Analecto

3 de agosto de 2015

Anotações sobre o proslogion.

Filed under: Livros, Passatempos — Tags:, , , , , — Yure @ 12:29
  1. O propósito do livro é encontrar um argumento que se baste para provar a existência de Deus e que ele realmente tem todos os atributos que pensamos que ele tem.
  2. Essa era uma pergunta persistente na cabeça de Santo Anselmo.
  3. O livro nem sequer deveria ser chamado livro, de acordo com o próprio Anselmo, mas ele resolveu dar-lhe nome após pressão de colegas.
  4. O livro não deve ser lido com a mente em alguma outra coisa. O leitor do Proslogion deve estar atento.
  5. As pessoas que procuram Deus em geral não o conhecem. A multidão de igrejas cristãs pode até ser um reflexo disso. Cada um procura Deus sem saber exatamente como ele é e passa a cultuar aquilo que encontrou. Agostinho diz que isso pode levar o fiel a cultuar o deus errado.
  6. Não é possível ser feliz sem o Deus que o ser humano tende a rejeitar. Anselmo usa passagens bíblicas para complementar seu texto.
  7. Adão é a razão de todas as carências.
  8. Para Anselmo, a vida humana tem um propósito, que é inviabilizado pelo pecado. Por meio de Deus, então, encontraríamos o sentido de nossa vida e a razão pela qual nascemos.
  9. A compreensão de Deus depende da crença. Não é possível compreender a divindade se não cremos nela. Se não acreditamos, somos como o sujeito que procura conhecer aquilo que não reconhece como objeto. Não é assim que se faz conhecimento.
  10. Deus como o ser supremo: nada pode ser pensado como sendo maior que ele. Este é um conceito que podemos aceitar como ponto de partida para uma discussão. Então, ele existe no intelecto, como conceito. Resta saber se ele existe também fora do intelecto.
  11. Se ele realmente é maior que tudo, não pode, logicamente, não existir também fora do intelecto. Anselmo está tentando derivar a existência de Deus como que usando o significado da palavra “Deus”. Se assumimos como ponto de partida que Deus é aquilo que é maior que tudo, estamos, necessariamente, admitindo que ele existe, no campo lógico. Afinal, não pode faltar a esse ser a existência, porque senão ele não seria maior que tudo. Kant diz por que isso é falho. Na verdade, qualquer um poderia sentir que tem algo estranho nesse argumento, mas Kant põe isso em palavras claras. Eu não posso derivar a existência de algo pela sua definição. Tomás concorda.
  12. Voltando ao texto, se assumimos Deus como sendo “aquele que está acima de tudo”, ou seja, como ser perfeito, então não é possível pensar que Deus não existe, porque, sendo perfeito, negar-lhe existência é contradizer seu conceito. “Deus não existe” passa a ser uma frase contraditória, na medida em que se admite Deus como perfeito, logo, como um ser ao qual nada de bom falta (incluindo existência). Outro problema desse argumento é que a definição de Deus não é unânime.
  13. Isso dá a impressão de que Deus não pode inexistir. Temos aqui uma identidade entre ser e pensar.
  14. Nada é maior que Deus, se o reconhecemos como perfeito. Então não é possível conceber alguém maior que ele.
  15. Existem graus de existência. Somente Deus tem existência 100% certa. As outras coisas podem ser ou não, ou seja, são contingentes.
  16. Para Anselmo, levando seu argumento a frente, o ateu só é ateu porque não entende o que Deus é. Se fosse levado a reconhecê-lo como perfeito, aquilo que é maior que tudo o mais, seria forçado a admitir sua existência conceitual. Como pode um ser perfeito que se apresenta em meu intelecto existir somente em meu intelecto? Ele deve existir de fato, porque não seria perfeito se não existisse. Existem falhas aqui, naturalmente. Primeiro, suponhamos que a melhor criatura existente não seja o sumo bem. Isto é, se algum dia encontramos o ser mais perfeito existente e constatamos que ele apenas se aproxima do nosso conceito de perfeito, sem contudo chegar a ele, então, com essa possibilidade, pode ser que “perfeito” seja um conceito impossível fora do pensamento. Outro problema é que, se o argumento tivesse procedência, então qualquer ser que eu concebesse em minha mente e lhe adicionasse a qualidade perfeição existiria de fato (apesar de que alguém poderia argumentar que todo o ser perfeito que eu concebo é Deus, porque só ele é perfeito).
  17. Anselmo diz que Deus é aquilo que há de maior na existência. De fato, seu argumento serve para demonstrar que existe um ser com o grau máximo de existência e poder, mas esse ser pode não coincidir com Deus. Basta analisar o significado da palavra “máximo”. Máximo é o maior permitido, coincidindo com perfeito em Tomás. Se Deus é o máximo em tudo, portanto nada é maior que ele, não significa que ele tem todas as características no grau que concebemos como infinito, mas que ele as tem em grau simplesmente máximo, como maior permitido pela existência. Portanto, infinito e máximo (maior possível) não coincidem.
  18. O conceito de “perfeito” em Anselmo deve se identificar com infinito.
  19. Seguindo sua linha de pensamento, Deus, como ser perfeito, pode muito bem ter feito tudo a partir do nada.
  20. Deus reúne em si as qualidades boas e por causa dele que a bondade particular se manifesta. Ele é sumamente feliz, sendo origem da felicidade transitória e particular que sentimos. Ele sumamente verídico, sendo origem da veracidade transitória e particular que experimentamos…
  21. Se Deus reúne o que é melhor, ele é espírito, porque era opinião corrente de que existir sem ter corpo é uma vantagem. Mas como Deus pode sentir algo se ele não tem corpo?
  22. Se “sentir” é manifestar-se ao intelecto, então Deus não precisaria de corpo para sentir algo. É só que nós, criaturas, trazemos ao intelecto as coisas pelos sentidos.
  23. Como é que Deus é onipotente se ele não pode, por exemplo, mentir? Acontece que mentir é uma fraqueza. Mentimos por defeito em dizer a verdade, seja porque somos maus ou porque tememos. Se fôssemos bons e tivéssemos coragem, diríamos a verdade sempre, o que é uma condição de perfeição. Por isso Deus não pode mentir sem perder seu status de ser onipotente, porque a mentira decorre de uma fraqueza.
  24. Além do mais, a mentira é o não-ser da verdade. Deus não pode praticar não-seres, por existir em sumo grau.
  25. Para Anselmo, Deus não sente compaixão. O perdão dos pecados é dado sem que Deus se sinta mal por nossa causa. Então, para nós, seu comportamento se afigura como compaixão, mas não o é do ponto de vista divino. Isso é não é bíblico
  26. Deus seria “menos bom” se não fosse bom também para com quem é mau.
  27. O que não significa que Deus não pune os maus. Mas, pela punição, perdoa. Não tem sentido continuar com raiva de quem já recebeu a devida punição.
  28. Além do mais, a plenitude de Deus é mais evidente se ele é capaz de fazer pessoas boas a partir de pessoas más (conversão).
  29. Deus não pode ser constrangido nem por espaço nem por tempo.
  30. Ele chega, por processos diferentes, quase às mesmas conclusões que os pré-socráticos.
  31. Em Anselmo, a religião é propriamente “reencontro”. Por causa de Adão, perdemos o contato com Deus e a religião cristã é um esforço de reencontrá-lo, alavancado pela necessidade de preencher um vazio metafísico, enunciado como “necessidade espiritual”. Já para Tomás, religião é uma virtude efetivada pelos votos de pobreza, castidade e submissão à igreja.
  32. O argumento do “ser máximo” joga contra a Trindade: é melhor ser uno e indivisível do que trino. Mas Anselmo, como católico, talvez tivesse uma explicação para isso. Poderia ser, por exemplo, que a divisão entre Pai, Filho e Espírito Santo fosse apenas aparente e que na verdade seriam três manifestação de um só ser. Como vocês já estão cansados de ler, eu não compro a ideia da Trindade, mas estou tentando saber como Anselmo responderia à minha objeção.
  33. Se Deus fosse divisível em partes, ou seja composto, poderia ser passível de decomposição. A menos, é claro, que seu arranjo fosse perfeito. Mas voltemos ao assunto. É melhor ser simples e único do que múltiplo em si mesmo. Nós, humanos, por exemplo, somos múltiplos em nós mesmos, porque cada componente nosso pode ser analisado separadamente e somos decomponíveis pela morte. Somos, então, como “vários”. E Deus, para ser Deus, tem que ser um só.
  34. Amar o bem que perpassa todos os bens é o bastante.
  35. E Deus perpassa todos os bens, já que os bens se originam nele e ele os têm em grau máximo.
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9 Comentários »

  1. […] de Sócrates. Isso dá a impressão, pro leigo que não sabe o que é filosofia nem o quanto a religião deve a esta, de que filosofia é coisa de ateu e que a filosofia te tornará ateu se […]

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