua existência. Já tive duas orações atendidas, acho que isso […]

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    Pingback por Anotações sobre a essência do cristianismo. | Analecto — 4 de setembro de 2017 @ 14:08


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