Analecto

24 de novembro de 2015

Anotações sobre a suma contra os gentios.

  1. A predestinação pode ser mudada.
  2. Os humanos são destinados a ser livres e não podem negar sua liberdade. Parece que dá pra ser existencialista e católico.
  3. Deus não causa o pecado. De acordo com Tomás, Deus pode permitir o pecado. Óbvio: de que valeria o livre-arbítrio sem a possibilidade de desobediência? Se Deus quer que o ser humano seja totalmente livre nas escolhas que lhe competem, o direito de desobediência deveria também existir. Por isso a árvore proibida no Éden. Se o ser humano só pudesse escolher obedecer, ele não seria tão livre quanto podia. Claro, devemos ainda arcar com as consequências de nossas escolhas.
  4. Se o pecador é totalmente descrente e evita a graça como pode, será abandonado no pecado, segundo Tomás.
  5. Se surpreendido, seus hábitos se revelam. Assim, se você deixou de praticar certa coisa, uma situação surpresa pode trazer à superfície vestígios do hábito.
  6. Se o penitente tiver sentido arrependimento total pelo pecado e sentir repulsa pelo ato que cometeu, a purgação será menor ou mesmo inexistente.
  7. A punição é o remédio para doenças morais.
  8. Se recusamos a punição voluntária, a punição divina virá até nós.
  9. Convém ser punido antes de ser perdoado, segundo Tomás.
  10. É necessário se comprometer a evitar o pecado no futuro. Se tem algo que você gosta muito de fazer, mas quer parar porque acha que é pecado, por que você não se propõe a ficar sabendo se realmente é pecado? Afinal, seria muito chato fazer um esforço de deixar de fazer algo se não há necessidade.
  11. Os pecados podem ser perdoados pelo amor e pela caridade (Mateus 6:14). Se praticamos essas coisas, podemos pedir perdão pela oração (Marcus 11:25).
  12. Devemos recorrer a Deus quando algo escapa à nossa vontade.
  13. Os astrólogos acertam porque os corpos celestes afetam as paixões, diz Tomás, com a ciência do século doze. Como são poucas as pessoas que podem gerenciar as paixões corretamente pela razão e, portanto, contradizer o impulso celeste, o astrólogo pode acertar muitas vezes.
  14. Os demônios não prevêem o futuro, mas, conhecendo coisas sobre o presente e que o ser humano não conhece, parecem prever.
  15. É possível conhecer o criador conhecendo a criatura. Daí a importância da ciência: explicar a criatura.
  16. Isso também acontece na fé. Muitas coisas proibidas por Deus na lei de Moisés hoje encontram fundamentação científica. A higiene judaica não era simples ritual. Como convinha que Israel se multiplicasse, tinham que ter vida longa, daí ser decretado o sábado de descanso, a abstenção de certos tipos de carne, lavagem das mãos antes de comer, defecação fora do acampamento, isolamento dos doentes… Israel acreditava nessas coisas. Mas Deus não podia explicar para Israel, em plena ascensão egípcia, que existiam microorganismos causadores de doenças, que certos tipos de carne favorecem mais o câncer, que suas mãos podem estar sujas mesmo quando parecem limpas… Isso soaria tão louco para Israel que talvez perdessem a fé.
  17. Quando o aluno aprende do professor, ele não receberá os seus conceitos sempre com o intelecto, mas predominantemente pela crença. De fato, quando se aprende história, você está acreditando no que seu professor está dizendo sobre os tempos em que você não viveu. Quando se aprende matemática, nem sempre você pode verificar até que ponto as equações descrevem o real. Só depois que o aluno prescinde do mestre que ele poderá testar se o que ele aprendeu realmente está certo, quando ele testar seu conhecimento no mundo.
  18. A graça divina é causa de vários bens espirituais.
  19. O amor é causa de todas as emoções, diz Tomás. Ficamos alegres quando temos o que amamos. Só ficamos com raiva ou tristes quando algo que valorizamos nos é subtraído ou está na iminência de ser subtraído. Freud dirá que existe outro princípio paralelo ao amor, que é o ódio.
  20. O auxílio divino para a salvação não é obtido por ações, diz Tomás; ele é dado de graça, por isso é chamado “graça”. Claro que isso não exclui a possibilidade de a pessoa perder a salvação por conta própria com atos ofensivos, nem de recuperá-la pelo perdão, mas o fato é que a graça nunca é merecida. Por isso a expressão “benignidade imerecida”. De fato, nada do que o ser humano pode fazer se equivale ao direito de salvação. Deus ainda olha para nossos atos, mas mesmo o mais virtuoso não poderia juntar atos o bastante para merecer um presente tão grande. Donde decorre que os virtuosos recebem a graça e, mantendo-se no amor de Deus pelas obras, a mantém. Já os viciosos também a recebem, mas, afastando-se do amor de Deus pelas obras, afastam a graça. É como o amigo que presenteia o outro só por ser amigo dele. Mas por que uma pessoa presentearia outra sem ser amiga dela? Ou ainda, como serei amigo dessa pessoa se ela se afasta de mim? Minha intenção então não é efetivada.
  21. Quando a Bíblia dá a entender que nada depende de nós, mas só de Deus, não está negando o livre-arbítrio, mas apenas dizendo que estamos sujeitos a Deus. Não é como se não tivéssemos liberdade alguma. E de fato, se não tivéssemos livre-arbítrio e Deus nos controlasse, como é que existiria pecado? Tomás está antecipando a afirmativa de Lutero, o qual viria a negar o livre-arbítrio.
  22. Para ilustrar como o ser humano não pode obter a felicidade sem Deus, basta pensar na concepção. Embora os seres humanos tenham órgãos reprodutores, nem macho nem fêmea podem conceber sozinhos (ou não). Um precisa do outro para chegar ao fim da concepção. Da mesma forma, o potencial do ser humano para a beatitude só pode se atualizar pela providência.
  23. Tomás já sabia que a lua não iluminava nada por conta própria, mas é na verdade a luz do sol que incide sobre a lua e é refletida para a Terra. Então é retrógrado que alguém ainda hoje ache que a lua produza luz por conta própria só porque isso é o que Génesis 1:14-15 sugere literalmente.
  24. O ser humano não pode atingir a bem-aventurança sem auxílio divino. Ele tem vontade de conhecer a verdade primeira em si mesma, mas isso não é possível fazer por conta própria. Mas a natureza nada fez em vão, então o ser humano, se deseja esse tipo de coisa por natureza, deve ser capaz de alcançar essa verdade. Se ele não dispõe de meios naturais para isso, decorre que ele só pode obter tal coisa por meios sobrenaturais. Nesse caso, a providência.
  25. A providência age de forma diferente sobre diferentes classes de criaturas, segundo Tomás.
  26. Tomás levanta sérias dúvidas ao mandamento “não matarás”, inclusive apontando que a própria lei mosaica parece permitir a morte dos injustos em certas circunstâncias (João 8:3-5). Mas não parece haver permissão nenhuma para matar no Novo Testamento (João 8:7). Em todo caso, Tomás sanciona a pena de morte e diz que as autoridades têm o direito de matar infratores da lei que se mostrarem como grande risco aos outros, provavelmente em uma tentativa de priorizar o amor ao próximo. Com efeito, matando um mal-feitor, se protege todas as suas potenciais vítimas. Eu tenho minhas dúvidas e penso que a ordem para não matar é absoluta, mesmo a custo de nosso próprio bem-estar (Mateus 5:39-41).
  27. A Bíblia parece se manifestar a favor da tese de que Deus usa a justiça humana para garantir sua vontade sobre os particulares. Mas eu fico meio assim de dizer que a Bíblia realmente diz isso, porque algumas citações bíblicas no texto de Tomás estão com as referências erradas.
  28. Matar criminosos perigosos é como amputar um membro gangrenado que ameaça decompor o corpo inteiro. Isso é ele quem diz.
  29. Tomás era a favor da pena de morte.
  30. Para Tomás, o juiz, como posto acima das pessoas normais, não peca enquanto executa seu ofício, pois Deus ordena os particulares através dos gerais. É como se Deus punisse o mau por meio das penas humanas previstas na justiça vigente. Só que isso não parece levar em consideração a possibilidade de justiça corrupta.
  31. Quem age com justiça não peca.
  32. Os pecadores são punidos também nesta vida.
  33. Existem penas que são eternas, segundo Tomás.
  34. É justo que a pessoa seja punida pela privação daquilo contra o que pecou. Por isso que aqueles que pecavam contra a sociedade eram dela privados pelo exílio.
  35. O pecado mortal é punido com o afastamento de Deus. Essa pena, quando efetivada, é perpétua, segundo Tomás. Estranho que até agora ele não mencionou o Inferno. Até porque estou na página seiscentos e sessenta e seis agora.
  36. O pecado mortal é o de quem peca de propósito. Se esses pecados não forem perdoados, a pena será maior do que a do pecado venial.
  37. Não somente a qualidade das obras é levada em consideração; o julgamento não seria perfeito se alguma má ação passasse impune ou alguma boa ação passasse em branco. O julgamento divino, como perfeito, é também quantitativo.
  38. Tomás parece propor que há um tipo de contabilidade divina: o valor dos pecados é subtraído do valor das boas ações e a pessoa será recompensada se houver saldo positivo e tanto mais recompensada quanto maior o saldo. Claro que isso pode ser entendido no sentido de que, somadas as purificações que terei de passar e a recompensa pelos bons atos, talvez, no fim das contas, eu penda para um dos lados. Lutero era altamente contra isso, porque lho parecia que isso permite a manipulação da vontade divina segundo nossos atos, o que contrariaria a vontade divina como soberana.
  39. As penas e os prêmios são diferentes segundo o grau de transgressão. O estuprador não será punido tal como o assassino; o que dá esmolas não terá o mesmo prêmio que o pregador do Evangelho.
  40. Perder um bem espiritual é muito pior que perder um bem corpóreo.
  41. Seus atos serão cobrados cedo ou tarde, tanto bons quanto maus. Às vezes parece que Deus não pune os maus, porque gozam de riqueza e saúde física, ao passo que existem muitos virtuosos pobres e doentes. Mas o que é de cada um vem cedo ou tarde.
  42. A punição parece depender das pessoas. Para a maioria, sofrer uma lesão corporal ou ser impedido de ter sexo é pena pior do que ser preso. A pena é maior se é subtraído da pessoa algo que ela gosta. Eu, por exemplo, não me importaria de pagar uma multa se eu tivesse dinheiro para saudá-la, mas acharia uma pena maior ficar sem o computador, onde estão meus livros e onde passo todo o meu tempo livre, mesmo que o valor do computador seja inferior ao da multa. Da mesma forma, ser preso não deve ser tão ruim pra mim, já que nem tenho mesmo vida social.
  43. Como a vontade persegue o bem e se afasta do mal, oferecer recompensa para atos bons e punição para os maus certamente ajuda a ordenar nossos atos em certa direção.
  44. Para Tomás, os pecados que contrariam o amor são mortais. Os outros são leves.
  45. O mesmo é válido com os pecados. Existem pecados menores, existem pecados maiores. Nem preciso lembrar que existe também o perdão.
  46. Os atos virtuosos não são todos iguais e não têm todos o mesmo valor.
  47. Algo pode ser classificado segundo seu fim ou segundo seu meio.
  48. Necessidade se diz em três sentidos. Necessidade de coação externa, necessidade de coação interna, necessidade de meios para fim. No primeiro, a necessidade é imposta por algo externo. No segundo, há vontade de fazer algo. No terceiro, é necessário que se obtenha algo intermediário antes de obter o alvo final. Exemplo: necessitamos de água pra fazer suco.
  49. A abstinência não necessariamente viola o preceito dado no Génesis, de sermos fecundos. Afinal, ela é aconselhada no Novo Testamento. Seria uma violação se todos fossem totalmente continentes, porque aí acabaria a espécie humana.
  50. A abstinência é um dom. Quem puder praticá-la, pratique, mas quem não puder não precisa se sentir mal por não conseguir.
  51. Tal como a pobreza, a virgindade não é boa se traz mais malefício que benefício. Não é a quantidade de sexo que te torna melhor ou pior, mas quanto benefício você traz da prática ou da abstenção. No ponto em que o benefício começa a diminuir, convém considerar se você não está pecando por excesso ou por carência.
  52. O ser humano não precisa usar todas as suas potências corporais. Embora ele seja forte, não precisa ser militar. Embora ele seja inteligente, não precisa ser cientista. Embora ele seja capaz, não precisa se reproduzir. Observe, contudo, se isso é algo que só deveria ser adotado por alguns. Não convém que todos se afastem totalmente do sexo e a abstenção não produz a salvação do cristão. Novamente, é um conselho.
  53. A sociedade poderia se beneficiar de gente que ativamente evita o envolvimento sexual. Essas pessoas podem sublimar-se em coisas mais científicas. Afinal, depois da primeira vez, você começa a desejar a segunda… E aí fica difícil se focar em algo espiritual depois que a necessidade de procriação acorda. Então, convém que haja gente que mantenha a necessidade latente, ou seja, pessoas que desejam manter a virgindade para sempre. É meu caso, embora eu não procure manter a virgindade por razões espirituais. É só que desisti mesmo; sou feio, pobre, então…
  54. O imperativo categórico existia em Aristóteles, embora não com esse nome. Pois a Ética sugere, pelo preceito de que é melhor aquilo que é bom para a espécie em vez de bom apenas ao indivíduo, que aquilo que é bom para o indivíduo deve ser melhor para muitos e ótimo para o todo. Quer saber se um ato é moral ou não? Imagine como seria se todos o praticassem. Se o mundo fosse um lugar melhor se todos praticassem tal ato, convém que você o pratique. Ora, mas o que é isso, senão imperativo categórico? Por isso dizem que a filosofia moderna é uma quadrilha de ladrões de filosofia clássica e medieval. Afinal, Descartes roubou de Agostinho.
  55. Façamos o que deve ser feito no hoje, para que não tenhamos que nos preocupar no amanhã. Basta a cada dia seu mal. É isso que Jesus quer dizer com “não se preocupar com o amanhã”. Se fizermos tudo ir bem hoje, a chance de tudo ir bem amanhã é maior.
  56. Não se deve esperar de Deus aquilo que nós podemos fazer sozinhos.
  57. Se fosse para negarmos totalmente nossos cuidados com o corpo, Deus não teria nos dado corpo em primeiro lugar.
  58. Já na época de Tomás havia mendigos que não necessitavam de esmola e o faziam só pra não ter que trabalhar…
  59. Jesus não disse pra não trabalhar, mas disse pra não se preocupar. Se o trabalho está se tornando uma razão de excessiva preocupação, você está trabalhando demais.
  60. Um serviço bom não deve ser cancelado porque tem gente má que dele abusa. Exemplo: redes de anonimato na Internet.
  61. Se fôssemos comunistas e todos os bens fossem comuns, cada um teria sua existência garantida e poderia fazer algo mais elevado, como se entregar às humanidades. Por isso Herbert diz que o capitalismo, embora tenha multiplicado nossa força de trabalho, tornou-se um sistema de empobrecimento mental: tão necessitados estamos de trabalhar que atividades intelectuais genuínas (isto é, incluindo aquelas que são indesejáveis ao sistema por não serem lucrativas ou serem contra-lucrativas, como qualquer cura que prejudique grandemente a indústria farmacêutica) são desencorajadas.
  62. Se a pobreza de certa pessoa melhor a habilita a fazer o bem, não convém que ela seja rica.
  63. A vantagem da pobreza não é sempre inversamente proporcional ao valor dos bens, mas inversamente proporcional à quantidade de cuidados. Se a pobreza está gerando mais cuidados, você pode dizer com segurança que está ficando pobre demais.
  64. Não é que devemos ser totalmente pobres a ponto de precisar dos outros, mas que tenhamos o necessário para manter o corpo. Assim, nos livramos dos cuidados tanto da riqueza como dos da pobreza.
  65. Se queremos algo, é totalmente errado não buscar os meios lícitos para obter esse algo.
  66. Trabalhar muito não necessariamente significa ganhar muito.
  67. Tomás aponta um empecilho para isso e é o empecilho que todos vemos: poucos ricos se sentiriam à vontade para participar de tal coisa. É difícil um rico se desapegar do que tem. Se apenas poucos ricos aderirem a esse estilo de vida, a riqueza deles não duraria muito tempo, dado que a quantidade de pobres é maior que a de ricos. A riqueza, antes nas mãos de poucos, passaria a estar nas mãos de ninguém. E é por isso que o comunismo só pode existir dignamente se há abundância de bens e recursos. Do contrário, seria como tornar todos pobres.
  68. Jerusalém tinha comunidades “socialistas”, pois, vendendo tudo o que tinham, a pessoas davam os lucros aos apóstolos, que dividiam os lucros de volta entre as pessoas, segundo a necessidade de cada um. Não se podia dizer que era um comunismo porque os apóstolos era líderes, logo havia classes sociais. Mas era de cada um aquilo que cobria sua necessidade.
  69. No início, só eram chamados “religiosos” quem seguiam esses conselhos.
  70. Esses conselhos são a pobreza, a virgindade e a obediência ao superiores humanos. Se não nos preocupamos com bens materiais, com família e nem com nós mesmos (porque, se estamos submissos a outros, são esses outros que levam responsabilidade por nossos atos de forma direta, além de terem que nos manter), podemos nos voltar para Deus com mais afinco.
  71. A lei divina não contém somente mandamentos, mas também conselhos de como seguir os mandamentos. Seguir os conselhos não produz a salvação. Daí, é útil saber separar os conselhos dos mandamentos, se o que se quer é simplificar a lei, mas manter os conselhos caso seguir os mandamentos se prove difícil sem os conselhos. Então, os conselhos, embora não sejam necessários, são recomendados.
  72. São males naturais ao ser humano qualquer comportamento que prejudique a razão.
  73. A lei divina foi dada aos injustos, deixando claro o que têm que fazer. Mas aqueles que são justos de coração seguem a lei por conta própria, mesmo se ela não tivesse sido revelada.
  74. A lei divina evidencia o caráter social do ser humano. Se nos mantivermos unidos, vários benefícios se originarão de nossa união.
  75. Paulo previu que alguns que se afastam da fé começariam a proibir o ato de comer certas coisas. Porém, a partir de Jesus, nenhum alimento é considerado impuro em si mesmo.
  76. Quando algo é pecado, algo ruim nos acontece por causa dele. Se algo ruim nos acontece sem que tenha sido decorrente de um ato de nossa vontade, não aconteceu porque pecamos. Mas se fazemos algo e esse algo acaba nos trazendo consequências ruins, convém relevar se também não é pecado.
  77. Da mesma forma, ele diz que aquilo que aperfeiçoa, isto é, que torna algo bom ou ótimo, não pode ser mau em si. E hoje se sabe que masturbação na verdade faz bem à saúde.
  78. Voltando ao assunto da masturbação, Tomás diz que Deus move todas as inclinações naturais e que os animais são dirigidos para o sexo, donde decorre que o sexo não pode ser mau em si mesmo, provavelmente na medida em que é construtivo. Bom, animais e crianças também praticam atos sexuais solitários, mesmo sem razão aparente além da clássica “é gostoso fazer”.
  79. Além disso, se pai ficasse com filha, a relação conjugal não seria igual. Haveria um nível de autoridade estranho ao matrimônio.
  80. Para Tomás, o casamento não pode ser entre consanguíneos. Entre outras coisas porque isso poderia fazer com que as pessoas tenham preferência em casar-se com consanguíneos, em vez de juntar famílias diferentes.
  81. Para Tomás, existem razões naturais para que o casamento seja monogâmico.
  82. Para Tomás, o divórcio é anti-bíblico. Após casados, os envolvidos não devem jamais se separar.
  83. Existem bíblias antigas que citam a masturbação como pecado, mas, dado que a palavra sumiu das bíblias de uns tempos pra cá, parece que se tratou de tradução errada.
  84. Para Tomás, a masturbação é como um homicídio ao contrário. Não se mata uma pessoa viva, mas impede que outros venham a viver. O problema é que, se assim o fosse, toda a ejaculação noturna é um homicídio acidental inevitável. Para evitar tal ato “horrendo”, os homens teriam que correr para se casar, arrumando casamentos adolescentes, numa época em que não têm a razão bem formada. Isso não é nada razoável. Além do mais, se fosse mesmo contra a natureza que a emissão de sêmen seja perdida, o homem deveria ter nascido com meios de retê-la até quando fosse necessário além de que a maioria, senão todos, dos coitos deveria terminar em geração. E quantos coitos! Porque o homem tem ejaculações noturnas com frequências que variam de uma por semana a uma por mês. Então, se realmente é um pecado tão grave, convém deixar os adolescentes se casarem e terem sexo imediatamente, aos primeiros sinais de puberdade. Se não é grave por causa do homicídio às avessas, então não é grave de maneira alguma. Se é grave porque há intenção, então é grave deixar o esperma acumular e esperar o ponto certo da vida para começar a ter relações, porque isso é ter intenção de retenção, sendo que a retenção é impossível, logo havendo intenção ainda assim, embora indiretamente, porque ter intenção de reter o esperma é aceitar o risco de ejacular durante o sono, e isso é uma escolha feita intencionalmente. Donde decorre que há intenção em ambos os casos, quando queremos e quando não queremos reter.
  85. O casamento é natural ao ser humano, porque a criança não seria propriamente educada ou nutrida por uma só pessoa. Então o pai deve ter a responsabilidade de permanecer com a mãe da criança até que a criança não mais precise dos pais.
  86. Esse tipo de pecado é chamado de “pecado contra a natureza”, pois perverte o fim para o qual algo foi naturalmente concebido, no caso, o aparelho reprodutor e o sêmen.
  87. Para Tomás, qualquer emissão de sêmen que não visa a reprodução é pecado na medida em que é intencional. O argumento é de que este é o fim do sistema reprodutor humano, ao passo que é mau aquilo que afasta algo de seu fim.
  88. É possível pecar sem que haja vítima externa. Ou seja, podemos pecar mesmo quando causamos dano só a nós mesmos.
  89. Para Tomás, a adoração de imagens foi introduzida à humanidade pelos demônios, que se apresentaram aos humanos como se fossem deuses.
  90. Mesmo que a estátua fosse imbuída de poderes místicos, nem assim deveríamos adorá-la, porque só se deve adorar o ser supremo, inclusive por razões de conveniência (se fôssemos adorar tudo que nos é superior, adoraríamos uns aos outros, pois cada um é superior ao outro em algum sentido, tal como também adoraríamos anjos, corpos celestes, substâncias intelectuais…).
  91. A causa é superior ao efeito. Um ser humano não deve, então, se curvar diante de uma estátua, que lhe é inferior. Além do mais, o ser humano é a mais baixa das criaturas racionais. Então a razão só poderia ser conferida a nós e aos que nos são superiores. Então, pra quê adorar uma estátua que nem sequer pensa?
  92. O culto não é necessário a Deus, mas é uma expressão de gratidão por Deus nos ter criado. Por isso os que não prestam culto ao Deus são “ímpios”, por não honrarem ao pai.
  93. Ao prestar culto divino à várias entidades, o culto à entidade que importa fica enfraquecido.
  94. O culto de “latria” deve ser prestado somente a Deus. Isso implica que Tomás não aprovava o culto aos santos ou às estátuas dos santos (à adoração de imagens dá-se o nome de “idolatria”), nem mesmo o culto à Virgem Maria, como fazem os católicos hoje.
  95. A palavra piedade originalmente exprime a honra aos pais.
  96. O ato de ajoelhar-se, por exemplo, pode também ser instintivo: nos sentimos em débito e queremos reverenciar Deus, mesmo que à maneira humana. O mesmo com baixar a cabeça e fechar os olhos durante a prece, por nos sentirmos humilhados na presença do divino.
  97. Isso não quer dizer, para Tomás, que não devamos praticar tais atos corpóreos na oração, porque dispõem o comportamento alma ao ato de orar. Assim, todas as vezes que o fiel se ajoelha, quase por instinto ele se foca na fé.
  98. Para Tomás, as posições e tons de voz que usamos durante a oração não são exigências espirituais. Nos ajoelhamos e clamamos porque, ao mudar de comportamento, nos envolvemos mais com a fé em sentido especial. Mas não são para essas coisas que Deus olhará quando rezarmos, e sim para nosso pedido e nossa intenção, já que Deus é espírito e convém que ele seja adorado em espírito.
  99. Amar Deus requer que o conheçamos. Quem pensa que Deus é corpo, por exemplo, o desconhece e, por isso, ama algo que não é Deus, mas uma ideia que ele tem de Deus, ideia errada.
  100. Seguindo as leis dadas por Deus acabamos encontrando a fé verdadeira.
  101. O amor em geral, incluindo o amor ao próximo, é o sentimento mais construtivo que existe.
  102. Se amamos a Deus, o servimos com deleite e firmeza, já que o prazer aperfeiçoa a ação.
  103. A lei nos ordena para Deus através do amor.
  104. O objetivo da lei é nos ordenar para Deus. É como uma espécie de manual para manter-se próximo. Se afastar de Deus pela quebra das leis acarreta punições dentro da ordem cósmica ou mesmo punições diretas. Agostinho, por exemplo, diz que a alma pecadora castiga a si própria.
  105. Como nós temos livre-arbítrio, mas, justamente por isso, podemos acabar nos voltando contra a ordem cósmica, Deus nos dá leis para seguirmos. A lei é talvez a única coisa que mantenha uma criatura livre dentro dos limites seguros de sua liberdade. Mas a liberdade, como liberdade, nos permite desobedecer. Por isso aconteceu o que aconteceu com Satanás, Eva e com Adão. Todos desobedeceram. Como a desobediência perturba a ordem cósmica, as punições são meios de restaurá-la.
  106. E é por isso que o ser humano pode desconsiderar um instinto.
  107. O ser humano é o único ser que não precisa se ordenar para o bem da própria espécie, podendo muito bem se ordenar para si mesmo e deixar o resto de sua espécie sem sua contribuição. Os outros animais não parecem se ordenar para nada que não seja útil à espécie inteira.
  108. Na verdade, há passagens bíblicas contra a crueldade com animais. Parece que tudo bem usar animais como comida, para a Bíblia, mas não para futilidades ou para entretenimento (porque a crueldade com animais normalmente se dá no entretenimento).
  109. Para Tomás, não há nenhum pecado em matar um animal irracional, seja para comer ou para o que quer que seja. A Bíblia diz quase isso. O texto que ele citou, o nono capítulo do Génesis, diz que Deus nos deu toda a carne. Isso também pode ser interpretado de outra maneira, como se Deus tivesse nos dado os animais para comer quando precisamos, mas não para futilidades. Na verdade, eu, pelo menos, nunca li, na Bíblia, de um animal sendo utilizado para nada que o ser humano poderia dispensar e continuar vivendo.
  110. Se estamos acima da natureza na hierarquia cósmica, então não devemos adoração a nenhuma planta, animal ou corpo celeste.
  111. A hierarquia entre os seres contribui para a perfeição do universo. Novamente, Tomás viveu bem antes da crise ecológica.
  112. Para Tomás, toda a criação está aí por causa do ser humano. A natureza, incluindo animais e plantas, é nossa, para usarmos como quisermos. O fim delas é possibilitar que o ser humano atinja o seu próprio fim, que é o mais alto de todos.
  113. É livre aquele que causa seus próprios atos, ou seja, aquele que manda em si.
  114. Os seres racionais se ordenam para si mesmos. Os seres irracionais se ordenam para os racionais. Singer tem suas dúvidas.
  115. Curar uma doença não necessariamente restabelece a saúde.
  116. Para evitar o pecado, podemos ordenar nossos bens particulares para o bem supremo, ou seja, devemos sempre ter em mente o que Deus quer de nós antes que possamos nos empreender na busca de algum desejo pessoal. Se sempre nos ordenamos aos bens próprios sem ter o bem supremo em mente, estamos no permitindo pecar, porque poderíamos recorrer a atos que quebram a lei divina. Se verificamos que nosso desejo pessoal não é contrário à lei divina, podemos nos empreender em buscá-lo.
  117. Não necessariamente aquele que está sob ordens do rei e do chefe militar (o qual também é submisso ao rei) irá desobedecer o rei só porque o chefe militar ordenou uma rebelião contra o rei.
  118. A soberba do diabo foi o que lhe fez decair em primeiro lugar. Do seu orgulho veio o ódio contra Deus e a inveja do gênero humano, o qual ele conseguiu corromper.
  119. O fim que devemos buscar é a bondade e a perfeição. Mas, ao buscar nossos interesses mais baixos, nos ordenamos para obtê-los. Mas se ordenar para algo que não é nem bom, nem perfeito, abre espaço para o pecado. Se os interesses são apenas particulares, nos vem a opção de usar nossa própria moral para regular nossos próprios processos de obter nossos próprios interesses. Nesse ponto, a criatura fica com toda a liberdade de ação, podendo, claro, recorrer à falta de escrúpulo. Mas se o indivíduo sabe o que é melhor para si e de fato se ordena para seu aperfeiçoamento, sua ação gradualmente se santifica, porque a obediência a Deus também aperfeiçoa, além de que ele se torna um exemplo para os outros. Ele acaba se aproximando de Deus e o buscará por conta própria.
  120. Outra possibilidade é colocar algo que sabemos que é o melhor para nós em segundo plano, para colocar em primeiro lugar algo que sabemos que não é o melhor senão em certo sentido. “Eu sei que eu não deveria me embebedar, que isso me trará consequências horríveis, mas, no ponto, tudo o que quero é esquecer o que aconteceu…”.
  121. O pecado pode existir numa substância espiritual se ela comete o deslize de considerar sua perfeição como algo secundário, o que só pode acontecer por acidente. Ou seja, quando ela não sabe “o que é bom para si”. Isso significa que o pecado dos demônios ocorre porque os demônios, buscando aquilo que acham ser bom, acabam encontrando aquilo que lhes faz mal, que os perverte ainda mais. Donde decorre que Deus não pode pecar porque, sendo sumamente sábio, sempre sabe o que é melhor.
  122. Mas Tomás diz que isso está errado.
  123. Platão acreditava que a alma sensitiva também é incorruptível, o que significa que também é eterna. Talvez por causa da presença da sensibilidade, substâncias espirituais podem pecar. Isso parece estar na República, quando Platão diz por meio de Sócrates que a alma tríplice só poderia ser imortal sendo composta se o arranjo que une as partes for perfeito. Se o arranjo é perfeito, então a biologia, a sensibilidade e o intelecto não se separam absolutamente. Morto o corpo, até a concupiscência nos acompanha, embora latente, pois só pode se manifestar quando há corpo.
  124. A Bíblia diz que demônios pecam. Resta saber como, filosoficamente.
  125. Se os demônios são espirituais, como é que os demônios pecam, se podem apetecer coisas intelectuais, nas quais não há pecado (uma vez que pecado é excesso ou carência de um ato que poderia ser virtuoso, se devidamente dosado)?
  126. Aparições de deuses pagãos, visão de almas de defuntos e várias outras coisas sobrenaturais são operação diabólica.
  127. Nenhuma criatura é completamente má. Essas entidades são más, sim, por identificarem o bem em coisas ruins e, por isso, levarem os magos a essas coisas ruins, por usarem artifícios ruins, mas fazem tudo isso visando um bem, mesmo que para elas mesmas, ao passo que existem e existir é um bem. Tomás diz que essas entidades não têm reto juízo.
  128. Essas entidades existem e existência é um bem. Não é possível ser 100% mau, porque isso implica não existir.
  129. Tal como os seres humanos, essas entidades não são más por essência. Afinal, tanto os seres humanos quanto essas entidades visam seu próprio bem. Essas entidades fazem o mal ou o bem por obterem algo em troca com isso, como um sacrifício ou servidão. Isso não quer dizer que elas são boas, contudo, já que, se fossem, jamais se prestariam a fazer algo que se afigura mau.
  130. Com certeza, os magos não estão invocando deus algum.
  131. A magia pode ser usada para enganar e para iludir. Mas entidades espirituais boas não deveriam levar ao engano, já que a verdade é o maior bem do intelecto. Mentem aqueles que são ruins.
  132. Mesmo quando visa fins bons, a magia pode requerer meios ruins, como os sacrifícios. Vez por outra se lê de pessoas que ofereceram sacrifícios humanos em rituais diabólicos.
  133. Essas entidades às vezes operam através de ladrões e outros tipos de criminosos. Por exemplo, o mago pode ordenar a morte de alguém em determinado dia. Daí, o alvo é assassinado no dia estipulado por um assassino. Uma entidade boa não actuaria com pessoas de má índole em sua operação.
  134. Está claro que a magia é obra de uma entidade espiritual, que é contactada pelo mago, mas essas entidades não devem ser boas, pois a magia pode ser usada para coisas contrárias à virtude. Se essas fossem entidades boas, nunca praticariam coisas contrárias à virtude, especialmente com tanta facilidade, pois basta que o conjurador ordene que seja dessa forma.
  135. Uma figura, por si só, não é capaz de operar qualquer coisa.
  136. A magia não é obra do próprio mago. Ele usa palavras mágicas e símbolos mágicos, mas esses são meios de comunicação, essencialmente, razão pela qual as palavras mágicas são também chamadas “invocações”, “súplicas” ou “ordens”, todos enunciados que sugerem um ouvinte. O uso de palavras visa a audição de alguém: se fala para que outro escute. Da mesma forma, os símbolos desenhados são feitos não por terem poder em si mesmos, mas para que outro os veja e interprete, tal como o condutor que, ao ver uma placa, entende que a próxima curva é contra-mão. Mas as palavras e os símbolos só podem ser entendidos e interpretados por seres intelectuais. Donde decorre que o mago pede a outra entidade que determinado efeito se manifeste.
  137. Donde decorre que os magos também não estão só imaginando essas coisas.
  138. Se a magia fosse enganação, os magos não poderiam, pela magia, obter acesso a informações que não conhecem. Vêem o futuro, às vezes com impressionante exatidão, obtém respostas científicas, localizam objetos… Muitas coisas não podem ser pura coincidência. Mas, novamente, essas são informações que não raro só são obtidas pelo intelecto. Se não é pelo intelecto do conjurador, é pelo intelecto de alguma outra criatura.
  139. Se a magia fosse operação humana através do entendimento dos corpos celestes, não seria possível, pela magia, obter informações que só são obtidas pelo intelecto. Por exemplo, quem roubou determinado objeto. Seria necessário que alguém tivesse visto e pudesse verbalizar quem roubou. O mago está contactando um ente espiritual para saber dessas coisas, não um corpo celeste…
  140. Deus pode operar efeitos sem instrumentos, sem causas intermediárias. Se o que ele quer é que alguém morra, ele pode morrer subitamente, sem razão aparente, nem exterior, nem interior.
  141. É possível inspirar o medo pela nossa própria maldade, mesmo quando não praticamos atos maus.
  142. Avicena afirmava que um pensamento forte poderia não apenas controlar o estado físico do próprio corpo como também o dos corpos alheios. A ciência diz hoje que isso é, realmente, uma possibilidade, pela auto-hipnose no caso do próprio corpo. Mas como algumas pessoas afetam o corpo dos outros sem recorrer à hipnose é um mistério.
  143. Emoções e sentimentos alteram o estado físico. Ter medo ao andar sobre um muro nos faz cambalear e cair. Mas não dá pra ter medo se o muro for baixo, o que torna a tarefa mais fácil mesmo quando o muro alto e o baixo têm a mesma espessura horizontal.
  144. Se algo é feito por alguma criatura, parece seguro assumir que não foi algo milagroso, mas que há uma explicação científica para tal.
  145. Um milagre, na acepção plena da palavra, só pode ser operado por Deus, porque Deus está acima da ordem cósmica. Se estamos dentro da ordem cósmica, não podemos operar feitos sobrenaturais.
  146. “Milagre” é “aquilo que por si causa admiração a todos”. É aquilo para o qual não se pode achar qualquer explicação, nem filosófica, nem científica. Exemplo: dois corpos ocupando o mesmo lugar é tão milagroso que é difícil imaginar tal coisa.
  147. Deus pode violar a ordem cósmica quando quiser, já que foi ele que inventou isso.
  148. Uma causa natural falha por erros, por indisposição material ou por ação de causa superior.
  149. Donde decorre que fenômenos naturais podem ser previstos com alto grau de acerto! Parece que isso não é uma afirmação tão moderna quanto eu pensei que fosse, já que Tomás disse isso na Idade Média, embora implicitamente.
  150. Agentes acidentais (que agem sem vontade) produzem efeitos proporcionais à potência trabalhada ou de magnitude um pouco menor. Mas o agente voluntário (que age segundo sua vontade) produz efeito com qualquer intensidade que queira, desde que não exceda o permitido pela potência. Exemplo, quando placas tectônicas se chocam, o terremoto é sempre proporcional à intensidade do choque, condicionado por fatores como velocidade e massa da placa. Esses elementos são usados em todo seu potencial. Mas se o ser humano tivesse o poder de causar terremotos pelo choque das placas tectônicas, poderia escolher com qual velocidade e intensidade se chocariam, além de quais placas, se isso estivesse dentro de sua vontade. Em outras palavras, quando algo não depende da vontade, está fadado a acontecer de determinado jeito sempre (ou na maioria das vezes), pois o que não depende da vontade normalmente é natural, e sempre atualizando toda a potência que puder. Logo, a intensidade de um fenômeno pode ser medido pela potência que ele pode atualizar, como podemos determinar a intensidade de um tornado pela temperatura dos ventos litorâneos. Mas quando a vontade é envolvida, pode-se escolher quanta potência se atualizará, logo, com quanta intensidade produziremos determinado efeito. Como o pedreiro que pode usar todo o material à disposição para fazer uma casa grande ou deixar parte do material para outra construção e, por isso, fazer uma casa mais modesta.
  151. Deus pode operar um efeito sem causa próxima, contudo, o que não invalida totalmente a ordem cósmica. Esses raros acontecimentos são os milagres.
  152. Não é errado dizer que algo na criação é de tal forma porque Deus quis, mas é inconveniente suprimir as causas intermediárias, especialmente se o que se quer é fazer ciência. Além de que é errado eliminar a causalidade entre os intermediários, como querem os sarracenos que dizem que tanto faz o fogo aquecer ou esfriar, porque não há nexo necessário entre o calor e o aquecimento.
  153. É incrível como Tomás encontra um significa oculto nas coisas que parecem mais óbvias. Será que ele não pensa, em algum ponto: “Cara, estou forçando a barra pra manter o raciocínio junto”?
  154. Tal como a causalidade natural não nega os planos divinos, a oração também não os nega.
  155. Deus não atende orações que venham a interferir na salvação do fiel.
  156. Também não é ouvida a oração pelo impiedoso. Se uma pessoa fiel ora por um infiel, talvez não seja ouvida, porque o infiel pode andar em caminhos reprováveis. A menos, claro, que se ore pela sua conversão.
  157. Outra razão é que a pessoa não é piedosa o bastante. Deus não precisa ouvir a oração dos infiéis ou dos hipócritas.
  158. Outra razão é não ter pedido o bastante. Orações que pedem a mesma coisa, apesar de o fazerem com diferentes palavras, são atendidas mais facilmente.
  159. Outra razão para que as orações não sejam atendidas é que o pedido, embora se afigure bom, é na verdade mau.
  160. Deus não muda, segundo Tomás e também segundo a Bíblia, isto é, seus desígnios não mudam. Ele pode atender orações, mas não irá mudar seus desígnios através da oração. Se ele disse que o Apocalipse se efetivará, não há oração, por mais piedosa que seja, que impeça isso. Mas orações que pedem coisas que não afetam os planos divinos podem ser atendidas.
  161. Deus pode estipular e providenciar que algo seja contingente, e não necessário, de forma que ele quer que aquilo tenha chance de não acontecer. É como o eletricista que programa um painel com luzes que devem piscar aleatoriamente.
  162. As causas particulares, embora visem seu fim, são frustradas por causas universais. Isso acontece para que haja equilíbrio no universo.
  163. Para Tomás, os cristãos não podem ter termos metafísicos comuns com os infiéis. Então, o cristão não pode usar um termo como, por exemplo, “fatalidade”.
  164. Os corpos celestes podem influir em nosso corpo e os anjos podem nos aconselhar, mas não necessariamente seguimos o conselho ou sentimos a influência da lua sobre o sono. Diferente da providência, que é irresistível.
  165. Embora Deus não interfira, segundo Tomás, em nosso livre-arbítrio, ele pode influir nos objetos da escolha, ou seja, naquilo que podemos ou não escolher. Eu tenho alguns problemas com isso, porque Deus endureceu o coração do faraó no Êxodo, de forma que ele não libertou os hebreus antes de sofrer a décima praga. A única razão para ele não deixar os hebreus saírem do território egípcio diante de todos aqueles destrutivos acontecimentos sobrenaturais de escala nacional seria se sua vontade estivesse coibida por algo maior que ele. Então Deus, se desejar, pode afetar o livre-arbítrio, não apenas os objetos ao qual o arbítrio se dirige. Além disso, segundo as testemunhas de Jeová, o mundo é atualmente controlado por Satanás. Então, Deus não poderia agir, a menos que requisitado pela oração, nem mesmo nos objetos ao qual se dirige o arbítrio.
  166. Para Aristóteles, Deus cuida dos que amam a sabedoria como se fossem amigos dele.
  167. Como a matéria tem origem imaterial, a providência não poderia afetar a matéria se não afetasse o espiritual.
  168. É possível tentar persuadir outra pessoa a agir de determinado modo, mas persuasão não é manipulação. Porque a pessoa persuadida não é forçada, mas aceita algo como correto. E é natural que o intelecto busque o correto.
  169. A única coisa que poderia submeter totalmente nossa vontade é a providência divina.
  170. Uma causa é privada de seu efeito por uma causa oposta mais forte.
  171. Um efeito não necessariamente segue determinada causa. Causas concorrentes podem anular os efeitos uma da outra. Riscar um fósforo não necessariamente garante que você vai acender o fogão, porque pode ser que venha o vento e o apague. Apertar um interruptor não necessariamente acende a luz, se tiver faltado energia. Isso não significa que tudo é governado pelo acaso, mas que o acaso existe e pode ocorrer.
  172. Se várias coisas são passíveis de falhar, podem muito bem falhar todas ao mesmo tempo.
  173. Se os corpos celestes fossem causa de nossas eleições, nunca faríamos o mal.
  174. Isto é, somem ética, moral, prêmio, punição, leis, códigos, liberdade e, em última instância, política e socialização, que são naturais ao ser humano. Então, se fosse assim, a natureza estaria trabalhando de maneira anti-natural.
  175. Em adição, se os corpos celestes controlassem nossa vontade, a faculdade de julgar teria sido inutilmente dada a nós, sendo a natureza nada faz sem razão. Isso, ou o livre-arbítrio é ilusório, o que causa os inconvenientes mostrados acima.
  176. Os corpos celestes influenciam algumas paixões, segundo Tomás, mas nem mesmo as paixões controlam nossa vontade de maneira absoluta.
  177. Os corpos celestes são naturais e a natureza erra poucas vezes ou mesmo nunca. Se nossa vontade fosse condicionada pelos corpos celestes, não faz sentido que façamos escolhas ruins com tanta frequência.
  178. Além disso, de nenhuma forma os corpos celestes afetam nossa vontade e nossas escolhas.
  179. Os corpos celestes não afetam nosso entendimento de forma direta, embora possam afetar nosso corpo que, por sua vez, afeta o entendimento. Hoje se sabe, por exemplo, que a lua, quando cheia, afeta o sono de algumas pessoas, tal como o calor do sol afeta o humor. Mas havia outras crenças no tempo de Tomás que hoje recebem pouco ou nenhum crédito, como a astrologia.
  180. O intelecto não é temporal nem espacial, porque não está retido ao aqui e ao agora. Ele pode ir além disso.
  181. Deus governa as coisas inferiores mediante as superiores.
  182. O governo dos intelectuais acaba se impondo, porque as pessoas tendem a segui-los quando se provam sábios, enquanto que o governo do estúpido tende à implosão.
  183. Quando alguém que não é sábio o bastante chega ao poder, acontecerão desordens. Os governantes devem sempre ser os mais sábios entre o povo, além, é claro, de quererem o bem público. Afinal, mesmo que você seja um sábio governante, o povo sempre pode se voltar contra você se as aspirações populares não forem atendidas.
  184. Todas as coisas organizadas têm hierarquia.
  185. Algumas ações da alma humana não são possíveis sem um corpo, por isso ela encarna.
  186. Deus põe uma hierarquia de controle no mundo, onde os seres mais racionais governam sobre os menos racionais. Isso sanciona, no contexto medieval, o controle marital, no qual o marido manda na mulher, na criança, nos animais e de todo aquele que, na família, tem menos razão que ele. Porém, o homem deve obediência ao anjo, que deve obediência a Deus.
  187. Se compete a Deus a ordem do mundo, lhe compete também a ordem da causalidade. Afetaria a causalidade se ele agisse imediatamente, em vez de ordenar as causas que lhe são próximas para tal e tal efeito. Por isso ele perturbou o Egito com pragas, em vez de aparecer diretamente, libertar os hebreus e afundar a civilização egípcia na areia. Isso implica que as ações divinas podem ser explicadas cientificamente em sua maior parte, porque a ciência põe na causalidade sua esperança de conhecimento.
  188. Deus não precisa agir diretamente, porque as causas inferiores estão sob seu controle. Ele age indiretamente pela manipulação da causalidade.
  189. Convém ao comandante determinar o alcance de cada ordem.
  190. O governante maior deve dar normas de governo aos governantes menores. Mas essas devem ser regras orientadas aos casos particulares, não princípios gerais. Porque, se o capitão dá apenas princípios gerais ao tenente, o tenente terá que interpretar os princípios para aplicar ordens aos soldados, o que pode levar os soldados a agir de forma diferente do esperado pelo capitão. Da mesma forma, se um tenente incumbir um soldado de liderar sobre um grupo de outros soldados, ele não repassará as regras do capitão para ele, coitado, mas apenas o que convém aos casos particulares que o soldado possa vir a encontrar. Então, quanto maior a hierarquia, mais gerais são os princípios; quanto menor ela for, mais particulares são as ordens.
  191. A providência divina pode, sim, afetar seres particulares.
  192. Um princípio universal não subsiste em si mesmo, mas somente enquanto houver particulares que dele participam. Por exemplo, não haveria a essência da pedra se não houvessem pedras particulares.
  193. Além disso, se não houvesse acaso, tudo sempre sairia como planejado. Lembrando que acaso não é efeito sem causa, mas efeito inesperado de causa desconhecida.
  194. Deus age quando deseja agir, isto é, a providência nem sempre acontece. Quando não depende de Deus, depende de nós ou do acaso. Portanto, a providência e o livre-arbítrio não eliminam o acaso.
  195. O ser humano obtém o que busca por pensar que lhe agrada, seja isso o bem ou o mal.
  196. Em adição, se não há vontade, não há ética e a moral seria desnecessária. Porque, se não há liberdade de escolha entre bem e mal, não há justiça alguma em castigo algum: a punição contra alguém que não é responsável pelos seus atos nunca é justa. Portanto, se não houvesse livre-arbítrio, Deus não poderia condenar ninguém. Também não haveria prêmio algum na virtude, nem sequer existiria a virtude, que depende do livre-arbítrio.
  197. O livre-arbítrio é um bem. Deus não nega o bem a uma criatura que deveria assemelhar-se a ele. Se o ser humano foi feito parecido com Deus, não é estranho que ele seja capaz de julgar.
  198. Como Deus não impõe necessidade a suas criaturas, ao menos não necessariamente, isto é, ele permite que exista contingência, além do fato de que ele não impõe destino às mínimas coisas, é natural que haja livre-arbítrio.
  199. A existência do mal parece atestar a favor da existência de Deus, porque o mal depende do bem para existir.
  200. A presença do mal assegura alguns bens. Por exemplo, não haveria geração se não houvesse corrupção.
  201. A providência não elimina o mal, porque as causas segundas, não sendo perfeitas, ainda produzem erros de operação.
  202. Se algo pode ser feito por um só agente, é supérfluo que tentemos produzir o mesmo efeito com muitos agentes.
  203. Deus de fato estipulou que efeitos deveriam ser causados por quais agentes, contudo.
  204. Em adição, se uma coisa não necessariamente produzisse outra, mas somente Deus produzisse todos os efeitos o tempo todo, a ciência não seria possível, porque não haveria relação de causa e efeito nas coisas. Tudo seria simples como dizer “Deus quis assim”, como se as coisas acontecessem por seu capricho, quando, na verdade, ele é um ser cujas as ações são motivadas pela suma sabedoria, da qual nós podemos nos aproximar pelo estudo da causalidade.
  205. Se tudo fosse operação divina, ou seja, se Deus interviesse em nossas vidas de forma constante, causando tudo o tempo todo, a sua criação de causas inferiores seria totalmente inútil. Ora, mas Deus nada fez por acaso. Então, se algo aquece perto do fogo, é por causa do fogo, de outra forma, se Deus fosse o responsável imediato pelo aquecimento, por que ele teria feito o fogo?
  206. Deus está em tudo como causa agente implícita. Tal como a casa tem como causa agente implícita o pedreiro que a fez.
  207. Ele poderia até estar em um ponto específico, mas seu movimento está em todo lugar. Novamente, sendo ele católico, talvez queira dizer que o Pai está em um lugar específico (o Céu do Céu) e que move as coisas pelo Espírito.
  208. Deus está em tudo e em todos. Como ele é católico, deve estar se referindo ao Espírito Santo.
  209. O ser é o mais perfeito dos efeitos. Basta que algo exista para ser. Além do mais, para que algo aja, é necessário antes ser.
  210. O fim é desejado primeiro, depois as técnicas são mobilizadas. A medicina, desejando a saúde, mobiliza as técnicas que lhe são subordinadas, como a fisioterapia, a psiquiatria, a quimioterapia, entre outras.
  211. O universo não se estraga porque Deus está o mantendo.
  212. Nada opera senão pelo movimento.
  213. Governar é dar ordem, não no sentido de mandar, mas no sentido de organizar.
  214. As ciências que tratam dos fins (como a medicina, que visa a saúde) subordinam as ciências que tratam dos meios (como a fisioterapia, que é uma “técnica” da medicina, a seu serviço como artifício para chegar à saúde).
  215. A plenitude é necessária a felicidade, isto é, não ter do que reclamar. Porque não dá pra ser feliz tendo contas pra pagar, roupa pra lavar, desejos insatisfeitos, inveja…
  216. Ao obter a máxima felicidade, cessam todos os desejos humanos. Ele está plenamente saciado.
  217. Qualquer ação que dependa do corpo não pode permanecer para sempre, porque o corpo se cansa e a ação precisa ser interrompida.
  218. Tudo aquilo que nos incita amor nos incita também tristeza, pois automaticamente pensamos na possibilidade de perder o objeto amado. A felicidade perfeita, se for perfeita, não pode jamais cessar. Logo, numa situação de felicidade perfeita, não é possível perdê-la, esse risco não existe.
  219. Conhecer Deus permite participação na vida eterna.
  220. O ser humano não pode entender a razão pela qual Deus criou certas coisas.
  221. Mas isso implica que haverá alguns que serão mais felizes que outros, porque os mais recompensados serão os que verão Deus mais claramente.
  222. Se você não é santo, isso não significa, necessariamente, que você irá pro Inferno. Deus também olha os bons atos e os recompensa. Acontece que aqueles que melhor seguiram as ordens terão uma recompensa maior na vida seguinte. Aqueles que não cumprem as ordens como devido, mas ainda praticam o amor (que permite o perdão dos pecados) talvez não sejam perdidos, embora, certamente, terão uma recompensa menor.
  223. Nenhum desejo é vão. Se o desejo é natural, é possível de ser realizado.
  224. Conhecer algo em si mesmo e conhecer a causa desse algo são coisas diferentes. Em geral, um é mais fácil que o outro.
  225. Embora possamos ver a divindade justamente por ela não ser infinita materialmente, ela ainda é infinita conceitualmente e potencialmente. Como só podemos compreender aquilo cujo conceito cabe em nosso intelecto, não é possível, mesmo vendo a divindade, compreender Deus. Isso requereria entender tudo o que Deus é capaz de fazer, ou seja, compreender suas potencialidades, que são infinitas. Não é possível conhecer as coisas dessa forma.
  226. Deus é infinito de forma negativa, ou seja, não é como se ele preenchesse tudo o tempo todo, como um hipotético infinito material. O infinito negativo é a não-limitação por matéria. Quer dizer que pode limitar Deus, não que ele preenche tudo o tempo todo. Imagino que isso signifique que ele pode se expandir tanto quanto queira e contrair-se da mesma forma.
  227. Gostamos de fazer relações entre a intelecção e a visão.
  228. Só pode ver Deus em sua essência aquele que pelo próprio Deus foi permitido a isso.
  229. As promessas de ver Deus face a face também são figuradas e querem dizer que o veremos diretamente, mas não com faces corporais (inclusive porque Deus é incorpóreo).
  230. A verdade segue o ser.
  231. Se a felicidade está em algo tão elevado, Deus, todos aqueles que buscam a felicidade em coisas pequenas devem se envergonhar.
  232. Itinerário da especulação: primeiro, saber se existe; depois dizer o que é; depois dizer por que existe.
  233. Tomás retoma Dionísio: é mais fácil dizer o que Deus não é.
  234. Embora a criação nos dê pistas de como Deus possa ser, ela não nos diz de maneira clara.
  235. Quando um filósofo conclui que não é possível ser feliz de forma absoluta, mas apenas relativa, ele é objeto de misericórdia, uma vez que essa é uma conclusão angustiante que provoca uma dor injusta a uma pessoa de grande intelecto. Tomás sente, por isso, compaixão por Aristóteles.
  236. O que o sucessor descobre é adicionado ao que descobriu o antecessor. Cada um dá sua contribuição à verdade pela reflexão lógica e pela discussão crítica.
  237. Em adição, nada na natureza foi feito em vão. Se nós desejamos ser felizes, é porque tal coisa é possível. Mas, se verificamos que isso não é possível nesta vida, então podemos inferir que é possível na próxima. Se o desejo de ser feliz não fosse natural, não deveria ocorrer em todos.
  238. Só podemos dizer que somos felizes em certo sentido, quando nos aproximamos da felicidade dentro do limite permitido para um ser humano. É uma felicidade relativa, mas não absoluta.
  239. Todas as coisas que nos deixam felizes trazem possibilidade de dor, pois sentimos dor ao perdermos aquilo que amamos. Não parece certo que possamos dizer que somos felizes por possuirmos algo que pode acabar voltando-se contra nós, uma vez que sentiremos dor proporcional ao prazer causado pelo objeto ao qual somos apegados ao mesmo tempo que ficamos grudados a ele quanto mais prazer nos causa, invariavelmente.
  240. A morte é inerente a esta vida. Se ser feliz é não ter do que reclamar, então não é possível ser feliz se somos passivos de morrer, porque a morte certamente é razão pra reclamar.
  241. Não parece possível ficar isento de paixões, de engano, de excessos e ou de carência. Tal como não é possível ficar isento de sede, fome, sono. Não é possível, nesta vida, deixar de desejar, então Tomás conclui que a felicidade não é alcançável nesta vida.
  242. Na felicidade, somem os desejos. Se nos achamos felizes, mas ainda queremos alguma coisa, não estamos realmente felizes.
  243. Para Tomás, todas as histórias bíblicas em que alguém vê Deus devem ser entendidas em sentido figurado. Ele era, propriamente, um teólogo.
  244. Tomás leu que as pessoas não podem ver Deus e continuar vivendo, o que está no livro do Êxodo. Isso, segundo ele, porque, quanto mais o ser humano se eleva às coisas espirituais, mais ele se desliga do corpo. Elevar-se ao que há de mais elevado requer um desligamento completo do corpo, o que implica êxtase ou morte.
  245. Como precisamos de um conhecimento seguro sobre Deus para sermos felizes, Tomás conclui que nossa felicidade não está nesta vida e que, pra sermos felizes, precisamos morrer primeiro.
  246. Existem coisas que nós jamais saberemos, ao menos nesta vida.
  247. Existem dois tipos de virtude: moral e intelectiva.
  248. Inútil: o que se presta a um fim que não pode atingir.
  249. Conhecer um inteligível não garante conhecimento da substância separada. Pior é que nem sei ainda o que, raios, é uma substância separada… Hora de saber se dicionários filosóficos prestam.
  250. Embora o intelecto agente produza inteligíveis especulativos, ele não produz substâncias separadas. Acho que a relação é parecida com aquela que diz que os conceitos que temos das coisas e com os quais trabalhamos não necessariamente correspondem às próprias coisas.
  251. Tal como é ridículo dizer que um cego de nascença conhece as cores porque pode conhecer os sons, é ridículo dizer que podemos conhecer a substância separada só porque conhecemos a substância sensível. A substância separada é objeto de especulação para seres sensíveis, tal como a cor é objeto de especulação para o cego.
  252. Para refutar um argumento metafísico, veja se ele regride infinitamente. Esta é a ciência das causas e dos princípios. Se propomos um argumento metafísico e verificamos que ele regride ao infinito, é o mesmo que verificar que ele não tem causa. Se ele não tem causa, é besteira discutir sobre ele; está errado. Exceto, claro, quando aquilo que não tem causa é eterno, porque assim, embora o eterno não tenha causa, põe-se fim ao infinito.
  253. Só se pode ter fé naquilo que está ausente. Quando cremos em Deus, admitimos que ele não está presente agora, ou seja, que não o vemos, ouvimos ou sentimos com olfato, paladar ou tato. Como a fé é um sentimento, podemos dizer que sentimos a existência de Deus em certo sentido, mas, como não é uma experiência sensorial, podemos designar essa sensação como “fé”. Como a fé nos faz querer ver aquilo em que acreditamos, ou seja, nos inquieta, a felicidade também não parece estar nela. Então, a felicidade, embora consista no conhecimento de Deus, segundo Tomás, não consiste nem na fé nem no raciocínio demonstrativo.
  254. O único jeito de um ser humano não buscar a felicidade, mesmo sem saber como, é se for impedido disso. Ele não se priva dessa busca por conta própria, é logicamente impossível.
  255. Não precisa pensar muito pra inferir a existência de Deus: as coisas estão ordenadas, a natureza não pode estar ordenada se não houver um ordenador que lhe é superior. Então, não é qualquer conhecimento de Deus que torna a pessoa feliz, porque, se o fosse, qualquer um que observa a regularidade da natureza seria feliz.
  256. Mas a felicidade é tanto maior quanto maior for a verdade que contemplamos. Então a melhor felicidade só pode vir da teologia, como ciência das coisas divinas.
  257. Todos os outros bens mencionados se ordenam para este propósito: possibilitar o pensamento e a contemplação da verdade. Saciar o corpo e livrá-lo dos desejos, pagar as contas, terminar os trabalhos, distrair a mente com jogos, agir prudentemente e moralmente, todas as coisas parecem se ordenar para que, quando encontremos um ponto de tédio, estejamos em forma para executar a busca e contemplação da verdade, que é uma atividade propriamente humana. Claro que isso é um perigo para o sistema opressor ao qual estamos submissos, então somos constantemente sobrecarregados com tarefas e distrações para não experimentar esse tão mortal tédio, o que implica privação de nossa humanidade.
  258. A felicidade humana consiste na contemplação da verdade e, para Tomás, como Deus é a verdade, a felicidade humana consiste na contemplação divina. Não conhecemos Deus por outra coisa senão a própria felicidade, não existem intermediários entre a contemplação divina e a felicidade. Contemplar Deus, para Tomás, nos torna instantaneamente felizes.
  259. A felicidade não pode consistir em um conhecimento prático, porque todo conhecimento prático, por definição, visa outra coisa.
  260. A felicidade também não está em ações morais, porque praticamos atos morais em vista de outras coisas também. Por exemplo, praticamos a justiça para trazer paz a nós e aos que de nós dependem.
  261. Quanto maior o poder que uma pessoa tem, de mais pessoas esse poder precisa pra se sustentar. Pode ser o povo, a câmara dos deputados, o exército… Isso opera para uma relativa fraqueza do poder, porque, embora ele cresça, ele passa a depender de cada vez mais coisas.
  262. É interessante a operação da metafísica. Imaginamos que existe um sumo bem. Muito legal, agora vamos pra realidade sensível procurar evidências dele. E aí se fazem longos raciocínios, eliminando possibilidades que não se encaixam no conceito postulado, até encontrar alguma coisa que nele caiba. Se não encontrarmos, aí podemos deixar o conceito de lado. É tal como a física teórica.
  263. Pior que a riqueza é o poder mundano. Ou você acha que a presidente está feliz agora? Se ela fizesse o que quisesse e se torna-se uma tirana, ela perderia o controle da população, que é bem maior que nosso próprio exército. Porém, enquanto ela respeita as leis e procura a aprovação do povo, tem uma oposição filha da égua jogando lama em seu nome e conseguindo. Não que eu seja a favor do governo da presidente, é só que também não posso dizer que sou contra o PT em geral, já que, como nordestino que lembra de como as coisas eram antes do Lula, eu acharia me posicionar contra o PT com tanta ferocidade uma coisa injusta. Claro, o PT rouba bastante, mas nenhum outro partido fez nenhum bem à minha terra. Porque os governantes são alvo de todos os tipos de ataques, injustiça e têm preocupações constantes, o poder mundano, com certeza, não traz felicidade.
  264. Se o acúmulo de dinheiro traz felicidade, porque sentimos mais prazer em gastar dinheiro?
  265. Nem a honra, a glória ou a riqueza são bens em si mesmas, pois desejamos essas coisas sempre em função de outras, para obter outras ou por causa de outras. Desejamos riqueza para comprar. E desejamos honra ou glória por termos outra qualidade que julgamos digna de louvor. Um bem em si mesmo deve ser apetecível por si e não deveria depender de outra coisa. Isso, sim, nos traria felicidade.
  266. O intelecto move a vontade. Só depois que algo é reconhecido como bem, e isso é feito pelo intelecto, é que nós o queremos e nos ordenamos para obtê-lo, caso seja possível.
  267. Se comer, dormir, ter sexo e outras operações naturais não dessem prazer, talvez não as fizéssemos. Prova disso é que muitas vezes não fazemos aquilo que sabemos ser necessário, como estudar uma matéria porre para passar numa prova ou acatar um doloroso procedimento médico, simplesmente porque não nos dá prazer fazê-lo.
  268. O amor imperfeito é aquele que ainda não obteve o objeto amado. O amor perfeito é aquele que já o tem e quer mantê-lo.
  269. Quanto melhor o conhecimento que temos, mais próximos estamos da felicidade.
  270. Quanto mais sabemos, mais queremos saber.
  271. Essa necessidade não se aquieta enquanto não encontramos algo satisfatório para chamar de “causa primeira”. Por isso o conceito de Deus reaparece sob diferentes formas em diferentes sociedades. Porque não cabe da cabeça do ser humano regressões causais infinitas. Algo precisa ter começado o movimento, precisa ter sempre existido e dado início ao resto.
  272. Tomás racionaliza a necessidade espiritual. Como a verdade é o bem do intelecto, é natural que o ser humano queira conhecer a maior das verdades, que é justamente a primeira. É doloroso para o ser propriamente humano viver num mundo transitório sem fundações eternas.
  273. Da metafísica dependem todas as áreas filosóficas, pois dali tiram seus princípios. Ela é propriamente filosofia primeira, provedora de ideias de ordem e especulações que depois serão testadas, provadas ou talvez refutadas. A metafísica é tão importante para a filosofia como a física teórica para a ciência: talvez muitos conhecimentos de ambas as áreas nunca nos sirvam diretamente, mas orientam a ação dos saberes que lhes são subordinados. Muitos conceitos metafísicos são aceitos e provados (pela verificação de seus efeitos, porque é natural que o conceito metafísico nunca seja testado em si), enquanto outros são refutados quando se percebe que não descrevem bem a realidade.
  274. A especulação filosófica é fim em si mesma: sabemos só para ficar sabendo e com isso ficamos satisfeitos. Qualquer filosofia prática visa um fim distinto de si mesma: sabemos para fazer isto ou aquilo.
  275. É como se todos os seres vivos tendessem a querer ser deuses por seu próprio mérito, aproximando-se o máximo possível da divindade, mesmo quando a negam, por quererem criar e se aproximar da perfeição.
  276. A forma é dada à matéria pelo agente. Não sei como deixei isso passar.
  277. Interessante Tomás dizer que os corpos celestes não têm aptidão para movimento contrário. Pelo pouco que sei de história e de Aristóteles, Tomás provavelmente pensava que a Terra era o centro do universo, que as rotas dos planetas eram circulares e que o sol girava em torno da Terra. Sob essas condições, como explicar o movimento retrógrado aparente de Marte, por exemplo? Se os planetas estivessem movendo-se em espirais ainda estariam, em algum ponto da espiral, voltando.
  278. Para Tomás, os corpos celestes ou têm alma ou são movidos por algo. Se os corpos não têm alma, não é alma vegetativa, porque os corpos celestes não precisam se nutrir. Nem sensitiva. Então, os corpos só podem se mover por meio de uma alma que é puramente intelectiva. Se os corpos são movidos por algo, deve ser algo incorpóreo. Claro que ele pensaria diferente se tivesse a sua disposição os Princípios da Filosofia Natural, de Newton. Supondo que ele não o queimasse de imediato, não sei.
  279. O ser humano é o único ser natural que se serve de toda a natureza para qualquer propósito que queira.
  280. A alma vegetativa está em potência para a sensitiva, que inclui a vegetativa. E a alma sensitiva está em potência para a intelectiva, que inclui as outras duas. Isso significa que, embora ela seja feita com o corpo, a alma não entra no estágio intelectivo imediatamente. Ora, mas Tomás diz que só a alma intelectiva é imortal, o que implica que… bebês não ressuscitam. Estranho. Além do polêmico.
  281. Tal como o é criar bem um filho.
  282. Ser causa de outras coisas é um impulso para a semelhança divina.
  283. Uma das coisas mais divinas que o ser humano pode fazer é colaborar com Deus.
  284. Deus é simplesmente bom. Mas o ser humano pode ser bom neste ou naquele sentido.
  285. Algo é bom não apenas quando atinge o fim, mas quando almeja um bom fim.
  286. Mesmo nós humanos procuramos nos aproximar de Deus, por exemplo, pelo cultivo de qualidades que julgamos boas, belas, justas ou úteis. Ninguém quer ter apenas defeitos, antes queremos o contrário. Mas, como somos naturalmente imperfeitos, vemos alguns defeitos como qualidades e algumas qualidades como defeitos. Isso remete ao mal como acidente.
  287. Deus criou as coisas para ele mesmo. Se ele é o primeiro agente e o último fim, só poderia ter criado as coisas para si.
  288. A causa final é a mais importante. Ninguém move se seu movimento não tiver alguma intenção e, se não deseja mover, não ordenará a matéria segundo uma forma.
  289. Para Tomás, todas as coisas se ordenam para os bens, mas, se os bens vêm de Deus, que é o máximo bem e causa de todos os bens, isso significa que as coisas, mesmo quando não sabem, buscam algo de divino.
  290. Todas as ações visam o bem, qualquer que seja o bem.
  291. Não existe sumo mal. Se mal é oposto de bem e existência é um bem, o mal máximo não existe. O mal só pode haver como corrupção do bem, então ele habita o bem como privação. Se ele fosse elevado ao grau infinito, o bem de que ele depende some e o mal some com ele.
  292. O mal pode ser causa acidental.
  293. O mal tem causa acidental.
  294. Como o mal depende do bem pra “existir”, ele não pode eliminar completamente o bem. Se o fizesse, ele próprio, que é privação, deixaria também de “ser”.
  295. Só pode haver mal em bens finitos.
  296. O ente enquanto ente se identifica com o bem (por isso Deus se chama “Eu Sou”).
  297. O bem só causa o mal por acidente, ou seja, como algo que deve ocorrer segundo a essência naquele ponto ou se a essência do ato corrompe-se, por exemplo, por ato voluntário.
  298. O que move a vontade não é qualquer bem, mas um bem determinado.
  299. Uma ação moral depende muito mais da vontade do que de qualquer outra coisa. Alguém que peca por fraqueza ou ignorância é mais digno de perdão que o que peca sem tentação e tendo plena capacidade de resistir a ela se apresentasse-se.
  300. Se alguém erra por fraqueza, não deve ser julgado da mesma forma que o que erra voluntariamente (novamente, ele errou porque achou que estava fazendo a coisa certa).
  301. O mal pode aparecer por causa do bem. Se fazemos algo visando o bem e vemos que temos que causar algum mal para alcançá-lo, o bem é causa final do mal. Se queremos construir algo e o material é tão bom que não podemos trabalhá-lo, o bem acaba se tornando causa material do mal. Se fazemos algo que é bom e lhe damos livre-arbítrio (que é um bem) e esse algo usa o livre-arbítrio para fazer o mal, o bem é causa eficiente do mal. Não me parece possível que o bem seja causa formal do mal, contudo. Lúcifer, por exemplo, tentou usurpar o poder de Deus porque achou que ele seria um melhor governante e todos sabem no que deu. Então, almejando o que ele pensou que fosse um bem, ele se deu mal.
  302. O mal só “existe” em certo sentido, ou seja, relativamente a alguma coisa. Ele não existe por conta própria.
  303. Um hábito é bom ou mal segundo a razão. A razão deve avaliar se o hábito é bom por manter ou aumentar segundo a razão ou mau por destruir ou privar contrariamente à razão.
  304. Virtude é um bom hábito. Vício é um mau hábito.
  305. Nada é mau por natureza. Afinal, até o diabo foi bom um dia.
  306. Mal é privação de algo que deveria lá estar.
  307. Um mal não é casual ou fortuito se ele pertence a natureza da ação. Por exemplo: não se pode dizer que a comida que preparamos se estragou acidentalmente porque ninguém a consumiu, porque é impossível que a comida não se estrague se ninguém a consumir.
  308. Privação é a remoção de algo que deveria estar presente. Não dizemos que o ser humano é privado de asas, porque ele nunca teve asas em primeiro lugar. Mas podemos dizer que ele é privado de mãos, porque deveria tê-las.
  309. A malícia é voluntária. Porque o malicioso vê seus atos ruins como um bem para ele. É possível querer um bem e procurar alcançá-lo com meios maus, embora isso não seja certo fazer.
  310. Pode ser que algo ruim aconteça também por ignorância. Nesse caso, também não é nossa intenção.
  311. Se algo de ruim acontece em nossos planos, óbvio que foi sem intenção nossa. Houve interferência ou algo está defeituoso em algum lugar.
  312. As coisas que ocorrem na natureza ocorrem frequentemente da mesma forma. Não é possível que aconteçam por acaso.
  313. Todas as coisas fogem do mal. Então, se o mal atrai, é por parecer bom.
  314. Todas as ações visam o bem, mesmo que seja o bem pessoal, na medida em que consideram determinada coisa como um bem.
  315. Não é pleonasmo falar “meta final” ou “resultado final”, porque cada etapa intermediária é um resultado de uma ação e uma meta. De fato, há uma meta final (a linha de chegada) que é alcançada depois de alcançadas as metas intermediárias (o fim de cada parte do percurso). Então, se pode falar em “meta intermediária” e “resultado preliminar”.
  316. Não é possível concluir algo que demande um número infinito de ações.
  317. Não é possível desejar o impossível se o reconhecemos como tal.
  318. Para Tomás, Deus governa o mundo. Então, se a Bíblia diz que o mundo descansa sob o poder do mal, é porque Deus está deixando o Diabo governar. Se ele quisesse, o tiraria do governo, mas não convém fazê-lo agora.
  319. Alguma coisa se gera da corrupção de outra.
  320. É dado ao ser humano a liberdade de desobediência.
  321. Nada do que existe recebeu o ser de outro ser que não Deus, mesmo que em última instância. Em adição, Deus, sendo perfeito, deve governar perfeitamente.
  322. O alvo da vontade é o bem e o fim. Se não houver imprevistos na nossa ação e se somos capazes de realizá-la, ela necessária sai como devia. Se algo não sai como planejado, não é de nossa vontade e, por isso, não é totalmente nossa culpa, salvo quando erramos por ignorância.
  323. Embora a Bíblia diga que o Diabo governa o mundo, o mundo ainda é propriedade de Deus, que o fez sem ajuda.
  324. Existem cinco aspectos da felicidade humana: prazer, riqueza, poder, dignidade e fama. Deus tem todas essas coisas e em grau máximo.
  325. E sua vida é eterna.
  326. Desnecessário dizer: Deus vive.
  327. Deus não odeia em sentido absoluto. Se ele “odeia” alguma coisa, é porque aquilo está no caminho de um bem maior. Se não estivesse, não seria odiado. Então, é um ódio que, regredindo à primeira causa, tem como base um amor maior.
  328. Existem judeus que sustentam que Deus pecou ou que peca e se purifica.
  329. Deus não pode querer o mal. O mal nunca é desejado como mal, a não ser que se afigure como bem. Como Deus nunca se engana, nunca quererá o mal.
  330. Não parece blasfemo dizer que Deus não tem algumas virtudes, como as servis, por exemplo. Será que Deus tem a virtude da obediência, ele que não precisa se curvar a ninguém?
  331. Deus é artista, tanto no sentido técnico como estético.
  332. Tomás inclusive aponta que a Bíblia não se refere a Deus como corajoso ou temperante, já que essas são virtudes típicas de um ser humano, que precisa lidar com tentações e medos.
  333. Algumas virtudes são excluídas por Tomás do conceito de Deus, como, por exemplo, a temperança. Isso porque a temperança subentende tentação. Deus não é sujeito a tentação nenhuma e não precisa domar nenhuma concupiscência. Isso significa, por extensão, que Tomás elimina de Deus também a coragem, que é o domínio dos medos. Como Deus poderia ter coragem se nenhum medo poderia lhe dominar?
  334. Tomás acusa alguns judeus de não saber discernir metafórico do literal, atribuindo a Deus paixões humanas. Essa é uma acusação contra mim também, então.
  335. O amor inicia movimentos (causa eficiente), que terminam no prazer (causa final).
  336. A saída de Tomás ao problema que expus: “arrependimento” divino não é literal. É uma palavra usada em sentido metafórico, talvez para facilitar o entendimento dos leitores da época em que o Génesis foi escrito. Tomás, inclusive, aponta que, se fosse entendido de forma literal, o Primeiro Livro dos Reis, que diz que Deus não sente arrependimento, contradizia o Génesis. Eu tenho minhas dúvidas. A conexão que eu faço entre os dois é que o arrependimento falado em Reis é o que tolhe a ação, já que é usado o verbo “dobrar”, que é entendido como “subjugar”. O arrependimento em Génesis não tolheu a ação divina, pois que Deus continuou agindo. Mas aí é outra história.
  337. Para Tomás, Deus sente amor e sente prazer, mas não como emoções, como muitos de nós sentimos.
  338. Para Tomás, o amor é o princípio de todas as afeições, tanto negativas quanto positivas. Tememos quando algo atenta contra o bem amado, por exemplo. Não teríamos medo de nada se não pudéssemos amar, o que inclui o amor próprio. Sentimos prazer ao estarmos junto de algo que amamos, seja uma pessoa, livro ou lugar. Freud, contudo, dirá que as afeições surgem também do ódio. Então, em Freud, os princípios afetivos são amor (Eros) e ódio.
  339. Se Deus move todas as coisas para a união, trabalhar para a desunião é trabalhar contra Deus, especificamente.
  340. O amor que alia consigo a paixão é mais frágil, embora mais intenso: é mais fácil romper com a namorada do que com um amigo.
  341. Aquele que ama quer o bem do amado. Ou seja, ele precisa reconhecer aquilo como bem e deve se comprazer em perceber que é o amado que tira proveito do tal bem. O amor é um sentimento cabível a Deus. Aliás, Deus é amor.
  342. Ira é desejar o mal como parte de uma vingança. Então, o pecado capital da ira não inclui, por exemplo, a raiva com boa causa. Isso explica por que a Igreja Católica mandou tantos pra fogueira pela inquisição sem se sentir culpada de ira: julgavam estar fazendo uma coisa boa.
  343. Como Deus faz as coisas segundo sua reta razão perfeita, nunca se arrepende… certo? Não segundo o relato do dilúvio escrito em Génesis, no qual Deus arrependeu-se de ter criado o ser humano e resolveu eliminá-lo da face da Terra. Porém, ele resolveu poupar Noé. Depois disse que não mais pensaria em eliminar o gênero humano. Então, houve mudança de vontade afinal. Mas vale lembrar que a Suma não é um curso de cristianismo, nem mesmo um catecismo, mas um livro para refutar os ateus ou os argumentos de outras crenças contra o cristianismo, usando exclusivamente a razão, então conclusões anti-bíblicas são desculpáveis. Observe, contudo, que um ateu que lê a Bíblia poderia levantar esta objeção acerca da imutabilidade da vontade divina. Como Tomás não pode colocar a razão acima da fé, me pergunto como ele sairia dessa…
  344. O livre-arbítrio subentende juízo da razão. A pessoa não pode estar tolhida pelo impulso ou pelo instinto para que o livre-arbítrio se efetive.
  345. Como Deus não está submisso à necessidade, todos os seus atos são espontâneos. Ele sempre age por escolha.
  346. Livre-arbítrio: vontade espontânea, não necessária. Se fazemos algo porque “não vemos escolha”, não há livre-arbítrio. Isso me lembra de uma conversa que eu tive com as testemunhas de Jeová, na qual eu questionei por que Deus colocou a árvore do conhecimento do bem e do mal ao alcance de Adão e Eva. Não tinham resposta satisfatória, mas eu propus que “se Deus quer que sua criatura tenha livre-arbítrio, precisa dar a ela possibilidade de desobediência”, porque, de outra forma, não seria livre-arbítrio e, logo, Deus estaria negando ao ser humano aquilo que ele sabe ser um bem.
  347. Deus tem suas razões para fazer isto ou aquilo. Não é simplesmente porque “ele quis”, como se fosse uma vontade que lhe sobreveio aleatoriamente. Seus atos são ordenados para o bem do universo.
  348. A marca do movimento é a diferença. Se algo era de um jeito e ficou de outro, moveu-se. Vale lembrar que movimento, em filosofia, é devir, não apenas o movimento de estar para não estar mais.
  349. Se algo é feito voluntariamente, subtende-se que não é algo feito por violência, mas também não é algo feito por necessidade (entendida em sentido filosófico, como algo irresistível e natural).
  350. Será que é possível querer o que não existe? Claro: um meio de voar era apetecível antes de se inventar o avião.
  351. Nada mais justo para um criador que ama a si mesmo que amar também suas criaturas.
  352. Se nossas ações visam um fim último que nos é exterior (felicidade), Deus, se quer alguma coisa, só pode ser a si mesmo. Porque, de outra forma, ele iria querer algo fora dele e, se ele quer algo, esse objeto o move em sua direção por atração (sendo uma causa final). Só que Deus só move, sem se mover. Não é atraído por algo externo.
  353. Deus é seu próprio fim. O fim de toda criação é ele mesmo. Para Tomás, tudo o que Deus fez, em última instância, fez para si mesmo.
  354. É completamente livre aquilo que é causa de si mesmo, segundo Aristóteles. Deus seria, então, a única entidade completamente livre.
  355. Se algo tivesse estrutura para se mover por si, ainda não se moveria se não tivesse vontade.
  356. Se é inteligente, tem vontade.
  357. O conhecimento do que é mau nem sempre é repreensível. Conhecer o mal como mal é louvável.
  358. Se Deus não conhecesse o mal, não teria provido os animais de defesa uns contra os outros, a fim de manter a ordem do universo.
  359. Não basta dizer o que é. Temos que dizer que o que não é, não é. Conhecer o oposto do objeto completa a ciência.
  360. Além do mais, a ciência de Deus não seria completa se Deus não conhecesse o mal: todas as ciências conhecem seu objeto e também o objeto diametralmente oposto (como a medicina conhece a saúde e a doença).
  361. Se Deus conhece as coisas más, será que não sente vontade de praticá-las? Não pode ser, se ele é perfeito. Se é perfeito, é imune ao mal.
  362. O que determina nobreza e vileza é a distância que algo está de Deus.
  363. As diferenças intelectuais entre o ser humano e Deus, segundo Tomás: o intelecto de Deus é infinito; nós especificamos o conhecimento em vários, ao passo que Deus conhece tudo por meio de uma só ciência; nós temos que conhecer uma coisa de cada vez; Deus conhece tudo o que existe e o que ainda não existe, ao passo que o ser humano só conhece algumas coisas.
  364. Deus conhece inclusive nossas emoções, sentimentos e raciocínios.
  365. O tempo como medida do movimento já existia em Aristóteles.
  366. Nem todo conhecimento é variável.
  367. Às vezes entendemos o necessário como provável, por ignorância.
  368. Isso parece subentender potencialidade em Deus, mas são potencialidades sob seu controle e não potencialidades necessárias que lhe sobrevém.
  369. Deus é a causa de tudo e conhece todos os efeitos que pode produzir. Logo, conhece também o que ainda não fez.
  370. É possível para nós também, quando conhecemos efeitos ausentes pela análise de causas presentes.
  371. Deus conhece até o que não existe, como um artífice que conhece o artefato que ainda não produziu, mas que tem em mente.
  372. O infinito nos escapa ao conhecimento. Não existe nenhuma arte que trate especificamente dele. Até mesmo a matemática, ao trabalhar com o infinito, renuncia a sua exatidão, tornando-se proximal.
  373. A afirmação sobre coisas futuras pode enganar-se. Só é humanamente possível discorrer com completa segurança sobre o passado. O conhecimento sobre o futuro, então, é estimativo.
  374. A origem do engano não é a coisa estudada, mas o intelecto que estuda.
  375. O raciocínio às vezes é falho, por partir de pressupostos errados ou por chegar a conclusões incompatíveis com os pressupostos. Se Deus apreende as essências sem precisar de raciocínio, ele está sempre certo.
  376. Idealmente, o conhecimento verdadeiro é a adequação do intelecto à coisa. Podemos dizer que conhecemos algo verdadeiramente quando aquilo que conhecemos dele corresponde 100% a ele.
  377. O intelecto divino apreende o todo, sem precisar compor ou dividir.
  378. O raciocínio vem dos limites da nossa intelecção. Pensamos porque existem coisas que não entendemos imediatamente. Deus não precisa raciocinar, porque entende tudo imediatamente.
  379. Deus não precisa raciocinar, se já conhece tudo. Como ele conhece tudo de uma vez e não um objeto após outro, seu conhecimento está além do raciocínio e além do discurso. Vale lembrar que estes livros procuram conhecer Deus pela razão, sem recorrer às Escrituras como fundamento.
  380. Se Deus não conhecesse as coisas simultaneamente, mas sucessivamente, necessariamente a faria dentro do tempo. Como tempo e movimento são conceitos próximos, poderia-se argumentar que Deus estaria sujeito ao movimento, como passagem da consideração de um objeto a outro. Logo, haveria nele potência, e não seria mais ato puro.
  381. Deus conhece tudo simultaneamente.
  382. Cada coisa opera segundo seu ser. De fato, o ser humano não pode operar de forma diferente do estipulado pela natureza. Ele teria, assim, potencialidades fixas.
  383. Deus conhece as outras coisas porque elas partem dele. Ele é causa eficiente das coisas. Mas a causa eficiente, se racional, só pode criar algo perfeitamente se conhecer perfeitamente aquilo que está em potência (como o artista que consegue desenhar perfeitamente a imagem que imaginou). Deus é racional e ele é perfeito, então pode conhecer perfeitamente aquilo que ele deseja criar, então suas criações saem tal como ele planejou. Sem apelar para as Escrituras, alguém poderia argumentar: “se Deus é perfeito e suas criações saem tal como ele planejou, como é que nós, suas amadas criaturas, morremos cruelmente todos os dias?”
  384. A causa primeira é homogênea. Ela origina coisas que são diferentes de si em certo sentido (pois não contém o mesmo grau de perfeição nem o grau quantitativo, que é infinito, mas elas ainda são iguais no sentido de terem uma raiz comum com a qual partilham parte da substância), que são causas segundas, logo, efeitos.
  385. Se pudéssemos conhecer Deus completamente, conheceríamos todos os efeitos e todas as causas. Mas, como a razão é limitada, não podemos conhecer todos os mistérios de Deus. Por causa disso, o intelecto não pode apreender tudo, embora o limite do intelecto não esteja claro. Então, não é porque não podemos conhecer tudo o que há para saber que deixaremos de testar nosso limite. Por causa da natureza humana imperfeita, talvez o próprio limite da razão não seja passível de intelecção.
  386. Para Tomás, Deus pode conhecer as outras coisas simplesmente por conhecer a si mesmo, sendo ele a fonte de tudo o que há.
  387. Conhecemos algo quando conhecemos a causa desse algo. Se Deus conhece a si mesmo e é a causa de tudo o mais, Deus conhece tudo o mais.
  388. A primeira coisa que Deus conhece é si próprio.
  389. É interessante como Tomás insere textos bíblicos no fim de seus raciocínios. É como se ele dissesse: “Tudo isso a razão me diz agora, mas a Escritura já disse antes, o que mostra que não há diferença entre raciocínio bem conduzido e revelação divina.”
  390. Deus se conhece perfeitamente. Conhecer algo é como unir sujeito e objeto de maneira perfeita.
  391. Vemos continuamente que as partes dos animais e que os fenômenos da natureza parecem ter uma finalidade prescrita. Não fomos nós que as ordenamos, contudo. Quando criamos algo, atribuímos um fim a esse algo, porque somos racionais. Logo, quem quer que tenha ordenado a natureza e prescrito fins aos fenômenos e aos corpos é racional.
  392. O bem em si só apetecido pela inteligência.
  393. Os sentidos apetecem coisas particulares. Não se vê ouvidos querendo ouvir o bem em si, mas a bondade dos sons.
  394. Para que exista um universo inextinguível, é necessária uma manutenção incessante.
  395. Nosso raciocínio parece se orientar ao infinito. Se é posto em nossa mente algo finito, rapidamente pensamos em algo que poderia ser maior.
  396. Mas, se a matéria-prima é pura potência, não existe. Mas ela existe, já que, se é matéria-prima, dispõe de causa material. Seu nome também sugere causa final (seu fim é ser transformada) e ela pode ser definida, tendo também causa formal. Mas, quem a fez? Se Deus a fez, ela não é potência, porque, se foi feita, está em ato. Ou a matéria-prima é criação de Deus ou é eterna, rivalizando com Deus o título de ato puro. Esse problema é resolvível se admitirmos que a matéria-prima é ato, embora não puro, mas posta em ato por Deus, pois, ao menos segundo o conhecimento que tenho das quatro causas, algo que é pura potência não é, já que potência é não-ser e precisa de uma causa eficiente para ser.
  397. A matéria-prima é pura potência, mas Deus é puro ato.
  398. Deus não é infinito em sentido quantitativo, mas qualitativo.
  399. Se você admite vários deuses secundários e um deus supremo, os deuses secundários não merecem ser chamados de deuses se não por conveniência ou em sentido não-absoluto.
  400. Num governo, o governante preza pela unidade. Mas o governo só pode ser realmente único se só há um governante. Desde que não descenda à tirania, a monarquia parece ser o melhor governo.
  401. Deus é um só.
  402. O conceito de “animal” já está completo antes de receber a partícula “racional”. Mas o animal de verdade, isto é, não o conceito, precisa de um dos dois acidentes: racional ou irracional. Então, como Deus pode estar em ato se não tem em si acidentes? Simples: não tendo corpo, como foi acima exposto. Então, conceitos que não implicam corpo não precisam de acidentes enquanto estão em ato.
  403. Acidente: o que sobrevém à essência sem alterar-lhe.
  404. Se houvesse outro mundo além desse, poderia ser razoável que ele tivesse outro governador. Mas, para Tomás, o ordenador deste mundo específico é Deus e não há outro mundo (de fato, se houvesse, entraríamos em contradição com o que foi acima exposto).
  405. Não pode ser acidental porque “acidental” implica pouca frequência. Coisas diversas se ordenam com muita frequência, tanto no corpo como na natureza.
  406. A união de coisas diversas ou é acidental ou é decorrente do desejo de uma razão única.
  407. Se algo puder ser feito por um único meio, é melhor usar esse meio do que procurar vários meios de fazê-lo.
  408. A razão atesta contra a Trindade, ao apontar que Deus é uno. Por isso os católicos dizem que a Trindade é um mistério: não tem razão que possa entendê-la.
  409. Aquilo que é máximo em um gênero é causa de tudo o mais que há naquele gênero.
  410. Deus é o “sumo bem”, maior que qualquer outro bem.
  411. O mal enquanto mal é sempre evitado. Nenhum ser em plena posse da razão o deseja.
  412. Não há mal em Deus. Bem é perfeição e mal é imperfeição. Talvez porque somos imperfeitos que vemos alguns atos de Deus no Antigo Testamento, por exemplo, como maus.
  413. Imitar Deus, que é amor, é amar. Imitar Deus, que é bondade, é ser bom. Imitar é participar.
  414. Se Deus fosse somente bom, a bondade existiria antes dele próprio. Donde decorre que ele é a bondade, sendo bom por sê-la e não por participação. Portanto, qualquer coisa boa procedeu de Deus. O mal tem outra origem.
  415. No caso da participação, a ideia da qual se participa é anterior, segundo Tomás.
  416. Deus não é simplesmente bom, mas a própria bondade, por se igualar a sua essência.
  417. Algo é desejável quando é bom ou tem aparência de bom.
  418. Virtude é aquilo que faz algo pender para o bem, esse bem é o fim para o qual esse algo foi concebido.
  419. Deus é dessa ordem: o conhecemos depois de conhecidos seus efeitos.
  420. Quando conhecemos algo apenas por seus efeitos, podemos dizer que o efeito vem antes da causa, em certo sentido (cognitivo). Por exemplo, só somos capazes de conhecer a saúde por seus efeitos, então ela é inferida pelos efeitos que causa. Logo, o efeito vem “antes” no sentido de que o conhecemos antes de conhecermos a causa.
  421. Acho que entendo o que quer dizer “participação em uma ideia.” A urina é sã se for amarela citrina, o remédio é são se produz saúde, o alimento é são se conserva a saúde e o animal é são se tem saúde. Todos recebem o adjetivo “são” por participação na ideia de “saúde”.
  422. Dizer que Deus não é perecível equivale dizer que ele é imperecível, óbvio. Então, negando se afirma.
  423. É que esses predicados vêm de uma única virtude. São como efeitos de uma causa só, se formos baratear a ideia.
  424. Mas predicar coisas de Deus não afeta sua característica de “simples”?
  425. Nomeamos as coisas com base em conceitos, interpretações mentais que temos daquela coisa. Assim, qualquer coisa que caiba em um conceito recebe um nome em comum com outras coisas que nele também caem.
  426. Qualquer palavra que designa uma perfeição pode se predicar de um ser perfeito: bondade, sabedoria, ser… Como ele tem essas características em grau máximo, ele é sumo bem, primeiro ente…
  427. Após setenta e oito páginas de reflexão, Tomás já pode arriscar extrair predicados de Deus.
  428. Por que não dizemos que o pai é semelhante ao filho, mas que o filho é semelhante ao pai? Porque o pai veio antes.
  429. Já podemos fazer algumas semelhanças entre Deus e suas criaturas. Podemos ser semelhantes enquanto nos esforçamos para imitá-lo, mas somos sempre dissemelhantes em grau.
  430. “Perfeito” é “totalmente feito”, concluído, pleno. É algo sem grãos de não-ser, a qual nada mais falta e que, por isso mesmo, não pode mais melhorar. Não podia ser melhor, perfeito.
  431. O homem virtuoso é a medida de todos os homens. Só comparamos as pessoas usando “gente boa” como referência.
  432. Entenda potência como privação de ato. Não-ser do ato.
  433. A prova dos graus de perfeição parece muito o argumento ontológico, e é a mais duvidosa, racionalmente falando.
  434. Todos os argumentos derivam do que foi demonstrado e “canonizado” no começo (as provas da existência de Deus). A prova dos graus de perfeição parece ser a mais solta delas, permitindo que qualquer coisa que não seja nobre em grau máximo seja afastada do conceito divino.
  435. Dizer que Deus é o próprio ser das coisas leva ao panteísmo. Deus seria tudo. Mas isso contradiz a Bíblia, que põe Deus acima das outras coisas.
  436. Ser é presença. Não-ser é privação.
  437. Deus não está em gênero algum.
  438. Para Tomás, o efeito é menos perfeito que a causa. Mas os evolucionistas mostram que o contrário muitas vezes é verdadeiro, com formas de vida simples gerando formas mais complexas, mesmo que por acidente.
  439. Deus é “Aquele Que É” (Jeová). Ele é sua essência.
  440. Me parece que, depois de usar as cinco vias de prova, Tomás gratuitamente chama o objeto encontrado de “Deus”. De fato, parece razoável e até condizente com as escrituras, mas é como eu disse: muitos deuses pagãos têm aqueles atributos.
  441. Deus não tem acidentes, isto é, variáveis que se empilham sobre a essência. A substância divina é só essência. De outra forma, Deus teria diferentes manifestações (como o “céu”, essência, e “nublado”, acidente).
  442. Ao pensar sobre o incorpóreo, devemos renunciar à imaginação.
  443. Amor e ódio, na filosofia de Empédocles, são princípios dos corpos.
  444. Os primeiros filósofos aceitavam apenas causas materiais, acidentalmente assumindo que água, fogo ou outros elementos fossem deuses.
  445. Há vários dados científicos no livro relativos ao século treze. Como a Igreja Católica aceita o pensamento de Tomás de Aquino como seu pensamento oficial, talvez seja porque Tomás diz que a Terra fica no centro do universo (em consonância com Aristóteles) que a Igreja inquiriu Galileu. Até hoje, eu nunca entendi por que os doutores da igreja não acataram Galileu, já que a Terra ser ou não redonda ou estar ou não no centro não é uma questão de fé (na verdade, a Bíblia se posiciona favorável a Galileu em alguns sentidos) e sim de razão, mas parece que agora entendo. Galileu não contradisse a Bíblia ou Aristóteles, mas Santo Tomás. Aí está a razão da condenação. A Igreja não iria mudar seu pensamento oficial, o que é exagerado, já que o pensamento deveria mudar quando algo melhor se impõe, diferente da fé. Mas, novamente, como Tomás foi elevado ao grau de santo, seu pensamento foi tido por sagrado. Então, contradições seriam imperdoáveis. O pensamento virou dogma.
  446. Se algo pode mover fora do tempo e se eu aceitei que tempo é medida de movimento, então mover fora do tempo é mover eternamente (porque o eterno não comporta medida)? É o que parece, já que o movimento das coisas como um todo não cessa.
  447. Como o movimento atua sobre corpos, o primeiro movente precisa ser incorpóreo (ou ele mesmo seria passível de ser movido).
  448. Para Averróis, não é possível que aquilo que tem potência para não-ser (isto é, algo corruptível) possa se tornar incorruptível pela vontade de um outro ser, mesmo que seja incorruptível.
  449. A razão humana não é corpórea.
  450. Todo corpo é finito e, se Deus fosse finito, caberia em nosso intelecto de todo. Se ele escapa ao nosso intelecto, não deve ser finito. Só que isso parece se fundar na crença de que podemos conhecer o que quer que não seja infinito.
  451. Se todo corpo físico é móvel (submisso ao devir), Deus não é corpo.
  452. Além disso, o que é composto tende à corrupção. Platão discordaria.
  453. Deus é uno, porque, se fosse divisível em partes, seria decomponível. Além disso, todos os compostos sucedem à aglomeração de elementos, donde decorreria que Deus, se fosse composto, foi “montado” em algum ponto, não sendo, por isso, eterno, como foi demonstrado.
  454. Existe diferença entre diversidade… e diferença. Esta é parcial, aquela é absoluta.
  455. Mas, supondo que Tomás esteja certo em afirmar isso da matéria, Deus, como a primeira causa eficiente, não pode ter matéria, porque a matéria comportaria potência e Deus é ato puro. Além disso, as escrituras afirmam que Deus é espírito, não matéria.
  456. Matéria bruta! A matéria precisa ser trabalhada para tornar-se algo propriamente dito, porque a causa eficiente não se encontra junta da causa material. Porém, não é a matéria já alguma coisa, apesar de estar bruta?
  457. A matéria é, por natureza, potência. Como assim?
  458. Para que algo passe da potência (não-ser) ao ato (ser), é necessário algo externo, porque nenhum objeto ou criatura é capaz de gerar a si próprio.
  459. Ao dizer que Deus não é possível por ser necessário, Tomás parece estar se manifestando de forma contraditória. Mas essa contradição é aparente, porque o jargão filosófico difere da linguagem comum. “Não ser possível” significa “não ter estágio potencial”, o que coincide com ser necessário, ou seja, Deus sempre existiu.
  460. Seres necessários devem ser eternos. Somente seres possíveis têm causa.
  461. Deus como ato puro.
  462. Mesmo que o movimento um dia se encerre, certamente algo o iniciou. O argumento permanece de pé.
  463. Se Deus não comporta movimento (mudança), não está dentro do tempo. Deus excedeu o tempo.
  464. Aristóteles já via tempo como medida do movimento.
  465. Bastaria para dizer que ele é eterno afirmar que não está submetido ao devir. Se algo existe sem que tenha vindo a ser pelo devir, só pode esse algo ser eterno, incriado.
  466. É eterno, não teve início (como sugere a prova dois e a prova três) e não tem fim (como sugere a prova um, pois, se cessada a fonte do movimento, os movimentos param).
  467. Que Deus não está submisso ao devir é atestado pelas escrituras. É filosoficamente imóvel. Então, temos a primeira característica.
  468. O conhecimento de Deus pela razão é proximal: não se pode afirmar racionalmente todas as suas características. Essa é uma limitação de suas famosas cinco vias de prova da existência de Deus (o movimento precisa ter um início, é necessário um ser que sempre existiu, é necessário um criador para que haja criaturas, deve haver um ser mais verdadeiro que todos, a natureza não é caótica), porque elas provam a existência de qualquer Deus, não necessariamente o Deus dos judeus e dos cristãos. A identidade de Deus (sua essência) só pode ser obtida pela razão de forma proximal, portanto… esta obra poderá, no máximo, mostrar que crer em Deus é razoável (porque, no máximo, poderá traçar um conjunto de raciocínios comuns a uma pequena quantidade de crenças, não unicamente à crença cristã, posto que, para isso, seria necessário abarcar a essência de Deus).
  469. Tomás é partidário da doutrina da essência, óbvio: cada classe de coisas tem uma essência que lhe é própria e que nos permite nomeá-la.
  470. Como o conhecimento da essência de Deus nos escorre pelos dedos quando tentamos pegá-lo, talvez seja mais fácil obtê-lo limitando a área por onde ele escorre. Ou seja, talvez fique mais fácil saber o que Deus é se pudermos delinear o que ele não é.
  471. Deus é o ordenador da natureza e aquele que é verdadeiro em grau máximo. Ele ordena porque as coisas na natureza parecem seguir algum tipo de padrão e seguir um curso bem definido dentro de certos ditames. Em outras palavras, a natureza não é caótica, inclusive permite que imaginemos leis sobre ela, tão previsível ela pode ser. Isso não seria possível, para Tomás, sem Providência. Isso é chamado “doutrina do desenho inteligente”.
  472. Clássico argumento a favor de Deus: “e antes?” A ciência é causal, supõe que todo efeito tem uma causa. Mas é ilógico regredir infinitamente. Regredir nas causas infinitamente é ilógico, então deve haver algo que criou sem ser criado.
  473. Movente imóvel acaba sendo a conclusão que se impõe: se algo se move, é porque visa. Mas se você visa, você deseja. Numa situação hipotética em que o movimento não existia, o movente não teria feito nada (não teria feito a passagem do não-ser ao ser) e não poderia desejar nada. Então, ele tem o princípio do movimento, sim, mas nem por isso move a si mesmo. Esses livros estão começando a complicar e não sei mais até que ponto estou acompanhando.
  474. Se o movente é eterno, a geração de movimento (devir) é eterna.
  475. O movimento sempre existiu. Alguém pode dizer que aquilo que não move a si mesmo em uma situação onde movimento não existe, não é capaz de mover outra coisa, nem a si mesmo. Então parece mais seguro dizer que Deus move a si mesmo ou é movimento em si mesmo ou tem o princípio do movimento. Em outras palavras, ele não é movido por algo extrínseco.
  476. Ademais, o movimento, se desaparecida a causa, não dura para sempre. Se não houvesse um primeiro motor, poderia-se pensar numa séries de moventes finitos. Só que isso é absurdo. Então o primeiro motor mantém o movimento do universo inteiro.
  477. Tudo o que move é movido por outra coisa (vale lembrar que, em filosofia, movimento é qualquer tipo de mudança, seja de cá para lá, seja de forte para fraco, de triste para alegre ou de ser para não-ser). Como não se pode pensar que existe uma cadeia infinita de moventes, porque isso implica que não há primeiro motor, o que significa que não há movente intermediário, nem final, logo nada se moveria, então deve haver um movente inicial, que moveu sem ser movido ou que move a si mesmo. Uma das traduções do Nome, adotada pelas testemunhas de Jeová, é “aquele que causa o que vem a ser”, o que se harmoniza com isto.
  478. O conhecimento do supra-sensível vem do sensível. Os sentidos são o ponto de partida também da metafísica.
  479. Mas o que vem de Deus é sensível.
  480. Como Deus excedeu os sentidos, é comumente tido por indemonstrável.
  481. Como não é possível, racionalmente, delinear características definitivas sobre Deus, a tendência é achar que não é possível saber, racionalmente, se ele existe.
  482. Argumentos fracos a favor de Deus apenas fazem os descrentes mais descrentes.
  483. Aquilo que estamos acostumados a ouvir desde pequenos acaba se fixando em nossa mente como evidente, mesmo quando não é.
  484. Resumo do Proslogion: existe um deus, mas sua existência parece derivar de sua definição.
  485. O fato de existirem verdades divinas conhecíveis e verdades divinas desconhecidas não indica que Deus tem natureza dupla, mas que nosso intelecto pode se comportar de forma diferente para diferentes tipos de objeto.
  486. Existem coisas que são fechadas à razão.
  487. A ciência que nega a existência de Deus de forma literal e explícita é, em geral, especulativa e probabilística, nunca sendo completamente exata ou demonstrável.
  488. A ciência bem conduzida não contradiz a revelação.
  489. Pegue os personagens bíblicos de renome e imagine se obteriam o mesmo sucesso que obtiveram sem auxílio divino. Paulo, por exemplo, teria morrido bem mais cedo. Mais de uma vez.
  490. Crítica de Tomás a Maomé: não há profecia sobre ele no Antigo ou no Novo Testamento e os grandes personagens judaicos e cristãos operaram atos milagrosos, coisa que Maomé não fez, segundo Tomás.
  491. Aliás, por qual outra razão um bando de gente se juntaria para ler um livro altamente complicado e praticar coisas como castidade, abstenção de vários atos, amor aos inimigos, disciplina do corpo e cânticos a um ser que não vêem ou ouvem se não por inspiração divina ou porque tal coisa faz algum sentido? Alguns sábios também chegaram a conclusão de que muitas práticas cristãs são desejáveis, então não são práticas sem lógica.
  492. Os cristãos não crêem levianamente naquilo que crêem. Porque suas crenças se relacionam muito com aquilo que experimentamos, elas têm uma lógica interna, são coerentes entre si e harmônicas, além de terem um lado prático e sensível. Não é fácil fazer um cristão deixar de crer.
  493. O conhecimento de coisas elevadas dá muito mais satisfação.
  494. A revelação de coisas que excedem o intelecto servem também para nos conservar humildes. Se admitimos que existem coisas que não conhecemos e nunca saberemos racionalmente, não caímos na presunção de achar que só aquilo que nós sabemos é de fato real. O pensamento que mais se afasta do defeito é justamente aquele que não supõe saber tudo, mas que ainda conserva a atitude de saber tanto quanto pode saber. Para que isso funcione bem, é necessário que os limites entre o que se pode saber e o que não se pode saber permaneça um mistério; senão, poderemos ainda cair na presunção de acharmos que sabemos tudo quanto pode ser conhecido, que dá quase no mesmo. Isso nos mantém em movimento, já que continuamos tentando e testando nossos limites, cientes de que há um limite final, mas sem saber se já chegamos lá ou se algum dia chegaremos lá.
  495. Algumas coisas acessíveis pela via da fé são também acessíveis pela via da razão.
  496. Muitos “demonstram” suas teses usando probabilidade, que é tida pelos ignorantes como algo certo (o que não é, pois, se é probabilidade, é somente provável).
  497. Se Deus fosse acessível somente pela razão, poucos iriam crer. Jovens, por exemplo, não acreditariam. Nem os que não têm tempo para pensar. Então Deus é acessível também por outra via, que é a da fé, que é um sentimento.
  498. Só se torna prudente e sábio quando se está quieto. Na juventude, tempo de agitação, é difícil ser prudente ou sábio. Por isso se diz que jovens não têm juízo.
  499. A metafísica deveria ser a última área da filosofia a ser ensinada.
  500. Conhecer Deus, ou, pelo menos, as coisas divinas que o intelecto humano pode compreender, requer pleno juízo e saúde, requer tempo e requer esforço.
  501. Tanto a tradição filosófica helênica como a própria Bíblia atestam que os seres humanos não são capazes de entender completamente as coisas divinas. Embora os processos divinos sejam desconhecidos, as conclusões dos processos nos são dadas em bandeja (reveladas). Ou seja, só podemos acreditar; nem sempre é possível meditar com como essas conclusões chegaram a nós.
  502. Mas não necessariamente é falso aquilo que não entendemos. Se não entendemos o que está escrito, por exemplo, na Bíblia ou se não somos capazes de entender o que certo personagem fez ou como fez, não significa que aquilo é falso. Só significa que não entendemos por sermos humanos limitados. É como um iletrado que discorda do cientista, mas apenas porque não entende bem seu discurso. Essencialmente, aquilo que não compreendemos não necessariamente é falso.
  503. O intelecto humano é limitado, de forma que é vetado aos seres humanos certos tipos de conhecimentos. Jamais o indivíduo humano poderia compreender tudo aquilo que o anjo é capaz de compreender. Da mesma forma, jamais o anjo poderia compreender tudo aquilo que só Deus compreende.
  504. É pela alma (razão) que o ser humano se eleva a Deus.
  505. Só que, com Deus, não se pode tomar essa via, porque ela é sensorial em primeira instância. Não significa que não usaremos os sentidos, mas que os sentidos não bastam para obter uma definição de Deus.
  506. Saber o que algo “é”. A definição é o primeiro passo no caminho “fácil” do conhecimento. Definir algo corretamente permite conhecer tudo o mais sobre o objeto de estudo.
  507. Existem dois tipos de verdades sobre Deus: as que excedem a razão e as que cabem na razão. Imagino que vamos trabalhar sobre as verdades “de segunda ordem”.
  508. O ser humano é constrangido pela razão, quando ela se impõe. Então, disputar religião com um descrente requer uso da sabedoria secular (filosofia e ciência).
  509. Não se conhecem todos os argumentos dos gentios e, além disso, os gentios reconhecem a autoridade de todos os textos sagrados da Igreja Católica (os judeus e os hereges reconhecem a autoridade de uma parte deles, então é mais fácil no caso deles). Só para o caso de alguém ter esquecido, eu mesmo não sou católico. Vejamos se Tomás não me converte até o final da Suma.
  510. O objetivo do livro: refutar os gentios (não apenas ateus, mas qualquer um que não seja católico). Neste sentido, “gentio” é o que não é nem cristão e nem judeu. Antigamente, “gentio” se referia a qualquer um que não fosse judeu. Alguns, como as testemunhas de Jeová, preferem o termo “pessoas das nações”.
  511. A prática da sabedoria nos aproxima de Deus que, segundo os Salmos, fez todas as coisas sabiamente (Salmos 136:5). Como a semelhança é a causa do amor, a busca pela sabedoria pode ser um ato de amor a Deus. Então, a sabedoria secular, como a ciência, não necessariamente é rejeitável. Leibniz dirá que Deus, sendo sábio, não iria fazer um mundo imperfeito. Então, Leibniz conclui que vivemos no melhor dos mundos possíveis, posição criticada por Voltaire.
  512. Se Deus é a verdade, ir contra Deus é necessariamente errar.
  513. Essa verdade é Deus, certo? Afinal, ele citou João, que diz que veio dar testemunho da verdade, sendo que Tomás aponta uma “verdade encarnada”, numa óbvia referência a Jesus (João 1:14). Levando em consideração que ele é católico e, portanto, adepto da Trindade, Jesus era Deus, que se fez carne, conforme a interpretação tradicional de João 1:1.
  514. Existem diferentes tipos de verdade que podem ser colocadas em dois grupos. O primeiro grupo é o das múltiplas verdades particulares. O segundo grupo contém só um elemento: a verdade que é a causa de todas as verdades. Essa é o objetivo mais íntimo da metafísica, como “ciência da verdade”, segundo a interpretação tomista de Aristóteles. Então, ao contrário do que se pensa, assumir que a filosofia é ciência da verdade não necessariamente te torna um adepto de Kant.
  515. Se admitimos a causa primeira (ponto de partida) como o intelecto, a causa última (destino) só pode ser a verdade, que é o alvo da inteligência.
  516. É bom notar que a farmacêutica é ordenada pela medicina também por outra razão. Não apenas a medicina visa a saúde, como também ela é mais geral e abrangente. A medicina, que tem como único fim a saúde em geral, ordena então todas as outras disciplinas ou técnicas que têm a saúde como fim particular (não a saúde “em geral”, mas a saúde “deste cara”), não apenas a farmacêutica, mas também a fisioterapia, a psicoterapia e todas as aplicações de preceitos médicos em nível clínico.
  517. O sábio teórico deve ordenar o trabalho do técnico experiente, como a medicina ordena a farmacêutica.
  518. Cabe ao sábio ordenar.
  519. Para fazer algo direito, é necessário ter em vista o fim que se procura, de forma que os esforços sejam ordenados segundo o fim.
  520. Pegando uma definição emprestada, Tomás diz que sábio é aquele que gerencia as coisas com habilidade.
  521. É útil para a fé humana a meditação nas obras de Deus.
  522. Muitos servem a Deus esperando obter algo disso. Porém, meditar na criação nos permite ser gratos pelo que Deus já nos fez. Assim, é mais fácil servir sem interesse.
  523. Além do mais, conhecer a criação nos permite conhecer o criador e nos lavarmos dos juízos errados feitos sobre ele.
  524. O filósofo considera as coisas enquanto tais, ao passo que o teólogo estuda a relação entre as coisas e Deus.
  525. Assim, enquanto que a filosofia pode inferir a existência de Deus pela consideração da criação, a teologia pressupõe Deus antes de dar um veredito sobre a criação.
  526. A filosofia, para demonstrar o que apreende teoricamente, recorrerá às ciências quantas vezes for necessário. Já que a ciência pode mostrar pela prática aquilo que a filosofia pode conceber teoricamente.
  527. Muitas coisas ditas de Deus são metafóricas ou mesmo completamente erradas.
  528. Aquilo que tem uma característica ao máximo dentro de determinado gênero é, para Aristóteles e Tomás, a causa das outras coisas que têm aquela característica. Como Deus é o máximo ente, ele é causa de todos os outros entes. É assim que Tomás mostra, com base em Aristóteles, que Deus é causa dos seres.
  529. Se Deus é causa do ser, implica que ele pode fazer coisas a partir do nada.
  530. Quanto mais elevada a causa, mais efeitos ela produz.
  531. Tomás diz que “ser” é mais geral que “ser movido”, por englobar também seres imóveis. Isso me lembra de Herbert, quando este diz que, na linguagem unidimensional, as coisas parecem só ter significado quando determinadas por um adjetivo ativo e sugere que a linguagem multidimensional, que é como a linguagem deveria ser, deveria ter um caráter metafísico, considerando a coisa abstraída de sua função, para verificar o que ela é para além de como ela age.
  532. Além do mais, se Deus fizesse as coisas a partir de uma matéria-prima preexistente, então o universo não seria infinito, mas limitado de acordo com a quantidade de matéria-prima.
  533. De fato, na natureza, nada é feito do nada. Mas Deus está acima da natureza. Ele sempre existiu e, se ele quiser, pode fazer, do nada, o que quer que queira.
  534. Não existe estágio intermediário entre ser e não-ser. A criação, portanto, não é feita gradualmente por Deus, segundo Tomás. Ela é “de uma vez”.
  535. Me parece que o tempo é criação humana. “Antes” e “depois” sempre são relacionados a um ponto do presente que é arbitrariamente selecionado. Mas na natureza, parece que as coisas todas ocorrem em um presente sem duração. Então, falar de “antes” e “depois” requer um recorte do “agora”, que só pode ser feito pela mente humana. Eu acho que Kant iria concordar comigo, se eu não fosse sul-americano.
  536. “Criação” deve ser entendido como “puxar do nada”. Nós, seres humanos, por exemplo, não “criamos” nessa acepção da palavra, porque nossa criação é sempre mediada. O escritor cria com auxílio do papel e da caneta, o artista cria com seus lápis e sua tinta, o músico cria mediante seus instrumentos. Mas só Deus pode criar na acepção tomista da palavra, porque cria sem precisar de qualquer instrumento. E, se cria dessa forma, dizendo “faça-se” e a coisa acontece, então o processo de criação divina é feito sem sucessão (sem movimento). Portanto, não é mensurável pelo tempo.
  537. Deus é o único capaz de criar dessa forma.
  538. Para Tomás, nenhuma criatura cria, em plena acepção da palavra.
  539. Se Deus pode tudo, mas não faz tudo, isto é, faz umas coisas, mas não outras, é porque ele elege aquilo que ele quer criar. Ou seja, a criação é segundo a vontade divina. Deus não fez nada por estar coibido por necessidade, mas fez o que quis fazer.
  540. Todo agente produz efeito semelhante a si.
  541. O que ordena a vontade é o objetivo. Ter um objetivo em mente nos faz pensar em como consegui-lo. Mas isso só pode ocorrer numa mente inteligente. Donde decorre que Deus é sábio.
  542. Aristóteles diz que quem deveria mandar é o sábio. Se Deus tem suas qualidades em grau máximo, então ele é o mais sábio dos seres. Compete a ele o governo do universo. Embora ele nos permita desobediência, é insensato desobedecer a ordem de quem sabe, melhor que qualquer outro, o que é bom.
  543. Deus não pode fazer outro Deus igual a ele, segundo Tomás.
  544. Deus não pode arruinar sua própria natureza. Se ele é o mais sábio e age por vontade, por que ele iria privar a si mesmo de seus atributos divinos? Não faz sentido que Deus queira, por exemplo, deixar de existir.
  545. Deus criou o mundo porque é bom. O indivíduo sumamente bom iria querer o bem e, se é também todo-poderoso, iria, obviamente, querer criar alguma coisa num lugar onde nada havia. Porque criar é bom.
  546. Depois que eu morrer, eu não deixarei de existir: meu cadáver será reaproveitado pela natureza e seus elementos serão incorporados em outras substâncias, de forma que a matéria do mundo permanece a mesma. Tal como nada na natureza se cria, nada se destrói, a menos que Deus queira. Ou seja, a Deus não é apenas o único ser capaz de criar do nada, mas também é o único ser capaz de fazer algo descender ao nada.
  547. Se admitimos que Deus é o primeiro agente, não precisamos admitir que o mundo, por exemplo, sempre existiu, como queriam os gregos antigos.
  548. Só é corruptível aquilo que tem um estado possível diametralmente oposto. Exemplo: só dá pra morrer estando vivo. Só é possível esfriar sendo antes quente em algum sentido. Algo é tanto mais corrupto quanto mais está para seu não-ser. Esse pessoal da metafísica tem um talento pra falar o óbvio, porque falam o óbvio e ficamos espantados como se fosse algo novo. O que é estranho, porque normalmente ficamos irritados ao ouvir o que é óbvio. É como se o metafísico tivesse um talento pra fazer o óbvio ficar atraente.
  549. Não existe contradição simultânea. Tente refutar isso. Te desafio.
  550. O efeito da vontade é aquilo que ela quer. Se algo não sai como queríamos, isto é, se o efeito não corresponde perfeitamente à causa, é porque outra causa se insinuou em nossa ação (um imprevisto, por exemplo).
  551. Existem coisas que a ciência nunca poderá tirar do campo da filosofia, principalmente da metafísica.
  552. Dizer que o mundo sempre existiu implica regressão infinita nas causas eficientes.
  553. O acaso é definido pela ausência de intenção do agente. Quando um agente opera algo “sem querer” foi por acaso.
  554. Uma fonte de acaso: a matéria. A matéria é inerte e não tem intenções. Se um agente quer que ela se torne algo, mas a matéria é defeituosa, o efeito não será o esperado.
  555. Para Tomás, todo ser receber o ser de outro ser.
  556. É difícil acreditar que toda a natureza ordenada tenha vindo de uma sucessão de agentes casuais.
  557. Não existe um “princípio mal”, tal como um “princípio bem”. Porque se houvesse um ser que não reunisse em si nada de bom, efetivamente não existiria, porque a existência é um bem. As pessoas que dizem que o diabo não existe se apoiam nisso, porque pensam que o diabo não tem nada de bom em si. Se ele existe, ele tem algo de bom. Além disso, ele é simplesmente dono deste mundo, o que é um bem apetecido por muitos.
  558. Se o mal não tem existência em si mesmo, então o mal não existe, sendo um estado de privação do bem.
  559. O mal só desejado por acidente. Se alguém “deseja o mal”, é porque vê naquilo um bem, que é o que todos querem. Exemplo: o cara que, como o diretor do meu centro universitário, faz mal aos outros sem razão aparente, na verdade, visa um bem, que é o prazer que ele sente quando os outros sofrem. Esse prazer é deturpado em sua fonte, mas bom em seu efeito.
  560. Se Deus fez algo considerado pelo homem como “mau”, foi em vista de um bem maior.
  561. Se Tomás estivesse vivo, discordaria das testemunhas de Jeová quanto à criação. Para ele, Deus criou o mundo diretamente do nada. Para as testemunhas, Deus criou o mundo indiretamente por meio de Jesus, a única criatura feita diretamente por ele.
  562. Interessante que Tomás, para provar seu ponto, usa um texto bíblico, que diz que Cristo criou todas as coisas. É o mesmo texto usado pelas testemunhas para provar o ponto delas. O fato de o mesmo texto poder ser usado de formas díspares se explica com razões doutrinárias: para Tomás, Deus e Jesus são o mesmo ser, mas as testemunhas não compram a ideia da Trindade, afirmando que Deus e Jesus são entidades diferentes.
  563. A pluralidade de seres zela pela perfeição universal.
  564. Para ser livre, é necessário ter intelecto. Livre, para Aristóteles, é ser causa de si mesmo. Então, nossa ação é livre quando é nosso intelecto que a motiva. Se formos coagidos por algo que nos é externo, obviamente não é liberdade.
  565. A substância intelectiva (alma) não é corporal. Corpo e alma são distintos para Tomás.
  566. O intelecto é capaz de abstrair de um objeto sua forma, essência. Assim, ele pode fazer generalizações: tudo o que tem esta e estas características pertence a este gênero de coisas. Exemplo: todos os seres humanos são animais racionais.
  567. Corrupção é separação entre matéria e forma. Quando uma matéria perde sua forma, deixa de ser o que era.
  568. Substâncias intelectuais não são corruptíveis por não disporem de matéria.
  569. Substâncias intelectuais são formas subsistentes. Não precisam de matéria para serem.
  570. Para Tomás, não é possível corromper o intelecto.
  571. O intelecto é aperfeiçoado pelo conhecimento e pela prudência, tal como pela idade, que acalma os desejos da juventude.
  572. Nada na natureza foi feito em vão (designo inteligente).
  573. As coisas parecem resistir à corrupção e se manter no estado que acham melhor, que normalmente é o estado atual. Schopenhauer chama isso de “vontade de viver”.
  574. As ações da alma e do corpo são conjuntas. Isso testifica contra a tese platônica de que nós somos almas que se servem de corpos. Para Tomás e para Aristóteles, o ser humano é corpo e alma, não somente alma.
  575. Alma é forma do corpo.
  576. Para Platão, temos três almas: a alma nutritiva, a alma sensitiva e a alma intelectiva. Para Tomás, são todas uma alma só, porque é possível que pelo mesmo princípio se fale de três coisas.
  577. A alma nutritiva é anterior à sensitiva, que é anterior à racional. A criança é primeiro de tudo vivente, depois desenvolvendo emoções e sentimentos e por último vem a razão.
  578. Se realmente tivéssemos três almas, seríamos três entes usando o mesmo corpo. Porém, se tivéssemos três almas, mas só uma delas controlasse o corpo, qual seria o papel das outras duas? Decorreria que o ser humano nem seria vivo (pois a alma nutritiva não se serve do corpo) nem seria animal (pois a alma sensitiva não se serve do corpo), mas um ser que subjuga esses dois aspectos, sem, contudo, participar deles.
  579. Muito mais correto é admitir uma alma única.
  580. Apesar de que, pelo que li da República e do outro livro, a alma é uma só e tem três partes, já que Platão menciona que essa alma composta não se decompõe por ser perfeito o arranjo que suas partes. Isso, “alma composta”.
  581. O corpo permanece unido por causa da alma. Se a alma se retira o corpo se decompõe.
  582. Para Platão, as almas estão dispostas em órgãos. A intelectiva está no cérebro, a sensitiva no coração e a nutritiva no fígado. Porém, o intelecto é incorpóreo, ele não deveria estar em uma parte específica do corpo. Além disso, algumas criaturas, se cortadas ao meio, digamos, horizontalmente, separando parte inferior da superior, continuam vivas e se regeneram, tornando-se duas criaturas, ambas com apetite e sensação. Isso não seria possível se a alma ficasse em partes específicas: uma metade teria apetite, a outra sensação e, por estarem incompletas, ambas morreriam.
  583. Por último, quando queremos muito uma coisa de natureza intelectiva, nossas emoções e desejos contrários a essa coisa enfraquecem. Se a alma fosse três coisas, o fortalecimento de uma não necessariamente enfraqueceria a outra, pois seriam independentes. Mas parece que o nível de uma influi no nível da outra, o que só seria possível se ambas partissem de um princípio só. Agostinho, contra os maniqueus, diz que não existem princípios distintos na alma, mas que há apenas indecisão entre duas ou mais coisas. Novamente, encontramos menos problemas afirmando que a alma é uma só. Não é como se houvesse várias forças lutando pelo controle do corpo, mas existe decisão por uma coisa ou indecisão por várias.
  584. Claro que Tomás dirá que o cérebro nada tem a ver com a intelecção, certo?
  585. Se não fôssemos senhores de nossas ações, a filosofia moral, a justiça e o direito não teriam fundamento e ninguém seria culpado de nada.
  586. O intelecto possível está unido à criança, mas várias coisas típicas da pouca idade impedem o intelecto possível de funcionar como devia.
  587. A alma depende do corpo para executar ações terrenas.
  588. Não existem muitas coisas supérfluas na natureza.
  589. Um bom jeito de saber se um argumento está errado é ver se ele comporta falhas quando levado às últimas consequências.
  590. Os sentidos se corrompem se o objeto contemplado é demais. Mas o intelecto não se corrompe se o objeto é demais para ele. O pior que pode acontecer é não entender. Mas, se você olhar para uma luz muito forte, você ficará cego.
  591. O lance da “folha em branco” já existia em Aristóteles, na sua comparação entre o intelecto possível que receberá o objeto de conhecimento com uma tábua que aguarda que algo lhe seja escrito. Então, esqueça o que aprendeu sobre a filosofia moderna ter inventado essa expressão; alguém tirou isso do Aristóteles, só mudando os termos.
  592. A alma não é harmonia de contrários. Que contrários poderiam formar a alma?
  593. O fato de que, em toda a discussão sobre a alma, Tomás não usa textos bíblicos como auxílio me lembra do que as testemunhas de Jeová dizem sobre a alma.
  594. Para Tomás, a alma não é corpo. Se alma e corpo fossem a mesma coisa, a alma continuaria presente na morte e o corpo não se corromperia (já que existe algo que o mantém unido enquanto está vivo e que o deixa no ponto da morte, ocasionando a corrupção).
  595. Todo corpo é decomponível. Ele não pode ser decomposto ao infinito. Então o ponto máximo de decomposição é incorpóreo.
  596. O intelecto não é a mesma coisa que os sentidos. Se fosse, os outros animais seriam bem mais parecidos com os seres humanos.
  597. Em adição, admitir que os sentidos são o intelecto implica admitir que os olhos vêem a justiça, que os ouvidos ouvem a beleza, que os demais sentem a verdade e coisas do gênero, todas em seus conceitos, que são incorpóreos.
  598. Para Aristóteles, o céu move a si mesmo e é composto tanto de intelecto como de corpo.
  599. O ser humano é o mais elevado dos seres inferiores. Assim, o mais elevado de um gênero inferior se assemelha ao mais baixo do gênero superior.
  600. A alma está no corpo todo e em todas as suas partes.
  601. Se Tomás discorda de Aristóteles em algum ponto é na localização da alma, que Aristóteles dizia ser o coração e Tomás sustenta que não é nenhum lugar particular.
  602. Diferentes intelectos para diferentes indivíduos. Cada um tem sua alma própria e intransferível, polemizando com Pitágoras e com Platão.
  603. Para Aristóteles, a ciência é silogismo correto. Se um silogismo bem descreve a realidade, então ele produz conhecimento. Assim, a observação e a sistematização, partes do método científico, são meios de obtenção de dados (afirmações maiores gerais e afirmações menores particulares) com os quais fazer o tal silogismo. Então essas duas coisas fornecem os elementos com os quais os cientistas brincam para obter seus resultados lógicos, para Aristóteles.
  604. Quando aprendemos alguma coisa, aquela coisa está em nossa posse para ser reconsiderada quando desejarmos. Esquecer é perder conhecimento, porque ele não mais está conosco e, portanto, não pode mais ser usado (chamado da memória).
  605. Os animais têm memória, mas os animais não têm faculdade intelectiva. Por isso Aristóteles afirma que a memória está na parte sensitiva da alma. Por outro lado, as plantas não têm memória, por isso não se poderia afirmar que a memória reside no vegetativo.
  606. Quando a arte humana e a natureza se propõem ao mesmo objetivo, a arte tende a imitar a natureza. Por exemplo, a natureza cura quem está com frio através do calor. Então o médico que quer tratar frio extremo tem que tratar o paciente aquecendo-o, algo que aprendeu da natureza.
  607. O aprendizado de uma ciência não precisa ocorrer pela relação entre mestre e discípulo.
  608. O aprendizado solitário é natural. O aprendizado pela relação entre mestre e discípulo, isto é, a arte de ensinar, é artificial e procura imitar a eficiência do aprendizado natural.
  609. Dos sentidos vem a memória. De várias memórias vem a experiência. De várias experiências vem a generalização. Da generalização vem a ciência e a técnica.
  610. Para o Aristóteles, os animais “provenientes da putrefação”, isto é, gerados sem pais, são gerados por acaso, ao passo que os que são gerados através da inseminação são gerados intencionalmente. Hoje, sabemos que os animais que parecem nascer da putrefação vêm de outros animais e não são sem pais. Mas as primeiras formas de vida, em sentido evolutivo, que deram origem às outras espécies, eram sem pais. Então, embora Aristóteles estivesse errado quando a origem, por exemplo, dos vermes, seu argumento de que os seres sem pais são obra do acaso se harmoniza com o evolucionismo.
  611. Quando se diz que somos bons porque Deus é, estamos dizendo que somos bons por nos aproximamos dos padrões de bondade estabelecidos por Deus. Se o ser humano não tivesse nenhum mérito por suas qualidades, ele não poderia ser chamado de inteligente ou racional, porque obteria seu conhecimento das mãos de Deus, ao passo que inteligência e razão são conceitos que implicam esforço próprio.
  612. Se o intelecto fosse algo separado de nós, não estando sob nosso controle, seríamos ignorantes até o ponto em que o intelecto “baixasse” em nós. A moral ficaria assim prejudicada, porque seriam todos ignorantes. Não tem como punir alguém assim, se o conhecimento do bem ou do mal depende de algo exterior ao réu.
  613. Me corrija se eu estiver errado: intelecto possível é o intelecto do aprendiz, isto é, aquilo que eu posso aprender, mas ainda não aprendi, ao passo que intelecto agente é o do mestre, que reduz a potência do discípulo ao ato.
  614. Para Aristóteles, a alma não é completamente imortal. A única parte da alma que é imortal é aquela que não está ligada a nenhum órgão específico, ou seja, o intelecto agente.
  615. Para Tomás, a alma humana é incorruptível, por ser uma substância intelectiva.
  616. Como na natureza não existem coisas feitas por acaso e como é natural o desejo do ser humano de viver para sempre, pois ninguém em sã consciência quer morrer, e como a natureza é criação perfeita de um Deus sábio que quer a felicidade das criaturas, parece impossível que o desejo de viver para sempre tenha sido incutido nos humanos pela natureza sem que fosse possível esse viver para sempre.
  617. Interessante que Tomás diz que “homem branco” não constitui uma espécie, porque os conceitos “homem” e “branco” só se unem por acidente. Então, um ser humano é ser humano apesar da sua cor. Mas os católicos prescindiram disso cerca de trezentos anos depois, quando escravizaram os negros para trabalhar no Brasil, alegando que os negros não tinham alma. Tomás, se estivesse vivo em 1500, talvez fosse contra tal afirmação, já que, se os negros também são humanos, também têm alma.
  618. Para que o intelecto se corrompa, é necessário que o intelecto passivo, a capacidade de receber conhecimento, se corrompa primeiro.
  619. A intelecção e a volição não podem ser, para Tomás, ligadas a um órgão específico. Embora a alma permanece depois da morte, segundo a fé católica, Tomás ressalva que só essas duas operações ficam na alma. Qualquer operação da alma que dependa do corpo fica latente até que a alma obtenha um corpo, ou seja, na ressurreição.
  620. Os jovens poderiam se voltar para conhecimentos mais elevados se fossem impedidos de conhecer o corpo, embora isso talvez fosse prejudicial ao próprio conhecimento. Então é natural se voltar às coisas elevadas com o passar do tempo, quando o corpo vai deixando de ser interessante.
  621. A temperança é a virtude que permite conhecer as coisas elevadas, porque ela é a que doma os desejos do corpo.
  622. O amor da amizade não é paixão. O namoro, contudo, é.
  623. Se a parte intelectiva da alma é a que fica, decorre que a alma dos animais não é imortal.
  624. O lance do animal que é irracional porque sempre faz as coisas da mesma maneira (como a andorinha que faz seus ninhos sempre da mesma forma) tem início aqui.
  625. Todas as coisas apetecem o bem que lhes é próprio.
  626. O deleite aperfeiçoa a operação, isto é, fazemos melhor aquilo em que sentimos prazer ao fazer. Então, o bem que é próprio a alguém é aquilo que lhe causa deleite. Por exemplo: o ladrão normalmente sente prazer ao roubar e o ladrão que rouba e não é pego é um “bom” ladrão. Claro que o bem de alguém pode muito bem se afigurar como mal para mim.
  627. Sentir não é mover, mas ser movido, porque é algo passivo. Em geral, não podemos controlar o que sentimos. As emoções e os sentimentos simplesmente se insinuam em nós.
  628. Se a alma existisse antes do corpo, não iria, naturalmente, querem entrar num corpo. Se ela é forçada a entrar, então a entrada é violente, ou seja, contra a vontade. Mas tudo o que é violento é, para Tomás, anti-natural. Portanto, se a alma existisse antes do corpo, não seria natural que ela se unisse ao corpo.
  629. Se as almas entram nos corpos como consequência de uma punição, então não é bom encarnar.
  630. As coisas não-naturais, como os artefatos, têm origem em coisas naturais, como as mãos e o material de que o artefato é feito.
  631. Os princípios são naturais e comuns a todos, mas as conclusões acerca dos princípios podem ser particulares e diferentes para cada um, por sua natureza composta e artificial. É por isso que filósofos chegam a conclusões diferentes mesmo interpretando o mesmo mundo.
  632. A alma não existe antes do corpo. Ela é feita com o corpo. Mas ficou-me uma dúvida: se alma não preexiste ao corpo, mas é feita com o corpo, ao mesmo tempo em que é imortal, o número de almas não é potencialmente infinito? De fato, o infinito em ato é impossível, mas será que não haveria nenhuma consequência negativa de um número tão grande de almas?
  633. A verdade é a finalidade do intelecto e a verdade lhe faz bem.
  634. A alma não é substância divina, porque Deus existia antes do corpo e a alma é feita com o corpo. É por isso que não dizemos que ela é divina, porque, se fosse, existiria em Deus antes de encarnar, sendo, então, eterna.
  635. O sêmen não transmite alma.
  636. Mas existem argumentos a favor da transmissão da alma pelo sêmen. Se alma e corpo são feitos ao mesmo tempo, parece lógico que a alma esteja embutida no sêmen, tal como todas as partes do trigo existem potencialmente em sua semente.
  637. As operações da alma aparecem gradualmente. Primeiro, a operação vegetal aparece, depois a operação sensitiva aparece e por último a intelectiva.
  638. Se o embrião não tivesse alma, não seria animal, mas um objeto ou órgão da mãe. Partindo do pressuposto de que a alma tem três operações, entre elas a vegetativa, ele não se nutriria se não tivesse alma, posto que não teria apetite. Em adição, Tomás admite que o embrião sente, logo tem alma, pois uma das operações da alma é a sensação.
  639. Todas as coisas possíveis já se encontram no universo. De outra forma, o universo não estaria concluído (perfeito).
  640. É possível conhecer o que carece de matéria. Se algo não tem matéria, isso apenas significa que ele é inteligível e dever ser conhecido com esforço mais racional e menos sensorial. Quanto menos matéria, mais é inteligível e, quanto mais inteligível, menos os sentidos são úteis.
  641. Se existem corpos que não têm alma, que é algo inteligível, não vejo por que não possa haver coisas inteligíveis que não têm corpo.
  642. Existem mais coisas inteligíveis do que coisas materiais no universo. Especialmente considerando que não deve existir nenhuma lei necessária que limite pesadamente a quantidade em que devem existir coisas que não ocupam lugar no espaço.
  643. Existe apenas um exemplar de cada espécie de ser incorruptível, segundo Tomás. Afinal, se são incorruptíveis, não morrem. Então, não há necessidade de reprodução. Me pergunto se foi daí que os católicos tiraram a ideia de que anjos não têm sexo.
  644. É possível representar espécies diversas pela adição ou subtração de características em conceitos já existentes.
  645. Existe uma hierarquia celeste. Os seres espirituais estão dispostos em ordens.
  646. O intelecto possível pode, isto é, tem potência para conhecer todas as formas sensíveis.
  647. Tal como o objeto próprio dos olhos é a imagem, o dos ouvidos o som e o dos outros a sensação, o objeto próprio do intelecto é o inteligível.
  648. Para Tomás, tudo o que pode ser é inteligível. Ou seja, se algo é real, pode ser conhecido.
  649. Seres mais elevados, como os anjos, têm uma ciência que abarca mais coisas que a nossa.
  650. As pessoas com inteligência mais elevada precisam de menos semelhanças para entender determinado objeto. Aqueles que têm inteligência fraca precisam de mais semelhanças (“é como aquilo”, “exemplo…”).
  651. Parece que “fantasma” refere-se à forma inteligível.
  652. A potência é tanto mais superior quanto menos forem os meios pelas quais opera.
  653. Nós conhecemos pelo intelecto e pelos sentidos. Os sentidos são fonte válida de conhecimento, mas o uso dos dois melhor exclui a possibilidade de erros.
  654. É possível conhecer Deus se elevando do conhecimento das coisas inferiores de forma gradual, até o conhecimento do máximo.
  655. Só é possível conhecer a essência inteligível depois de ter pleno conhecimento dos acidentes sensíveis.
  656. Não estamos prontos para entender tudo. Por isso algumas conclusões bíblicas não são explicadas. Temos o mandamento, mas não temos o processo que originou o mandamento.
  657. Neste livro, Tomás usará o método hermenêutico para mostrar que a Bíblia não contradiz a natureza.
  658. A Bíblia chama os justificados pela graça de “filhos de Deus”.
  659. Tomás, na exposição dos argumentos contra a Trindade, fala que Jesus teve fome, cansou-se, confessou não saber o dia do juízo, teve medo da morte… e outras coisas que não parecem caber a alguém que é Deus. Ele tentará refutar esse argumento em breve e provar que Jesus é Deus, mas antes deixa o problema visível. Essa eu quero ver.
  660. Alguns acreditavam que Jesus era só um homem comum que, de tão reto, foi glorificado por Deus como salvador.
  661. Jesus existia antes da concepção em Maria pelo Espírito Santo.
  662. Jesus ajudou Deus na criação, executando as ordens que Deus lhe dava.
  663. O status de Jesus como filho foi recebido de Deus de forma diferente da qual Moisés recebeu o status de servo. Se a aquisição de méritos justificasse tanto assim, Moisés e Cristo teriam status semelhantes ou iguais.
  664. Jesus é chamado “filho de Deus” em sentido particular, diferente da forma como são chamados de filhos de Deus os que são salvos pela graça. É por isso que Jesus é chamado “unigênito”, porque é o único dos filhos que é dito filho nesse sentido.
  665. Um argumento a favor da Trindade: no Antigo Testamento, só Deus tinha autoridade para perdoar pecados. Mas Jesus tem a mesma autoridade no Novo.
  666. De fato, Jesus passou por algumas coisas indignas da divindade, mas isso porque ele tinha dupla natureza terrena. Se ele sentiu fome, por exemplo, é porque ele era um ser perfeito encarnado num corpo imperfeito. Eram fraquezas corporais, consequência natural de se encarnar como humano.
  667. Não é possível existir mais que um Deus. Se houvesse dois, de igual poder, nem um nem outro seria Deus, porque o conceito divino comporta máxima perfeição. Se há um ente sumamente perfeito, ele precisa ser único. Se não têm igual poder, somente o mais poderoso é digno de ser Deus.
  668. Alguns afirmam que Jesus é chamado “filho de Deus” porque seu corpo humano foi gerado por Deus em Maria pelo Espírito Santo. O corpo é filho de Deus, mas quem habita o corpo é Deus.
  669. Não é possível ser pai de si mesmo. Algo parece errado.
  670. O corpo é filho de Deus, mas Deus encarnou nele. O problema aqui é que isso significa que o corpo é chamado filho pela mesma razão que os outros corpos são chamados filhos de Deus.
  671. A Bíblia parece atestar que Jesus não é Deus, pois Jesus refere-se a Deus como uma entidade diferente.
  672. Quando a Bíblia diz “façamos o homem à nossa imagem e semelhança” descreve um diálogo entre Deus e Jesus.
  673. Contra: a unidade entre Deus e Jesus é figurada, sendo, na verdade, uma união de sentimento.
  674. Contra: a Bíblia chama também os anjos de filhos de Deus, sendo que os anjos são seres distintos.
  675. Contra: João escreve que Jesus afirma que a vida eterna é conhecer Deus como único Deus verdadeiro, mas ele diz “Deus” e não “eu”.
  676. Contra: Jesus frequentemente se põe abaixo de Deus.
  677. Contra: se Jesus fosse Deus, para quem ele oraria quando se retirava para orar?
  678. Contra: se Jesus fosse Deus, não haveria nada que ele não pudesse fazer, mas ele diz que muitas coisas não dependem dele.
  679. A favor: os anjos são chamados de filhos de Deus em sentido distinto do qual Jesus o é.
  680. A favor: Jesus é o único a ser chamado “unigênito”, então a Escritura refere-se a ele como filho de modo distinto do qual se refere a qualquer outro filho.
  681. A favor: Jesus é gerado da substância divina.
  682. A favor: se só há um Deus, a Escritura não pode se referir a Jesus como Deus. Mas ela o faz.
  683. A favor: na versão hebraica da Profecia de Jeremias, 23: 5-6, onde é dito que será suscitado de Davi um “Senhor”, a palavra “Senhor” é traduzida do Nome. Mas o Nome (“Jeová”) só é atribuído a Deus. Então, parece que Deus encarnaria em pessoa na linhagem de Davi. Na Almeida, o nome é “Senhor, Justiça Nossa”, mas na Tradução do Novo Mundo é “Jeová É Nossa Justiça”.
  684. A favor: Jesus, se fosse filho de Deus, portanto, menor que Deus, não poderia ter a plenitude da bondade, que é própria de Deus.
  685. A favor: antes de encarnar, Jesus tinha a forma de Deus.
  686. A favor: uma das acusações feitas contra Jesus era de que ele deixava implícito que era igual a Deus. O cristão não pode duvidar do que Jesus disse.
  687. A favor: o Antigo Testamento diz várias vezes que não há ninguém igual a Deus, mas Jesus, diz Tomás, frequentemente se faz igual a Deus, donde decorre que a inferioridade por ele assumida não é literal.
  688. A favor: se Jesus criava, não pertence ao gênero das criaturas, pois nada em um gênero é causa universal do próprio gênero. Mas só quem cria é o criador, capaz de puxar coisas do nada.
  689. A favor: se Jesus não fosse Deus não poderia fazer nada que só Deus poderia, como perdoar pecados.
  690. A favor: a Bíblia diz que tudo o que o Pai faz, o Filho também o faz, donde decorre que Jesus pode muito bem fazer coisas por conta própria e não é simples instrumento de ação à serviço do Pai.
  691. A favor: Deus exige adoração exclusiva, mas existem pontos na Escritura que dizem que Jesus pode ser adorado, por exemplo, pelos anjos e pelos reis, e que todos devem louvá-lo como quem louva o Pai. É difícil entender isso de forma não contraditória sem que se admita que Deus e Jesus são um só.
  692. Os erros também testemunham em prol da verdade.
  693. A favor: quando Jesus se põe abaixo de Deus, pode ser que esteja se referindo ao fato de sua forma física ser inferior a sua forma original.
  694. Parece que a Bíblia diz às vezes que algo é “feito” no ponto em que algo é conhecido.
  695. A favor: sempre que algo é dado ao filho, algo está sendo dado ao seu lado humano. Ou seja, quem recebe é o corpo. Então, quando o filho é glorificado pelo pai, é o corpo que está sendo glorificado pelo espírito que nele habita.
  696. Maior parte dos argumentos a favor tem o Evangelho Segundo João como base. Interessante.
  697. Não seremos todos iguais no Paraíso. O lugar que lá ocuparemos depende de nossas ações em vida.
  698. Tudo o que é contingente é mutável, porque geração é mudança.
  699. Contra: Deus e Jesus são diferentes seres pertencentes ao mesmo gênero. Só nesse sentido se pode chamar Jesus de deus, ou seja, ele é um deus menor.
  700. Contra: se fossem um só ser, não seria possível fazer deles predicações opostas. Deus é eterno, Jesus é gerado, por exemplo. Não é possível ser eterno e gerado, donde decorre que não são o mesmo.
  701. A favor: Jesus foi uma “emanação espiritual”.
  702. O conceito que tenho de uma coisa não necessariamente corresponde à coisa. Mas é próprio de Deus que isso não aconteça, ou seja, o conceito de Deus sobre as coisas corresponde perfeitamente às coisas. Ele sabe exatamente o que é um ser humano, por exemplo, em todos os seus aspectos e minúcias que nós próprios não conhecemos. O nosso conceito de ser humano é limitado, mesmo que esse conceito se trate de nós mesmos, porque não sabemos tudo o que há para saber sobre nós.
  703. Nossos conceitos são “verbo”, são palavras.
  704. A favor: teologicamente, João 1: 1 atesta a favor da Trindade.
  705. A favor ou contra (depende do ponto de vista doutrinário): Deus é indivisível. Jesus é uma manifestação dele.
  706. O conhecimento pelos sentidos se dá pela comparação entre consciente e objeto de estudo.
  707. O que é gerado pela vontade não é natural.
  708. Segundo Tomás, sabedoria é o conhecimento de coisas elevadas e que nos aperfeiçoa. Afinal, não deve ser chamado de sabedoria o conhecimento fútil, que não aperfeiçoa.
  709. Segundo a Bíblia, Deus criou as coisas pela palavra, ordenando que elas viessem a ser. Mas a Bíblia também dá a entender que Jesus criou as coisas sob o mando de Deus. Nesse sentido, pode-se dizer que Jesus é o “verbo” divino, pois “verbo” também quer dizer “palavra”.
  710. Isso joga a favor da Trindade. Se eu digo alguma coisa, pode-se dizer que manifestei algo que na verdade está em mim. Então, é como se Jesus fosse uma manifestação de Deus.
  711. A diferença é que o verbo divino subsiste. Ele tem existência bem espiritual e também pode adotar forma material. De fato, não teria criado nada se fosse só uma ideia.
  712. Se existem pessoas que não são cristãs, isso não é decorrência de defeito do verbo, mas decorrência da limitação humana.
  713. Há afirmação e negação onde quer que haja oposição.
  714. Contra: o Espírito Santo é apontado várias vezes como criatura.
  715. Contra: a Bíblia parece mostrar que o Espírito está abaixo de Deus.
  716. Contra: quando Deus e Jesus são mencionados no mesmo verso, raramente o Espírito é mencionado. Temos que tomar cuidado ao falar do Espírito Santo, porque dizer uma blasfêmia contra ele é imperdoável…
  717. Contra: o Espírito Santo tem características que parecem só ser atribuíveis à criaturas, como aumento, diminuição e movimento.
  718. Contra: Deus é impassível, mas Isaías e Paulo dizem que o Espírito tem emoções.
  719. Contra: o Espírito Santo, segundo Paulo, implora a Deus por nós. Se ele fosse Deus, não pediria nada a ninguém.
  720. A favor: o corpo é o templo do Espírito Santo. Mas só se faz um templo para um deus. Além disso, de acordo com Paulo, nossos membros são os membros de Cristo. Há uma relação entre corpo, Cristo e Espírito.
  721. A favor: cristãos servem também ao Espírito Santo, mas Deus é o único ser que merece ser objeto de devoção.
  722. Me parece que há uma distinção entre “espírito de Deus” e Espírito Santo, mas Tomás não parece ver essa distinção, tomando qualquer verso em que o espírito de Deus é mencionado como se tratando do Espírito Santo. Me pergunto se eu estou errado. Essa é uma questão muito delicada e discutir isso é muito perigoso.
  723. A favor: Paulo diz que o espírito humano sabe tudo do humano e que o espírito de Deus sabe tudo de Deus. Mas o espírito é intrínseco ao ser. Donde decorre, segundo Tomás, que o Espírito Santo está em Deus, tal como o espírito humano está em nós e nos vivifica.
  724. A favor: compare a Profecia de Isaías (6: 8-9) com os Atos dos Apóstolos (28: 25-26).
  725. A favor: causas idênticas operam efeitos idênticos. Muitas coisas que Jesus faz também as faz o Espírito.
  726. Bem que eu disse: quando Tomás diz que Deus se encontra em um lugar específico, mas que ainda assim enche toda a Terra, está se referindo ao Espírito Santo, que enche toda a Terra. Então, o Pai está num lugar, mas o Espírito está no todo. Porém, como ele é trinitário, é levado a admitir que, se ambos são o mesmo ser, Deus está tanto num lugar só como em todos os lugares.
  727. A favor: Atos dos Apóstolos (5: 4-5).
  728. A favor ou contra (dependendo da tradução): Primeira Epístola de João (5: 7 ou 5: 7-8). Em Bíblias baseadas no Texto Tradicional (quase todas as versões Almeida), esse verso literalmente diz que Pai, Verbo e Espírito Santo são o mesmo ser. Em Bíblias baseadas no Texto Crítico (Nova Versão Internacional, Linguagem de Hoje, Tradução do Novo Mundo), é mencionado, em vez disso, um acordo entre os três.
  729. Acabo de saber que Espírito de Deus e Espírito Santo são o mesmo.
  730. O amor é origem de todas as emoções, mesmo das negativas.
  731. Se Deus é inteligente, é ser de vontade. Mas a raiz da vontade é o amor. E alguém pode argumentar que a raiz do amor é o prazer ou a dor.
  732. Vivo é o que se move por si mesmo e tem operação de si mesmo.
  733. O Espírito Santo não é simplesmente uma “força”; ele está vivo e tem sentimentos.
  734. Deus ama aqueles que o amam.
  735. O Espírito Santo revela segredos. Para Tomás, isso é um sinal de amizade entre Deus e suas criaturas, porque amigos revelam segredos uns aos outros.
  736. Como os amigos querem o melhor para si, isto é, como um amigo ajuda o outro amigo a melhorar sua própria condição, Deus dá dons a quem ele gosta.
  737. Deus nos perdoa na medida em que perdoamos os outros.
  738. O Espírito Santo permite se aproximar de Deus.
  739. O Espírito Santo provê consolo ao cristão quando vêm as adversidades.
  740. Se amamos a Deus, temos de respeitar sua vontade. Isso significa… fazer o que ele diz que façamos. Em troca, podemos pedir coisas a ele pela oração.
  741. Além do mais, se amamos Deus, faremos o que ele pede por livre vontade. De fato, Deus não nos obriga a nada. Somos cristãos porque gostamos.
  742. No sentido mundano, “espírito” é sinônimo de “ar”, “vento” ou “potência motora”. A palavra “espírito” nem sempre designa algo sobrenatural.
  743. O Espírito Santo, falando nos profetas, é mensageiro de Deus.
  744. Tal como Jesus, o Espírito Santo tomou forma física no mundo sensível também. Ele foi o pássaro que desceu sobre Jesus e as “línguas de fogo” no livro dos Atos dos Apóstolos.
  745. Na Trindade, Jesus é o verbo divino e o Espírito Santo é o amor divino. São duas manifestações do Deus pai.
  746. Para Tomás, a faceta do Espírito Santo provém do Filho.
  747. Se você é cristão, não pode se pronunciar sobre Deus sem antes consultar a Bíblia e tomá-la como ponto de partida do raciocínio.
  748. Alguém pode perguntar como é que a Deus é uma Trindade e não dois num só, por exemplo, ou um panteão. Bom, Tomás despende um capítulo inteiro pra mostrar que Deus não pode ser mais que três seres, ao passo que despendeu os últimos tentando provar que não são menos que três. Confesso que não entendi direito, mas um teólogo pode dar uma luz aqui.
  749. Existe um processo similar à Trindade em nós, humanos. Com efeito, nós conhecemos a nós mesmos através de conceitos sobre nós mesmos, que são concebidos na forma de verbos mentais. Também sentimos amor por nós mesmos e esse amor a si orienta nossa vontade. Interessante que Tomás faz distinção entre “mente” e “mente conhecida”, implicando que não necessariamente conhecemos a nós mesmos de imediato e que podem haver coisas que não conhecemos sobre nossas próprias mentes.
  750. Jesus tinha dupla natureza, razão pela qual falava tanto de coisas humanas como divinas.
  751. Mas existem os que pensam que Jesus era apenas um humano especialmente caro a Deus.
  752. O problema é que dizer que Jesus era só um homem qualquer que ascendeu ao grau divino contradiz o Novo Testamento em todos os níveis.
  753. Os maniqueus costumavam dizer que Jesus encarnou numa criatura fantástica e que, na verdade, não tinha um corpo genuinamente humano, mas apenas parecido com o corpo humano. Em decorrência disso, diziam que todas as coisas humanas pelas quais Jesus passou, como sede, fome, sono, medo e morte, são ficção. Lembro que, segundo as Confissões, os maniqueus costumavam afirmar que o Novo Testamento era uma grande invenção para aproximar judeus e cristãos.
  754. Narrativas históricas podem ser entendidas de forma literal, diferente de narrativas proféticas, como quando um profeta entra em êxtase e tem sua consciência arrebatada, como no Apocalipse, porque as palavras passam a ser usadas em sentido proximal. O mesmo se dá com a visão do divino sem arrebatamento.
  755. Falso é o que não é o que parece. Ou seja, usurpa a forma de outra coisa.
  756. Para os maniqueus, todas as coisas na Terra foram criadas pelo diabo! Impressionante! Nunca li tal coisa.
  757. Jesus veio do sêmen, isto é, da linhagem de Davi. Ele tinha, sim, corpo humano.
  758. Para Tomás, Jesus desceu do céu e recebeu o corpo humano graças à concepção feita em Maria. Ou seja, Maria deu o corpo de Jesus.
  759. Só é possível transmutar algo em outra coisa se houver comunicação material.
  760. O primeiro capítulo de João é mais polêmico do que pensei…
  761. Jesus tinha alma.
  762. Mas essa alma é distinta da natureza divina.
  763. Se Jesus é mesmo Deus, então Maria é mãe de Deus em certo sentido.
  764. “Cristo” significa “ungido”. No caso de Jesus, ungido pelo Espírito Santo.
  765. Não é possível receber o que já temos.
  766. “Natureza” de algo é a essência desse algo.
  767. Se uma natureza é desproporcional a outra que lhe tenha sido adicionada, uma delas será afirmada e a outra será consumida. Se uma não exceder a outra grandemente, elas tornam-se outra coisa.
  768. Em Jesus, existiram duas naturezas. Se elas tivessem se misturado, na suposição de que fossem proporcionais, Jesus não seria humano.
  769. Jesus foi semelhante a nós, talvez para mostrar que era possível agir como ele agiu.
  770. Se Jesus tinha dupla natureza, tinha dupla operação. Podia fazer tanto coisas físicas típicas ao ser humano quanto coisas divinas e maravilhosas.
  771. Por isso que sua vontade entra em conflito com a do Pai momentos antes de ser capturado e levado a julgamento: ele teve medo, por causa de sua natureza humana, mas também tinha um dever lho dado pelo Pai. Apesar disso, tendeu à vontade do Pai, embora tenha o pedido uma reconsideração, se possível.
  772. Não existe ser humano sem alma racional.
  773. Para os católicos, Jesus tinha natureza divina perfeita e natureza humana perfeita unidas em uma mesma pessoa.
  774. Não é uma união de natureza, porque quando algo é adicionado à natureza tal natureza muda. Donde decorre que se fossem misturadas em Jesus a natureza humana e a natureza divina, ele não seria humano e a Bíblia erraria ao se referir a ele como tal. A operação de milagres e as coisas divinas que ele falava vinham da natureza divina que subsistia na pessoa de Jesus. Assim, dupla natureza em uma mesma pessoa.
  775. Essa união foi conveniente.
  776. A natureza divina de Jesus é preexistente a sua natureza humana. A natureza humana vem da concepção de Jesus através de Maria.
  777. Jesus não entrou no corpo do um cara já concebido. Isso o teria corrompido. Vale lembrar que, em filosofia, corrupção é afastamento da essência. Se você está achando isso tudo complicado, lembre que a encarnação é um “mistério” e que o livro quatro é sobre as coisas que excedem a razão. Estamos todos perdidos aqui.
  778. Alma (substantivo feminino): inteligência que dá vida ao corpo físico.
  779. Jesus nasceu de uma virgem, porque o sêmen humano não foi absolutamente necessário. O Verbo completou o óvulo e com ele formou o corpo físico. Ou seja, a natureza divina substituiu o sêmen.
  780. Embora Maria seja referida como mãe de Jesus, o Espírito Santo não é referido como pai do mesmo. Claro, porque não poderia o Espírito operar a concepção de Jesus em Maria por vias humanas.
  781. O ponto do quarto livro inteiro é defender, advogar a fé católica. Os outros livros podem servir ao Cristianismo em geral, mas o quarto livro é decididamente, exclusivamente católico.
  782. Para entender a Metafísica, convém ler as Categorias antes.
  783. O pecado original é como uma doença sexualmente transmissível que acomete o sêmen de todos os homens. É por ele que o pecado original se espalha na humanidade, pois o sêmen humano é incapaz de produzir filhos perfeitos. Essa é a decorrência mais nauseante da fé na encarnação de Cristo; uma das razões pelas quais Jesus era perfeito era não ter sido gerado com sêmen humano.
  784. Quando Deus disse que no dia em que Adão comesse do fruto proibido ele morreria, sendo que Adão não morreu no mesmo dia, parece que esse verso deve ser entendido no sentido de que no dia em que Adão comesse o fruto ele ficaria sujeito à morte. Alguns teólogos atuais dizem, contudo, que Adão morreu no mesmo dia do ponto de vista divino, porque o tempo passa de forma diferente para Deus, com cada dia tendo mais de mil anos. E Adão morreu com pouco mais de novecentos anos.
  785. Quando dizemos que a criança é inocente, é porque a criança não tem a razão madura o bastante para usar o livre-arbítrio (que supõe razão). Ou seja, elas fazem o que é errado por não terem juízo. É diferente de quando um adulto faz algo errado, porque ele poderia ter usado sua razão para avaliar sua conduta. Agostinho tem uma opinião diversa.
  786. Embora Adão tenha pecado, ele foi amaldiçoado com a morte, que poderia ter origem em uma imperfeição genética infligida como punição. Essa imperfeição é perpetuada em toda a humanidade, como uma doença hereditária.
  787. A morte é a maior pena de ordem física. Todas as outras penas se ordenam para ela.
  788. A maior das penas de ordem espiritual, ao menos em vida, é a demência.
  789. Os pecados humanos são perdoáveis porque ele pode se corrigir. Mas, para Tomás, o pecado cometido por um anjo é imperdoável.
  790. Como o ser humano aprende pelos sentidos, convinha que Jesus viesse em forma humana, física, para ensinar a tantas pessoas quanto possíveis.
  791. Os erros de interpretação da Bíblia, sejam os nossos ou os dos outros, nos motivam a um estudo mais atento das mesmas. Isso é válido para outros tipos de conhecimento também.
  792. É próprio de Deus quebrar as leis da natureza quando necessário. Então, quando se quer saber se alguém é realmente profeta ou coisa do gênero, logo se pede um sinal do céu, que algum morto seja ressuscitado ou coisas do tipo.
  793. Existiram dois estágios do desenvolvimento espiritual humano antes de receber a graça: o estágio anterior à lei e o estágio legal (da lei mosaica).
  794. Convinha que Jesus tivesse corpo humano: assim ele nos mostra que não é impossível aos humanos a salvação.
  795. Jesus optou pela pobreza para que, pelo seu exemplo, livrasse os crentes do amor aos bens materiais.
  796. Além do mais, se ele fosse rico e glorioso como humano, talvez alguém pudesse argumentar que sua fama estava se espalhando de forma mítica e que ele era só um rei rico como os outros. Operar milagres sendo pobre mostra que é possível ser bom, influente, famoso e quase tudo o que as pessoas hoje querem ser sem recorrer ao dinheiro e ao status social, explicitando assim que as riquezas recebem mais valor do que realmente merecem.
  797. A caridade é a maior das virtudes, para qual as outras se ordenam. Jesus quis morrer por nós, em consequência da caridade, não sendo forçado.
  798. Diferente do pecado original, que se propaga por vias naturais, a salvação não passa de pai para filho por não ser natural.
  799. Nem sempre o que é sensível é mau. Na verdade, as coisas sensíveis são naturalmente boas. Mau é o uso que por vezes fazemos delas.
  800. O batismo é como uma geração espiritual. Como só se é gerado uma vez, só se é batizado uma vez.
  801. Interessante como os sacramentos católicos são simbólicos. Quando eu era católico, eu costumava achar que havia algum tipo de literalidade na crisma. Mas parece que a confirmação é totalmente simbólica, não literal.
  802. A eucaristia deveria levar vinho todas as vezes que é ministrada. Eu só tomei hóstia com vinho uma vez e foi um arraso. A eucaristia representa a confissão do aspecto substancial de Cristo.
  803. A questão da eucaristia é delicada, por depender muito da fé. É difícil defendê-la dos infiéis.
  804. Segundo Tomás, o pão e o vinho se “transformam” no sangue e no corpo de Jesus durante a eucaristia.
  805. Os três tipos de transmutação: acidental (dos acidentes), formal (da essência, quando algo torna-se outro) e substancial (formal, mas permanecendo os acidentes).
  806. A conversão operada na eucaristia é de tipo três, substancial, pois o pão, embora converta sua essência para a essência do corpo de Cristo, mantém os acidentes típicos de um pão, como a data de validade. Por isso as hóstias, embora sagradas, podem colecionar fungos. Rapaz, se isso não for verdade, ainda é um bom malabarismo verbal.
  807. Fora que se ela não mantivesse a aparência do pão, a eucaristia seria horripilante.
  808. Segundo Tomás, a eucaristia é o consumo do verdadeiro corpo e do verdadeiro sangue de Cristo, mas não por meios carnais. É como se fosse um valor simbólico equivalente.
  809. Participar dos sacramentos não elimina a possibilidade de pecado. Primeiro porque se pode pecar de propósito. Segundo porque o pecado pauta-se na identificação do mal com o bem, ou seja, quando fazemos algo ruim pensando que é bom ou que compensa. Mas como o raciocínio humano, enquanto humano, não pode se abster completamente de deslize, a possibilidade de errar por ignorância é sempre presente.
  810. É possível pecar por falta de força de vontade.
  811. Apesar disso, pela graça podemos pedir perdão e nos retificar.
  812. Para Tomás, a retificação vem da contrição e da confissão.
  813. Depois de confessar o pecado, o fiel deve fazer algum tipo de oração, punição ou tarefa para se purificar.
  814. A razão de a extrema-unção ser aplicada momentos antes da morte é o perdão dos pecados que o fiel não sabe que cometeu ou dos quais não se penitenciou, de forma que ele possa chegar ao Céu limpo.
  815. A extrema-unção e a eucaristia parecem ser os únicos sacramentos que podem ser ministrados várias vezes (só se batiza uma vez, só se confirma uma vez).
  816. A extrema-unção pode ser feita pelo sacerdote através do ato de passar o óleo da unção nas mãos, pés, órgãos sensoriais e, por vezes, rins. Os órgãos sensoriais são ungidos porque por órgãos sensoriais vem o desejo de pecar, os pés e as mãos porque as obras pecaminosas são feitas por membros, os rins… bom, Tomás diz que a força da concupiscência está nos rins.
  817. Sacramento (substantivo masculino): entrega de força espiritual por meio de ato sensível.
  818. O outro sacramento é o da ordem, no qual as pessoas são nomeadas parte da hierarquia eclesiástica. Na ordem inferior estão os que cuidam dos fieis: os homens da hóstia, os leitores (administradores de catecismo) e os exorcistas. Na ordem superior estão os cuidam dos ritos: acólitos, subdiáconos e diáconos. E tem, claro, a ordem sacerdotal, como os padres, bispos e o papa.
  819. Toda vez que escuto a palavra “episcopal”, lembro de remédio pra dores de estômago. Até o cheiro me vem à mente.
  820. A instauração de um poder maior sobre toda a igreja ajuda a evitar discórdias. Imagino que ele falará do papa. Isso significa que o principal papel do papa é manter a igreja católica unida, eliminando discórdias entre fieis. Mas isso só pode ser feito se todos os fieis acatarem a interpretação que ele tem da Bíblia e assumirem que ele está sempre certo ou, pelo menos, que ele sempre sabe o que é melhor.
  821. É mais fácil obter a paz quando há um só  governante do que se houverem muitos.
  822. Alguém pode argumentar que o próprio líder da igreja é o próprio Jesus, mas Tomás diz que, segundo a Bíblia, a autoridade de Jesus foi passada aos apóstolos, de forma que continuassem o trabalho cristão na Terra, depois que Jesus voltasse ao Pai. Donde decorre que não é absurdo que haja autoridades corpóreas na instituição eclesiástica.
  823. E é nesse sentido que os católicos dizem que Pedro foi o primeiro papa, porque foi o primeiro a ter tal autoridade garantida e diretamente por meio de Jesus.
  824. Como o ministro é uma ferramenta de Cristo, ele pode dispensar sacramentos mesmo sendo pecador, na medida em que se dispõe a dispensá-los corretamente.
  825. Convém obedecer a maus governantes enquanto estamos sujeitos ao poder deles, mas nem por isso se deve imitá-los.
  826. Em Tomás, as almas não vão imediatamente a algum lugar específico depois que o corpo morre. Somos ressuscitados corporalmente, depois julgados.
  827. A ressurreição não é apenas espiritual: o corpo do morto é restaurado.
  828. Faz parte da natureza da alma estar em um corpo. Se a alma vive para sempre, implica que ela precisa estar num corpo em algum ponto e este seria o corpo para o qual foi concebida.
  829. Clássica objeção contra a ressurreição: como trazer de volta órgãos completamente decompostos?
  830. Outra: e quanto aos canibais… que geram filhos? Partículas da carne de um só cara passariam a pertencer a três indivíduos: o morto, o que comeu o morto e o filho do que comeu o morto. De quem é a carne?
  831. Por meio de Adão, a morte entrou no mundo. Se Adão não tivesse desobedecido, não iríamos morrer. Donde decorre que o corpo humano era originalmente imortal. Morte é acidente.
  832. Não é difícil para Deus recuperar um órgão decomposto.
  833. Então, supondo que alguém tenha comido teu coração e, portanto, esse coração se dissolva e seja assimilado pelo corpo do canibal, Deus pode muito bem te prover de outro. Alguém pode argumentar que isso significa receber um corpo, em parte, diferente do original. Bom, quando você recebe um transplante, o órgão recebido não se torna seu e parte de seu corpo? O princípio é o mesmo. No final das contas, ainda é seu corpo e, se o transplante for bem feito e o órgão for idêntico, que diferença faz?
  834. Para Tomás, o ser humano não poderá morrer novamente depois de ressuscitado.
  835. É contra a natureza do movimento ser um fim. O fim de algo é sempre algum tipo de repouso ou estabilidade.
  836. Para Tomás, os seres humanos ressuscitados, sendo imortais, não precisarão comer para se manterem como indivíduos e nem ter sexo para se manterem como espécie.
  837. Excesso é o que vai além da quantidade devida.
  838. Tomás vê na possibilidade de ausência de sexo uma explicação para o que Jesus quis dizer quando ele fala que, na vida futura, não nos daremos em casamento e que seremos como anjos. Para Tomás, Jesus está se referindo a ausência de prazeres típicos dos animais.
  839. Por isso, ele recusa a ideia de reino milenar cristão, que hoje é pregado de maneira diferente pelas testemunhas de Jeová. Sabe o que me faz pensar? Se as testemunhas pudessem cursar faculdade (porque a recomendação do corpo governante é que a testemunha de Jeová não curse faculdade para não prejudicar as horas de pregação) e entendessem filosofia, talvez retirassem muitas ofensas injustas feitas à igreja católica, porque o catolicismo, ao menos no tempo de Tomás, tinha muitos pontos em comum com as testemunhas de hoje.
  840. A imortalidade de Adão e a dos ressuscitados são diferentes: foi ordenado que Adão se multiplicasse com Eva porque não havia outros humanos. Mas essa não será uma necessidade no novo mundo.
  841. Para Tomás, todos os textos bíblicos que falam que haverá alimentos no novo mundo devem ser entendidos em sentido espiritual. Não é comida literal.
  842. Apesar disso, o corpo humano será corpóreo mesmo.
  843. Apesar de não haver sexo entre os habitantes do novo mundo, segundo Tomás, os corpos ainda terão gênero.
  844. A ressurreição dos maus, para Tomás, será penosa: ressuscitarão em corpos pesados e desajeitados, além de serem privados do conhecimento divino que constitui felicidade perfeita.
  845. Coisas incorpóreas podem ser ligadas à coisas corpóreas. É assim, segundo Tomás, que o diabo sofrerá punição em sua espiritualidade pelo fogo corpóreo.
  846. Embora as premiações corpóreas dadas aos bem-aventurados devam, segundo Tomás, ser entendidas em sentido espiritual, as punições corpóreas dadas aos condenados devem ser entendidas de maneira literal.
  847. Antes de receber a pena definitiva, que será dada na ressurreição, Tomás diz que as almas sofrerão uma pena preliminar até que o ponto da ressurreição chegue. Ele também sustenta, nesse livro, a existência do Purgatório e do Céu, como lugares para onde se vai imediatamente após a morte, o que não anula o recebimento posterior do corpo.
  848. Em polêmica com as testemunhas de Jeová, Tomás cita alguns textos bíblicos que sugerem recompensa celeste e não terrena e não apenas para um número fixo, notavelmente a Segunda Carta aos Coríntios (5, 1).
  849. Depois de salvo, o indivíduo passa a desejar somente o bem, não por coação, mas porque o bem será finalmente reconhecido como tal e, se não houver deslize na identificação do bem, não haveria como praticar o mal.
  850. A punição das almas é dada imediatamente após a morte e é individual. A punição dos corpos, após a ressurreição, é coletiva, diz Tomás.
  851. A Terra será reformada.
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23 Comentários »

  1. […] pressupostos e executa sobre eles. Se você for religioso e está se sentindo mal lendo, vá ler a Suma Contra os Gentios, tá certo? Ou os Pensamentos. Não precisa continuar se não quiser, […]

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    Pingback por Anotações sobre a essência do cristianismo. | Analecto — 4 de setembro de 2017 @ 14:08

  2. […] de Sócrates. Isso dá a impressão, pro leigo que não sabe o que é filosofia nem o quanto a religião deve a esta, de que filosofia é coisa de ateu e que a filosofia te tornará ateu se você deixar. […]

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    Pingback por Eu assiti “Deus Não Está Morto.” | Pedra, Papel e Tesoura. — 25 de fevereiro de 2017 @ 12:37

  3. […] imortal, ainda precisa de um começo. Eventualmente, algo teria que vir do nada através de um ato criativo. Do contrário, todas as almas seriam co-eternas a […]

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    Pingback por Anotações sobre a crítica da razão pura. | Pedra, Papel e Tesoura. — 31 de janeiro de 2017 @ 10:58

  4. […] violência feita às inclinações do subjugado. Isso é contraditório. Ou é voluntário ou é violento. Não posso sofrer violência voluntária, mesmo quando essa violência é consequência […]

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    Pingback por Anotações sobre a crítica da razão prática. | Pedra, Papel e Tesoura. — 22 de janeiro de 2017 @ 20:35

  5. […] natureza, obra divina, é perfeita. O ser humano, imperfeito, muitas vezes arruína o trabalho divino. Não se falava tanto de […]

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    Pingback por Anotações sobre o Emílio. | Pedra, Papel e Tesoura. — 6 de janeiro de 2017 @ 20:25

  6. […] isso não é possível: Deus fez o mundo fazendo escolhas e fez as melhores escolhas porque é sumamente sábio. Então, por “mundo”, Leibniz entende toda a criação. Seu argumento é belíssimo, […]

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    Pingback por Anotações sobre o Candido ou o otimismo. | Pedra, Papel e Tesoura. — 5 de outubro de 2016 @ 16:38

  7. […] de efeitos, eventualmente, se extingue, porque sabemos que, depois de iniciado, a menos que seja mantido, o movimento […]

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    Pingback por Anotações sobre o dicionário filosófico. | Pedra, Papel e Tesoura. — 27 de setembro de 2016 @ 14:19

  8. […] pra longe do pai e criá-lo sozinha, nem o pai deveria se afastar da mãe depois que o filho nasce. Tomás chega a conclusões […]

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    Pingback por Anotações sobre os dois tratados sobre o governo. | Pedra, Papel e Tesoura. — 12 de agosto de 2016 @ 21:20

  9. […] que é esse presente indeterminado que dividimos, e, consequentemente, inferimos que deve haver algo que sempre existiu, pois, de outra forma, nada existiria agora (logo, que nosso conceito de […]

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    Pingback por Anotações sobre o ensaio sobre o entendimento humano. | Pedra, Papel e Tesoura. — 17 de julho de 2016 @ 11:29

  10. […] põe isso em palavras claras. Eu não posso derivar a existência de algo pela sua definição. Tomás […]

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    Pingback por Anotações sobre o proslogion. | Pedra, Papel e Tesoura. — 9 de julho de 2016 @ 11:30

  11. […] Deus existe. […]

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    Pingback por Anotações sobre a monadologia. | Pedra, Papel e Tesoura. — 26 de junho de 2016 @ 09:17

  12. […] a alma só pode ser criada por um milagre criativo e destruídas por um milagre destrutivo, não há outra coisa que possa matar a alma além […]

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    Pingback por Anotações sobre o novo sistema da natureza. | Pedra, Papel e Tesoura. — 23 de junho de 2016 @ 09:15

  13. […] é par ou ímpar? Deve ser um dos dois, já que é um número. Então, não é possível conhecer o infinito […]

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    Pingback por Anotações sobre os pensamentos. | Pedra, Papel e Tesoura. — 21 de junho de 2016 @ 08:52

  14. […] criaturas são as máquinas. Se alma é princípio de movimento, o autômato tem alma em certo […]

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    Pingback por Anotações sobre o leviatã. | Pedra, Papel e Tesoura. — 6 de junho de 2016 @ 20:53

  15. […] fato de Deus ser sumamente sábio não põe todos os seres humanos no mesmo nível de sabedoria. Existem, sim, pessoas mais […]

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    Pingback por Anotações sobre os princípios da filosofia. | Pedra, Papel e Tesoura. — 8 de maio de 2016 @ 11:48

  16. […] admitimos que a escala de graus de perfeição opera de forma invertida, então admitimos que todas as coisas vieram do nada. Com efeito, segundo […]

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    Pingback por Discurso sobre o método. | Pedra, Papel e Tesoura. — 29 de março de 2016 @ 17:20

  17. […] aos graus de perfeição. Deus é sumamente perfeito, então ele cria outros seres menos perfeitos que ele; não haveria […]

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    Pingback por Meditações metafísicas. | Pedra, Papel e Tesoura. — 24 de março de 2016 @ 08:04

  18. […] diz: se eu existo, Deus também existe. Isso porque só Deus cria. Então, a existência de criaturas supõe […]

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    Pingback por Regras para a condução da inteligência. | Pedra, Papel e Tesoura. — 17 de março de 2016 @ 12:11

  19. […] polêmica com Tomás, Bacon diz que os movimentos violentos também são […]

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    Pingback por Novum organum. | Pedra, Papel e Tesoura. — 11 de março de 2016 @ 20:23

  20. […] justo iria permitir que o roubo fosse punido com a morte, quando não era antes, naquilo que Tomás chama de Lei do […]

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    Pingback por Utopia. | Pedra, Papel e Tesoura. — 6 de fevereiro de 2016 @ 13:23

  21. […] ele fazer. Outros governantes sem inspiração divina fizeram coisas parecidas. Isso me lembra de Tomás, para quem um raciocínio secular bem conduzido se aproxima do que é ensinado pela revelação […]

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    Pingback por O príncipe. | Pedra, Papel e Tesoura. — 13 de janeiro de 2016 @ 18:10

  22. […] o filósofo, Deus proveu as causas das coisas para que o ser humano delas fizesse uso. Tomás talvez […]

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    Pingback por A cidade do sol. | Pedra, Papel e Tesoura. — 24 de dezembro de 2015 @ 22:12

  23. […] imagens de santos às quais são atribuídos poderes mágicos. Tomás de Aquino já dizia que não se deve adorar imagens, mesmo as de santos, porque são só imagens. Então, a adoração de […]

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    Pingback por Elogio da loucura. | Pedra, Papel e Tesoura. — 6 de dezembro de 2015 @ 17:36


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