Analecto

30 de junho de 2020

Leituras da semana #10.

Filed under: Livros — Tags:, , , , , — Yure @ 19:02

Continuando a leitura de: Além do bem e do mal, ou prelúdio de uma filosofia do futuro (Nietzsche); Além do princípio do prazer, psicologia de grupo e outros trabalhos (Freud); Arte poética (Aristóteles); A Bíblia Sagrada (Jehovah); O anticristo (Nietzsche); Antologia ilustrada de filosofia (Ubaldo Nicola); A arte de escrever (Schopenhauer); Assim falava Zaratustra (Nietzsche); Aurora (Nietzsche).

Além do bem e do mal, ou prelúdio de uma filosofia do futuro (Nietzsche).

Nietzsche aponta que, já em sua época, havia uma tendência a considerar a ciência como mais importante que a filosofia. Pra ele, isso acontece por uma variedade de razões, mas principalmente porque os filósofos de sua época acabavam, com seus livros, inspirando desprezo pela filosofia. Imagine uma mulher lendo Parerga e Paralipomena, de Schopenhauer, o quão absurdo ela iria achar aquilo. Nietzsche afirma, apesar de sua reverência por Schopenhauer, que o ciúme que Schopenhauer tinha de Hegel acabava por ferrar a recepção de sua obra.

Parece que os filósofos mais bem quistos na academia da época de Nietzsche eram justamente os mais inúteis e complicados (dentre os quais não estava Schopenhauer). Também os mais imparciais, sem objetivos, “desinteressados”, a quem Nietzsche compara com vasos sem conteúdo. Dentre esses desinteressados estavam os céticos conservadores da época, os quais odiavam qualquer resposta definitiva a qualquer pergunta. Por quê? Porque certezas mudam o status quo. Se você duvidar de tudo quanto se apresenta de novo, se você se abstém de julgar, você trabalha pra que as coisas não mudem. É um ceticismo estratégico, disfarçado na separação entre o pensamento e a ação (em conceitos como “pensamento puro”).

Margarida Trip, como Minerva, instruindo sua irmã, Anna Maria Trip. Autor: Ferdinand Bol. Fonte: Wikimedia Commons.

Uma filosofia dessas, especialmente quando também se pretende ser algo de “elevado”, inspira desconfiança em qualquer cientista ou aspirante a homem da ciência. Não deveria ser assim. A opinião que os não-filósofos têm da filosofia é quase a opinião que eles têm do eremita ou de um guru good vibes. Isso é totalmente errado, mas devemos culpar os vulgos por terem essa impressão ou a nós mesmos por darmos a eles motivos pra isso? Mas isso não quer dizer que os cientistas estão livres de reprimendas, nem por parte de filósofos e nem de leigos. A ciência passa de si uma imagem de fria e apática, de competição rancorosa entre os que dela participam e até de mediocridade, quando um determinado cientista, por ter um trabalho que foge demais dos trabalhos comuns, acaba por precisar ser sustentado por outros. Isso se relaciona à mediocridade porque o cientista passa a fazer apenas o que é minimamente necessário pra receber seu pagamento.

Nietzsche então muda de assunto pra falar que também nossa gratidão deve ser limitada. Se você não sabe dosar sua gratidão, será escravo de qualquer um que te fizer um favor. Na verdade, Nietzsche já menciou isso anteriormente no livro, sobre como as pessoas se aproveitam da gratidão dos outros pra levá-las a agir contra seus próprios interesses. É o que acontece hoje com o pagamento do auxílio emergencial: quem receber, fica grato ao cara que permitiu que maio de 2020 se tornasse o mês onde mais mortes ocorreram no Brasil. E a coisa vai ficar pior, mas, por causa dos seiscentos paus… Existem virtudes pelas quais se paga caro. Por isso saiba quando negar sua gratidão. Saiba quando confrontar seu país com o que há de mais perigoso a ele: a revolução interna.

Além do princípio do prazer, psicologia de grupo e outros trabalhos (Freud).

Embora Freud admita que sua teoria acerca dos instintos é limitada e provisória, deixando várias pontas soltas na teoria do princípio do prazer, ele afirma que tal teoria não deve ser totalmente rejeitada só por causa disso. Existem teorias concorrentes pra explicar o mesmo fenômeno e cada um deveria ficar com a teoria que melhor resiste às críticas. Mesmo que não tenhamos certeza do que estamos pensando, dizendo ou fazendo, é certo que existem opiniões melhores que outras.

Logo, o fato de uma pessoa aparecer com uma hipótese ainda não provada não garante que essa pessoa está errada, mas também não garante que sua hipótese tem o mesmo valor que outras teorias concorrentes. Essa competição entre pensadores revela quais são os melhores. E, se você estiver errado, se retrate. Ciência não é catecismo e nem religião. Nada na ciência precisa ser dogma. Não há nenhuma vergonha em um cientista admitir que errou, mesmo que isso implique uma reação em cadeia que leve vários outros que basearam seus trabalhos num erro a também se retratarem. Com isso, termina Além do Princípio do Prazer, e começa Psicologia de Grupo, onde Freud analisa a influência do pertencimento a um grupo ou relação social sobre o ego.

A psicologia de grupo difere da psicologia individual porque não considera a mente do homem como indivíduo, mas como membro de um grupo específico. Ela não estuda eu ou você especificamente, mas nos estuda como parte de uma nação (brasileiros), como parte de um sexo (macho humano), como parte de uma classe (professor), como parte de uma família (filho, irmão). A função da psicologia social é estudar as influências do pertencimento a um grupo sobre a mente de indivíduos, tendo um alcance, por isso, mais pervasivo. A necessidade de uma psicologia social surge com a pergunta: por que determinadas pessoas agem de modo diferente quando estão em um grupo? Algumas ideias só surgem quando a pessoa se encontra com seu grupo. Já outras ideias que já existem na pessoa só encontram expressão em um grupo. Separado do grupo, a pessoa volta à normalidade. Por que isso acontece? Porque uma pessoa pode agir de um jeito sozinha e de outro jeito quando se sente parte de um grupo? A psicologia individual não basta pra responder isso satisfatoriamente.

As três graças. Foto da Bibliothèque de Toulouse. Fonte: Wikimedia Commons.

Citando Le Bon, Freud explica que uma das razões pelas quais a pessoa age de um jeito sozinha e de outro jeito quando parte de um grupo é o fato de que uma associação humana é mais poderosa que um homem só. Quando você está num grupo violento, você se sente empoderado pra satisfazer suas próprias tendências violentas, se estas se coadunam com a índole do grupo. Exemplo, suponhamos que você passe na frente do Supremo Tribunal Federal todos os dias. Você odeia aquela corte, mas não faz nada porque teme punição. Agora, você descobre que tem um grupo plenejando um ataque à corte. É sua chance de satisfazer a vontade, porque é mais difícil punir um grupo do que um sujeito em particular. Dependendo do grupo, sentimos que não precisamos nos segurar e algumas tendências que mantemos reprimidas afloram. Isso nem sempre é ruim, mas nem sempre é bom também. Tudo depende do grupo e de qual tendência é habilitada pelo grupo.

Mas existem outras coisas que fazem com que o sujeito mude seu comportamento quando está em um grupo: o contágio e a dissolução. O pensamento de um grupo é mais ou menos homogêneo quanto maior o trânsito de ideias e comportamentos considerados padrão. Cada membro do grupo passa a pensar e agir como seu conterrâneo, porque ele está em um lugar onde suas ideias são aceitas, facilitando que ele aceite outras ideias daquele grupo. Isso geralmente ocorre depois da dissolução: quando você se identifica com o grupo, você se torna o grupo quando está com seus colegas, se sacrificando por ele, agindo em função dele e obedecendo aos ideias dele. Pessoas que se dissolvem num grupo deixam, na prática, de ser quem são. Perdem sua individualidade e agem como um homem só.

Assim, o sentimento de pertencimento a um grupo leva as pessoas a experimentarem empoderamento, contágio ideológico e sugestionabilidade. Essas três coisas tornam o homem uma força ameaçadora quando age em grupo, visando um objetivo comum com seus conterrâneos: sente que nada é impossível ao grupo, mantém a ideologia do grupo homogênea e cada um influencia o outro permanecer na causa. Esses elementos também são observados naquilo que hoje o povo chama de “mentalidade de rebanho“.

Arte poética (Aristóteles).

Ao falar dos episódios em que uma tragédia pode se dividir, Aristóteles aconselha a variedade. Quando uma peça teatral fica muito uniforme, a audiência acaba ficando satisfeita do assunto tratado. Se o assunto continua, ocorre uma sensação horrível de tédio e tempo perdido. Portanto, ao escrever uma tragédia, ou mesmo uma comédia, dividida em episódios, é preciso que cada episódio seja suficientemente diferente dos outros pra evitar que o leitor ou a audiência fiquem entediados. Um bom jeito de fazer isso é introduzindo pormenores na história que mantenham a atenção do leitor ou da audiência. Tais pormenores podem ser fantasiosos ou pouco realistas. O fantástico pode também ser parte da trama principal. Na verdade, Aristóteles diz que é mais interessante mostrar algo impossível, mas plausível, do que mostrar algo possível, mas incrível. A ficção científica moderna está tão cheia de impossibilidades plausíveis, que algumas de suas “predições” se mostraram bem reais.

No entanto, Aristóteles adverte: uma trama precisa ter apenas o número de passos necessários para que a história seja entregue. Se você pega uma trama pequena e a dilui em vários episódios, cada episódio será insignificante e a trama se moverá lentamente, a ponto de perder a atenção da audiência. Aristóteles pergunta o que seria da recepção de Édipo se ele tivesse o mesmo número de versos que a Ilíada. Para usar um exemplo de otaku, você acha que alguém teria saco pra Neon Genesis Evangelion se este tivesse cinquenta e dois episódios? Você não acha que Appmon seria melhor em formato de vinte e seis episódios (o que removeria todos os fillers)? Assim, se a história que você tem mente for melhor apresentada em formato curto, não a espiche: quanto mais longa a história, mais facilmente a audiência se entedia.

Alegoria da poesia lírica. Autor: François Boucher. Fonte: Wikimedia Commons.

A poesia na época de Aristóteles tinha como objeto a vida das pessoas ilustres do passado ou do presente. Então, ao escrever uma poesia trágica ou comédica, o autor tinha três opções: escrever em verso a realidade, escrever em verso a percepção popular sobre a realidade ou escrever em verso aquilo que deveria ser real (mas não é). Se fôssemos adaptar esse critério pra hoje, tempos em que não se faz mais apenas poesia ou prosa sobre pessoas que existem ou existiram, o primeiro caso seria o conto biográfico ou historicamente correto, o segundo caso seria a fantasia “baseada em história real” e o terceiro seria uma história totalmente original.

Disso decorre que a verdade é mais necessária a certos estilos de poesia do que a outros (e isso está também relacionado ao uso de metáforas fantásticas em vez de expressões literais), mas, se o objetivo da ficção é entreter, a verdade é um meio que se deve usar ou não dependendo do que você achar que será mais interessante. Isso não é válido somente pra verdade, mas pra todos os elementos do trabalho e de sua encenação: em algumas peças, é preciso gesticular ou dançar, mas não em todas, se isso atrapalhar a recepção da obra. O historicamente correto é secundário. Por causa disso, a poesia trágica, bem como trabalhos de ficção em geral, mostram os homens como melhores do que realmente são. Na ficção moderna, um exemplo extremo disso seria Dragon Ball, onde lutadores de artes marciais detém habilidades absurdas, e um exemplo em menor grau seria Danganronpa. Quando escrevo esses exemplos, eu imagino meu professor de metafísica atrás de mim, me julgando por usar exemplos tão vulgares.

A Bíblia Sagrada (Jehovah).

Deus mandou seus anjos para Sodoma a fim de verificar as queixas que vinham de lá. Os anjos entraram na casa de Ló. Acontece então o infame episódio no qual todos os homens da cidade, e talvez também os meninos, tentaram invadir a casa de Ló pra “conhecer” os anjos que ele hospedou. “Conhecer”, neste contexto, é um eufemismo pra fazer sexo. Diante dessa afronta, os anjos cegaram os homens que tentavam invadir, tiraram Ló e sua família daquela cidade, e permitiram que Deus destruísse Sodoma, bem como Gomorra.

Muitas pessoas dizem que a homossexualidade em Sodoma foi a causa da destruição, mas, de acordo com A Profecia de Ezequiel, os pecados de Sodoma foram orgulho, abudância de alimento, insolência e falta de empatia para com pobres e necessitados (Ezequiel 16:49). Se a homossexualidade fosse um problema (numa época anterior a Moisés, logo antes de ser revelada qualquer interdição à homossexualidade), teria sido mero agravante, tanto que A Profecia de Ezequiel diz, várias vezes, que Israel vinha agindo pior que Sodoma e Gomorra, apesar de Israel ter interdições à homossexualidade.

Visão de Ezequiel: um grupo de cadáveres e esqueletos emerge para fora das tumbas e, acima deles, cinco meninos alados segurando uma bandeira. Autor: Giorgio Ghisi. Fonte: Wikimedia Commons.

Após Ló sair de Sodoma, ele estava sem filhos e também sem esposa (porquanto a esposa de Ló virou uma estátua de sal). Assim, não havia como Ló ter um filho macho. Diante desse impasse, as filhas de Ló tiveram uma ideia: embebedaram Ló e se relacionaram com ele. Lembrando: isto foi antes de Moisés, então não havia interdição explícita ao incesto. Dessa união, nasceram Moab e Ben-Ammi.

Finalmente, na velhice, como Deus havia prometido, Sara pariu um filho a Abraão. Esse filho era Isaque. Hagar e Ismael foram então rejeitados e expulsos de casa, por pedido de Sara, embora Abraão tivesse se oposto a isso. Tanto Isaque quanto Ismael foram abençoados, porém. Deus resolveu testar a fidelidade de Abraão ordenando Abraão a sacrificar Isaque, mas, faltando apenas que Abraão degolasse Isaque, um anjo mandou Abraão parar, avisando que era apenas um teste. Mais um pouco e Abraão teria matado seu filho.

Em seguida, na narrativa bíblica, morre Sara e Abraão compra uma sepultura dos filhos de Heth. Em vias de morrer, Abraão proíbe que Isaque se case com qualquer mulher, instituindo uma pessoa que vá buscar uma mulher que valha a pena para que esta se case com Isaque. O servo foi e, com a ajuda de Deus, encontrou Rebeca, futura esposa de Isaque. Rebeca vai de boa vontade, com a aprovação dos pais. Isaque, de quarenta anos, se casa com Rebeca. Como Rebeca era estéril, Isaque teve que orar a Deus pra que Rebeca concebesse. A oração foi atendida. Rebeca pariu gêmeos: Esaú, pai dos edomitas, e Jacó, que mais tarde geraria os patriarcas das doze tribos de Israel (e Diná). Esaú, em sua maturidade, ficou com duas mulheres que davam desgosto aos pais de Esaú e Jacó. Talvez por isso que Rebeca, mãe de Jacó, instruiu Jacó a se aproveitar da cegueira de seu pai a fim de tomar pra si as bênçãos destinadas a Esaú, passando-se por este.

O anticristo (Nietzsche).

De onde se origina o cristianismo como religião? Pra Nietzsche, responder a esta questão requer a compreensão do judaísmo, uma religião considerada por Nietzsche como superior em termos psicológicos, do qual o crisitianismo é a consequência lógica. O cristianismo não é uma oposição ao judaísmo, mas sua forma completa, ele diz, inclusive citando Cristo: a salvação vem dos judeus. Mas a separação entre cristianismo e judaísmo foi tão aprofundada ao longo da história que existem cristãos antissemitas. Isso é um absurdo: primeiro porque Jesus era judeu e segundo porque o cristianismo é, diz Nietzsche, a consequência final do judaísmo. Têm o mesmo Deus, o Deus da justiça. Com isso em mente, a semelhança entre as duas coisas fica fácil de ver.

Por que o cristianismo é tão popular? Nietzsche afirma que é porque valorizamos o amor e o cristianismo se mostra como a religião do amor. Além disso, ao colocar ênfase na castidade, o cristão internaliza sua religião, pois passa a praticá-la internamente como controle do desejo. Isso põe o cristianismo pra dentro da identidade da pessoa, fazendo com que ela se sinta cristã. O mesmo é feito com outros sentimentos, os quais, porquanto são sentimentos, são subjetivos: fé, esperança e caridade. Colocar o cristianismo pra dentro da pessoa, através do amor e de outros sentimentos, torna o cristianismo popular. Ele se torna parte da identidade da pessoa.

Mas há um problema com o cristianismo e também com o judaísmo. Quando Israel passa a ver em tudo uma recompensa ou punição divina, ele começa a introduzir na lógica causal algo estranho. As causas naturais desaparecem do raciocínio. Eu até mesmo lembro de ter lido em algum livro, não lembro qual, que uma determinada escola de pensadores judeus medievais acreditava que não havia causalidade natural. Se eu acendo uma vela e o fogo ilumina, é porque Deus interfere diretamente na cena assegurando que assim seja. É como se a criação divina não fosse autônoma. Levada a extremos, tal doutrina não chegaria até mesmo a negar a liberdade humana?

Alegoria do livre comércio. Autor: Gerard de Lairesse. Fonte: Wikimedia Commons.

Assim, ver tudo em termos de punição e recompensa é contrário a outras doutrinas. Deus pode intervir, mas ele não intervém o tempo todo. Além disso, ver as coisas dessa forma leva também o fiel a se culpar por tudo de ruim que lhe ocorre (“Deus está me punindo por algo que fiz”), quando existem coisas que claramente não são culpa dele. Isso depõe contra a ideia de ordem moral do mundo: nem tudo o que recebemos de ruim é punição divina por algo que tenhamos feito. Pode ser só um imprevisto, um acaso (Eclesiastes 9:11).

Mas isso não é tudo: ao ver tudo em termos de punição e recompensa divinas, você dá ao sacerdote, que é o intérprete da vontade de Deus, um poder enorme. Não há garantia de que o sacerdote saiba o que está dizendo. Afinal, em algumas igrejas evangélicas populares, basta ser casado pra ser pastor! Ele não está usando o nome de Deus em vão, quando age como um cabo eleitoral? Qual é a garantia de que ele está realmente falando em nome de Deus, e não tentando levar o povo a pensar de um jeito que lhe favoreça?

Se assim é, qual é o uso feito do dinheiro do dízimo (do qual Deus não precisa)? Nietzsche, por isso, chama os sacerdotes de parasitas. Seu trabalho é convencer você a dar o dízimo, porque essa é a “vontade de Deus”, como se Deus tivesse ganância. Isso não é trabalho, mas exploração da fé da população pra ganho pessoal. No entanto, o povo sente que precisa dos sacerdotes pra acessar a vontade de Deus. Isso mantém a aura de indispensabilidade dos pastores e dos padres. A classe sacerdotal talvez nunca será extinta. E, enquanto ela existir, haverá pessoas mal-intencionadas dispostas a fazer do sacerdócio uma carreira lucrativa.

Antologia ilustrada de filosofia (Ubaldo Nicola).

Terminada a seção sobre a escola eleática, Nicola começa sua exposição dos sofistas. Os sofistas faziam do saber uma profissão. São os primeiros professores remunerados da história da filosofia. Eles ensinavam, sobretudo, a retórica. Por quê? Porque a escola sofista também acreditava que não existem verdades absolutas na atividade humana, de forma que tudo é opinião nos negócios humanos. Se tudo é opinião, a mais útil arte que existe é a arte de levar os outros a concordar com você. Por isso a retórica, a arte de discursar bem, era ensinada por eles.

Seu público-alvo eram os jovens que queriam entrar na política. Você não deveria ficar surpreso… As razões pra isso talvez estivessem associadas ao fato de que os sofistas eram também estrangeiros, o que os privava de direitos políticos restritos ao cidadão grego. Se eles não podiam interferir diretamente na política, ao menos formariam aqueles que nela poderiam interferir. Por isso não se deve mandar brasileiros pra estudar no exterior.

Mas então, se não existe verdade objetiva nos negócios humanos, por que nós deveríamos nos dar ao debate ou participar da política? Não seria melhor que cada um simplesmente seguisse seu coração? De maneira alguma. Os sofistas eram professores e acreditavam que a educação tinha seu valor no estabelecimento e propagação de opiniões úteis ao indivíduo e à sociedade. Se tudo é questão de opinião, ainda precisamos da educação pra selecionar as opiniões mais úteis a nós e aos que amamos, não necessariamente a opinião “certa”. Isso está por trás da doutrina do relativismo: se preocupar com útil, o belo, o justo, não necessariamente o verdadeiro, leva cada homem e cada sociedade a adotar leis e costumes diferentes, porque os conceitos de útil, belo e justo variam de pessoa pra pessoa, de nação pra nação.

Alegoria da justiça e da paz. Autor: Corrado Giaquinto. Fonte: Wikimedia Commons.

Assim, quando você debate com alguém que está convicto de ter razão, você tentar prová-lo errado não surtirá efeito. O que você deve fazer é mostrá-lo que a opinião dele lhe acarreterá consequências ruins. Ou melhor: mostrar como a vida dele melhoraria se ele mudasse de opinião! Nietzsche, mais tarde, retoma este ponto: se você acredita ter encontrado a verdade, a menos que tal verdade se mostre também útil, ela não será crida e estará em desvantagem diante de mentiras as quais, por serem mais úteis, são aceitas como “verdade”. Simplesmente argumentar logicamente não basta. Convencer alguém requer que a pessoa com quem se debate veja que o seu ponto de vista beneficia ela também. Segue-se, portanto, que o orador ou retórico, assim como o médico, deve conduzir uma pessoa obstinada à opinião melhor, não necessariamente a mais verdadeira. A verdade não basta pra convencer uma pessoa. Se bastasse, ninguém teria votado no Bolsonaro.

O meio através do qual os sofistas exerciam seu poder era a palavra, logicamente. Desenvolvendo a arte de retórica, eles faziam umas acrobacias lógicas pra atrair novos discípulos e dinheiro. Górgias, por exemplo, conseguia provar, pela lógica, que nada existe. Mas, se você pagasse ele bem, ele iria provar que a tese de que nada existe está errada. Claro que está errada: você vê que as coisas existem, as ouve e as sente. Mas essa é a graça da retórica: levar o raciocínio a concluir exatamente o contrário do que dizem os sentidos. Claro que os aspirantes à vida política iriam querer aprender essas técnicas. Novamente, pros sofistas, isso não significava mentir (já que mentira implica que existe uma verdade, que era algo em que eles não acreditavam).

Mas levar uma pessoa a acreditar em algo não era o único uso que os sofistas faziam da palavra. Górgias, em seu Elogio de Helena, afirma que a palavra pode ser usada também pra exercer influência sobre sentimentos e emoções, o que, por seu turno, tem desdobramentos físicos. Pela palavra é possível excitar a raiva, a tristeza, a alegria, a luxúria, a compaixão, a coragem e várias outras sensações. Também é pela palavra que você pode reduzir a dor e o sofrimento, fazer a pessoa corar de vergonha, chorar, paralizar ou se acalmar. É como se a palavra funcionasse como uma droga. Nesse sentido, a sofística antecipa a psicanálise, que também usa palavras pra um efeito parecido. Excitando as emoções e os sentimentos, é mais fácil fazer com que o coração se sobreponha ao cérebro. A pessoa enfurecida não é capaz de raciocinar logicamente. Também a pessoa deprimida não consegue. Excitar emoções é um bom jeito de levar a pessoa a cometer idiotices… e a aceitar mais facilmente alguma coisa. E pronto! O livro encerra a exposição dos sofistas pra se dedicar a Sócrates.

A arte de escrever (Schopenhauer).

Schopenhauer se põe a pensar sobre a diferença entre o pensamento próprio e a leitura. Quando você lê, se impõe ao seu cérebro pensamentos novos que foram produzidos por outros, com outras disposições, outras intenções. Isso dificulta a identificação com o que está sendo lido e, consequentemente, a produtividade do sujeito. Porque, a bem da verdade, nem sempre lemos o que gostaríamos de ler. Quando isso acontece, ocupamos nossa mente com pensamentos maçantes, o que nos leva a sufocar quaisquer ideias próprias que nos ocorram naquele momento e que talvez não nos ocorram novamente.

Detalhe do teto da Capela Sistina. Autor:
Michelangelo Buonarroti. Fonte: Wikimedia Commons.

Já o pensamento próprio impõe pensamentos novos perfeitamente identificáveis. Sempre que você pensa por si, você pensa com sua própria energia, com sua própria vontade e desejo, com sua própria razão e experiência, as quais devem ser empregadas em justa medida (pois nem a razão é mais importante que a experiência e nem o contrário). Isso aumenta a produtividade, porque você está interessado. Além disso, tanto pensar quanto ler consomem tempo. Se você passa muito tempo lendo, passará pouco tempo pensando. Assim, quem lê muito provavelmente tem poucas ideias próprias e se limitará a citar as respostas de outros quando confrontado com um problema. Em GURPS, chamamos isso de “embotado”. Pra Schopenhauer, você fica “embotado” quando o hábito da leitura, por ser excessivo, degenera a capacidade da pessoa de pensar por si.

Mas seria Schopenhauer, por isso, inimigo da leitura? Se ele fosse, não escreveria livros. Schopenhauer explica que a leitura só é útil quando nós mesmos não conseguimos resolver algo com nosso próprio esforço. Quando uma questão irresolvível se impõe, convém ver como outros a resolveram. Schopenhauer diz que não há gênio no mundo que não passe por isso. Todos os pensadores encontram seus limites eventualmente e, quando isso acontece, você recorre aos livros. Assim, pra Schopenhauer, a leitura deve ser subordinada do pensamento próprio, ao pensamento orgânico, servindo como ajuda quando o pensamento próprio não pode mais avançar sem errar. Se você tem leitura, mas não pensamento próprio, você será um erudito. É o pensamento próprio que proporciona originalidade e é a originalidade que faz o pensador. Eis a diferença entre o filósofo e o historiador da filosofia, entre a testemunha direta e o historiador. Assim, a leitura não substitui o pensamento próprio, mas deve ser a ele subordinada.

Assim falava Zaratustra (Nietzsche).

Sabendo que falar de desprezo prejudica a atenção da multidão, Nietzsche resolve se dirigir ao orgulho deles. Ele diz que o homem deve ter um objetivo. Aqui, se refere provavelmente ao homem em geral, à espécie humana. Lembre-se de que o objeto do Zaratustra é o super-homem, a ideia de que o homem pode se tornar uma espécie nova e melhor, que não precisamos ser meramente humanos se existir possibilidade melhor. O super-homem é o raio que descende da núvem humana. É a concentração de sua força em um fenômeno só e explosivo.

O objetivo do homem presente é conduzir a humanidade a esse estado superior, no qual enfraquecer é o pior erro possível. Isso requer que os homens que guardam o caos dentro de si produzam suas estrelas (em língua de gente, isto é um apelo aos que têm originalidade pra que eles sejam produtivos). Apesar disso, o pessoal continuava rindo de Zaratustra, sem entender o que ele dizia. Zaratustra pondera que os anos que passou em isolamento prejudicaram sua capacidade de se fazer entender. Mas é claro, gênio. Por causa desse isolamento, ele fala de um jeito muito diferente e soa como um louco a seus pares. “Caos dentro de si”? “Produzir estrelas”? Que porcaria é essa? Fala português, homem!

Melancolia I. Autor: Albrecht Dürer. Fonte: Wikimedia Commons.

Zaratustra desiste (por enquanto) e assiste a um espetáculo que tá acontecendo na praça onde ele fez sua pregação. Havia dois palhaços numa corda bamba, um mais ágil e o outro mais lento. O mais ágil vinha rapidamente ao encontro do mais lesado. O mais ágil reclama que o lento está obstruindo o caminho ao que é mais ágil que ele. Então o palhaço ágil pula sobre o mais lento, aterrissando na corda. O movimento fez o mais lento perder o equilíbrio e cair. Dá pra ver que metáfora Nietzsche tentou entregar aqui: aquele que visa o super-homem, o homem do amanhã, não pode esperar a boa vontade dos menos capazes que ele. Para atingir esse estado, o homem precisa tomar a frente, passar por cima dos que não colaboram. Estes, aliás, não são aptos pra travessia. Por isso caem. Inobstante, tentaram atravessar a corda, aceitando o perigo. Isso ainda é admirável. Assim, pior do que tentar e falhar é não ter tentado. Não tentar é se reconhecer como fraco e incapaz.

Após o incidente, Zaratustra é aconselhado a deixar a cidade, porque todo o mundo ali o odeia e talvez não apenas riam dele da próxima vez. Zaratustra ignora e vai pra um bosque ali perto. Lá, ele decide que precisa de uns amigos novos.

Aurora (Nietzsche).

As leis e os costumes visam desencorajar comportamentos ridículos, bizarros, pretensiosos, violentos, arrogantes ou diferentes. Nisso consiste a moral civil. Mas, Nietzsche acrescenta, também os animais agem assim. Talvez se nós observarmos as razões por trás da “moral animal” tenhamos uma pista sobre o porquê de humanos também agirem segundo regras que, muitas vezes, não lhe proporcionam benefício.

Nietzsche deixa isso mais claro: tal como nossa moral visa nos camuflar, nós, homens individuais, em uma “sociedade”, também o cameleão se camufla no ambiente mudando de cor, um animal adota a aparência de outro ou adota a aparência de uma folha, areia ou pedra. Ambas as coisas têm como função permitir um ataque à presa ou fugir de um predador. As virtudes sociais humanas são o que o transformam em um “camaleão social”. Elas não têm nada de elevado ou de belo. São apenas formas de se virar na vida, especialmente se você consegue fingir que as têm. Vendo os pais agirem dessa forma, crianças aprendem esses comportamentos por imitação. Só na idade adulta eles se põem a analisar por que razão elas (e seus pais) se comportam de tal forma.

Exemplo: felicidade marital. Nietzsche afirma que o casamento pressupõe que o amor eterno é regra, em vez de exceção. Para Nietzsche, tentar eternizar qualquer emoção ou sentimento ocasiona hipocrisia. Não existe emoção que dure pra sempre e sentimentos podem se esgotar. Dessa forma, o corpo de uma mulher torna-se tedioso quando se transa com ela vez após vez. O mesmo vale pra mulher, em relação ao seu homem. Regra é o divórcio, que se torna tanto mais frequente quanto mais é facilitado. Se assim é, se o amor que embasa o casamento pode acabar, é importante que a pessoa, caso esteja insatisfeita com seu casamento, pareça estar feliz com o cônjuge. Afinal, estar casado é símbolo de status (mas esses dias estão contados). Você não quer perder esse status, não é? Então sorria, mesmo debaixo dos pratos de porcelana que quebram sobre você, porque seu casamento precisa durar.

Este é um daqueles livros em que Nietzsche se pronuncia através de aforismos, então não se afobe se eu mudo de assunto muito rápido. Ele passa então a discutir a superstição de que a atitude que mais anima você é a correta, porque o sentimento de certeza vem de Deus. Esse sentimento é explorado ainda hoje, quando um pastor diz aos fiéis: “faça o que você sente em seu coração”. Agir conforme o coração é um gancho pra levar a pessoa a não ouvir a própria razão, a não pensar, o que a leva a tomar atitudes inclusive anticristãs (Jeremias 17:9).

Menino matando um basilisco, símbolo da heresia protestante, em Munique. Foto de Onderwijsgek. Fonte: Wikimedia Commons.

Mas esse “argumento” funciona muito bem. Enfatizar o coração em vez do cérebro é uma boa forma de explorar as pessoas com mais sentimento do que razão (a maioria). Apelar pro sentimento, a seguir “o que o coração manda”, é um argumento bonito, prazeroso e que não precisa de justificação, porque já há uma inclinação em todos nós a fazer o que temos impulso de fazer, inclinação que depende justamente da razão e da força de vontade pra ser refreada. É à razão e à experiência que se deve seguir, não ao sentimento (a menos que a razão e a experiência estejam de acordo com o sentimento).

Nietzsche então volta à crítica ao cristianismo de seu tempo. Pra Nietzsche, antes do cristianismo, as pessoas faziam mais ou menos como fazem hoje no Twitter: tentam parecer melhores que as outras exibindo suas virtudes, inclusive aquelas que não têm, mas aparentam ter, tentando envergonhar aqueles que vivem de um modo menos virtuoso. É o tipo de gente que, quando acusada falsamente de uma falta moral, toma a oportunidade pra se sentir superior por estar do lado da verdade, mesmo que isso ocasione sofrimento. A ideia era posar de Mary Sue, de perfetinho, de estar do lado do bem.

Com o cristianismo, e sua ênfase na miséria humana, as pessoas entenderam que a mais importante das virtudes é a humildade… e passaram a desfilar seus defeitos em vez das qualidades! É a mesma coisa. As pessoas ainda querem se sentir melhores que as outras, agora vendo quem sofre mais. Jesus diz, em Mateus 6:17-18, que você não deve deixar transparecer seu sofrimento ao público, que o sofrimento é algo particular. Então, na verdade, o estímulo eclesiástico ao culto do sofrimento é anticristão. É verdade, o cristão não deve esbanjar suas qualidades, mas tampouco seus defeitos, fraquezas e sofrimentos. Ambas as coisas são orgulho.

Por último, uma crítica às causas finais: o fato de o ser humano fazer uso de algum elemento da natureza não justifica a existência desse elemento. Por exemplo: antigamente se pensava que o Sol existe porque a vida precisa de iluminação. Na verdade, não. O Sol existe, é verdade, e a iluminação é consequência de sua existência. Mas não podemos dizer que foi essa necessidade que criou o Sol.

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